domingo, 30 de agosto de 2026

Memórias de bolso

 

        Contudo, depois de muito instada, minha mãe afirmou conhecer-lhe os pais, dizia-me que ela fora menina como eu, facto que me custava a engolir, tinha a certeza absoluta de que nunca ela fora uma criança enfezada e perguntadeira, antes pensava nela como uma espécie de capuchinho vermelho, criatura amorável e semelhante à das historinhas que me contavam.

        Perante aquela inesperada ausência, na primeira semana pensei consternada, “está doente”, julgava que as doenças caíam em cima dos mortais com a rapidez do raio, eram um acaso infeliz, agora estou bem, agora já não estou. Contudo, tive de me render à evidência, passado o meio da segunda semana, e após mais de dez dias de ansiedade e desilusão, convenci-me: não voltaria. Então, abri cerrada inquisição dirigida às jovens que bordavam com ela. Ninguém sabia (ninguém me quis dizer?!). 

        Passava mais de um ano quando, a propósito do seu nome, lembrei a inclemência daquela falta nunca explicada. Chateei tanto minha jovem prima que ela, talvez incentivada  pelo intervalo temporal, capitulou desenrolando o segredo: a garota fora proibida pelo pai que era homem de temer, batia na mulher e na filha e não as deixava pôr pé fora de portas: quase ninguém as via, só ele  comprava e dispunha em casa; ora ambas tinham transgredido enquanto ele trabalhava longe e apenas regressava ao fim de semana. E que eu não abrisse o bico. Se o monstro viesse sequer a desconfiar do que sabíamos dele, vingava-se nelas.

            Minha prima sempre pendeu para o trágico pelo que gravou em mim algumas imagens que me violentaram a imaginação e nunca esquecerei, pintava-me quadros bem negros acerca da nossa condição de mulheres e do que me esperava e ela já conhecia, mas, no tocante a Inês, não duvidei: revi o semblante da jovem, bailava-lhe nos olhos a alegria de frequentar a sessão de bordados; reparara ainda que a despedida no fim de semana divergia, era reticente. Se alguém inquiria, vens na Segunda(?), o rosto anuviava e ela era dúbia e entristecida, não lhe vinha o sorriso diário dos "até amanhã". Mas num ápice voltava ao seu ser de alegria comedida e eu assumia tudo por conta de brincadeira comum. Era frequente haver entre elas segredinhos e risos que nos intrigavam - não entendíamos nem víamos razão para tanto secretismo e tomávamos como fazendo parte de serem mais velhas, uma vez que as nossas perguntas ficavam no ar ou apenas provocavam mais risos contidos que nos reduziam à condição de infância ignorante e nos calavam a boca enquanto a mente  remoía. Portanto, mal o segredo me foi desvendado, condoí até às lágrimas e lamentei de alta voz não ter tido conhecimento no tempo certo. Via-a interpôr-se entre pai e mãe e não me impedi de pintar a sua sorte com nódoas negras por todo o lado e muita lágrima de desgosto e dor. Imaginava-lhe os braços tentando proteger-se dos golpes que, quem sabe, se dirigiam à mãe, a principal responsável pelo dislate. A minha experiência de vida não ajudava ao quadro: as crianças frequentavam a rua, a casa servia para refeições, trabalhos de casa e sono nocturno. Uma criança confinada ao lar estaria doente. Pensei no quanto gostaria de acompanhá-la em cativeiro (nunca me veio o pensamento de que a minha presença podia não ser desejada e não ajudar; de resto, que faria ela com a miniatura que eu era?!), mas minha peremptória prima cortou cerce: não saía de casa, nem aceitava visitas; para mais, morava “nos foros de cima”; ora eu desconhecia tal paradeiro.

         Quando expus a questão a minha mãe ela apenas murmurou, “Os homens dessa família têm todos mau feitio; coitadinha da Inês e da mãe”. E senti naquela afirmação uma tristeza funda, como se uma parte de minha mãe lhes pertencesse também; era como se dissesse, "não há maneira de alguém lhes valer". Senti-me embater num impossível que não era a morte. Desconhecia que vivemos rodeados de impossíveis e o caminho se faz a construir possibilidades não infalíveis. Não me lembro do que pensei por haver uma família com gente tão malvada, mas desconhecia-os a todos e, como é natural da mente infantil, fui esquecendo o desgosto e também Inês. Aprendido o ponto-pé-de-flor, tive autorização materna para abandonar os bordados e dediquei-me a interesse que as carrinhas da Gulbenkian propiciavam, bem como à “Fagulha”, revista que uma professora condescendente me dava a ler.

        Ignoramos a imagem legada aos outros, sobretudo aqueles em quem nunca reparamos: porque não são da nossa idade ou porque são, por terem outra condição e outros problemas ou os mesmos, porque cruzamos com inúmeras pessoas todos os dias da nossa vida fremente. Acredito ser nesses outros em que não pensamos, nesses que nos vêem um dia e outro sem que deles demos conta, que podemos deixar imagens mais próximas do eu que somos e, tanta vez, nós mesmos ignoramos. Não sei se me ajudou a viver melhor, mas, ao invés do que parecia, acredito que também Inês é presença na minha vida e me construiu, está dentro de mim como tijolo em parede. Guardo ainda a imagem do bordado a crescer enquanto nos embalava na canção que preferíamos e de que me ficou um pedaço da letra, “conta a lenda que um certo mouro à noitinha ia namorar com as ninfas do rio Douro ao luar”. Garota de escola, não sabia o que eram ninfas; e nem precisava saber.

(cont.)

domingo, 23 de agosto de 2026

Memórias de Bolso

 

        Sem que ela o soubesse, havia entre nós um elo secreto. Bastava ouvir-lhe a voz e já pensava em minha mãe, alguma coisa de mavioso e comum lhes passeava pelas cordas vocais. Acertavam-se ainda na inata percentagem de delicadeza e bondade. O rosto da senhora costureira, amarrotado de rugas, tinha o toque de papel de seda. Vestia de negro cerrado (lenço e tudo) desde que a única filha lhe morrera de cancro.

        Conheci a filha antes da mãe. Jovem de beleza delicada, olhos de Audrey Hepburn e mãos de fada (aprendia a bordar), encantava-nos vê-la debruçada sobre o pano, a agulha indo e vindo na sua mão pequena, a outra atida ao bastidor, simétricas na elegância de dedos e unhas ovaladas; ainda sei a forma como cortava as linhas do bordado, usando tesoura pequena de bicos revirados e que eu julguei anómala até ouvir a explicação. E petrificava a mirá-la em vez de tentar o ponto pé-de-flor que me aborrecia de morte e antes admirando o crivo que lhe nascia em cadência segura, num diálogo entrosado entre mão e pano, auxiliados por agulha, linha, tesoura e bastidor; recordo-lhe o rosto inclinado e levemente penumbroso, a ondulação ligeira do cabelo moreno sempre presa do lado esquerdo com um laço de fita. Além da beleza, a garota tinha certo ar seráfico e parecia-me tê-la visto num santinho da caixa de minha mãe; ainda não me existia Audrey Hepburn, que, nesse âmbito, dava dois-zero a Santa Maria Goretti.

        Tudo se concentrou nas sessões de bordado que juntavam várias raparigas e aconteciam durante a tarde; ora as gaiatas da escola, terminadas as aulas, juntavam-se ao grupo e tentavam pontos fáceis no que então se chamava de “Centro Social”. Saindo a porta, eu desatava a correr com o objectivo de a ouvir cantar. Minha mãe raro cantava fora da igreja e voz como a dela, mas cantando pagão, jamais ouvira. Se puxar pela memória não recordo mulheres cantando; tampouco raparigas; lembro-me de rapazes que assobiavam modinhas simples e de alguns homens tocando em gaita de beiços. 

         Para minha mágoa, e contrariando o meu desejo, existiam tardes em que chegava e já o canto terminara. Entristecia. Nos dias em que a sorte se plantava do meu lado, depois de muito instada pelas demais jovens (tímida, a garota), ouvi-la era o cume da perfeição. Sempre debruçada para o trabalho de mãos, levemente ruborizada, siderava-nos o encanto daquela voz abençoada. Envolvidas pela melodia sentíamo-nos elevadas a um mundo melhor, mergulhadas em sonho e mansidão, aspectos a que o nosso quotidiano era estranho. Uma vez li que um ateu se tornou contrito católico depois de entrar casualmente numa igreja e ter visto uma garota rezando. Ora creio que todas as que escutavam tão belo canto sentiam o impulso de um mundo de beleza; a voz de Inês era chave que abria em cada uma de nós portas ignotas, desde sempre presentes. Inês não era bem da minha terra, dizíamos que vinha “dos foros de cima” e não me parece que alguma vez tenhamos “chegado à fala”. Nós éramos a revoada de crianças que, em alarido, invadia a aula de bordados; elas eram raparigas, por vezes imersas em inesperado segredar, sorrindo cúmplices não sabíamos de quê, o que sobremaneira nos irritava um bocadinho – podiam estar a rir de nós. Inês como que pairava acima desse secretismo cúmplice e feminino que lhe invejava a pele de porcelana fina e a figura estilizada que desprendia pureza e fragilidade. Criança desvairada, decerto lhe senti a diferença já que me parecia uma rapariga inventada, aparecera de repente, encantara-nos, e um dia, sem explicação, desapareceu.

