Mostrar mensagens com a etiqueta Antídotos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Antídotos. Mostrar todas as mensagens

domingo, 2 de agosto de 2026

O Copo Meio Cheio

 

        Hoje prometo festejar-te. Vieste. Por mim. Não interessa que seja um dia de trabalho e tenhas reuniões umas atrás das outras. Por mim te levantas cedo e almoças em minutos. Sei que esses minutos de descanso existem por um motivo: ganhares tempo ao fim do dia. E prometo dar-te do que preferes: vou cuidar que o vinho esteja bem gelado e o petisco saia a preceito.

        Prometo não lanchar de avental e usar um vestido que achas bonito. Prometo que chego a beber um nadinha de vinho que adultero para um brinde enquanto tu, em ritual de desaprovação, franzes o rosto sorridente.

        Mais tarde, prometo uns doces e uma sangria de champanhe para as tias e não te forçar a estar presente. E prometo o que nem é de prometer: gostar sempre de ti e ser grata à vida e ao Deus que te trouxe até mim. Porque és um dos meus doces enlevos, filho. Ter-te hoje por perto, significa.


quarta-feira, 22 de julho de 2026

Esta Lisboa que Amo

 

         E logo uma viagem embebida em saudade na linha de Cascais a que chamo linha do Estoril e, no presente, só acontece por ter de ser, em nome de uma amizade outra e antiga. Entro no comboio com a sensação de que maculo o passado. Sei que a sacralidade se evolou: não sinto a ansiedade antiga que me precipitava o coração mal punha o pé na gare do Cais do Sodré e me deixava embasbacada no destino, olhos parvos virados ao mar, pensando que ela o via todos os dias lá de cima e que, porventura, uma vez ou outra, frequentasse o comboio. É assim o amor, quer pisar onde pisam os pés de quem gostamos, ter o gosto de olhar o que vêem os olhos do outro, imaginando o que sentiu ou sente quando abre a janela ou apenas corre a mão de habitual delicadeza no étamine simples que conheci nas janelas e tão adequado ao despojamento próprio. Quanto eu gostei e gosto dessa filha do Douro e de Poiares da Régua que como tantos dedicaram a vida ao vinho do Porto que inda provei por bondade sua. Depois saía do impasse comovido e começava a subir até ao destino. Na escadaria até à porta principal, o meu coração entontecido transbordava. Tocava a campainha, entrava e aguardava na sala de visitas o suave roçagar da roupa, já que os passos eram silentes. Ela entrava e trazia consigo o odor a lavanda. Em sua homenagem (alguns lhe ofereci), mora no meu quarto um Ach Brito que gosto de aspirar. É um bocadinho da minha força diária.

        Desta vez, rodeada por bandos de garotos destinados à praia e turistas que rumavam a Cascais e Belém, toda eu era olhares ao relógio do telemóvel. Não sei porquê, mas deparar com o forte onde permaneceram os presos políticos e admirar os longes do Bugio, emociona-me. Nada na beleza daquele mar me afecta tanto como a imensa solidão do farol e mais as histórias que deve guardar, ou a prisão onde vi a firmeza delicada de Sophia segurando uma flor, enquanto nascia a liberdade dos presos políticos nesse imortal Abril de setenta e quatro. Vou contando as estações e, por fim, saio, subo até à paragem de novo autocarro e entro grata à boa vontade do motorista que já partia.

        À medida que nos afastamos, surgem moradias desarrumadas e rotundas novas e espaçosas. De quando em vez, um aglomerado de casas antigas, ruas estreitas, velhos amarelentos nas portas de café, o ar pesado de barbas por fazer e mulheres guardadas não sei onde, a contrastar com o panorama do primeiro autocarro, turistas leves e felizes embora um pouco desorientados na balbúrdia, a patine de Lisboa antiga percorrida por solta garridice juvenil em roupas claras ou alegremente coloridas, pernas e braços ao léu, chapéus e bonés a salvar alguns turistas pouco habituados ao calor do sul europeu. Uma chusma de automóveis estacionados causa os malabarismos do trânsito e, de onde em onde, na vez das rotundas desafogadas, um edifício com pergaminhos e história, imagino que lar possível de grandes senhores de antanho. No subúrbio, os ossos do autocarro chocalham a amargura sofrida em anos e anos de trabalho e maus tratos. É outro país. Passei Tires e, por mais olhares, não descortinei a prisão. Enfim, chego e cumpro a visita que me propus.

        O tempo corre a maratona quando conversamos com quem vive intramuros e tudo pergunta do mundo conhecido. Saio para o transporte, mas a tecnologia barra-me a saída. Corro abaixo e acima a queixar-me que estou presa e que e que… a porteira, velha e coxa, acompanha-me de comando na mão a resmungar, “mas eles vieram arranjar o portão hoje mesmo”; e vai descendo e carregando no botão do comando. A meio do percurso, o portão começa a deslocar-se e corro desentraitada até à paragem gritando obrigados enquanto atravesso a estrada. E o autocarro já lá, no seu posto. A bondade dos dois motoristas de autocarro é directamente proporcional à velhice e achaques dos mesmos. São dois bons homens guiando viaturas em mau estado. Também este motorista esperou por mim. Se não fora a simpatia de ambos teria perdido o comboio para casa.

        No regresso, continuamos a chocalhar. Quão diversos são estes passageiros. Quase todos negros. Verifico a presença de gente nova, sobretudo raparigas. São lindas, quase todas de cabelo natural e apanhado (o dia está quente) aqueles olhos grandes e negros com a expressão que me parece sempre a do bambi dos desenhos animados: têm qualquer coisa de líquido, digo que relampejam ternura dos trópicos. Estas garotas não são alegres e barulhentas como os garotos da praia, mas terão a mesma idade. Todas vestem calça de ganga azul clara ou branca, cintura alta de vespa (vespíssima, diria Pessoa), esguias de não destoar de qualquer modelo de passerelle. Seguem sérias e sem conversa. Não parecem ir de passeio. Talvez se destinem ao turno das dezasseis à meia noite. Ali, toda a gente parece ganhar o pão com a força dos braços e não em trabalhos “limpos” como diziam os mais antigos que eu. Talvez sirvam à mesa, sejam cozinheiras e ajudantes de cozinha, façam o serviço doméstico em algumas casas, vão buscar os meninos de boas famílias à escola.

        Sentadas defronte, duas loiras postiças falam de unhas de gel, uma delas mostra as mãos acabadas de retocar, talvez para convencer a parceira que tem o verniz em decadência, duas ou três unhas descascadas por inteiro. Saem ambas de braço dado, facto tão bonito quanto em desuso. Vi-as dobrar uma esquina, decerto em busca de destino comum.

        No comboio de regresso, a viagem de pé fazia-nos olhar (e invejar) quem vinha da praia e conseguira sentar-se. Os sentados dormiam a sono solto, pendendo a um lado e a outro, eu temendo pela cabecita suada da criança que tombava dos braços da mãe, ela mesma em crise de sonolência. O poder do ar condicionado, perante a multidão invasora e estoirando de calor, era nulo. E nós de estátua, à mistura com cadeiras de praia, chapéus de sol, colchões enrolados e esteiras, crianças quase submersas mas ainda assim agarradas a sacos de baldes e pá, mochilas de campismo, canas de pesca e sei lá que mais. Enfim, um mar de gente e de artigos de praia e mar que não nos davam espaço para cair e que, com grande esforço e muito empurrão simultâneo ao consciencioso, “com licença, com licença, é para sair, com licença”, se apertava a dar passagem aos felizes contemplados.

