segunda-feira, 25 de março de 2024

Do Imaginário (e mais coisas)

 

Pois é verdade: encontro-me sem assunto para postar o que seja, facto em mim cada vez mais frequente. Nada me cativa. Podem dizer, ah! Então e o mundo grande e imenso, a ecologia, as questões religiosas que vendo bem são quase sempre outra coisa, as horrendas guerras, a primavera e as florinhas e mais este friozinho parvo, o não sei dos quantos da quinta ou dos agricultores ou lá que é. Eis que, num súbito relâmpago (relâmpago de leitura, note-se), vi no Horas Extraordinárias de Maria do Rosário Pedreira, senhora que estimo pela perseverança na escrita diária em sua janela, lugar bem à vista de toda a gente e onde, opiniosa e opinativa, afixa livro sobre livro; dizia eu que ali me foi dado saber de certa escritora avançada na idade que escreveu um livro acerca das seniores (só quatro ou cinco) desta vida. Cito: “«Não é todos os dias — nem todos os anos — que se encontra uma estreia tão fresca, segura e divertida como Escovar a Gata», disse o New York Times, um livro sobre o mundo sensual das mulheres mais velhas escrito por Jane Campbell à beira de fazer oitenta anos.“ Como poderão verificar in loco, este é o início do post. E eu, que envelheço e me aprumo nesse mundo senior barra velho, digo que as escritoras têm uma imaginação muito translúcida. Ou sou uma anormal (paciência, cada um é ele e já está). 

Existem montes de compradores e amáveis leitores e leitoras? Belíssimo. Mas leiam o livro como um romance, coisa fictícia, façam-me o favor. Isto é, divirtam-se com a imaginação delirante da senhora, o seu sentido de humor e drama (pois, também há drama; como na vida), o prazer de lê-la sabendo que tem oitenta anos e consegue uma escrita sensual a partir de uma gata e outros pormenores que só a leitura desvelará; porque não o li, abstenho-me - abster não é bem o termo, mas não me ocorre outro. Julgo que é uma velhota marota, que sabe da poda (leia-se da escrita) e se diverte criando cenas. Isso, cenas. Estou em crer que vou comprar o livro. Por me parecer divertido; e porque, aos oitenta anos, a juventude que o corpo não tem mora-lhe de certeza na alma. Só espero que tal contradição não lhe traga problemas de maior, a oposição de sentires na dualidade corpo/alma foi estrafegada por filósofos de toda a raça e tempo, cada um com suas razões, o que leva o comum leitor a mandá-los dar de beber ao gado, eximindo-se de opinião. Ou, sendo mais dado à reflexão, cria teoria muito sua, uma filosofia pessoal dá sempre jeito, desconcerta o interlocutor, pessoa bem capaz de pensar enquanto ele arenga, é pá devo ter saltado folhas nos compêndios. E intimamente deseja que o outro não detecte a sua ignorância. Pois fiquem certos, pode isto acontecer. A quem? Ora, a pessoas “comamim” que têm uma bolha de água salobra dentro das meninges e caem que nem patos na pêta mais parva e desconchavada que existe.

E nem preciso tanta palavra num post. Portanto, comprem o livro que a gente precisa rir, ou ao menos sorrir (a parte dramática lemos em corrida, para não fazer mossa). Entretanto, vou ali. Missão cumprida. Ou será antes comprida?!

 

quarta-feira, 20 de março de 2024

Primavera

 

É oficial: chegou a Primavera, está anunciado em todo o sítio. Só os mais velhos, e ainda assim isolados, e ainda assim sem hábitos de tv ou jornais, só esses pobres não saberão, talvez,  que hoje chegou a Primavera. Nada de 21 de Março, ela chega a vinte e já está (parece que devido ao ano bissexto, mas eu cá não sei).  E há a natureza a refrescar-nos a vista, e a vida que renasce (e também termina, que isto de ciclos é engrenagem imparável) e há os pássaros cantores a inaugurá-la em trinados. E há.