(cont.)

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Memórias de Bolso

 

        Pronto, podem dizer que, no princípio, as telenovelas eram de qualidade superior, que com elas se deu a renovada descoberta do Brasil, que os actores eram soberbos, que os textos bem interpretados criavam o suspense necessário, que a novidade conquista por si mesma, etc. Tudo verdades indesmentíveis, o etecetera incluído. Mas é que me parece que do lado do espectador também houve mudança. Que olhar é o nosso sobre a TV?! Pois é, julgo que reina o futebol e seus conjuntos de andarilhos, entre jogos, comentadores, telejornais longuíssimos que, é claro, também abordam o futebol, mais os canais clubísticos que não vejo nem de raspão, mas é possível adivinhar o assunto. Sou das pessoas menos adequadas para comentar os temas televisivos, cujos, efectivamente, não vejo. Os canais de notícias – onde há telejornais a todo o momento – repetem novidades, entrevistas e vídeos vezes sem conta. E eu que até sofro de alergia a telejornais e ando a leste de quase tudo excepto guerras, fogos, refugiados, futebol e os tristes manda-chuvas do mundo, dou por mim a pensar que já sei coisas demais e que é provável que quem papa as notícias como galinha a milho, não saiba muito mais. Ou sim, mas de pouco serve. É evidente que falo do comum mortal e não de profissionais da notícia. Quase parece que incentivo ao desconhecimento, mas existe – posso enganar-me – excesso de informação sempre a mesma e que não induz à acção. É a banalidade de tudo e não apenas do mal, embora este se revista das mais nefandas consequências. O apelo à carneirada permanece e é bem sucedido

        Em contraponto, lembro uma senhora costureira que conheci e me chamava de menina Bea, deferência que, à época, era a única a utilizar. Conversávamos bastante enquanto me costurava mangas e alinhavava cós de saias. Chegada na minha acelera, ela abria a porta e punha as mãos na cabeça, ai menina Bea que me esqueci que era este sábado e não tenho as suas coisas em prova. Eu nem sempre sorria, mas voltava a montar o meu cavalo a gasóleo (ou seria gasolina?), andava mais uns quilómetros e visitava minha mãe em sua silenciosa morada. À volta, ainda ela ia a meio, mas preferia esperar. E “metíamos conversa” enquanto ela, sentada na cadeira da máquina de costura, dedal no dedo, ia alinhavando bocados de pano uns aos outros e eu escolhia um dos banquinhos baixos das aprendizas. Mulher mais infeliz não conheci. E tinha do mundo e dos outros a melhor opinião. Jamais a ouvi queixar-se de alguém. Para a sua alma cândida todos eram boa gente e em tudo via algo bom. A propósito da televisão que não tinha, calhou uma tarde de sábado dizer-me enquanto os pontos me enformavam a roupa, Olhe menina Bea, eu gosto muito da televisão. Nunca vejo, mas às vezes vou aqui ao lado a casa do meu filho Manuel dar um recado ou saber se está tudo bem com eles e estão a dar anúncios. Que coisa tão bonita! Fico encantada a vê-los, as pessoas falam tão bem e são tão agradáveis, aquilo é mesmo bonito….nunca vi uma telenovela nem um filme, mas deve ser bom ter uma coisa assim em casa e poder uma pessoa sentar-se descansada a olhar para as histórias que contam. Falta-me tempo, a minha nora até me chama para ir ver uma noite de teatro, mas não posso. 

        Tudo lhe saía em voz melodiosa e serena mas o “não posso” ouvi-o tão dolorido e cheio de impossíveis que me comoveu. Talvez ela não o soubesse, mas era-me fácil imaginar a carga que a amarrecava. Difícil era, conhecendo-lhe a vida, compreendermos o brilho interessado do olhar e a genuína alegria da sua alma simples no deslumbre do quotidiano alheio.

(cont.)

domingo, 16 de agosto de 2026

Memórias de Bolso

 

        No molho desatado de acasos e destino, tenho de convir que me calharam factos memoráveis. Pormenores que arrumei nos desvãos da alma mas nem por isso esqueci. E cada um deles merecia ser contado tal a diacronia que os levou a permanecer. Contudo, se acaso me assaltam a memória, não deixo de compará-los com factores hodiernos; sem a busca de similitudes que talvez sejam causa da lembrança. Ou nada disto. O certo é que me chegam à memória quando deveriam estar como balde e esfregona: arrumados e invisíveis aos olhos (neste caso, da alma). Porém a memória é quem é. E gratia plena por sê-lo.

        Quando, por exigência profissional, eu calcorreava este e aquele lugar, a senhora Z recebeu-me de braços abertos em sua casa; cedeu-me o quarto melhor – o seu - e passou a dormir na sala. E este favor não foi pago nunca, apesar da mensalidade que lhe era devida. Ora esta mulher tinha uma família grande e dois dos filhos e mais os netos coabitavam com o casal. A casa era uma fonte de gente. Era o tempo de a TV ter hora de abertura ao fim da tarde e fecho com a bandeira nacional e hino, já não recordo a que horas uma e o outro. Acontece que, apesar do barulho, a senhora Z considerava a TV como única companhia fiel; acendia-a durante a tarde, horas antes do início da programação. E era vê-la a rodar (ou calcar) o botão, com o ar satisfeito de quem procura a porta de amiga especial. No écran surgia o símbolo RTP rodeado de figuras mais ou menos geométricas que variavam entre a penumbra cinzenta, o branco e o negro. E havia música até começar a emissão. Dava-lhe alento, dizia. Não era uma mulher sorridente, o que denunciava abundância de escolhos que, curiosamente, se desvaneciam na presença da TV. Não que escutasse a música ou pudesse sequer fazê-lo – havia vozes que altercavam, o mais das vezes, aos berros – forma de os irmãos falarem uns com os outros. No meio disto, as crianças choravam ou brigavam por este ou aquele objecto, ela irritava-se aos gritos, decibéis em crescendo, as cortinas que faziam a separação dos quartos, acediam à guerra e, como soi dizer-se no meu lugar de origem, “andavam num badanal”. Ninguém ouvia a TV ou ligava a notícias, a TV era mundo independente, fazia o que queria sem que alguém mudasse canais ou acusasse a heresia de lhe baixar o som, facto que deixava a matriarca fora de si. Era um sufoco. Como se alguém tentasse esganá-la, vociferava, Vocês querem matar-me? Deixem o aparelho, só quem mexe nisso sou eu, ouviram? – e rodava o botão para a posição inicial ou, por pirraça, levantava o som. O gesto era tão enfático que eu esperava o dia em que a peça lhe ficasse na mão, o que nunca sucedeu.

        Chegadas ao cume do possível e perante a voz e comando, as altercações baixavam de tom, um ou outro membro desaparecia atrás da cortina que ficava a oscilar de raiva, e a discussão que já prometia pancada, perdia interesse. Quanto à TV, asseguro: era rainha incontestada, apenas emudecida após o hino nacional e quando o che...che….che….de final de emissão se fazia notar.

        Neste quotidiano sem falhas, fazia-se um intervalo de silêncio para ouvir a telenovela “Gabriela cravo e canela” interpretada pela sensualíssima Sónia Braga que não se poupava a momentos de erotismo caricioso onde o romantismo escondido dos tugas se espanejava surpreso. Ignoro se a telenovela melhorou a vida sexual portuguesa, mas que conseguiu silêncios profundos, conseguiu. Em casa da senhora Z, não foram poucas as brigas entre cunhados, irmãos, primos, avós e etc, que sanaram ao som da música da anunciada telenovela. Eu assistia siderada a esta paisagem humana e mais me parecia uma espécie de fenómeno da anunciação à Virgem – era o templo e o tempo do respeito absoluto.

        Foi no ano em que frequentei o propedêutico, as aulas mediadas pela televisão. É claro que não pedi para assistir a emissão naquela TV de companhia. Comprei um mini televisor que via no quarto com bateria. Zelei pelo bem comum.

(Cont.)


domingo, 9 de agosto de 2026

Cronologia dos Domingos

 

        O domingo nem sempre foi este marasmo aversivo. Na infância, o domingo era o melhor dia; o reverso da medalha veio vindo com os anos, teve fases como a lua, antes de se deter no eterno presente, mesquinho de tão vulgar e anódino. Nada acontece ao domingo.