        Promessa: não repetir a viagem em tal horário.

domingo, 19 de julho de 2026

Esta Lisboa que Amo

 

        Ir a Lisboa faz-me bem à alma. Desencrava-me, vejo gente, entro em lojas, corro de um lado a outro porque tenho poucas horas para muita função. E apesar disso, gosto.

        Viajando de carro, vou pensando pelo caminho no que esqueço em outras horas. O quotidiano encarreira para o comezinho, espapaça-nos o tempo em mesquinhices tão necessárias como “aborrecentes”, para citar uma das filhas de Lobo Antunes na sua contundente linguagem de infância. Portanto, em viagem ganho espaço mental: penso nos meus amigos, no quanto os gosto e no desejo de visitá-los; e penso nesses que nunca vejo e de quem tenho inexplicáveis saudades, quem sabe me esqueceram e nem merecem o pensamento; nesta pausa, erguem-se as coisas que gostaria de fazer e sei impossíveis, as que ainda posso fazer acontecer, etc. 

        Se vou de comboio - acontece menos vezes mas prefiro, leio um livro ou medito levemente na companhia -,  escolho sempre um dos dois bancos virados um ao outro e com mesa a meio. Não que precise da mesa, apenas fico de frente para duas pessoas e com outra ao lado. As “pessoas de idade” têm a vantagem de não serem notadas e poderem observar, facto hoje muito facilitado pelo uso de tablets e telemóveis. Os meus vizinhos estão mergulhados na sua pequena bolha. É raríssimo encontrar alguém com quem se possa entabular uma conversa, mas é vulgar ouvir as conversas mais ou menos longas dos meus vizinhos de viagem ao telemóvel – será porque aproveitam o tempo e súbita lhes surge a necessidade de ouvir uma certa voz (invejo-os). Quando os lugares não eram marcados, entrava atrelada a uma colega ou alguém conhecido e conversávamos a viagem toda. Hoje, viajar de comboio assemelha-se ao ovo Kinder, traz uma surpresa. Não acho mau. Gosto de surpresas (boas).

    Numa destas visitas, e já na capital, meti-me num autocarro julgando-o a via de maior prontidão. Grande lorpa! O transporte devia estar em início de viagem e deu voltas e mais voltas (apesar do google maps me dar o percurso, o autocarro chegou e atirei-me lá para dentro sem consulta prévia, olhei apenas ao destino). E só não apreciei mais a paisagem por ter hora marcada no dito destino e ver os minutos “correndo correndo sem nunca parar/caminho do rio em busca do mar” (parafraseando versos de um livro de leitura da antiga primária, acerca da água; creio). Mesmo dentro da pressa, deu para ver edifícios que devem ser soberbos, alguns dos quais não faço ideia do que sejam porque não consegui ler as inscrições que ladeavam a porta principal; mas passei por um miradouro cheio de gente e de onde Lisboa aparecia linda, vestida de telhados e folhos de brancura bordada a gosto, mais aqui e mais ali; Entrevi a entrada do Jardim Botânico e ignoro se sabia da sua existência; reparei num polo universitário mesmo ao lado e de que não fazia ideia; o Príncipe Real que nem sabia onde ficava (ainda não devo saber) e estava muito cheio de gente nova e acalorada; alguns edifícios retocados e luzindo a sua época - ignoro se apenas no exterior; outros quase em queda livre, facto que me penalizou em extremo. E os semáforos apostados no vermelho e que, se por um lado me permitiam tempo extra para os olhos, por outro, atrasavam-me ainda mais.

      (cont.)

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Voltas do Bem-Me-Quer

 

        Lisboa está repleta de jacarandás. Mas são os do Parque Eduardo VII que mais me encantam. Vejo-os apenas de ano em ano, na Feira do Livro, e sinto por eles um carinho inexplicável. Se um dia mudam a Feira não sei que faça, talvez viaje até ao parque só para fruir a visão de uma rua atapetada em lilás e onde caminho sentindo-me a herege que pisa território sagrado. E que vai ser do prazer que me agarra nos semáforos da Rotunda do Marquês, eu desvanecendo nesciamente à visão daquelas nuvens azuladas em que os meus olhos batem até sem propósito?! Não. A Feira tem de conservar o endereço. Além do mais, os livros condizem com os jacarandás, têm tudo a ver, mesmo sendo relação que não sei explanar.

        Portanto, mais uma vez por lá andei no encantamento do costume.

        Mas estou de mal com os livreiros que na Hora H faziam 50% de desconto em livros com mais de três anos de edição. Este ano, pelo menos na Relógio d’Água, tudo mudou: só alguns livros assinalados - e eram relativamente poucos – beneficiavam de desconto de 30%. De modos que foi a última vez que comprei na dita editora; exceptuo o livro do dia caso me interesse, e se continuar com boa promoção. Mas enchi-me de livros na mesma porque fui cedo e comecei pelos alfarrabistas onde li praticamente todos os títulos expostos nos primeiros quatro postos de venda. E comprei vários. E desisti de outros tantos.

        No dia seguinte saio cedo, o Metro vem à cunha, o rosto dos lisboetas é triste e amarfanhado. A maioria viaja no desencanto de um trabalho onde. Alguns já apanharam dois transportes até ali; outros terão ainda de chegar à outra margem; muitos descem na estação de Entrecampos, Sete Rios, Restauradores e correm para comboios e autocarros. A garota a meu lado puxa de um estojo de maquilhagem e, dois dedos enfiados no cetim da esponja, vai pondo no rosto alguma coisa que não identifico. É jovem e de boa pele, mas, paulatina, passa a esponjinha por todo o rosto, embebendo-a no redondo do estojo a cada retoque. Terminada a operação, puxa de um espelhinho que abre com um clique e mira-se em ângulo de cento e oitenta graus; após novo clique, desaparece tudo no interior da mala de mão, corre o fecho e sai aprumada e altaneira que nem juíza em tribunal. Não me deitou um soslaio, estava só, concentrada em si. Era uma manhã friorenta e um ar de tristeza emanava da carruagem: ombros descaídos, semblantes neutros, mãos ao telemóvel mais hábito que interesse. Nas horas matutinas manda o egoísmo sonâmbulo: ninguém dá lugar a ninguém, não se olha o vizinho. Mas já ali estive noutras manhãs e havia sempre alguém contente e conversando com entusiasmo. Lembro a jovenzinha de cabelo azul, uma Menina do Mar em tamanho natural que deixou o interlocutor - e até quem os olhou – bem disposto e agradado.

         Pergunto-me agora se teria sido defeito dos meus olhos; se eu mesma teria aquele ar de frete, do que se faz por dever e não por gosto. O que é que os portugueses perdem que assim os desalenta. Ou terei sido eu que perdi a capacidade de vê-los realmente. 

domingo, 3 de maio de 2026

Flores & Suspensórios

 

        É primavera e no muro do quintal há um mar de flores: ele é a buganvília vermelha que transborda, as roseiras de trepar que enlaçam o gradeado do muro e me lembram a doce avó Luísa a trazer-me duas podas minúsculas, “plante-as uma de cada lado do portão e vai ver”. E eu vejo. Vejo-a a ela, trigueira e enrugada, olhos de ternura compreensiva a mirar-me por detrás da grossura das lentes. E espero que também ela possa vê-las; se acaso não for possível, e se não houvera outras coisas a ligar-nos - que as há -, as rosinhas pequeninas, amontoando umas sobre as outras num contentamento rosa vivo, não me deixariam esquecê-la. A querida avó Luísa que não era e era minha avó e se faz presente em cada primavera: visita-me. E depois há as rosas Pierre de Ronsard, disseram-me que rosas antigas; não sou grande fã de rosas mas estas são belas. Bem próximas, as rosas vermelho sangue, grandes como punhos, esmeradas no recorte, perfeitas, atraem o olhar de quem passa a rasá-las. Altiva, a roseira vermelho sangue suplanta as outras e abre-se ao etéreo; não tem uma quebra, é seta apontada ao azul e rodeia-se de espinhos aguerridos, prontos a batalhas imaginárias - tão perto está das mãos de quem passa e nem uma a tocou. Tenho certa má vontade contra ser tão cheio de si, há alguma incongruência em ser flor e dominadora. As flores são doces, delicadas, bonitas no seu ser de pétalas diversas; apreciamos nelas a textura de cetim, a forma como curvam, a cor impossível que as tintas desejam imitar, o odor suave ou mais penetrante. Atordoa-nos a delicadeza presente nas flores de suculentas e cactos, perguntamo-nos como pode um cacto espinhudo originar flores de seda.