Mas quero lembrar, sobre todas as possíveis, a primavera da vida. Essa. A que antanho já vivemos. Vem isto a propósito de me ter encontrado nas traseiras de um avião com uma Tuna de Lisboa, que tinha viajado a mostrar os dotes canoros ao estrangeiro. E não venham dizer que a juventude já não é o que era, que os jovens isto e mais aquilo, e que no nosso tempo é que sim. Porque só não era o que é, por questão temporal. Há no espírito juvenil qualquer coisa de perene e indefectível que nos deleita. Vivem como seres banhados de eternidade, num optimismo comum, porque o futuro é ainda e só possibilidade e portanto pode sempre ser alterado. Além do mais,  viver é urgente.  E não entendo o que mais gosto neles, se da gota de loucura, se das potenciadoras possibilidades que ainda não são e daí a leveza, se por em geral serem optimistas globais e irradiantes.

Estávamos, portanto, na dita cauda do aparelho, lugar bastante desaconselhável porque, como repisaram com bom humor, “cheira muito a acendalha”. E entre acabidarmos as capas e mais os instrumentos na bagageira – era uma tuna só de rapazes – e sentarem-se, foi aquela balbúrdia bem disposta e risonha que não difere das nossas, tão idas no tempo como inesquecíveis. E depois pronto, o comandante apresentou-se, a tripulação fez o seu número de chacha: ensinou a pôr coletes que estão não sei onde e máscaras que ficam suspensas se carregarmos num botão, havendo até o apelo à solidariedade para com a vizinhança caso seja aselha com o material. Tudo isto em impossíveis segundos, contando com o sair do avião que se despenha. Uma espécie de curso de paraquedismo sem paraquedas nem treino. É compreensível que a atenção se disperse.

Durante a viagem nada ouvi de saliente. Mas, à saída, os passageiros que compartilharam assento com eles sorriam bem dispostos.  É evidente que havendo maioria de portugueses, soaram as palmas para o comandante na aterragem. Mas os garotos fizeram a sua própria festa gritando exclamativos, assim é que é, João Fernando! Ou, João Fernando és o maior! ou ainda, viva o João Fernando! Está visto que o comandante João Fernando (nome fictício), todo ele solar, lhes agradeceu à saída. Porém, o melhor estava para  vir. Saí com eles e reparei que estavam já a combinar encontros para o dia seguinte. Tudo nas calmas. Eis senão quando, ao virar um corredor quase esbarrámos numa série de garotas espanholas que estavam junto da recepção de bagagens já cheias de sacos, uma senhora de meia idade a orientá-las, talvez professora ou funcionária. Elas formavam um semicírculo mal feito por via de tanta mala. Então, os meus companheiros de viagem, sem uma palavra, pararam em frente delas, puxaram dos instrumentos e formaram rapidamente um semicírculo feito a compasso de hábito e à distância de uns três metros. E tocaram e cantaram “A mulher gorda” às sorridentes meninas; parei também encantada com eles e a zeladora das privilegiadas abriu  para mim um sorriso de compreensão enquanto as suas protegidas se entreolhavam surpresas e sorridentes, num êxtase inesperado, rendidas à gentileza dos nossos rapazes (estou orgulhosa deles). Quando terminaram a canção, elas ficaram meio segundo sem saber como agradecer, mas logo uma avançou para eles, secundada por todas as outras. E era vê-las de braços no ar, pulando em direcção  aos lusitanos num ensurdecedor e ritmado, eh, eh, eh, eh, eh que encantou toda a gente e a eles mais. Eu e a zeladora, quedas e emudecidas, sorríamos ainda uma à outra. Ninguém disse palavra. Elas voltaram até às malas e eles guardaram o material e foram à sua vida. Ó maravilhosa Primavera!

domingo, 10 de março de 2024

Invariâncias do Acaso

 

O Diário e as Cartas dizem da mulher. Mas também li três ou quatro livros de Virgínia. E ainda comprei duas vezes o mesmo livro - "Um quarto só seu" (palerma! Com tanto livro que há, tinhas de comprar duas vezes o mesmo). Contudo, não deixo de pensar que a publicação de cartas (não interessa remetente ou destinatário) é deitá-las sobre a mesa da vida, à esparavela do mundo; rasgar um corpo e alma que se deu a uma só pessoa, abri-lo de alto abaixo e abandoná-lo às mundanas varejeiras. São íntimas; e depois?!  

