E logo uma viagem embebida em
saudade na linha de Cascais a que chamo linha do Estoril e, no
presente, só acontece por ter de ser, em nome de uma amizade outra e
antiga. Entro no comboio com a sensação de que maculo o passado.
Sei que a sacralidade se evolou: não sinto a ansiedade antiga que me
precipitava o coração mal punha o pé na gare do Cais do Sodré e
me deixava embasbacada no destino, olhos parvos virados ao mar,
pensando que ela o via todos os dias lá de cima e que, porventura,
uma vez ou outra, frequentasse o comboio. É assim o amor, quer pisar
onde pisam os pés de quem gostamos, ter o gosto de olhar o que vêem
os olhos do outro, imaginando o que sentiu ou sente quando abre a
janela ou apenas corre a mão de habitual delicadeza no étamine
simples que conheci nas janelas e tão adequado ao despojamento
próprio. Quanto eu gostei e gosto dessa filha do Douro e de Poiares
da Régua que como tantos dedicaram a vida ao vinho do Porto que inda
provei por bondade sua. Depois saía do impasse comovido e começava
a subir até ao destino. Na escadaria até à porta principal, o meu
coração entontecido transbordava. Tocava a campainha, entrava e
aguardava na sala de visitas o suave roçagar da roupa, já que os
passos eram silentes. Ela entrava e trazia consigo o odor a lavanda.
Em sua homenagem (alguns lhe ofereci), mora no meu quarto um Ach Brito que gosto de aspirar. É um bocadinho da minha força diária.
Desta
vez, rodeada por bandos de garotos destinados à praia e turistas que
rumavam a Cascais e Belém, toda eu era olhares ao relógio do
telemóvel. Não sei porquê, mas deparar com o forte onde
permaneceram os presos políticos e admirar os longes do Bugio,
emociona-me. Nada na beleza daquele mar me afecta tanto como a imensa
solidão do farol e mais as histórias que deve guardar, ou a prisão onde vi a firmeza delicada de Sophia segurando uma flor, enquanto nascia a liberdade dos presos políticos nesse imortal Abril de setenta e quatro. Vou
contando as estações e, por fim, saio, subo até à paragem de novo
autocarro e entro grata à boa vontade do motorista que já partia.
À
medida que nos afastamos, surgem moradias desarrumadas e rotundas
novas e espaçosas. De quando em vez, um aglomerado de casas antigas,
ruas estreitas, velhos amarelentos nas portas de café, o ar pesado
de barbas por fazer e mulheres guardadas não sei onde, a contrastar
com o panorama do primeiro autocarro, turistas leves e felizes embora
um pouco desorientados na balbúrdia, a patine de Lisboa antiga
percorrida por solta garridice juvenil em roupas claras ou
alegremente coloridas, pernas e braços ao léu, chapéus e bonés a
salvar alguns turistas pouco habituados ao calor do sul europeu. Uma
chusma de automóveis estacionados causa os malabarismos do trânsito e, de onde em onde, na vez das rotundas desafogadas, um
edifício com pergaminhos e história, imagino que lar possível de
grandes senhores de antanho. No subúrbio, os ossos do autocarro chocalham a
amargura sofrida em anos e anos de trabalho e maus tratos. É outro
país. Passei Tires e, por mais olhares, não descortinei a prisão.
Enfim, chego e cumpro a visita que me propus.
O
tempo corre a maratona quando conversamos com quem vive intramuros e
tudo pergunta do mundo conhecido. Saio para o transporte, mas a
tecnologia barra-me a saída. Corro abaixo e acima a queixar-me que
estou presa e que e que… a porteira, velha e coxa, acompanha-me de
comando na mão a resmungar, “mas eles vieram arranjar o portão
hoje mesmo”; e vai descendo e carregando no botão do comando. A
meio do percurso, o portão começa a deslocar-se e corro desentraitada
até à paragem gritando obrigados enquanto atravesso a estrada. E o
autocarro já lá, no seu posto. A bondade dos dois motoristas de
autocarro é directamente proporcional à velhice e achaques dos
mesmos. São dois bons homens guiando viaturas em mau estado. Também este motorista esperou por mim. Se não fora a
simpatia de ambos teria perdido o comboio para casa.
No regresso, continuamos a chocalhar. Quão diversos são estes
passageiros. Quase todos negros. Verifico a presença de gente nova,
sobretudo raparigas. São lindas, quase todas de cabelo natural e
apanhado (o dia está quente) aqueles olhos grandes e negros com a
expressão que me parece sempre a do bambi dos desenhos animados: têm
qualquer coisa de líquido, digo que relampejam ternura dos
trópicos. Estas garotas não são alegres e barulhentas como os
garotos da praia, mas terão a mesma idade. Todas vestem calça de
ganga azul clara ou branca, cintura alta de vespa (vespíssima, diria
Pessoa), esguias de não destoar de qualquer modelo de passerelle.
Seguem sérias e sem conversa. Não parecem ir de passeio. Talvez se destinem ao turno das dezasseis à meia noite. Ali, toda a gente parece ganhar
o pão com a força dos braços e não em trabalhos “limpos” como
diziam os mais antigos que eu. Talvez sirvam à mesa, sejam
cozinheiras e ajudantes de cozinha, façam o serviço doméstico em
algumas casas, vão buscar os meninos de boas famílias à escola.
Sentadas defronte, duas loiras
postiças falam de unhas de gel, uma delas mostra as mãos acabadas
de retocar, talvez para convencer a parceira que tem o verniz em
decadência, duas ou três unhas descascadas por inteiro. Saem ambas
de braço dado, facto tão bonito quanto em desuso. Vi-as dobrar uma
esquina, decerto em busca de destino comum.
No
comboio de regresso, a viagem de pé fazia-nos olhar (e invejar) quem
vinha da praia e conseguira sentar-se. Os sentados dormiam a sono
solto, pendendo a um lado e a outro, eu temendo pela cabecita suada
da criança que tombava dos braços da mãe, ela mesma em crise de
sonolência. O poder do ar condicionado, perante a multidão invasora
e estoirando de calor, era nulo. E nós de estátua, à mistura com
cadeiras de praia, chapéus de sol, colchões enrolados e esteiras,
crianças quase submersas mas ainda assim agarradas a sacos de baldes
e pá, mochilas de campismo, canas de pesca e sei lá que mais.
Enfim, um mar de gente e de artigos de praia e mar que não nos davam
espaço para cair e que, com grande esforço e muito empurrão
simultâneo ao consciencioso, “com licença, com licença, é para
sair, com licença”, se apertava a dar passagem aos felizes
contemplados.
Promessa:
não repetir a viagem em tal horário.