        Terá sido por isto que hoje, note-se, HOJE, experimentei os suspensórios, elemento muito a meu gosto no antigamente de mim, agora já de barba branca. São tão de idade que o metal de alargar e encurtar os elásticos enferrujou e deixou marcas – pois é, tive de alargá-los um nadinha. Mas, ó senhores... o que eu gostei de voltar a eles! Lembro uma ou duas fotos em que estão comigo, tenho um saco plástico aberto na mão, estou rodeada de alunos pequenos a mastigar e beber sumo (era a recolectora de lixo) e todos nós numa alegria plena que vibrava nas roupas claras, nos rostos redondos, nos olhos de surpresa boa, nos cabelos ao vento em redondezas da Torre de Belém.

        Como é que após umas cinco décadas, o elástico inda funciona?! E as mãozinhas que prendem nas calças nem sequer se soltaram como receei – sei lá, imaginei que já não tinham força e se escapavam ao menor esforço, feitas marotas. Mas não. Fixaram-se no lugar e dali não saíram. Tão queridinhas! Só porque ainda me querem bem – nem outra razão haveria para se conservarem tanto tempo, é que estão muito mais em forma que eu -, olho-as com amor (acho que é amor), carinho e mais que isso. Se fosse poeta glosava uma ode aos meus suspensórios que pegam nas calças com quatro mãozinhas travessas. Estão ali, todos deslaçados, cada elástico virado para seu lado num desalento compreensível. Mas já garanti, não voltam para a gaveta, amanhã regressam à faina e só por esse motivo os deixei atracados às calças. Não parecem convencidos, mas vai ser verdade.

        Olha, em vez do dia da mãe foi o dia dos meus supensórios. E depois?!


sexta-feira, 10 de abril de 2026

Inscrição

 

        Penso voltar, criar uma aberta, chegar a este porto de salvação e escrever. Mas só penso. Sei do assoberbamento e de quase não ser possível quando te tenho por perto. De soslaio, não vá eu embaraçar-te, reparo na juventude que te mora nas mãos longas e brancas ajudando-me na cozinha como ninguém. Moves-te familiar, faca sobre a tábua de corte, hábito que, cada vez mais, noto que te embebe. A teu lado, desvaneço por dentro no receio da tua perturbação e bendigo todos os momentos em que te quis sem saber de ti. Desejei-te com o inteiro de mim, prolongadamente. Propus-te a um parceiro avesso a mais noites sem dormir, e biberões, e fraldas, e doenças incógnitas. Por esses meses de insistência perseverante, olho-te sempre como se foras apenas meu – que não és, bem o sei; consegues mesmo a proeza de ter a mal disfarçada preferência paterna.

        Jamais me pareceu que gostasses de crianças e desta vez descubro-te na atenção aos sobrinhos, no saber como vesti-los e servir a refeição; no teu modo inteligente e sagaz de jogar cartas com o minorca, seis anos verborreicos que se te grudam como cola e calmamente refreias, ensinando regras sem impor - propões com humor, continuamente puxas por meninges infantis que, é indubitável, te admiram. Observo o jogo (eu que nem consigo conhecer as cartas) e vem-me a tua infância de infindáveis jogatanas com os primos; eram partidas cordatas, transpirando concentração. Hoje, dois adultos e duas crianças mantêm o estilo – fora os apartes educativos da tia e teus. A garota mais velha, de quando em vez, põe os dedos entre os teus caracóis sempre despenteados, um gesto terno que podia ser meu e a que dá gosto assistir. Sim, o minorca tem razão, ganhaste nova família. Mesmo. Vejo-vos e oiço da cozinha, e noto que não se esforçam por utilizar termos básicos, antes explicam as novas palavras que usam e repetem-nas várias vezes durante o jogo. Pergunto-me se faria semelhante. Se, em presença do minorca, não me limitava a simplificar a linguagem. Na verdade sou bem menos didáctica. Passa-me pela cabeça a ideia de que não fui grande educadora; e não devo ter sido. Mas a verdade é que, olhando-te agora, ninguém o diria. Grande parte foi trabalho teu sobre a genética. É verdade que manténs os  defeitos, mas aperfeiçoaste as qualidades. Parabéns, meu doce filho. Tanto amor e não consigo proteger-te. E, como o poeta, temo que tropeces numa gota de água. 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Eternas Alegrias

 

        É verdade que envelheço como toda a gente: lembro melhor factos antigos (do meu tempo) que recentes. Mas a velhice da mente comporta nuances de ternura, apontamentos que nos comovem hoje na lembrança do que ontem foi e gera em nós perplexidade e incerteza: pessoas de antanho que não passaram, não nos morreram, talvez tenham, agilmente, saltado sobre a morte e pairem suspensos. Ou será apenas questão mais simples, como não soubemos da sua morte física, continuam vivos no nosso espírito. Tão vivos como os deixámos quando a vida assim exigiu.

        Vem este paleio a propósito da leitura que vou fazendo da Conta Corrente de Vergílio Ferreira. Leio o diário vagarosamente, como convém. Vergílio é mordaz, perpassa-lhe amiúde uma ironia fina e muito sua, mas, sobretudo, dá que pensar. Aprecio o escritor desde Aparição, o primeiro livro que li e julgo que por imposição escolar. Abençoada seja! Depois fui comprando outras obras aqui e ali, cada vez mais animada. Nunca a sua escrita me desanimou. Talvez as teorias existencialistas o tenham influenciado, mas o que encontro nele que me incentiva é o modo como escreve e imagina a dilaceração que se pressente nos personagens e suponho que sentia na vida – apesar de Vergílio sempre admitir a existência em si de dois seres distintos: o escritor e si mesmo. Em qualquer obra sua há o traço forte da realidade pensada, omnipresente, o vinco fundo da incompletude humana com todas as suas questões. Mais que resolvê-las o romance aponta-as no pleno de humanidade às vezes dolorosa, outras repugnante, outras quase terna na exposição de carências e estados que nos fazem o ser.

        Pois, mas o que me leva a postar sobre os diários é ter ontem encontrado, no ano de 1977, dia 10 de Agosto (suponho, tem várias entradas), um encontro em Galamares com os Serpa Branco que conhecera em Évora. E eu tão contente! Contente e orgulhosa. Foi como se o escritor dissesse que veio jantar a minha casa e gostou. Sabíamos tão pouco dos professores, nós. De Serpa Branco apenas corria que viera de Lisboa, era vegetariano e marido da professora mais querida do liceu, Beatriz Caroço. Galamares era-nos incógnita. Mas Vergílio escreve acerca da casa, “Em frente a serra de Sintra. Nítida, verdejante ao sol. De vez em quando, passavam nuvens em correria. Vindas do mar. A casa fica no meio de um pequeno jardim com uma pelouse de relva verde, aparada rente. Luz suave, e a cor, e uma flutuação aérea de tudo.” E quedei-me a imaginar o bem que o meu professor de psicologia ficava nessa casa por certo recatada e onde os filhos espraiavam (havia pelo menos um, Manuel Serpa Branco que testou a vocação religiosa numas férias exilando-se na Cartuxa). Desconheço Galamares, mas fiquei gostando do nome que já conhecia e me era tão indiferente como o trigo para a raposa do principezinho que Serpa Branco nos deu a conhecer.