        Minha mãe preparava o domingo de véspera. Banhava-nos com cuidado todo próprio, um de cada vez, a ternura subjacente à necessidade. Ao domingo dormíamos um pouquinho mais e a mãe desmanchava e refazia-nos as tranças e armava no cucuruto do mais novo/a um caracol que enrolava com o dedo e a ajuda de água e pente. Não tenho memória de ajudá-la e julgo que enquanto ajeitava o almoço ou tratava do asseio pessoal eu devia ler ou fazer trabalhos escolares. Nada sei das manhãs de meu pai e nem recordo uma vez em que tomássemos juntos o pequeno almoço. Aos domingos éramos nós e a mãe que nos enviava na frente para não haver atraso à missa. Mas ela entrava quase a meio e nós, desatentas, virávamo-nos para trás uma vez e outra, vigiando o caminho. Em mim, a função só iniciava se ela estava presente. E tanta vez lhe soube da presença pelo trinado límpido e puro da voz a prolongar os cânticos. Diziam-me os mais velhos que fora uma rapariga alegre, a quem as camaradas pediam que cantasse enquanto trabalhavam os campos. Ignoro se meu pai lhe gostaria da voz e apenas uma vez a ouvi cantar em casa. Depois, havia outro motivo para gostar de domingos, o almoço era sempre um pouco diferente, o que agradava a todos, meu pai já ressuscitado de onde quer que estivesse. Algumas tardes visitávamos com a mãe os avós maternos e era para nós uma alegria fazer três quilómetros a pé, minha mãe carregando sempre o mais novo/a. Passávamos por um pinhal para encurtar caminho e esse trecho era o mais apetecido. Além dos pinheiros penumbrosos que me lembravam os contos que lhe ouvia, onde aconteciam coisas extraordinárias em que eu acreditava piamente ainda que minha mãe fosse avisando que era só história que alguém inventara,  havia flores silvestres de beleza frágil e colorida e muita bicharada que me levava a saltos e gritos palermas: ele eram porcos espinho lentíssimos atravessando o caminho, cobras que resmalhavam soturnas a centímetros das minhas pernas, lagartos inertes na soalheira, guardando no sangue frio o calor que lhes faltava e que fugiam a sete pés mal nos pressentiam, eu saltando para trás que nem gazela assustada e a palavra mágica num berro, "Mãããeeee!"; ela sorrindo, "tonta! Eles fogem com medo de ti, andas aos saltos por todo o lado". Mas esta verdade não satisfazia os tremeliques das pernas nem o baque do meu coração amedrontado. Uma vez ou outra cruzava-nos um homem que nos saudava pedalando pela mesma vereda e fugindo às areias imensas da estrada de carroças que no inverno era uma poça só e de que nos desviávamos em cuidados de não escorregar, minha mãe dando-nos a mão à vez, a fim de a água não nos empapar o calçado.

        A adolescência, mais tumultuosa, desmanchou-me o ritmo inicial dos domingos e iniciou-me em correrias múltiplas. Contudo, tentei imitar minha mãe na sequência das funções. Às tardes visitávamos meu avô uma vez ou outra. Quando me entrou a juventude fiz os meus domingos e ainda os desejava apesar do trabalho que me exigiam a fim de aplanar a semana que não seria fácil sem eles. Abençoava-os, mas terá sido por aí o primeiro desencanto, ainda leve, um tamanho de futuro sem fim à vista.

        O casamento e os filhos, por sua própria natureza e não apenas, foram tragando a alegria dos domingos. E quando dei por tal, o domingo era o dia da semana de que menos gostava e aquele em que mais me cansava. Sem saídas e com bastante trabalho a pesar-me, comecei a abominá-lo. Ao invés da maioria, amava a segunda-feira, desejava o emprego e as horas que nele gastava. Dava-me prazer, relaxava-me falar com os colegas, ou apenas encontrá-los e observá-los na lufa-lufa quotidiana. Exceptuando os últimos anos, a profissão animava-me grandemente.

        Continuo a abominar os domingos embora já não me deixem extenuada. São dias calmos e isolados, mais isolados que os restantes. Mas vejo filmes, leio livros, tenho o tempo que faltou sempre a minha mãe. Devo ser uma sortuda, mas é que não dou por isso. Pobre e mal agradecida:)

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Um Mar de Sargaços

 

        Na minha aldeia que não chega a sê-lo - é um lugar -, segmento balizado na beira da Nacional por duas placas, existem algumas singularidades das que caracterizam lugarejos breves e tão sem importância que nem constam dos mapas. Teve um nome antigo que poucos conhecem: era feminino e aludia à natureza do solo - inda hoje não consigo entender se aquela designação da Nacional, que lhe assinala princípio e fim, é masculina ou feminina. Quem a terá inventado?! Preferia esse nome que lhe delatava a natureza do solo e tinha género. O actual, definitivo e andrógino, pende para o masculino.

        Pois neste lugar de abundante pobreza, tudo foi difícil; não chegava a electricidade e a água vinha dos poços e era emprestada ou vendida a terceiros – nem todos tinham a benesse de poço próprio e a situação mais comum era a da partilha, o poço era aberto pelo esforço dos homens interessados em ter água sua e situava-se no limite dos terrenos, metade para cá metade para lá. Que me lembre, a partilha da água era pacífica. É verdade que abundavam brigas de taberna e sovas nas mulheres com maridos de mau vinho ou pior carácter. Em compensação, muito ali aportava e havia indulgência geral para casos escabrosos: homens com duas e três mulheres, todos cohabitando a mesma casa em preclara harmonia, sem gritos ou ciúme que se notasse; irmãos que viviam maritalmente como coisa natural; gigantes descalços e brutos de feição, com alma de infância que as crianças não reconheciam fugindo deles a sete pés; mulheres asseadas e trabalhadoras, cheias de filhos, cada um de seu pai, mas que conservavam o marido primeiro que todos conheciam por "corno manso", um senhor bem apessoado que não trabalhava ao campo, usava gravata e fora adoptado pelos autóctones; amantes de só de noite e muito sui géneris por serem ambos livres e muito se esconderem com pontinhas de rabo à vista; senhores importantes que ali depunham as suas meninas que os nativos mal tinham ensejo de espreitar porque viviam na clausura de  casas-castelo, uma formosura de sebe-soldado a defendê-las. Tinham estatuto e modo de vida acima da populaça, não se misturavam e saíam de automóvel apenas com os protectores. Eram supremamente admiradas pela condição de saberem prender a si gente graúda.Os filhos dessas relações frequentavam a escola de todos e eram admirados por qualquer: vestiam bem, comiam lanches invejados até ao anátema do sonho, usavam material escolar diferente e muito mais bonito e tinham todo ar citadino que nos faltava. Enfastiados, bebiam sumos de laranja em frasco,  que levávamos ao limite da inveja.

        É evidente que, como em lugares semelhantes, havia e inda há algum vocabulário próprio e de uso corrente a acompanhar costumes e hábitos: Limitamos o termo “aventar” a “deitar fora”; não se diz “vou a casa de”... mas: “vou à da/do”; e dizemos, “estou desasada” querendo referir-nos a um cansaço extremo provocado por trabalho extenuante. 

    Também eu, se partes, quando partes, fico “desasada” no sentido mais estrito e não usado por cá: levas contigo as minhas asas, fico na terra, focinho rente ao chão, olhos de cão mal morto. Contudo, o amor tem de ser leve ao outro, não posso e nem quero deixar-te perceber o peso da tua ausência. Podia utilizar termo mais bonito, mas somos de onde somos, "desasada" é a a forma que me pertence. E que a vida te não pese e sejas feliz.

domingo, 2 de agosto de 2026

O Copo Meio Cheio

 

        Hoje prometo festejar-te. Vieste. Por mim. Não interessa que seja um dia de trabalho e tenhas reuniões umas atrás das outras. Por mim te levantas cedo e almoças em minutos. Sei que esses minutos de descanso existem por um motivo: ganhares tempo ao fim do dia. E prometo dar-te do que preferes: vou cuidar que o vinho esteja bem gelado e o petisco saia a preceito.

        Prometo não lanchar de avental e usar um vestido que achas bonito. Prometo que chego a beber um nadinha de vinho que adultero para um brinde enquanto tu, em ritual de desaprovação, franzes o rosto sorridente.

