Pois é verdade: encontro-me sem assunto para postar o que seja, facto em mim cada vez mais frequente. Nada me cativa. Podem dizer, ah! Então e o mundo grande e imenso, a ecologia, as questões religiosas que vendo bem são quase sempre outra coisa, as horrendas guerras, a primavera e as florinhas e mais este friozinho parvo, o não sei dos quantos da quinta ou dos agricultores ou lá que é. Eis que, num súbito relâmpago (relâmpago de leitura, note-se), vi no Horas Extraordinárias de Maria do Rosário Pedreira, senhora que estimo pela perseverança na escrita diária em sua janela, lugar bem à vista de toda a gente e onde, opiniosa e opinativa, afixa livro sobre livro; dizia eu que ali me foi dado saber de certa escritora avançada na idade que escreveu um livro acerca das seniores (só quatro ou cinco) desta vida. Cito: “«Não é todos os dias — nem todos os anos — que se encontra uma estreia tão fresca, segura e divertida como Escovar a Gata», disse o New York Times, um livro sobre o mundo sensual das mulheres mais velhas escrito por Jane Campbell à beira de fazer oitenta anos.“ Como poderão verificar in loco, este é o início do post. E eu, que envelheço e me aprumo nesse mundo senior barra velho, digo que as escritoras têm uma imaginação muito translúcida. Ou sou uma anormal (paciência, cada um é ele e já está).
Existem montes de compradores e amáveis leitores e leitoras? Belíssimo.
Mas leiam o livro como um romance, coisa fictícia, façam-me o favor. Isto é, divirtam-se
com a imaginação delirante da senhora, o seu sentido de humor e drama (pois,
também há drama; como na vida), o prazer de lê-la sabendo que tem oitenta anos
e consegue uma escrita sensual a partir de uma gata e outros pormenores que só a
leitura desvelará; porque não o li, abstenho-me - abster não é bem o termo, mas
não me ocorre outro. Julgo que é uma velhota marota, que sabe da poda (leia-se da
escrita) e se diverte criando cenas. Isso, cenas. Estou em crer que vou comprar
o livro. Por me parecer divertido; e porque, aos oitenta anos, a juventude que
o corpo não tem mora-lhe de certeza na alma. Só espero que tal contradição não
lhe traga problemas de maior, a oposição de sentires na dualidade corpo/alma foi
estrafegada por filósofos de toda a raça e tempo, cada um com suas razões, o
que leva o comum leitor a mandá-los dar de beber ao gado, eximindo-se de
opinião. Ou, sendo mais dado à reflexão, cria teoria muito sua, uma
filosofia pessoal dá sempre jeito, desconcerta o interlocutor, pessoa bem capaz
de pensar enquanto ele arenga, é pá devo ter saltado folhas nos compêndios. E
intimamente deseja que o outro não detecte a sua ignorância. Pois fiquem certos,
pode isto acontecer. A quem? Ora, a pessoas “comamim” que têm uma bolha de água
salobra dentro das meninges e caem que nem patos na pêta mais parva e
desconchavada que existe.
E
nem preciso tanta palavra num post. Portanto, comprem o livro que a gente
precisa rir, ou ao menos sorrir (a parte dramática lemos em corrida, para não
fazer mossa). Entretanto, vou ali. Missão cumprida. Ou será antes comprida?!