        Que conforto saber que Serpa Branco e Vergílio foram amigos! Quase me senti íntima dos dois. E que sortilégio foi Évora na vida do escritor! Ali leccionou ao longo de catorze anos. Ali casou e voltou vezes sem conta em visita a amigos que fizera e foi deixando de encontrar, a cidade que conhecia a transformar-se. Não o conheci, não foi meu professor, mas Serpa Branco passou por mim e ficou. Ensinou-me a ensinar embora não tenha sido professor de didáctica. E, na hora certa, teve para mim as palavras, os gestos e as acções certas. Por mim, fica em Galamares até à eternidade que me pertence: não morre.



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Luz Que Alumia

 

        A memória é preciosa aliada de que pouco entendemos, quais formigas afanosas, passeamos-lhe a superfície no desejo contínuo de que nos não abandone. Atribuimos-lhe falhas de que ignoramos a proveniência, questionamos gestos e manias que se tornaram hábito, ou eventualidades que não imaginávamos guardadas e, a dado momento, nos relampejam fulgurantes.

        Hoje, agora mesmo quase, enquanto mastigava solenemente o pão – sou solone qb ao pequeno almoço -, pararam-se-me os gestos na lembrança do meu décimo oitavo aniversário. Costumo lembrá-lo sempre que alguém faz dezoito anos, hoje marca de maioridade. E desejo contínua e sinceramente que seja um ano melhor do que esse meu já tão longínquo. Mas os anos dão patine e tingem o acontecer, razão porque me aparece o despontar dos dezoito a outra luz.

        Alguém me disse que nos romances existe o que se chama “o ponto de viragem”, momento de mudança na sequência da história, motivado pela introdução de novo factor. Os dezoito anos trouxeram-me vários novos factores e as subsequentes alterações. Terá sido um dos meus pontos de viragem. Pondero que levei da melhor forma toda a transformação a que, então, me vi sujeita. Sem mérito pessoal, era jovem e a juventude comporta um optimismo raro que talvez entronque no facto do presente agigantar e o futuro ser em grande parte um possível que sujeito e vida podem alterar e logo, a premência não está a uso; e sofrer por antecipação também não é vulgar.

        Lembro-me do hospital e de as visitas me olharem através de um vidro. Nesse dia recebi exactamente quarenta postais ilustrados de gente da minha terra a felicitar-me. Foi uma das surpresas mais bonitas que já tive. Todos os amigos, familiares e jovens me enviaram um postal. Mesmo aquelas garotas que pouco conhecia. Mesmo os rapazes que agora só via de longe e com quem nem falava porque na minha terra as conversas mistas eram sinal de namoro. E talvez por tal motivo, o facto de me terem escrito, a maioria ainda com a letrinha da primária que eu tão bem conhecia, comoveu-me. Como é que nunca mais me lembrei disto?! Como é que esqueci aquele garoto que foi meu parceiro, que comprou para mim um postalinho e se suicidou após a morte da única filha também ela com dezoito; como é que não vi num desses postais o amor escondido sob a amizade de infância e como é que tantos anos mais tarde voltei a incorrer no mesmo erro?! O certo é que ainda hoje não sei de quem partiu ideia tão bonita e tenho até vergonha de tê-la esquecido por anos e anos.

        E depois houve a surpresa da visita (ao vidro) de minha irmã e prima, as duas com onze anos, vindas de cascos de rolha até ao hospital do distrito. E houve um postal surpresa de alguém que visitava uma colega e, talvez sem o saber, me fez presa de ciúme que não me recordo de ter merecido.

        A coroar o dia, mas não por esta ordem, que na verdade foi a primeira surpresa, o hospital ofereceu-me o melhor bolo de todos os aniversários, por certo feito na Violeta que inda hoje comanda a qualidade em pastelaria.

        O que devo aos muitos anónimos que a vida pôs no meu caminho e assim deixaram de sê-lo, pede-me que vá em frente. Sempre em frente. Para lugar nenhum.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Ambiências

 

        Pouco me visitas, ou será o meu eu materno a queixar-se. Chegas (quase sempre) carregado. Entras pelas traseiras, pousas o saco de viagem junto à máquina de lavar e, num meio sorriso, desculpas-te por ser roupa de quinze dias e que precisas levar de volta. Sendo inverno, o fim de semana faz-se de cordas cheias desde cedo e, de tarde, à hora em que a humidade se agarra às coisas, as peças terminam na máquina de secar. Entre almoços e jantares, estendo, engomo, dou uns pontos. Acompanha-me o prazer de estares presente e colaborares no estendal ou no dobrar das peças. Reparo que, ou não sais de casa, ou te escapas brevemente, com o único amigo que inda tens por cá. Não te lembras já das nossas conversas antigas, quando reivindicavas que as tuas amizades estavam todas aqui e seria sempre assim, eu a contrariar mansamente a tua opinião acerca de amigos inabaláveis, a dar-te exemplos pessoais. A juventude é, nas suas convicções, força intransponível. Mas o tempo ensina.

        Quando sais, o teu quarto fica tão arrumado como antes de chegares e, se penso nas tuas visitas, noto que sempre encontras um tempo para conversarmos a sós sobre filmes, livros, espectáculos. Aconselhas-me esta ou aquela fita recente, perguntas por livros, falamos acerca de viagens que pretendes fazer. Tão natural nas dádivas como cortante nas recusas, desta vez pegaste no portátil e deixaste-me o Filmin. Conversando, foste olhar-me a engomar as T-shirts que dizes levar mais tempo a passar e ficarem piores; depois experimentaste. E corrigiste alguns pontos. Trouxeste-me um diário comprado para ajudar um gatil. Não sei bem o que fazer com ele, a persistência não é o meu forte e a palavra escrita é pouco secreta.

        Quando partes, a casa arrefece. Mas é assim mesmo, pertence.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Pequenos Nadas

 

        Com ou sem propósito, a natureza sabe estarrecer. Mas é também encantatória. Nestes dias de tempestade em que mal pusemos pé na rua e o mundo era líquido, limitámo-nos ao essencial. O tempo chuvoso faz-nos adiar a vida, se tal é possível. E a tantos derrubou.

        Ontem, atendendo a necessidades culinárias, calcei botas e fui ao quintal por um ramo de tomilho. E foi assim que os reparei, orvalhados de chuva mas erectos e gráceis, três narcisos. Juntos como um sol pequenino, sabiam a ressurreição. Amarelo intenso a bater palmas no cinzento do dia. Um abraço vegetal em canteiro despido de flores e que ignoro se hoje sobrevive, tanta a chuva que sucedeu. No impasse de surpresa boa, quase colhi dois, gosto de contemplar as flores dispostas na jarrita pequena que ora veste de verde simples. Desisti. Não lhes atentara nos botões, não dera sequer pelas hastes, seria ingratidão e violência colhê-los em florescência tão única.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

A Liberdade Passou por Ali

 

        A fechar o tema e o concerto – foi mesmo um concerto -, Gisela cantou “A casa da Mariquinhas” com a letra renovada e de acordo com os tempos. A letra tem graça e por tal a prefiro à primitiva de que nunca consegui gostar.