        Mais tarde, prometo uns doces e uma sangria de champanhe para as tias e não te forçar a estar presente. E prometo o que nem é de prometer: gostar sempre de ti e ser grata à vida e ao Deus que te trouxe até mim. Porque és um dos meus doces enlevos, filho. Ter-te hoje por perto, significa.


quarta-feira, 22 de julho de 2026

Esta Lisboa que Amo

 

         E logo uma viagem embebida em saudade na linha de Cascais a que chamo linha do Estoril e, no presente, só acontece por ter de ser, em nome de uma amizade outra e antiga. Entro no comboio com a sensação de que maculo o passado. Sei que a sacralidade se evolou: não sinto a ansiedade antiga que me precipitava o coração mal punha o pé na gare do Cais do Sodré e me deixava embasbacada no destino, olhos parvos virados ao mar, pensando que ela o via todos os dias lá de cima e que, porventura, uma vez ou outra, frequentasse o comboio. É assim o amor, quer pisar onde pisam os pés de quem gostamos, ter o gosto de olhar o que vêem os olhos do outro, imaginando o que sentiu ou sente quando abre a janela ou apenas corre a mão de habitual delicadeza no étamine simples que conheci nas janelas e tão adequado ao despojamento próprio. Quanto eu gostei e gosto dessa filha do Douro e de Poiares da Régua que como tantos dedicaram a vida ao vinho do Porto que inda provei por bondade sua. Depois saía do impasse comovido e começava a subir até ao destino. Na escadaria até à porta principal, o meu coração entontecido transbordava. Tocava a campainha, entrava e aguardava na sala de visitas o suave roçagar da roupa, já que os passos eram silentes. Ela entrava e trazia consigo o odor a lavanda. Em sua homenagem (alguns lhe ofereci), mora no meu quarto um Ach Brito que gosto de aspirar. É um bocadinho da minha força diária.

        Desta vez, rodeada por bandos de garotos destinados à praia e turistas que rumavam a Cascais e Belém, toda eu era olhares ao relógio do telemóvel. Não sei porquê, mas deparar com o forte onde permaneceram os presos políticos e admirar os longes do Bugio, emociona-me. Nada na beleza daquele mar me afecta tanto como a imensa solidão do farol e mais as histórias que deve guardar, ou a prisão onde vi a firmeza delicada de Sophia segurando uma flor, enquanto nascia a liberdade dos presos políticos nesse imortal Abril de setenta e quatro. Vou contando as estações e, por fim, saio, subo até à paragem de novo autocarro e entro grata à boa vontade do motorista que já partia.

        À medida que nos afastamos, surgem moradias desarrumadas e rotundas novas e espaçosas. De quando em vez, um aglomerado de casas antigas, ruas estreitas, velhos amarelentos nas portas de café, o ar pesado de barbas por fazer e mulheres guardadas não sei onde, a contrastar com o panorama do primeiro autocarro, turistas leves e felizes embora um pouco desorientados na balbúrdia, a patine de Lisboa antiga percorrida por solta garridice juvenil em roupas claras ou alegremente coloridas, pernas e braços ao léu, chapéus e bonés a salvar alguns turistas pouco habituados ao calor do sul europeu. Uma chusma de automóveis estacionados causa os malabarismos do trânsito e, de onde em onde, na vez das rotundas desafogadas, um edifício com pergaminhos e história, imagino que lar possível de grandes senhores de antanho. No subúrbio, os ossos do autocarro chocalham a amargura sofrida em anos e anos de trabalho e maus tratos. É outro país. Passei Tires e, por mais olhares, não descortinei a prisão. Enfim, chego e cumpro a visita que me propus.

        O tempo corre a maratona quando conversamos com quem vive intramuros e tudo pergunta do mundo conhecido. Saio para o transporte, mas a tecnologia barra-me a saída. Corro abaixo e acima a queixar-me que estou presa e que e que… a porteira, velha e coxa, acompanha-me de comando na mão a resmungar, “mas eles vieram arranjar o portão hoje mesmo”; e vai descendo e carregando no botão do comando. A meio do percurso, o portão começa a deslocar-se e corro desentraitada até à paragem gritando obrigados enquanto atravesso a estrada. E o autocarro já lá, no seu posto. A bondade dos dois motoristas de autocarro é directamente proporcional à velhice e achaques dos mesmos. São dois bons homens guiando viaturas em mau estado. Também este motorista esperou por mim. Se não fora a simpatia de ambos teria perdido o comboio para casa.

        No regresso, continuamos a chocalhar. Quão diversos são estes passageiros. Quase todos negros. Verifico a presença de gente nova, sobretudo raparigas. São lindas, quase todas de cabelo natural e apanhado (o dia está quente) aqueles olhos grandes e negros com a expressão que me parece sempre a do bambi dos desenhos animados: têm qualquer coisa de líquido, digo que relampejam ternura dos trópicos. Estas garotas não são alegres e barulhentas como os garotos da praia, mas terão a mesma idade. Todas vestem calça de ganga azul clara ou branca, cintura alta de vespa (vespíssima, diria Pessoa), esguias de não destoar de qualquer modelo de passerelle. Seguem sérias e sem conversa. Não parecem ir de passeio. Talvez se destinem ao turno das dezasseis à meia noite. Ali, toda a gente parece ganhar o pão com a força dos braços e não em trabalhos “limpos” como diziam os mais antigos que eu. Talvez sirvam à mesa, sejam cozinheiras e ajudantes de cozinha, façam o serviço doméstico em algumas casas, vão buscar os meninos de boas famílias à escola.

        Sentadas defronte, duas loiras postiças falam de unhas de gel, uma delas mostra as mãos acabadas de retocar, talvez para convencer a parceira que tem o verniz em decadência, duas ou três unhas descascadas por inteiro. Saem ambas de braço dado, facto tão bonito quanto em desuso. Vi-as dobrar uma esquina, decerto em busca de destino comum.

        No comboio de regresso, a viagem de pé fazia-nos olhar (e invejar) quem vinha da praia e conseguira sentar-se. Os sentados dormiam a sono solto, pendendo a um lado e a outro, eu temendo pela cabecita suada da criança que tombava dos braços da mãe, ela mesma em crise de sonolência. O poder do ar condicionado, perante a multidão invasora e estoirando de calor, era nulo. E nós de estátua, à mistura com cadeiras de praia, chapéus de sol, colchões enrolados e esteiras, crianças quase submersas mas ainda assim agarradas a sacos de baldes e pá, mochilas de campismo, canas de pesca e sei lá que mais. Enfim, um mar de gente e de artigos de praia e mar que não nos davam espaço para cair e que, com grande esforço e muito empurrão simultâneo ao consciencioso, “com licença, com licença, é para sair, com licença”, se apertava a dar passagem aos felizes contemplados.

        Promessa: não repetir a viagem em tal horário.

domingo, 19 de julho de 2026

Esta Lisboa que Amo

 

        Ir a Lisboa faz-me bem à alma. Desencrava-me, vejo gente, entro em lojas, corro de um lado a outro porque tenho poucas horas para muita função. E apesar disso, gosto.

        Viajando de carro, vou pensando pelo caminho no que esqueço em outras horas. O quotidiano encarreira para o comezinho, espapaça-nos o tempo em mesquinhices tão necessárias como “aborrecentes”, para citar uma das filhas de Lobo Antunes na sua contundente linguagem de infância. Portanto, em viagem ganho espaço mental: penso nos meus amigos, no quanto os gosto e no desejo de visitá-los; e penso nesses que nunca vejo e de quem tenho inexplicáveis saudades, quem sabe me esqueceram e nem merecem o pensamento; nesta pausa, erguem-se as coisas que gostaria de fazer e sei impossíveis, as que ainda posso fazer acontecer, etc. 

        Se vou de comboio - acontece menos vezes mas prefiro, leio um livro ou medito levemente na companhia -,  escolho sempre um dos dois bancos virados um ao outro e com mesa a meio. Não que precise da mesa, apenas fico de frente para duas pessoas e com outra ao lado. As “pessoas de idade” têm a vantagem de não serem notadas e poderem observar, facto hoje muito facilitado pelo uso de tablets e telemóveis. Os meus vizinhos estão mergulhados na sua pequena bolha. É raríssimo encontrar alguém com quem se possa entabular uma conversa, mas é vulgar ouvir as conversas mais ou menos longas dos meus vizinhos de viagem ao telemóvel – será porque aproveitam o tempo e súbita lhes surge a necessidade de ouvir uma certa voz (invejo-os). Quando os lugares não eram marcados, entrava atrelada a uma colega ou alguém conhecido e conversávamos a viagem toda. Hoje, viajar de comboio assemelha-se ao ovo Kinder, traz uma surpresa. Não acho mau. Gosto de surpresas (boas).