Todas as cartas merecem um respeito indefinido e infinito, nelas não há apenas a letra e o tempo de quem escreveu, há quem escreveu. Mas a correspondência amorosa é, na essência, diferente; regista um tu a tu que pede recato e merece ser inviolável a terceiros que as não entendem nunca do mesmo modo que as entendeu o sujeito  a quem foram dirigidas. Porque esse sujeito tem com o escriba uma relação significante, que vai muito para lá da palavra. Assim aconteceu entre Vita e Virgínia; quiçá, entre Virgínia e Leonard.  Afinal quem somos nós/eu para sabermos o significado profundo dos arabescos que lemos?! Nós conhecemos - mal -  a exterioridade de ambas as correspondentes e ousamos penetrar num mundo particular e apenas seu. Quantos de nós sabemos as vezes que  Virgínia leu as cartas de Vita? O que sabemos dos sentimentos e emoções que a assolaram ao reler passagens que reportam lembranças que só ambas reconhecem? As cartas de amor não são para ser lidas senão pelos amantes, porque é essa certeza de comunhão biunívoca que possibilita limiares de intimidade através de signos. Mas, ó contradição, tanto gostei de lê-las.

quinta-feira, 7 de março de 2024

A Morte de um Imortal

 

          Por gostar de pontualidade e porque a sua falta me faria de algum modo notada, facto que me indispõe um tanto, chego cedo a cursos e conferências. Sento-me por norma junto à parede, na primeira metade do público, e espero que a sala encha. No dia da primeira sessão do curso com António-Pedro, cheguei tão adiantada que subi ao andar das roupas femininas, todo em modo de primavera, e por ali gastei o olhar. Não que compre ou sequer experimente, mas gosto de vê-las. Exibem padrões que não se encontram em lojas baratas e o toque de algumas é cetinosa maravilha. Entretanto, pensei que o horário do curso se aproximava e procurei o elevador.  Chegou o António-Pedro. Ansioso pelo elevador. Disse-me que estava com pressa porque tinha uma coisa com hora marcada e detestava faltas de pontualidade. Respondi que também não me agradava o atraso, mas não sabia o que fazer além de esperar o elevador (talvez estivéssemos no 2º ou 3º andar, andara a olhar para vestidos e saias). Ele respondeu-me que o melhor era irmos pela escada rolante ou atrasava-se. Enquanto mirava o andar em busca da nossa salvação, acrescentei o meu desconhecimento e ele ofereceu-se para me guiar e desandou de imediato. Segui-o um pouco atrás, às corridinhas. Já na escada, quis saber que andar eu desejava, respondi (tinha-o reconhecido) que devíamos ir os dois para o mesmo sítio. Olhou mais ou menos para mim e perguntou, “que idade me dá?” Já o tinha visto um par de vezes na TV. Avaliei-o julgando que seria um pouco mais velho que eu; Arrisquei, “acho que tem para aí uns setenta e três ou setenta e quatro”. Ele abriu um sorriso bonito a olhar-me lá de cima e retorquiu, “tenho oitenta e três, dia 10 de Março faço oitenta e quatro". Pensei que brincava. Inadvertida, dei pela minha costumada incredulidade a meter o bedelho, “A sério?!!! “. Aí António-Pedro desenrolou a descendência em números: os filhos, os netos e os bisnetos; acrescentou que faltavam dois meses para o nascimento de outro bisneto, facto que muito o satisfazia; e espalhou escadas acima uma ternura indisfarçável. Depois, acrescentou como quem faz uma confidência, um tudo-nada debruçado da sua altura, olhando-me a alma, “a família é o mais importante, sabe?” E, semelhante a meu pai, observou: “no dia dez já desmarquei tudo e vou reunir a família em ponto grande; todos juntos, vai ser uma alegria". Creio que fiz um sorriso de aprovação e disse qualquer coisa comum. Entretanto, inda teve tempo para me contar que era o quarto curso que dava e que gostava de estar ali a ser professor de cinema. E rematou a olhar-me, “eu adoro isto, sabe?” Dava para ver que sim. Entretanto, chegámos ao destino e o nosso breve encontro deu lugar a factores mais prosaicos; despediu-se dizendo, “vá andando que eu ainda tenho de ir à casa de banho”.