           Mas o público. E também a vontade da artista. Porque nos encore cantou e dançou impecavelmente nos seus saltos agulha o malhão, o vira e sei lá que mais. Sempre incentivando e querendo companhia. Pôs toda a gente fora das cadeiras, a cantar e dançar, eu incluída. A bem da verdade, o meu forte é mesmo dançar sem mexer os pés. Mais ou menos o que fiz. Foi um final de alegria colectiva, uma aragem de primavera bem portuguesa, talvez um leve e agradável  aroma de Abril - falo por mim - insinuando-se  por este outono dourado a que os grandes navios ancorados emprestam fugaz magnitude.

        Saímos contentes uns dos outros. Ela, cansada e feliz porque o público a ouviu e lhe quer bem – os artistas precisam desse carinho e atenção. Nós, porque apreciámos o trabalho da cantora, soube ser empática e profissional; fez-se próxima sempre que explicou a razão/razões de preferir esta ou aquela música que ia cantar – ao longo de todo o concerto, Gisela expôs a circunstância que inspirou a inclusão das melodias escolhidas. Deu a mão às mulheres deste país, lembrando aquelas que na sua família foram ou ainda são as dos versos de Capicua. Diz-se que hoje já as mulheres são outras, que conquistaram direitos iguais aos masculinos. Duvido. Continua a parecer-me que as mulheres carregam o mundo nas costas e não apenas na barriga. Convenho: não são todas. Mas são tantas e o peso é tamanho…

        Obrigada Gisela. Bem hajas por nos fazeres companhia e lembrares o que não nos esquece.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

A Liberdade Passou por Ali

 

        A fadista começou o espectáculo com músicas do seu álbum recente, as cantigas de intervenção cantadas no pós abril de 74. José Afonso, Sérgio Godinho; Fausto; José Mário Branco. E até cantou a senha da revolução “E depois do adeus”. Foi o apogeu (meu e acredito que de mais gente). Cantarolei com ela, facto que decerto confrangeu as minhas manas, preferiam-na pura, sem o meu eco a soar-lhes no ouvido; a meu favor tenho que foi acto espontâneo, veio-me o espírito revolucionário ao de cima, impossível calá-lo. E mais, Gisela deu um viva específico a José Afonso e pediu uma salva de palmas, facto que me comoveu e soltou vários assobios e aceitação em dobro. Outro momento alto aconteceu quando cantou “Que força é essa amiga”, canção que todos lembramos ser de Sérgio Godinho e a que a amiga Capicua adequou uma letra que diz muito a todas as mulheres que se prezam de sê-lo. Aqui deixo um bocadinho da letra só para tomarem o gosto:

Vi—te a trabalhar o dia inteiro
A limpar a cidade dos homens
Por amor, ou por pouco dinheiro
Ficam velhas as tuas mãos jovens
O teu peito, o teu colo é consolo
A despeito do teu próprio choro
Que força é essa?
Que força é essa, que trazes nos braços?
Que só te serve para obedecer
Que só te manda obedecer
Que força é essa, amiga?
Que força é essa, amiga?
Que te faz levar o mundo todo na barriga

(…)

        E, com toda a propriedade, pediu para a amiga Capicua uma salva de palmas. Prontamente expressiva. Mas houve de imediato quem se levantasse e fosse embora – sei porque estávamos no corredor a meio e tinham de passar na nossa frente. E já acontecera com alguns gatos pingados quando cantou Zeca Afonso.

        Em seguida, os fados. Mas aquilo que me arrasou foram as canções de intervenção e a introdução corajosa de Gisela antes de cada uma. Sem referências específicas, todos sabíamos o que ler nas entrelinhas e qual o significado de a fadista dizer que são canções de novo necessárias. Achei lindo e gratificante ouvir de alguém que não viveu o 25 de Abril de 74, a importância de continuarmos a ser democratas. Gisela João tornou-se a minha Gisela Sem Medo. Pela coragem, mas também pelo gosto. Pelo profissionalismo do espectáculo, desde o cenário em branco completo, ao original guarda roupa na mesma cor; pela boa disposição; por não abdicar de valores que transporta e não se coibir de chamar a atenção do público para a sua universalidade. Por instigar à partilha na medida em que o particular não pode ser dominante, a democracia assim o exige. E, como frisou, há valores de que nos esquecemos e que temos de cuidar; a democracia pede-o encarecidamente – digo eu.

(cont.)



domingo, 28 de setembro de 2025

A Liberdade Passou por Ali

 

        O Fado não me move por aí além, desconheço uma casa de fados e nem aprecio espectáculo apenas fadista. Reconheço ser positiva a renovação no fado, mas não morro de amores por Ana Moura e outras fadistas recentes e mais jovens que o vestiram de nova roupagem e o fizeram renascer; mas longe de mim negar-lhes o valor que aportaram à canção nacional. Gostos são gostos. Exceptuo Amália, cuja voz move e comove e António Zambujo, um alentejano que modula influências musicais a jeito seu e me cativa até no fado. Do resto, pouco guardo neste género de canção dita nossa e que pontua por amores malfadados, ciúmes mais que explicáveis, duplicidades amorosas e triangulares onde existe quase sempre uma mulher que tudo transige em função do amado disperso por ângulos que tornam mais aguda a vida da pobre amorosa. Ignoro se realmente o fado nasceu com a cigana Severa. Mas é certo que a sua história vem de tabernas, copos e bebedeiras, guitarradas e mulheres de amor vendido, hoje dito fácil, que na realidade nem se chamará amor. Contudo, aqui estou para a apologia a uma fadista. As voltas que a vida dá!

        A despeito do meu sentimento para com a canção nacional, os familiares mais próximos apreciam fado. E, se programam ouvi-lo, acompanho - Sabe Deus quantas mais vezes poderemos juntar-nos amenos e ainda suficientes e capazes. Por tal razão nos deslocámos ao Caixa Alfama. Depois do Cante Alentejano que acompanhei de viva voz, depois das fotos com os meninos do Cante que as manas não dispensam e eu repudio; depois de Viviane, uma intérprete e tanto, sobretudo cantando em francês as músicas de Piaff (quanto lamento ter-se cingido à unidade); Viviane que afirma cantar diverso – chama-lhe “fado mediterrânico” - canta e interpreta este tipo de canção de forma bastante original.

        A terminar, no palco principal, Gisela João. Nada esperava e tanto me trouxe. A mim e a muitos como eu. Que o agrado medido em palmas não deixou dúvidas. E é claro que o nosso presidente Marcelo lá estava na primeira fila, facto que, em minha opinião, não indicia mais do que ele gostar de fado. Afirmam minhas manas que devia nascer de novo a ver se surgia menos ingénua; mas sempre retruco que são demasiado pessimistas e vêem os outros com olhos maléficos. Elas olham em frente e continuam, “tá bem, tá bem...o pai é que tinha razão, és uma anjinha”. É muito difícil sairmos do rótulo, portanto, desisto; mas bem no fundo de mim subsiste a minha pseudo certeza. Além do mais, o que ganharão elas ao imaginar maldade e segundas intenções em tudo e mais alguma coisa?! Não me parece haver lucro em tamanha desconfiança baseada na pretensão de saber o humano mundo.

        Conhecia Gisela João da net. Ouvi-a algumas vezes. Tem voz possante. Visualmente, é quarentona muito de se aproveitar: em cenário e adereços brancos, apresentou-se de imaculada camisa larga (parecia masculina) sobre o que semelhava cuequinha branca daquelas antigas, até ao umbigo, e um topezito de cal, em tudo semelhante aos que usamos quando os decotes são em demasia pronunciados. As pernas indiciavam mulher do norte, o que o doutor google confirmou. A completar a indumentária, sapatos bem altos e de salto fino. Achei bem.

(cont.)