    Numa destas visitas, e já na capital, meti-me num autocarro julgando-o a via de maior prontidão. Grande lorpa! O transporte devia estar em início de viagem e deu voltas e mais voltas (apesar do google maps me dar o percurso, o autocarro chegou e atirei-me lá para dentro sem consulta prévia, olhei apenas ao destino). E só não apreciei mais a paisagem por ter hora marcada no dito destino e ver os minutos “correndo correndo sem nunca parar/caminho do rio em busca do mar” (parafraseando versos de um livro de leitura da antiga primária, acerca da água; creio). Mesmo dentro da pressa, deu para ver edifícios que devem ser soberbos, alguns dos quais não faço ideia do que sejam porque não consegui ler as inscrições que ladeavam a porta principal; mas passei por um miradouro cheio de gente e de onde Lisboa aparecia linda, vestida de telhados e folhos de brancura bordada a gosto, mais aqui e mais ali; Entrevi a entrada do Jardim Botânico e ignoro se sabia da sua existência; reparei num polo universitário mesmo ao lado e de que não fazia ideia; o Príncipe Real que nem sabia onde ficava (ainda não devo saber) e estava muito cheio de gente nova e acalorada; alguns edifícios retocados e luzindo a sua época - ignoro se apenas no exterior; outros quase em queda livre, facto que me penalizou em extremo. E os semáforos apostados no vermelho e que, se por um lado me permitiam tempo extra para os olhos, por outro, atrasavam-me ainda mais.

      (cont.)

domingo, 12 de julho de 2026

Pirilampos na Noite Escura

 

        Apazigua-nos, é dever cumprido deslocarmo-nos a lugares onde alguém discorre sobre gente das letras que admiramos. Vale em dobro se se evolou a presença física do homenageado e só na obra está presente. Que ao leitor apenas a obra interessa; a relação entre ele e o escritor é o livro. Segui a regra: vivi uma relação feliz com Lobo Antunes por mais de quarenta anos; guardo de todas as obras a boa lembrança de encontrar alguém que entende a dor, que sabe da amálgama de que somos feitos e a entende sem julgar. Guardo alguns episódios comuns que ele esqueceu e em mim foram importantes: o que marca o leitor, não tem de deixar vinco no escritor - no leitor a relação é de um para um; no escritor de um para inúmeros. Portanto, compareci numa das sessões de poesia a que José Anjos preside anualmente no Âmbito Cultural do El Corte Inglês. Receava não poder comparecer, a selecção da assistência, cada vez mais apertada, impediu-me a frequência de várias conferências e cursos no presente ano. Quis a boa sorte que, ora, estivesse presente.

        Durante a sessão ouvi ler crónicas que conheço e tenho em casa; versos de fados; poemas breves e mais longos, alguns com a verve satírica que lhe vivia na mente; entrevistas sérias e contundentes ou quase em carne viva. A meu lado uma jovem senhora bebia tudo de enfiada, o corpo inclinado para a frente; não me olhou uma única vez, não contemplou a ampla assistência; mãos no colo apertando uma malinha jovem, esguia, cabelo liso, fino e castanho a bater nos ombros, tez pálida, boca pequena e delgada que se não descerrou. Uma Nossa Senhora dos tempos modernos. Seria uma leitora voraz do autor, tanto parecia beber as palavras que escreveu. Desejei que não lhe esteja a fazer falta vê-lo, ou que apenas queira vê-lo ali, no que escreveu. Mais que ouvir o conhecido, foi ela a comover-me. Contudo, não foi sentimento geral. Quando algum público se compenetrou do “em que consistia a homenagem”, foi saindo. Há factos que me fogem ao entendimento. O que esperavam?! Uma reencarnação? Os irmãos que restam e nem sei quem sejam? A mulher se a tinha? Pelos vistos não lhes bastava a apresentação que foi fiel ao próprio Lobo Antunes “ a melhor biografia de um escritor são os seus livros”.

        E lembrei-te no confinamento a que te obrigou a doença, a cama de onde saíste para a morte, uma visita ou duas por semana. E isto durante mais de cinco anos. Vizinhas que nunca te visitaram e lá estavam no funeral, amigos impressionáveis que não puseram pé em tua casa, querendo ignorar a alegria que sentias quando e se o fizessem; família que ia ver-te uma vez no ano ou nem sequer isso, primas que nunca pisaram o teu chão. Parentes que vieram para assistir ao transporte do teu corpo sem vida. Vieram a quê?! Talvez a seres filha única e herdada. Não escreveste nada, apenas viveste. Não casaste. Não tiveste filhos. Escolheste por tutor um amigo de infância.

        É isto a vida. Também.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Requiem

 

        Pouco sabia de ti antes da doença. Foi o teu olhar meio perdido que me fez aproximar. Pedi o teu número, liguei. Aceitaste um chá. Encontrámo-nos algumas vezes. E depois sumiste. Não insisti, era a tua vida, tinhas os teus amigos de sempre. Passou talvez um ano e alguém me falou de ti, que entraras num processo de consulta atrás de consulta sem diagnóstico preciso. Ainda assim limitei-me a alguns sms a que respondias sem outra proximidade. Enviei-te um sms de Natal e respondeste com o nome da doença -PSP, filhos e sobrinhos (dois foram teus alunos) rapidamente procuraram na net, todos desconhecíamos o que fosse. Visitei-te no pós Natal e passei a fazê-lo semanalmente. Assisti às perdas de equilíbrio, às quedas, ao partir de alguns ossos, às nódoas negras. Mas nesse tempo ainda te deslocavas pela casa. Breve passaste ao andarilho e logo acamaste numa dificuldade progressiva de tudo, que desembocou na incapacidade: deixaste o telemóvel, a escrita, a leitura, a TV; tudo se foi tornando impossível: falar, deglutir, mexeres-te na cama sem cair. E sempre consciente da degradação. Tiveste uma cuidadora ímpar e com a força suficiente para te carregar em peso quando necessário. No último ano, a degradação era tão forte que as visitas me faziam sofrer antecipada e posteriormente. Por vezes adiava um dia ou dois, atardava-me cobardemente juntando coragem para ser bem disposta e te fazer rir; no íntimo, sabia que ia ver-te pior, em cada semana perdias alguma capacidade. Na passada semana desejei que morresses, te libertasses dessa amarra que te tolhia dos pés à cabeça. Tempos houve em que o suicídio te parecia a melhor solução, discutimos muito tema, esse foi um deles. Mas nada podias, perderas toda a autonomia. 

        Morreste por erro médico. Diz o ditado que Deus escreve direito por linhas tortas: foi o momento da libertação. Voaste.

sábado, 4 de julho de 2026

A Leveza da Vida

 

        Cheguei de férias e pensei postar sobre esse tempo que é inteiro lazer. Esqueço a casa e suas represálias, o portátil faz retiro espiritual e o tlm cinge-se ao uso mínimo, que é como quem diz, só para filhos. Saiu um post diferente. Parece-me que o motivo é má consciência – tanta guerra inútil, mas que mata, derruba casas, destrói vidas e haveres. Tanto mal reunido na mente dos homens com poder, esses que deviam ser exemplo; e a voracidade do fogo a ajudar, comendo hectares de vida. Dói abrir a TV e assistir a tanta chama enraivecida, verificar ao minuto a violência progressiva desta máquina de destruição natural durante estes dias de sobreaquecimento. Portanto, não apetece contar de quartos limpos, varandas arejadas e viradas ao verde bem tratado onde quase ninguém passa e eu em leitura remansosa com paisagem ao fundo; e quase me envergonha descansar os olhos na horta cuidada e prolífica, antecipando o mar e uma praia em tudo semelhantes ao que considero minha pertença não exclusiva, excepto na tepidez da água que nos abraça íntima, gesto que repetimos a gosto.

        É verdade que não existem cardos do mar azulando pelas dunas, nem aquelas espantosas flores brancas que parecem açucenas e me sideram em cada vez que as contemplo enraizadas na areia, digo com os meus botões que quase flutuam por entre os grãos, sem água doce que lhes valha. Acredito que sejam tão lindas como as flores do deserto. Abismo nestas maravilhas improváveis da minha praia. Que ora nem vejo por ter encontrado caminho mais fácil e que não danifica a duna.

        Mas também é certo que me antecipo à multidão turística, e nas horas de calor intenso descanso no quarto e volto mais tarde para a encontrar igual, salvo a água mais longe ou mais perto, segundo o que a maré determina. É um lugar como tantos: vive da animação turística em época balnear. Tem bairros senhoriais que são casas de praia e ficam na sua maioria fechadas durante parte do ano. Uma pena! As ruas, a fachada e a pintura são iguais e com barras: brancas com barra azul, azul com barra branca, amarelas com barra branca e o inverso. Existe um passeio junto à linha da costa bordado pelo verde das árvores e onde passa o que suponho seja um riacho atravessado por várias pontes pequenas. Mais à frente, um enorme quadrado de água por certo marítima, surpreende. Apetece andar de bicicleta; neste lugar encontrei jovens e menos jovens pedalando.

