Há
dias assim, tudo neles conflui em inesperado despropósito. Ou talvez apenas a
rotina das pequenas coisas enleie nas
horas a aprisioná-las, perturbando o
correr da meada. O certo é que fui nadar com atraso e tão cansada como sempre, depois de uma manhã previsível. E, hélas,
a água em irresistível convite, esperando de mim o que sabe desde a fundura
azul de pedrinhas minúsculas e iguais, baralhos e baralhos de micro cartas
pespegadas umas ao lado das outras. E eu
a flutuar sobre. Em remanso espadanado.
Já
em casa, ainda cogitei para os meus botões, “hoje não vou, fica para a semana”. Mas há coisas que a
ninguém aproveita adiar. Fui. Não cirandei um centímetro, bem conhecia a aspereza
por cumprir. E o tempo voraz que nela se consumia. Chamei meu pai para me
assistir de perto. Ele gosta de falar e eu, enquanto as mãos esmiúçam,
distraio do travo da vida. Ali, sou
metódica de fio a pavio. A tarde descai e o dia, quase lamentoso, muda de cor. As horas galgam. No écran, o
sms, chego às vinte. E eu a dar-me pressa, “valha-me Deus, ainda faltam umas
coisas”. Por felicidade, coisas mais leves. Não troco a roupa e enfio
tudo no saco a trouxe-mouxe. Despeço-me. Meu pai nota-me a pressa, “deixa que eu abro-te o portão e depois fecho-o”. Entro no carro e ele desce à
frente, as pernas numa pressa trôpega que me comove. Abre a cancela e fica a
ver-me desaparecer na boca da noite.
É
assim meu pai, sobram dedos para contar-lhe os gestos de ternura. E guardo-os como são, raros.