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Tempus Fugit

 

        Se colocamos em perspectiva os males de ontem, parece-nos quase sempre que os de hoje, que doem e fazem mossa no presente, são mais fortes, piores, crescem-lhes garras e cadeias de tormento. Ora, ainda que diverso disto, um dos grandes males de sempre é a luta insana e contra relógio que comanda a vida dos homens. Acontece demasiadas vezes a toda a gente. 

        Andava eu a apreciar as novas entradas no CAM, a experimentar entrar e sair; a sair para observar em pormenor o tecto da célebre pála, dando um soslaio para as várias cadeiras de plástico branco espalhadas na clareira em frente e onde algumas pessoas descansavam concentradas em si e parecendo satisfeitas com isso; e ia eu entrando de novo e descendo as escadas de mármore tão bonito agora tapadas com um metal que deve estar na moda, já que a entrada da Casa da Música também assim é, eu ressoando escada abaixo e aqueles bancos de pedra corrida a virem-me à memória - ainda estão no mesmo lugar -, eu sentada perto de adultos com crianças que comiam bolachas ou só vinham perguntar alguma coisa e retornavam à relva e à brincadeira; onde pares de namorados paravam para atacar os sapatos, ou apenas decidir se iam à biblioteca ou se estendiam na relva. Pensava nisso e nas cadeiras plásticas. A sério: apetece-vos ir para a Gulbenkian sentar numa cadeira plástica que podem mover no sol ou na sombra do terreiro?! Talvez apeteça ter uma peça móvel para sentar em modo unipessoal, já que várias estavam ocupadas. Retomando o assunto, é claro que no final da escadaria não estava o wc de sempre, mas outra coisa qualquer. E subi, pom, pom, pom. Fui comprar a entrada no museu e salta-me o jovem, a senhora quer mesmo entrar? É que daqui a um quarto de hora o museu fecha. E eu para dentro, mas quem me manda a mim andar a passaricar sem ver as horas?! Do lado de fora, sorri-lhe à simpatia e prometi voltar noutro dia. Ainda não era o dia de convívio com Paula Rego. Ora bolas!

        Semanas passadas, lá me pespeguei. Lembrada de que não encontrara o wc, resolvi investigar-lhe o paradeiro. Não sei se consigo encontrá-lo de novo, tanto corredor branco baralhou-me, senti-me, ao vivo, num filme de ficção científica - julgo que tudo em mármore, mas preciso confirmar, atordoei um bocado. Com ajuda, atingi o objectivo. Satisfeita a primeira condição, marchei contente ao museu. Ia disposta a sentar-me em contemplação, Paula Rego é alguém que admiro e gosto-lhe dos temas. Mas qual contemplação?! Os quadros estavam lá na sua inteira realidade, na feiúra bela em que Paula os concebeu. Algumas figuras parecem querer sair da pintura, apostrofar-nos; aquelas mulheres-homens cheias de músculo, o sofrimento de tantas, a ingenuidade daquela, a amargura nos vincos de rostos endurecidos. E o simbolismo de tudo: Portugal a derramar-se sem espartilho. Enfim, eu queria mesmo era ver em pormenor e com tempo – fui cedo e tudo. Mas não havia onde sentar-me e a minha acção contemplativa não transige: só funciona na posição de sentada. É forçoso. Portanto, vi-os sim senhor, mas não contemplei. Gostei da sensibilidade que soube juntar Paula Rego com Adriana Varejão, gerações diferentes e parecidas. Admirei os rasgões de Adriana lembrando carne lacerada e outros golpes. Até achei bonita a disposição das pinturas em pequenas salas de faz de conta. Mas quem é que, num museu reconstruído, se lembra de expor pinturas e lhe retira o sentar?! Será também uma nova técnica?! É que o único banco que vi, curiosamente, estava nas costas das paredes onde as obras estão instaladas, espaço que, a bem falar, já não é exposição. O que pensaria disto Rui Mário Gonçalves, crítico de arte e professor universitário, que, como primeiro trabalho, pedia aos alunos que olhassem um quadro do MAC durante meia hora para depois escreverem as suas impressões.

        Será que a concepção da exposição, ao preferir as divisões de casa falsa, retira a distância necessária à contemplação? Pode ser preconceito, conservadorismo elevado à última potência, mas ausência de todos os assentos?! Todos, todos?!

domingo, 24 de agosto de 2025

Tempus Fugit

 

        Durante anos visitei com regularidade o Centro de Arte Moderna da Gulbenkian. Penso que o descobri por mim, nem sei como; imagino que através de referências sobre as pinturas de Amadeo, por exemplo. Levei lá carradas de alunos. Gostava-lhe da situação e tinha preferência pelo serviço de restaurante. Envelheci com aquela gente: no princípio dominava em nós o tom natural de cabelo, sobrancelha, bigode (havia um senhor muito simpático e de bigode) e terminámos grisalhos ou atintados. Coisas. Não que os visse muito, mas havia naquela sala alguma coisa de familiar que me atraía. Seria a simpatia na recepção, a qualidade do atendimento que não se eximia de sugerir se nos descortinava indecisão, o conforto de mesas e cadeiras, a cultura de falar baixo, a diversidade de pratos quentes e frios, os sumos naturais e a variedade de sobremesas, a eficiência delicada na retirada de tabuleiros. E, lógico, a qualidade de tudo. Ali estive com amigos(as) e tanta vez só, para lanche ou almoço. Próximo do meu local de consultas e de um cinema, havendo tempo, passava para olhar o verde no meio da cidade, sentir o trânsito lá fora, sentar-me num banco a contemplar a vida em câmara lenta, o cheiro a relva molhada oferecendo certezas simples. Todos os sentidos à superfície. Só depois rumava ao destino, alma leve.

        Amei com vigor o museu, vulgo CAM. Quando a entrada era gratuita para professores entrava sempre e geralmente ficava-me pela primeira sala. Sentava-me a olhar os quadros de Amadeo e o fabuloso retrato de Pessoa axadrezado em vermelhos, branco e negro, divina pintura de Almada Negreiros. Fazia-me bem ao espírito contemplá-los. Punha um pé na Gulbenkian e o meu eu diário suspendia.

        Entretanto, aconteceram as obras no CAM e o covid, amplas restrições aos passeios pela Gulbenkian. Não que os deixasse de todo. Mas o ponto que mais me interessava manteve-se demasiados anos encerrado ao público. Vi exposições no museu do edifício principal, assisti a concertos e conferências, sentei-me no mesmo banco a observar o vagar com que a vida por ali se derrama. E os muros altos continuavam a cercar o CAM. Até que foi notícia de telejornal: o CAM reabrira. Não fui a correr. Sou a cada dia mais conservadora e saudosista, parou-me o receio de não gostar da célebre pála e nem do resto. E depois fui adiando, adiando, quase até ao esquecimento. Adiei tanto que deixei mesmo de passar nos jardins de que tanto gosto, tenho devoção contemplativa por Gonçalo Ribeiro Teles um dos criadores daquela maravilha. E nem é preciso citar que o senhor Gulbenkian tem lugar cativo no meu coração.

        Bom. Há cerca de dois a três meses enchi-me de coragem e fui ao Centro de Arte Moderna. E sucedeu o que pensara: não achei que a célebre pála merecesse o dinheiro que ali se gastou. Mas pronto, está lá, tem um ar moderno, deve ser obra de arquitecto iluminado. Espreitei o restaurante. Oh! Perdeu todo o ar familiar. Ganhou individualismo minimalista e perdeu em qualidade. Talvez tenham um chef ou algo parecido, mas espreitei as iguarias e não só não apareceram, como faltava sedução aos arranjos(taças de inox?) em que se encontravam alguns alimentos. Bom, junto à janela panorâmica ainda há resquícios de antigamente (para os saudosistas), mas tudo ocupado. Da empresa e da simpatia eficiente dos funcionários de antes não há sinais. O mundo está sempre a mudar. Aceito. Só receio que esta actualidade severa e cool não deixe memórias. Mas a minha amiga dilecta está encantada com a mudança e mais sua beleza; portanto, será inadaptação da minha pessoa, cuja perdeu um lugar de almoços e lanches. Paciência.