        Talvez por ser madrugadora, em qualquer hotel, entro na sala de pequeno almoço no primeiro quarto de hora de abertura. Ali, os ingredientes apresentavam extensa variedade, possibilitando pequenos-almoços de natureza diversa: do muito frugal ao mais pesado, com bife, feijões, ovos com bacon e sem, ovos estrelados na hora, etc, etc. Havia pouca gente, quase toda portuguesa, e demorava-me a olhar os comensais ocupados a encher pratos sobre pratos e a digeri-los com afã digno de nota. Havia neles um isolamento de tudo, eram eles e o alimento; não levantavam os olhos dos pratos e, pressurosos, devoravam-lhes o conteúdo como se disso lhes dependesse a vida (em parte dependia). Eram tão velhos como eu, alguns um bocadinho mais. O que leva alguém a alimentar-se com tamanha sofreguidão?! Não é nada poética a imagem mais nítida que me ficou das férias, mas gravou-se-me aquela pressa na mastigação e o vaivém de pratos que os funcionários iam retirando e eles repondo. Encerrado o expediente, levantavam-se prestes e abandonavam o que me convenço hoje ser o seu santuário. Isto porque, logo que a sala de almoço abria portas, era vê-los, formiguinhas afadigadas. E eu que me considero pessoa de “boa boca” e não debico, pergunto-me como e onde encontravam o apetite para almoçar. Era refeição em que não os seguia, estava acompanhada e o restaurante repleto. Quem sabe comiam apenas uma saladinha e estou eu aqui numa de má língua...

domingo, 28 de junho de 2026

Necessário e Suficiente

         Hoje somos diferentes: Gozamos períodos de férias, quase não há as tabernas de antigamente e o mundo português encheu-se de cafés - é de bom tom haver uma taberna de degustação cuja não é sequer parente afastada das tais alumiadas a petromax, com as pipas à vista e um cheiro a vinho tinto que se incrustava nas paredes e revolvia o estômago, de mistura com a saturação de suores múltiplos e de vários dias, que o banho era graça de dia santo. Hoje, tomam-se os banhos que cada um entenda, escolhemos a bebida, petiscamos ou fazemos refeições completas. A vida quotidiana mudou. As mulheres e alguns homens sentem-se gratos às máquinas que lhes poupam trabalho, saem a sós se assim o entenderem, ganham a sua subsistência, caminho de cada um para ser dono de si. Que bom podermos escolher o que desejamos para o almoço ou o jantar. Que gosto ter profissão que assegure cuidados que antes nem havia. E que supremacia se, profissionalmente, fizermos o que gostamos.

        A escolaridade obrigatória foi prolongada, portanto, a dependência dos pais existe até mais tarde, a juventude começa cedo a sair à noite e prolonga manhãs na cama quando as noites esticaram ao extremo. Aos fins-de-semana e noites de festa, distribuídos democraticamente entre os dois sexos, os cômas alcoólicos tornam-se corriqueiros em hospitais e centros de saúde. E apesar dos preservativos e da pílula do dia seguinte, continuam a surgir mães adolescentes. São em menor número e, na maioria dos casos, os motivos da gravidez diferem dos antigos. A solução também pode diferir, o aborto foi legalizado. Não há dúvida que as mulheres são quem mais beneficiou do regime democrático. Contudo, a morte por violência doméstica continua a aumentar. Pergunto-me se o álcool anda metido nas brigas entre pares; se será por ausência de barreiras no respeito que é devido ao outro seja ele quem for; se são mentes frágeis que se deixam contagiar por filmes e redes sociais; se há muita energia que não se liberta por uso excessivo de telemóveis e outras conexões nas quais se gastam horas e horas; depois falta paciência para os da casa e o disparate sai agressivo à menor contrariedade.

        O que mais se verifica é que, antigamente, no tempo das tabernas, o mal era quase sempre de raiz exterior: a miséria, a falta de instrução, a falta de cuidados de saúde… a taberna era o limbo dos homens e o castigo de muita mulher. Hoje o mal vem de dentro, é individual e comum de muitos. Somos mais instruídos, mas nem por isso melhor formados; temos excesso de informação e raro sabemos distingui-la ou sequer pô-la de lado. Todos sabemos ler, mas interpretar continua a ser função de alguns.

        E eu que vinha para contar do mar e das férias, dou por mim neste atoleiro tão questionante como questionável. Fica para uma próxima.

        Divirtam-se.


quinta-feira, 25 de junho de 2026

Necessário e Suficiente

 

        O povo de que nasci não conhecia férias, nesse tempo não havia pausas. Entristece-me saber isto e mais que sabê-lo, ter assistido a essas vidas de trabalho que, sobretudo nas mulheres, era por demais intenso. A pausa, a existir, denominava-se mudança de uma função a outra. Alguns homens também entravam neste rol; chegavam a casa, comiam uma bucha e iam semear e vigiar o crescimento do plantio e, se necessário, regavam a horta que ajudava a sustentar a família. A horta era o lugar sagrado onde à força dos braços juntavam a fé cega na terra; iam buscá-la não se sabe onde, que ela, pobre e esfarelada, parecia ingrata aos que a não conhecessem, não a eles que lhe sentiam a miséria dos nutrientes e a vontade de germinação. Desconheciam o termo resiliência, mas tentavam sempre, puxavam por ela com carinho e velavam o canteiro de nabiça ou a couve tronchuda quase com o mesmo empenho com que ensinavam os filhos pequenos a dar os primeiros passos. Era admirável vê-los debruçados sobre a terra, aqui um montinho de hortelã, ali um rego de cenouras, uma correnteza de cebolo e outra de alhos; além, salsa e coentro a vicejar. E punham canas no feijão de trepar e sacudiam caracóis e outra bicheza, as galinhas de olho no verde hortícola e enxotadas na tardinha quando enfim o galinheiro se abria à liberdade breve de ciscar no lusco-fusco. Passava-se isto um nadinha antes de engolfarem no poleiro onde, por misericórdia divina, se equilibravam até o dia clarear e  haver os gritos de um galo esparvoado; mal soava o clarinete do macho sobranceiro, surgiam estremunhadas e prestes, pata aqui, pata acolá, sacudindo o sono, carraça pegadiça que se escondera nas asas. 

        Contudo, a maioria masculina, suada e suja, barba a sombrear empoeirados vincos do rosto, negava-se ao lar e parava na taberna em busca de alegrias avinhadas que caíam mal na carteira e não poucas vezes eram rastilho traiçoeiro em família. Ser taberneiro era um posto: atrás do balcão, o taberneiro sentia-se alguém, aviava copos de cinco e de dez, uma aguardente ou outra em copinhos pequenos e ia limpando com um trapo descolorido de tão surrado, os círculos arroxeados do fundo dos copos. Torneiras de água corrente não havia. Atrás do taberneiro, ao lado das pipas de vinho, um alguidar cheio de água que manhãzinha era limpa e à noite tinha a cor do vinho tinto, era serventia da casa. Havia muito menos higiene, lavar os copos era "passar por água". Os mais inveterados iam ficando e só desencostavam do balcão renitente à invectiva do taberneiro, “ já não avio mais nada, tudo p’ra casa, já passa das dez, passa aí a Guarda e ainda levo com uma multa”.  E havia quem, para desanuviar, jogasse o chinquilho e o dominó entre rodadas pagas à vez. Com a TV ninguém sonhava; lá bem no alto, o som do rádio abafava na algazarra. Fazia-se um silêncio de respeito para ouvir Amália, o conjunto Maria Albertina e a acordeonista Eugénia Lima, que se apanhavam já a meio por via da desatenção geral e mercê de alguém que conseguia destrinçá-los e gritava, “deixem ouvir, porra!”.  E então ia-se fazendo um silêncio geral e só faltava que os homens tirassem o boné como à passagem dos funerais. Em vez disso ouvia-se uma voz ou outra a traduzir a unanimidade, "é uma artista!". Ou, "sim senhor, isto é que é cantar/tocar!". E mal cessava a função retomavam o chinquilho, colocava-se outra pedra no jogo do dominó, pedia-se ou escorropichava-se a bebida. Era um mundo de homens onde o mulherio não tinha cabimento . Havendo novidade séria, as mulheres enviavam os filhos e esperavam fora que os seus homens viessem para lhes dar a má nova - morrera a mãe, o pai, um irmão, sabe Deus quem; um filho fora hospitalizado; a filha fugira de casa com o namorico; regressara o filho emigrante; a mulher morrera num repente, de um ar que passou por ela; o filho mais novo, gatinhara e fora encontrado a boiar na presa de regar a horta. Era quase sempre fatídico sinal um homem ser retirado às pressas desse mundo macho. Com as devidas diferenças, a taberna figurava  na miséria portuguesa o que os clubes ingleses representavam na classe superior: um apharteid masculino.

                                      (cont.)


domingo, 14 de junho de 2026

História de Verão

         Uma abelha, dessas que dizem ser italianas, entrou pela janela, obstinou-se em escolher-me, pousa-me no ombro, descansa de seus trabalhos. Lisonjeado com aquela preferência, comecei a amá-la devagar, retendo a respiração, com receio de que não tardasse a dar pelo seu engano, que cedo viesse a descobrir que não era eu a haste de onde se avistam as dunas. Mas o seu olhar tranquilizava, era calma ondulação do trigo. Agora só uma interrogação perturbava a minha alegria - comigo, como é que faria o seu mel?