Não voltámos a falar. Em cada sessão deixava-o em ponto de caramelo, absolutamente consolado, a audiência a circundá-lo. Eu seguia para o Metro encantada por existir alguém assim e eu, vinda lá dos confins do mundo, tê-lo conhecido tão de perto. Privilégio.

Até sempre, António Pedro. Que prazer conhecer-te! Ainda vejo todas as fitas daquela lista. Podes crer.

 

 

        

quarta-feira, 6 de março de 2024

A Morte de um Imortal

 

Mau grado a possível propaganda, julgo que o El Corte Inglês e a Gulbenkian são das poucas entidades que propõem cursos e conferências de qualidade, pro bono (é possível que existam outras). A Gulbenkian já nem tanto: acabou com algumas tarifas reduzidas e cortou com entrada livre para professores, nos seus museus; terminou com o ballet; espero que não lhes dê para cessarem o coro; maestro residente, julgo eu, já não existe. E agora patrocina cursos on-line pagos e não muito baratos. Está a  tornar-se outra; aos poucos, vai mudando de pele. Parece que os cientistas dão mais rendimento e fazem melhor ao mundo, as fichas estão todas – ou quase – na ciência. Ora nem tudo tem de ser rentável na organização que Gulbenkian patrocina ainda, depois de tanto ano de morto e a quem sou imensamente grata, decerto bem mais que muito lisboeta, passe a vaidade no vínculo. O jardim da Gulbenkian, que não cesso de agradecer à estética de Gonçalo Ribeiro Teles, é beleza que me espanta e apazigua em cada vez que o reconheço; a vida, vista daquela clorofílica verdura, parece mais suportável, quiçá, bonita. Aquele jardim anda comigo sempre. A memória o guarda, secreto e único por detrás da orquestra. Um pássaro atravessa o espaço buscando morada; no lago, os patos deslizam em seus patins de membrana interdigital, por vezes, uma linha de filhotes atrás. E as árvores. As árvores que captam os sons na vibração das raízes e dobram ramos reverentes para a parede vidrada onde os que lhes dão as costas produzem desmedidas sinfonias. Ali estamos juntos, cada um sozinho com a música, num disfrute que só por não sermos árvores se não dobra, ou ajoelha. É de respeito e admiração silenciosos que se trata, um pigarro ou outro pela sala soam a inoportuna presença.