        O mais que me aconteceu conversamos noutro dia.

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

À Beira da Cal

 

        Estudei que a memória nos carimba a identidade, possibilita o conhecimento qualquer que ele seja, permite recordar voluntária ou involuntariamente episódios, pessoas, o que ouvimos ou vimos, reconhecer cheiros, paladares, enfim, satisfaz um inumerável de necessidades humanas. E eu que retomo lentamente - muuuuiiito lenta e com vastas falhas – o hábito antigo de caminhar um pouco no fresco da manhã, sigo ainda em peregrinação. Sei o lugar de onde avistava o velhote e os dois sítios onde nos encostávamos ou sentávamos falando de nada. Passo onde o vi pela última vez, admirada do incomum onde se sentara extenuado. Atravessei a estrada e sentei-me a seu lado. E ele, é o coração, vim mais cedo, pela fresca, e deixei a cadela em casa; mas isto cansa-me, tive de parar aqui. E eu que já não o via desde o acidente e soubera que uma filha o levara consigo para outra cidade, eu que nem julgava voltar a vê-lo por ali, não perguntei se estava melhor, disse parvamente que já tinha saudade dos nossos encontros. E ele virou-me olhos de impotência onde li também saudade. Perguntei se queria ajuda para chegar a casa e abanou a cabeça, isto vai. Ficámos um bocadinho a olhar o silêncio da manhã com ovelhas ao fundo. Quando lhe notei intenções de partir, pus-lhe a mão no ombro e saiu-me uma mentira sem graça, tem de descansar o resto do dia e amanhã cá estamos. Ele, olhinhos mirrados no fundo de um poço de rugas, pele baça e amarelada, levantou-se trôpego e descrente de todo, e silabou, pois, amanhã. E eu colaborando, até amanhã. Atravessei a estrada e virei-me a olhá-lo na subida, passinho de bebé. Para nós dois não havia outro dia. Isso sabíamos.

        Entretanto, faço caminho. Passo pelo gato preto adormecido ao sol ligeiro, o cão que me refila possivelmente do outro lado da casa. Na beira de estrada ressalta a brancura cuidada dos muros caiados no estio, e na zona de vivendas há mudanças, os novos proprietários têm outra concepção de casa. Numa delas há um letreiro “vendem-se ovos”. É uma vivenda em tons laranja, barras brancas e várias paredes de vidro. Apesar do muro, vislumbro o conforto e até bom gosto de uma das salas. Um dia destes vou saber a razão de a senhora vender ovos. Talvez comprar alguns.

        À esquina do caminho de terra batida, um campo de ovelhas. São muitas e de idade diversa: carneiros velhos e gordos que se deslocam como reis, a passo, e ovelhas de igual porte; mas a maior parte do rebanho é constituído por animais jovens correndo lestos, aqui e ali; e há a ternura saltitante dos cordeiros novos, contentes da vida. Digo-lhes olá da estrada e eles, cada um em seu passo, aproximam-se a balir, e chegam à rede de arame que nos separa. Ficam ali balindo e faz de conta que somos velhos amigos que se reencontram depois de longa ausência. A quem os oiça e não conheça a espécie, não parecerá que acabámos de travar conhecimento. Dou-lhes as costas e eles com o focinho meio fora da rede, em cacho cerrado, mééé, mééé, mééé. E logo me vem à memória meu pai. Mal ouvia o nome de x, cuja incompetência detestava, saía-lhe escarninho, é uma ovelha, uma ovelha é o que ele é. E se nós, ó pai deixe lá isso, ele mastigava convicto e vingativo, uma ovelha, mais burro que uma ovelha.

        Dado o que me foi presente, meu pai tem razão acerca da inteligência dos ovinos. Mas que querem! Soube-me bem a corrida à rede apenas por cumprimentar. O que quer que lhes diga, acorrerão. E depois?!

sexta-feira, 4 de abril de 2025

A Droga das Sextas

 

        Hoje é sexta!!! Bebo a minha bebida e fico outra de mim. Aflora-me essa que olha a realidade com benevolência e intui caminho nem por isso difícil (palavra que não sei como é que isto acontece, o mundo está a virar-se do avesso...). Torno-me aquela a quem os problemas não fazem mossa, acho que porque os ignoro. Só pode. Às sextas fico jovem de espírito (de corpo já não consigo), faço planos arrojados para a mulher quotidiana que sou nos outros dias e é bom esgotar as energias na limpeza, ou isto de ser jovem sem destino fixo, ainda dava mau resultado. Claro que só à sexta arrisco um toque no jardim. Nos outros dias sou sugada por afazeres dementes e deixo-me ir, sem tempo para flores ou podas ou o que seja. Também é verdade que a minha parca actividade de jardinagem se eclipsa nesta selva que o inverno e a primavera tecem dia a dia e gota a gota. Mas pronto, estou bem disposta e hoje a selva até me parece bem. Chove, mas não me importa. Estou só, mas agrada-me (nunca estou só, tenho as minhas companhias inventadas que nas sextas me estendem a mão). O vidro da janela está exaurido de gotas, mas acho-as bonitas e a paisagem alinda se vista através de gotículas iridiscentes (de vez em quando faz sol). À sexta apetece-me escrever sem destino, mas, mesmo com alma jovem, não posso permitir-me tanta liberdade; portanto, o mais que faço é, num bocadinho livre, botar uma linhas e dar-me ao luxo de postar, as palavras atropelando-se umas atrás das outras e eu a querer dar conta do recado, “péra aí, péra aí”. Às sextas sou alegre e buliçosa (lá está a juventude de espírito a fazer das suas) e nada comparável com a outra que tem a mesma cara, mas a meu ver é tão distinta.

        A verdade é que deixei de ter fins de semana apesar de continuar a desejá-los por aqui. E não, a vida de reformado/a não é toda fim de semana, é antes o contrário, preenchida com entupidos dias de semana. Agora tenho as sextas. Todas as sextas até à morte. É bastante tempo, o que me alegra; ou, por pensá-lo numa sexta feira, assim me parece :).

        Devia continuar a escrever sobre S. Miguel não é? Pois, mas não me apetece. E à sexta faço alguma coisa que me apeteça. Portanto, desculpinhas, S. Miguel não perde pela demora. Ainda hei-de ficar toda delicodoce a pensar naquela ilha que tanto me entrou no profundo. Hoje, a sexta feira tem-me inteirinha. E um tudo nada palerma. A boa disposição deixa-me assim, querem o quê?!