                                                                                      Eugénio de Andrade


Nota: este blogue regressa ao activo depois de dia 23. Entretanto, tenham uma óptima semana.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Voltas do Bem-Me-Quer

 

        Lisboa está repleta de jacarandás. Mas são os do Parque Eduardo VII que mais me encantam. Vejo-os apenas de ano em ano, na Feira do Livro, e sinto por eles um carinho inexplicável. Se um dia mudam a Feira não sei que faça, talvez viaje até ao parque só para fruir a visão de uma rua atapetada em lilás e onde caminho sentindo-me a herege que pisa território sagrado. E que vai ser do prazer que me agarra nos semáforos da Rotunda do Marquês, eu desvanecendo nesciamente à visão daquelas nuvens azuladas em que os meus olhos batem até sem propósito?! Não. A Feira tem de conservar o endereço. Além do mais, os livros condizem com os jacarandás, têm tudo a ver, mesmo sendo relação que não sei explanar.

        Portanto, mais uma vez por lá andei no encantamento do costume.

        Mas estou de mal com os livreiros que na Hora H faziam 50% de desconto em livros com mais de três anos de edição. Este ano, pelo menos na Relógio d’Água, tudo mudou: só alguns livros assinalados - e eram relativamente poucos – beneficiavam de desconto de 30%. De modos que foi a última vez que comprei na dita editora; exceptuo o livro do dia caso me interesse, e se continuar com boa promoção. Mas enchi-me de livros na mesma porque fui cedo e comecei pelos alfarrabistas onde li praticamente todos os títulos expostos nos primeiros quatro postos de venda. E comprei vários. E desisti de outros tantos.

        No dia seguinte saio cedo, o Metro vem à cunha, o rosto dos lisboetas é triste e amarfanhado. A maioria viaja no desencanto de um trabalho onde. Alguns já apanharam dois transportes até ali; outros terão ainda de chegar à outra margem; muitos descem na estação de Entrecampos, Sete Rios, Restauradores e correm para comboios e autocarros. A garota a meu lado puxa de um estojo de maquilhagem e, dois dedos enfiados no cetim da esponja, vai pondo no rosto alguma coisa que não identifico. É jovem e de boa pele, mas, paulatina, passa a esponjinha por todo o rosto, embebendo-a no redondo do estojo a cada retoque. Terminada a operação, puxa de um espelhinho que abre com um clique e mira-se em ângulo de cento e oitenta graus; após novo clique, desaparece tudo no interior da mala de mão, corre o fecho e sai aprumada e altaneira que nem juíza em tribunal. Não me deitou um soslaio, estava só, concentrada em si. Era uma manhã friorenta e um ar de tristeza emanava da carruagem: ombros descaídos, semblantes neutros, mãos ao telemóvel mais hábito que interesse. Nas horas matutinas manda o egoísmo sonâmbulo: ninguém dá lugar a ninguém, não se olha o vizinho. Mas já ali estive noutras manhãs e havia sempre alguém contente e conversando com entusiasmo. Lembro a jovenzinha de cabelo azul, uma Menina do Mar em tamanho natural que deixou o interlocutor - e até quem os olhou – bem disposto e agradado.

         Pergunto-me agora se teria sido defeito dos meus olhos; se eu mesma teria aquele ar de frete, do que se faz por dever e não por gosto. O que é que os portugueses perdem que assim os desalenta. Ou terei sido eu que perdi a capacidade de vê-los realmente. 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

O Tempo que nos Falta

 

        O polícia olhava seriamente na minha direcção (sendo benévola comigo, estaria a verificar se eu era um dos residentes). Portanto, guiei até ele, encostei, abri o vidro e perguntei, estou mal aqui? Não vejo outros carros a circular... A resposta veio em gume, a senhora não viu os pinos? Não pode circular. E eu, mas só sei este caminho...lá `a frente a circulação também está cortada? E a carranca, pois claro que está. Insisti, e agora vou por onde? E ele, agora sai e segue para a esquerda e depois de umas ruas volta à avenida. Agradeci e enquanto fazia a inversão de marcha com os olhos dele tão fixos no meu veículo como os da minha gata enquanto espera os pássaros, pensava atabalhoadamente, não posso virar à esquerda, não sei sequer que ruas existem ali (também desconhecia as da direita mas enfim). Resolvi que continuava em frente na esperança de que houvesse por ali uma rua que me permitisse virar à direita. O semáforo estava vermelho e os dois veículos na minha frente abriram o pisca para a direita. Imaginei que se eles continuassem a virar à direita talvez segui-los fosse boa ideia. Tive sorte: viraram à direita e não seguiram em frente, antes meteram por uma via de três faixas e aí perdi-os de vista porque o meu único palpite era a exigência de voltar a virar à direita; logo, mantive-me nessa faixa enquanto lhes dizia adeus que já aceleravam noutras direcções. Ainda me perdi ligeiramente num caminho secundário mas voltei à faixa da direita na esperança de encontrar uns semáforos conhecidos. E é que os encontrei mesmo. A partir daí foi canja. Andei a virar aqui e ali para conseguir chegar antes das 14,30. E cheguei. Carreguei as coisas, subi no elevador mais rápido e antes de meter a chave à porta ela abriu-se e o meu filho num sorriso terno e descansado, estava a ver que não chegavas a horas. Estivemos uns minutos à conversa e logo de seguida lá foi para a sua reunião de trabalho. Acionei a via verde, arrumei o que levara e saí. Tinha uma data de recados para fazer até às dezoito.

        Dei conta de quase tudo. Avancei para a linha vermelha e fui até ao Corte Inglês para a sessão Poemar, Viagens pela minha Terra (em verso alheio). Quando me sentei na sala, carregada de encomendas, suspirei tão longamente que a colega do lado me olhou, facto não vulgar. Ali, as pessoas ou se conhecem e falam baixo umas com as outras, ou nada acontece. Na situação, nada devia acontecer, denunciou-me a fundura dos suspiros. Creio que nem tirei o caderno. O Poemar é de sentir e não de escrever. Foi tão bonito ouvir os poemas na voz de Rui Spranger, por vezes acompanhado do mentor José Anjos e com música de Sara Santos Ribeiro. E como a voz se alterava, e chegava a parecer outra, consoante o poema! Agora mordaz, agora troçando ternamente, ou onda raivosa que se levantava voraz e tudo varria. Tinha lanchado no Metro, já sem tempo para o fazer mais tarde, mas, do tanto que fiz, nada me caiu tão bem como a poesia. Foi água para a minha sede. E para ali fiquei, planta ressequida, a embeber, a embeber, as folhinhas desmaiadas arrebitando contentes. Bom, falta dizer que os poemas eram todos sobre a cidade do Porto (pelos vistos antes houve poemas do Minho e de Trás-os-Montes). Poemas e prosa poética. Gente que desconhecia e gente que logo identifiquei. Por exemplo, a prosa de Miguel Torga, ainda que não tenha lido O Reino Encantado e nem Portugal. José e Rui nasceram no Porto a Sara é de Lisboa, mas eles atiraram-lhe ao sorriso com Manuel Pina, “Eu não nasci no Porto, nasci-me no Porto”. A selecção de poemas e poetas foi feita com critério, os filmes (pedaços), sobretudo de Manuel de Oliveira, constituíram momentos telúricos que cimentaram o ambiente do norte e portuense; não me perguntem sobre a música, parece-me ter ouvido apenas alguns acordes. A voz sim, bebi-a inteira.

        Um grande bem haja ao Corte Inglês e a José Anjos pela sensibilidade com que aborda os temas e o bom gosto na escolha de quem traz consigo. Em mim, valeu.


Nota: alguém deu uns tiros no placard da velocidade média e virou as câmaras para o ar. Portanto, andámos todos a arriscar, felizes da vida. Já as arranjaram e não fui informada. Daqui a uns tempos recebo duas multas. Mas agora não vou pensar nelas.

domingo, 31 de maio de 2026

O Tempo que nos Falta

 

        Ele há dias em que a vida parece apostada em nos arredar os planos ou, pelo menos, se diverte a complicá-los. Manhãzinha, nada o faria prever. Era uma sexta feira quente e bastante apetecível, depois de um café com leite moreno; mais um dia em que pensei “era bom dar uma volta a pé”, mas não o fiz. Lembrei outros anos, dias de avental atrapalhado por bolo e lanche com meu pai e a nossa satisfação contemplando a sua, em mais um ano a acrescentar. Não me demorei nos inevitáveis da morte, a vida chamava-me aos gritos: as flores que necessitavam alimento, as compras de fim de semana, as pequenas coisas que apontara fazer antes de partir. No super, as duas caixas abertas tinham filas sem fim. Fui pedir a uma das meninas se não podiam abrir outra caixa. E ela, falta de pessoal, férias, atestados, ta, ta, ta...Esperei já a olhar o relógio e a encarnar o meu papel de resmungona com uma cliente próxima que andava a encher o carrinho. Já a depositar o carro de compras, passa açodada a senhora dos desabafos, que ia ao carro buscar os óculos de leitura: pedira o livro de reclamações e logo abriram outra caixa. Serviu a lição: da próxima vez faço o pedido, em caso de igual resposta, engreno o dito livro.

