quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Memórias de Bolso

 

        O tempo correu e, por razões de trabalho e estudo, rareei na costureira, o guarda roupa limitado a calças de ganga e compridas blusas em tricot, a grossura do fio dependendo das estações. No verão, dava-me ao luxo de mandar fazer umas blusinhas airosas e frescas. Foi num desses dias encalmados que, enquanto me sorria e dava passagem, logo nos cumprimentos, deixou cair uma lágrima solitária que ficou a escorrer-lhe rugas abaixo. E de imediato, a menina desculpe, mas é que desde que morreu a minha filha estou assim, choro por tudo e nada; e agora gostei de a ver, e olhe, lembrei-me dela, sei lá, parecia-me ela ao postigo da porta…. e, num gesto rápido, como que arrependida da fraqueza, puxou da brancura de um lenço com barrinha preta e enxugou o rosto. O que nos faz a saudade! Nunca fui parecida com Inês, mas saiu-me espontâneo, Eu conheci a sua Inês. E ela numa admiração, de onde? Pois se ela quase não saía de casa… - e toda se suspendeu na expectativa de alguém que, não sendo da vizinhança, lhe conhecera a filha. Ela andava no Centro Social com a prima, aprendiam a bordar crivo e eu era garota de escola e ia aprender ponto-pé-de-flor. – esclareci. Sorriu, o que ela gostava de lá andar! Entrava em casa, mãezinha se visse a professora, sabe tantos pontos como não imagina; e contava de tudo: o que ali diziam e quem eram as outras raparigas, onde moravam. Mas foi só uma semana, o tempo que o pai esteve fora em trabalho.

        E fizemos de conta que não sabíamos o que acontecera depois. Mas eu insisti, cantava tão bem a sua Inês! Minha mãe também cantava bem, mas a Inês cantava ainda melhor; todos os dias lhe pedíamos que cantasse alguma coisa. A senhora deu-me um sorriso grato os olhos brilhando lágrimas, é verdade, cantava muito bem. – puxou de novo o lencinho e enxugou os olhos – As meninas da costura faziam o mesmo. Olhe, até o namorado lhe pedia que cantasse para ele. O namorado de que eu não soubera. Quando lho disse ela esclareceu, era aqui quase vizinho, muito bom rapaz que ele é, estavam bem um para o outro – e ficou-se a meditar. - Quando a minha Inês adoeceu já eram noivos de casamento marcado - e eu tonta, a partilhar da sua comoção. Refez-se um pouco e continuou, a voz a faltar-lhe de quando em vez - A minha Inês já tinha até escolhido o vestido e o véu no Tito Cunha; dizia-me, mãezinha vimos as duas comprá-lo que já juntámos dinheiro para ele….- fez uma pausa muito longa e quando conseguiu, acrescentou, - eu é que fui comprá-lo, a menina nem sabe o que me custou entrar naquela loja sozinha, para comprar o vestido de noiva de que ela gostava. A minha filha estava a morrer mas queria vestir o vestido viva - mais uma pausa de lágrimas – Eu e as enfermeiras, aquele pessoal todo do hospital que a conhecia, ajudou e esteve presente na cerimónia. O noivo levou-lhe o ramo e foi assim que casaram. Estava magrita e pálida, mas ainda assim tão bonita, a minha filha. Mas fizemos-lhe a vontade, não queria morrer solteira, queria ter o nome dele no dela, já que mais não podiam.

        E eu que podia fazer perante isto? Face ao dito e ao subentendido?! Nada senão esperar que o desgosto voltasse ao silêncio de hábito, se remetesse ao recôndito de mãe tão profundamente sofrida. Quando já guardava o lenço no bolso, rematou, a menina não é daqui, não sabe estas coisas, mas olhe, o rapaz tanto a visitou no cemitério que acabou casado com uma rapariga que, no mesmo dia, perdeu o namorado num acidente e ali o visitava também. Gosto dele como de um filho e ela andou aqui na costura muitos anos - encolheu os ombros conformados -, a vida tem sempre de continuar.