        Bom fim de semana


quarta-feira, 19 de março de 2025

Pensamentos Esguedelhados

 

        O Homem põe e Deus dispõe”, entendendo cada um a afirmação de acordo com as suas convicções, facto que não lhe retira verdade. Pois eu devia estar agora a subir para a última sessão do curso “Camilo Castelo Branco, o primeiro romancista português”. Mas estou em casa a escrever estas palavritas que em nada se assemelham ao que iria ouvir do professor Abel Barros Batista que tem aqui uma aluna atenta, por gostar demais da forma como nos esclarece acerca do escritor (se calha, não volto a vê-lo; que aborrecido!). Daquilo que me foi dado observar até hoje, as pessoas mais sábias são também as mais simples e esclarecidas na ensinança. Não tem nome nem medida o quanto lamento faltar. Mas pronto, é o que é. Quereria relembrar “Maria Moisés” (matéria de hoje), que li aos treze, catorze anos, quando levei para casa as “Novelas do Minho”, só porque sim. Queria ouvir-lhe os apartes, já que além de admirar a sabedoria sobre Camilo, aprecio a forma como troça com bonomia do autor e dos humanos em geral. Amo as suas interjeições; as frases que, propositado, deixa a meio ou só inicia; a forma como nos olha inocentemente e que mais corrobora a patranha dessa inocência de avô que já viu muito mundo; o jeito de olhar os sabichões que se querem fazer notados; a entoação e a forma como pronuncia certas palavras e expressões, havendo nisso um mundo de sugestão. Enfim, estou quase apaixonada pelo método que utiliza. Fez-se próximo do meu herói. Ainda que não diga como ele “ó pá estou à rasca”, expressão que acho muito típica e me lembra um dos meus filhos que, saindo do posto de vacinação todo franzido esclareceu, “Ó mãe, tou à rasca”. E eu desasada e cheia de pena terna, “filho!”, com ganas de pôr no colo os doze anos dele e pensando para mim, “onde é que aprendeu isto, que lhe sai tão espontâneo”. Eu feita galinha e a querer esquecer-me que ele já tinha saído da capoeira.

        E a esta hora, estará o professor quase a terminar. Enquanto ele falou andei eu a ver batatas doces no forno e nos tímpanos azucrinava-me a constância furiosa do vento sacudindo as janelas; ignora-se a pendência que o terá posto contra elas, mas palpito que seja coisa grave. Neste pequeno mundo sobejam trivialidades obscuras. Mas pronto, a alma de Ulisses, no acto de escolher a vida seguinte, e lembrada dos anteriores trabalhos, também se decidiu alegremente por uma vida obscura. É fora de dúvida, eu preferia as palavras do professor Abel. Que se há-de fazer quando o querer não basta?! Como tanto que acontece ou resolvemos que aconteça, para mim foi uma sessão irremediavelmente perdida. O peso do irreversível mata-me.

        Pronto. Decerto já terminou. Estaria já descendo para o Metro.

        Ciau, professor Abel:). Foi um prazer conhecê-lo. Espero mesmo - de verdadinha e com grande desejo – que nos voltemos a encontrar em situação semelhante (foi mesmo um encontro ainda que o senhor o não saiba). Se não morrermos antes.

quarta-feira, 5 de março de 2025

É Bom Dia(!) Todo o Dia

 

        Ontem encontrei-me com a primavera. Chovia, a berma da estrada era lago que os veículos espadanavam sem misericórdia e a clorofila dos muros refulgia. Nem um peão, um guarda chuva, um sinal de vida animada. Eis senão quando, os olhos atraíram à brancura debruçada por entre verdes intensos, salvo conduto de pacífica beleza acenando na beira do caminho. À medida que me fazia próxima (dei graças por usar os óculos), destrinçava milhares de pequenas flores e, inédita maravilha, distingui as minúsculas pétalas. Na minha mente semeada de enxertos agrícolas surgiu a copada alvura de uma ameixeira. Cumprimentei, com reverência e cuidado, a nuvem florida - o volante não permitia mais. E, mau grado a chuva que só por milagre não parou, a tarde robusteceu, endireitou-se nas horas, fez continência à coragem primaveril. A ameixeira que não vi no regresso porque sempre volto perdida no meio da noite, imaginando lugares onde aporto e que não sei onde ficam; intermitente, aterro na intransigência perfilada dos mestres semáforos, ponteiros digitais da realidade. Estou a pensar nela, na ameixeira virada aos viajantes “faça sol ou faça chuva/ meia noite ou meio dia” (era um slogan de publicidade?). Quem terá plantado árvore de beleza tão frontal e a propósito. Quem a alimenta a olhares diários e amistosos; que, bem o sabemos, não se floresce em glória sem um carinho especial - será cuidado humano, de pássaros ou de animais domésticos?! Quem, dos tantos que se apressam, lhe endereça um olhar grato e segue caminho com a árvore dentro da alma, a discrição perfumada das florinhas perpassando o pensamento. Quem leva consigo a primavera e, para que não soçobre, a planta no território do sonho, ou tira de si a água que a alimenta numa jarra. Quem.

segunda-feira, 3 de março de 2025

Uma ET na Blogosfera

 

        Invade-me em certas horas o aconchego de saber que posso vir aqui e escrever o que me apetece; sobre o que me der na bolha. Quantas vezes o faço com desvios e infidelidades assinaláveis em relação ao meu intento originário. Há horas assim, a vontade manda uma coisa e o apetite outra. Devo esclarecer que, neste âmbito, sou consistente com os apetites e enxoto a vontade. 

        Neste lugar impalpável e dentro da vida quotidiana, mantenho a ilusão de conversar com alguém - seja quem for, desde que não ultrapasse os parâmetros da boa educação. Interessa-me a permuta de pensamentos na troca de opiniões. Claro que é insatisfatório. Porém, a não existência desta possibilidade falseada de estar com alguém, escurecia-me (mais) a vida. Portanto, acarinho e mantenho a sensação irrazoável de pertença ao mundo digital, como se ele me facilite – torne mais leve - o outro (é bem capaz de acontecer). Não venho aqui para aprender, para fingir ser quem não sou, para me construir noutra personalidade, ou sequer dar vida a sonhos antigos (dos meus sonhos que foram, alguns são já irrealizáveis e outros a vida decidiu não os realizar e eu dei uma mãozinha). Sou fiel ao inicial propósito: trocar opiniões, conversar, estabelecer pontes de uma solidão a outra – todos precisamos delas e por tal as procuramos; mas cada um encontra o que encontra e é com isso que tem de se haver. Há quem as descubra fora deste mundo de faz de conta. E quem não. Ou quem as encontre, mas não lhe bastem. 

        Ora eu também me divirto nesta actividade. Digamos que espaireço e me evado. Agrada-me encontrar opiniões que partilho ou nem por isso, e outras de que discordo frontalmente. Por vezes contesto; algumas ficam tão fora da minha órbita opinativa que não me merecem comentário; e também me eximo de pôr palavra em assunto de que nada entenda ou desinteresse. 

        Tal como mantenho “contactos cativos”, há os que frequento sem cativação, interessa-me neles a erudição, não a pessoa – se os abandono, nada deles guardo. Enquanto os que pela escrita me cativaram deixam intacta memória, os restantes são paisagem na janela do comboio em que viajo. Não esqueço – por exemplo - certa “Nina” que por mim passou ou “Presépio com vista para o canal” (não sei bem se era este o nome do blogue). Desejo com veemência que sejam felizes lá por onde andam, mas continuarei a lamentar que tenham desaparecido. Se eu fosse francesa diria de ambas, “Tu m’as touché”. Mas o mundo digital faz-se também deste desprendimento (não me habituo), aprendemos a aceitar que os outros têm diferentes motivos para aqui chegar e por diferentes razões nos abandonam; acredito que a decisão de partir sem regresso os beneficie. Este mundo é bastante mais efémero que o outro; nele, nunca saberemos a mais ou menos segura verdade dos outros, a ficção pode acompanhá-los sempre, sem que demos conta. Que, se não os conhecermos e pudermos tocar, podem ser sonho que eles mesmos constroem na nossa mente. Mas, se até nesta condição contribuem para prosseguir viagem, que estejam ou partam e façam como entenderem. Não é afinal esse o espírito?!

        Este mundo vai-se fazendo com os que chegam e permanecem. Ainda que em modo "faz de conta", temos de reconhecer que até a ilusão precisa ser consistente:)

        Bom Carnaval, gente!!! Que a quaresma já nos espreita por entre os pingos da chuva.

     Um abraço