        Sozinha em casa devido a um acaso inesperado, entre arrumos de compras e apanhar a roupa já enxuta, fiz o lanche e acomodei-o na mala arranjada de véspera. Verifiquei que me esquecera de várias tarefas e que ficariam em espera; há mais marés que marinheiros. Comecei o almoço, teria de estar em Lisboa antes das catorze e trinta se queria ver o filho; com os novos limites de velocidade a duração da viagem ultrapassa os sessenta minutos. E queria muito. Eram as doze e dez, o telemóvel dá sinal de sms. Fui ler. Era o motivo das minhas preocupações do momento, a razão por que corro para o telemóvel mal entra um sms. Fazia um pedido, uma das tarefas esquecidas. E vocês o que fariam se uma pessoa muito doente vos pedisse alguma coisa?! Satisfaziam o pedido certo? Foi o que fiz.

        Regresso a casa. Era quase o quarto para as treze. Ainda tinha de grelhar a carne, aquecer a sopa e almoçar, esqueci o arroz de ervilhas. Saí antes das treze e cinco. Vesti uma blusa que não engomei, de certeza tinha outras mas foi a primeira que vi, não me lembro se mudei a saia, mas sei ter-me esquecido de mudar os ténis. Não me penteei. Paciência. E no caminho descansei mais ou menos, aproveitando as abertas dos limites de velocidade que são poucas e ignorando alguns sinais limitativos. Enfim. A segunda circular tinha já umas filas razoáveis mas ia evoluindo (as pessoas são como os caracóis, mal vem o sol desatam a sair de casa).

        Sempre a controlar o tempo, viro para a alameda que me interessava. Um desvio obrigatório e uns pinos mais à frente. Desorientei. O perigo de ser desorientada é a falta de juízo que se instala, fico de imediato do lado da desrazão, bloqueio. Portanto, virei de acordo com o sentido, mas pensei que contornando a rotunda mais à frente e vindo no sentido contrário, saía depois dos pinos e continuava alameda fora. Só que não. Fiquei quase na mesma. Olhei o relógio e os pinos e verifiquei o pouco tempo de que dispunha e que eles não obstruíam completamente a via, dava para passar um veículo. Eis como penso se e quando me desoriento: não somo dois e dois. Não reparei que a via não tinha trânsito algum, não pensei que a zona devia estar interdita nos dois sentidos e ter mais pinos lá à frente a demarcá-la. Portanto, numa de animal pouco inteligente, passei no tal espaço e fiquei para lá dos pinos. Só que, ali plantado, estava um guarda ou segurança, não sei bem. Devia ser um guarda, vi apenas (também me afecta a vista) uma camisa azul de manga curta e um colete dos utilizados nos acidentes.

(cont.)

quinta-feira, 21 de maio de 2026

A Luz do Mundo

 

        As opções de vida acerca de haver ou não filhos merecem respeito. Entendo quem, por opção, não queira tê-los, tenho amigos que escolheram essa via e suponho que sejam tão felizes quanto um homem e uma mulher que se gostam podem sê-lo. Mas também lamento os que desejam descendência, têm um jeito todo especial para crianças e, por qualquer razão física ou de outra natureza não conseguem chegar ao porto. E casos existem em que se entra em litígio porque um diz sim e outro diz não. É certo que, por amor ao outro, por vezes um dos elementos cede. Mas não pode ficar contente com a cedência. Afinal, um dos seus sonhos é negado pela pessoa que se desejava colaborasse na sua realização. E não é um sonho qualquer - não é aquela viagem especial, o veículo xpto, a subida profissional, a casa ideada. Um filho é o desejo de colaborar, em geral com muito prazer à mistura, no milagre de um novo ser humano, pensando que só miraculosamente duas pessoas que se gostam (ou não, mas gostando é tudo qualitativamente diverso e melhor), depois de um acto de união sexual participam nesse milagre de dar vida. Lamento as cedências quando são coacção - o desacordo sobre o nascimento de um filho pode desfazer a vida conjunta e cada um procura o que deseja com outra pessoa. Mas há casos em que um dos elementos resolve o dilema deixando prevalecer o desejo do outro. A consciência de uma decisão de comum acordo, o sim ou o nada de bebés, é factor de união, mas, no segundo caso, a falta de igualdade entre os dois elementos – aceitemos que um vence e outro é vencido -, pese embora o constituir uma opção, não consigo discernir até que ponto essa é uma união saudável. Que pode ser, talvez haja factores de substituição e a mágoa vá desaparecendo. Enfim.

        Por variadas razões tardei em casar e ter filhos, não me julgava talhada para tais trabalhos. Mas, como a grande maioria das mães, mal nasceu o primeiro, aprofundei o sentimento amoroso. Foi isso. Tenho filhos adultos e independentes em toda a linha. Não me julgo uma mãe chata: não telefono senão por motivo inadiável, sei da vida deles o que querem contar e tento respeitar os seus gostos e carácter. Nunca lhes espiolhei o telemóvel nem o portátil, visitam-me se lhes apetece e quando.

    Ora, nas arrumações que já conhecem, uma das preciosidades que descobri (guardada por mim, claro), foi uma carta de Natal de um dos meus filhos. Pela letra ainda muito redondinha e escolar (não está datada e nem assinada) suponho que andaria entre a antiga 4ª classe e o 5º ano. Não vou reproduzi-la, sei que ele não gosta que mostre o que me escrevia. Uma folha de caderno e a sua letrinha redonda enchendo-a de ponta a ponta. Mas não resisto a um parágrafo menos íntimo e ainda assim tão de maravilha. E lógico, em tema a que a lógica escapa. Escreve ele:


Sei que se costuma dizer que o amor de mãe é inexplicável e inimaginável, mas nunca nada disseram sobre o amor de filho. Não sei como é o amor de uma mãe, nem nunca vou saber, mas duvido que seja maior que o de um filho. Sim, eu sei como é, mas não consigo explicá-lo. Porém sei que é forte, que o sinto todos os dias (…)


    Esta folhinha de caderno deu sentido ao tudo que fiz – desejo que nunca saibam até onde, perderia valor


domingo, 17 de maio de 2026

A Luz do Mundo

 

        Fui professora da turma durante os três anos do ensino secundário; no 12º ano ensinei-lhes psicologia, disciplina que detestou e tive mesmo alguma dificuldade para levá-lo a bom porto; resmungava com os temas e fazia fincapé, em filosofia é que se sentia bem. No final do ano, à pergunta da praxe: “e a seguir, o que pensa fazer?” Respondeu-me seguro: vou para Filosofia. Caiu-me tudo, ele não estudava, nem detinha na escrita o rigor que um estudante de filosofia tem de cultivar, não o imaginava a ler e compreender as obras dos filósofos. E nem sequer tinha boas notas na disciplina, era aluno entre o dez e o doze, classificações que não aguentaria na universidade. Disse-lhe tudo isto e muito mais. Mas manteve, era a disciplina de que mais gostava. Fizemos uma aposta (apostei muito com alunos e à conta disso conseguimos que alguns galgassem a barreira do exame) – garanti-lhe que nem sequer concluía o primeiro ano; ele garantiu que tirava o curso completo. Como previsto, abandonou o primeiro ano a meio. Emigrou para a Escócia. Certa manhã de frio inverno, encontrei-o num comboio, o emprego escocês era sazonal. Disse-me sorrindo, “por agora perdi a aposta, mas ninguém sabe se um dia não me apetece voltar ao curso”. Libertei-o da dívida e desejei-lhe sorte na Escócia. Sei, como ele sabe, que não voltará ao curso.

        Sucede que um dos tesouros que encontrei no escritório é um escrito seu. Fez-me sorrir. Está inteirinho naquela curta folha de papel retirada de um bloco e rabiscada com a sua letra incerta, eivada de infância. Guardei-o também por gostar do garoto; para além de tudo, persiste-me a desarmante ingenuidade que o habitava.

Professora, eu perdi a minha mala, não a encontro em casa e já a procurei em n sítios e não acho. O típico aha! :)

Peço desculpa, mas não encontro o teste, se quiser faço-lhe um novo. Deixo aqui o meu e-mail.

...hotmail.com

Beijinho e boas férias e até para o ano!! :))”

Prontifica-se a fazer novo teste, mas despede-se desejando boas férias e “até para o ano”.

Que um anjo benévolo e persistente o vele, onde quer que pare. O papelito pertence-me, sinal de uma relação que foi, e está além do dizer.