Vejo-lhe
o perfil atento à condução. É uma mulher madura, cabelo branco bem curtinho,
mas nova para a rua. Portanto, o diz que diz continua no vermelho. Não deu
livre trânsito à bisbilhotice do bairro quando a vizinha que passeia os cães tentou meter conversa enquanto ela carregava caixas do carro para casa; também não houve
alma a ajudar na mudança, além dos funcionários da empresa “A Transportadora Ideal” que se soube pelas
letras mais pequenas ser de Ourém, lugar estrangeiro a toda a rua. Ninguém
arriscou perguntas que a azáfama dos homens fez supor outras mudanças em espera. Isto de empresas, já se sabe, lucram à conta do suor dos empregados. Pelas
portas, os vizinhos intrigavam semi sumidos na rede mosquiteira: um pedaço
da bata, desta; uma perna de calça, daquele; além, a testa larga de D. Branca
sobressaindo, riscada de alto a baixo por uma fita escura e em hélice a acompanhar o estupor do corpo. Descia pela lateral do nariz até ao intervalo entre as
pernas pesadas, a ponta oscilando mansamente na inveja do andar de cima onde o conforto
impávido de bata e botões alargava no redondo da barriga. D. Branca, a
boca uma linha de dureza céptica atravessada pelo retorcido da fita, seguia com
olhos de detective a figura miúda da nova moradora. A rua inteira respeita D.
Branca, senhora de grandes poderes. Esconjura com copos os males do mundo e queixa-se
massajando o pescoço, cansam-me muito, tenho de me deixar disto que puxam demais
por mim, dão-me cabo da espinha. E depois, num lamento magoado e profissional, acrescenta, nada paga os males que me traz esta cura pelos copos, mas as
pessoas gostam, fazer o quê?! E deixa-nos com a dúvida crucial e a vontade de
um dia lhe subir ao sótão, tirar sapatos, despir apertos e enfiar uma das batas
brancas que às vezes lhe esvoaçam no estendal, deitar na maca e pedir, deite-me
os copos, vizinha, esconjure os males todos, dê-me a leveza dos pássaros. E
mais a mais, pergunto eu, aqui que ninguém nos ouve, como serão os copos, que
feitio e tamanho têm, estarão vazios ou cheios, serão copos de água, vinho ou
licor.
E
depois deste aparte que D. Branca merece e a que um dia voltarei, digo que
não se conseguiu mais sobre a nova vizinha. Não tem animais de estimação
além do automóvel que nos passa às portas em ronronar manso e sem grão de areia,
os metais a encandear. Sabe o nosso radar, senhora que também merece crónica,
que não recebeu até hoje qualquer visita e apenas lhe param na porta, para entrega
de mercearias, as carrinhas respectivas. Janelas abertas e música dão conta de
estar em casa, mas o quintal mantém-se deserto, não cultiva flor no vazio dos canteiros ou planta nas
traseiras.
Suponho
que entendo o cepticismo inicial de D. Branca, ali não há cliente.