         E eis que, depois deste introito adiposo, me lembro que vinha falar de António-Pedro Vasconcelos. Esparveci com esta morte, toda eu petrificada frente à TV. Segundo o realizador - e também outras coisas, entre elas professor -, no Corte Inglês, deu quatro Cursos sobre Cinema. Assisti ao último, fará agora um ano. Puro acaso, inscrevo-me em vários, mas não me cabe a selecção; por vezes, frequento um; António Pedro calhou-me. O título era inspirador, “A história do Cinema em dez sessões e meia”. Que foram treze, duas delas não pagas, o Corte Inglês apenas cedeu o espaço. Para além das sessões, a que se seguiu um jantar proposto pelo professor e a que não compareci por inadiáveis motivos de saúde, não saltei uma sessão. António-Pedro era exímio contador de histórias. Aliava tal capacidade ao seu vastíssimo conhecimento sobre cinema e à peculiaridade de nos deslumbrar com pedaços de filmes já vistos ou a ver. Mas nunca referiu ou mostrou um filme seu, jamais expôs as proezas de realizador, qualidade que, a meus olhos, mais o enaltece e foi decisiva no meu bem-querer. Além do mais, na qualidade de professor, não tenho uma vírgula a apontar: trouxe sempre as folhas de apontamentos relativas a cada sessão e, no final, distribuiu a lista de filmes que ele considerava necessário ver. Guardei tudo. Posso não lembrar muito bem onde está, mas sei que está. Claro que, aliadas a estas qualidades, há a sua simpatia pessoal, a forma como punha e tirava o chapéu, o saber sobre grandes planos e de como usar a máquina de filmar para isto e aquilo. Não erro se disser que não houve alma a quem o curso desagradasse. O certo é que foi raro assistir, na minha já longa vida, a alguém tão empolgado com o assunto que expõe. A discorrer sobre cinema, António-Pedro era um adolescente apaixonado. No final de cada sessão tinha uma caterva de gente a rodeá-lo e onde não me incluo; no meio de tanto fã sou incapaz de dizer uma palavra de jeito e sinto-me  em extremo desconfortável. Portanto, saía muda e entrava calada. António-Pedro parecia sempre contente por ser abordado, o que me lembrava um pouco a imagem que me deixou David Mourão Ferreira e mais seu cachimbo no átrio da faculdade, ambos satisfeitos da posição central, David discorrendo no meio de uma pequena multidão. A diferença entre eles era uma, à volta de António-Pedro havia uma mescla de pessoas; a David Mourão Ferreira só vi rodeado de mulheres jovens, decerto alunas. E é isto.

         Poderia terminar por aqui. Mas acontece que o acaso também conta.

(cont.)

segunda-feira, 4 de março de 2024

Invariâncias do Acaso

 

Vita foi mulher de muitos amores, homo e hetero. Suponho que por temperamento e condição fidalga, além de pertença a um grupo social e intelectual onde era bem aceite. Segundo mentes moralizantes, cedia aos desvarios da carne. Ou antes seria modo de ser, traço de personalidade. Consta que Harold, o marido, também preferia homens e que o casamento de ambos era uma relação aberta e onde o divórcio não cabia, quem sabe se pela dificuldade que a possível separação traria aos dois: no estado de casados, cada um se sabia mais livre. Do que se entende nas cartas - de Vita para Harold – a relação entre ambos ancorava na estima mútua. Porém, nessas mesmas, o caso Vita-Virgínia aparece como um misto de curiosidade e admiração por um ser frágil e doce, quase ingénuo, que Vita garante ser diferente do que Harold julga. E agita a bandeira, “é coisa platónica”. Porém, as cartas que dirige a Virgínia desmentem essa ideia hipoteticamente inicial e que o leitor pode subentender e admitir apenas como limiar, Vita não coaduna com a dama convertida ao platonismo; ou terá função de subterfúgio apaziguador.  

O caso de Virgínia é diverso. Parece não ter consumado o casamento com Leonard (há quem tenha apresentado como motivo o abuso familiar em criança). Mister Woolf foi  companheiro de alma e literatura, conhecia-a como ninguém e tinha por ela a ternura comovente que o faz empático ao leitor. Cuidou da sua flor o melhor que soube. Tratou-a amorosamente na doença e na vida - passeava-a pelos campos, trabalhavam juntos na editora, viajavam juntos. Imagino que Virgínia lhe dava a ler ensaios e romances. Mister Woolf foi o companheiro presente.

Pergunto-me se haveria outro caminho para Virgínia.  Lendo a carta de despedida que endereçou a Leonard, as possibilidades parecem esgotadas.  E Virgínia termina, “não creio que duas pessoas pudessem ser mais felizes que nós”. É uma despedida ponteada a luz, embora a autora afirme a dificuldade em conseguir ler, empecilho do aprumo na escrita (como se enferme de algum erro!). Será verdadeira a afirmação acerca da felicidade conjugal,  ou obedece à estima amorosa, sempre revelada a Leonard, e ao desejo profundo de o libertar de possível remorso?! Como se um afogamento voluntário não provocasse a natural mexida da água.

(cont.)