        Muitos anos mais tarde, já ela, felizmente, viúva, quase nos tornámos vizinhas. Reencontrámo-nos na retrosaria. Toda ela em negro, era uma velhinha tão amável e sorridente como não se imagina. E detinha a mesma voz maviosa. Conheceu-me, convidou-me para sua casa, contou-me dos filhos vivos, dos netos, de todos serem excepcionalmente bons e atentos com ela. Convidou-me para um chá. Hoje, de certeza, repousa junto da filha. O genro que foi no papel, criou parcialmente dois filhos e finou-se com a mesma doença de Inês. Como usava dizer a senhora X, a vida tem sempre de continuar, é requisito da espécie - digo eu.

domingo, 13 de setembro de 2026

Memórias de Bolso

 

        Naquele pleno de ausências, cada banquinho marcando o lugar de uma aprendiz, a máquina de costura antiga, de roda e correia às voltas com ela se os pés na grade lhe impunham o impulso devido, era o único aparato; e a senhora Z, franzina, rosto miudinho e afável surgindo de dentro do lenço, fazia corpo com ela. Se por algum motivo se erguia e abandonava a cadeira, a máquina exibia uma nudez inquieta e desfigurada que ela apaziguava ao sentar-se. Se a máquina fosse mulher, eu diria que o acto de sentar-se a vestia.

        Para lá da porta interior, sempre fechada e sem ruídos audíveis, crescia o mistério. Se alguém por lá cirandava, era silencioso; de modo que me dei à liberdade de imaginar na cozinha, sentado a uma mesa baixa, um homem ríspido e carrancudo, voz de trovão e a que só faltava o chicote para completar o impo de ferocidade; e via sem ter visto, a raiva com que desapertava o cinto e batia nos filhos e na mulher que os estremecia, a voz a perder-se num fio de ternura se os nomeava, o meu joão, o meu josé, e firme nesse amor atirava-se a protegê-los, braços abraçando a dor e o corpo deles que apenas por ela se calavam ao progenitor carrasco.

        Imaginei que havia um jardim nas traseiras. Livres de escadas e prédios, todos os pobres tinham um jardim em qualquer lugar. Havendo casa e nela mão de fêmea, a pobreza era florida. Podia ser entremeado com as couves, existir na bordinha do canteiro das nabiças, junto ao poço de picota, ao redor da casa, na frente, atrás, dos lados. Onde pudesse ser. Ou apenas havia um conjunto de latas velhas que o merceeeiro atirava fora e elas repescavam para plantar malvas que ressequiam de calor, brincos de princesa que resguardavam do sol com guarda chuvas sem préstimo, cabos bicudos talhados em tábua moldada a canivete para melhor espetarem na terra e eles cumprindo missão, desasados por falta de varetas. Se não havia casa de pobre sem flores, era certo que a senhora Z cultivava com muito amor esse jardim que a filha plantara, ambas tinham acompanhado os sucessos das flores, mondado as ervas daninhas, abacelado algumas doações da vizinhança que vinha enquanto o facínora estava fora em trabalho, e uns dias depois tinham envasavam ou punham na terra. E decerto Inês por ali se perdia, sonhando futuros que não lhe chegaram. Ou falando com elas, afagando uma corola aqui e ali, levantando uma haste pendida, ordenando a beleza com as mãos que tão bem recordo. Juventude tão solitária teria de expandir-se por algum lugar, qualquer coisa a que chamasse sua. Julgo que ela e as flores que não vi gozavam entre si dos pequenos segredos que existem entre quem se gosta e quase nem precisam ser ditos. A juventude quando é sã, é pródiga no bem querer, e Inês sê-lo-ia mais pela circunstância. É sabido que flores cuidadas com amor crescem melhor e mais bonitas. E o mesmo sucede a qualquer animal, o amor satisfeito dá-lhes vigor e alegria. Portanto, é quase certo que, se acaso tinha ordem para sair, a senhora Z depenava o jardim e ia  oferecer à filha braçadas das suas flores preferidas. Aquele espaço tornara-se sagrado, estava imbuído da presença de Inês. Hoje também penso que o pai o reparava com saudade (talvez remorso). Nenhuma maldade compromete a totalidade do ser humano. 

        Imaginava tudo isto e não conseguia coragem para contar que tinha conhecido a jovem, que ela me encantara a meninice, que fora quase como uma visão, tão curto o tempo em que o puro cristal da sua voz atravessou as nossas vidas. Mas queria muito dizer, era como um desabafo-dívida. De cada vez que a visitava pensava que talvez ela abordasse de algum modo o tema da filha, surgisse uma oportunidade. Esperava que me contasse do desgosto que a roía e lhe minguava a figura, maldissesse a morte ou a má sorte que a perseguia. Mas a senhora Z falava de botões, colchetes, feitios de saias e blusas, das meninas que ensinava a costurar e das conversas que tinha com elas. E o mais, calava.

(Cont.)

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Última Hora

 Informo os meus (poucos) leitores que por questões de saúde pessoal vou interromper durante uma semana (será sufivciente?) a actividade neste blogue.

Até lá

Fiquem bem e que um anjo benévolo vos guarde