terça-feira, 20 de outubro de 2026

Sem Título (II)

 

(continuação)

        O melhor para mim veio depois, já liberta do papel. As pessoas enfileiravam para o prosaico autógrafo e eu, nas cadeiras do público (agora vazias), pensava numa aberta para me despedir da Susana, quando fui literalmente abraçada por duas antigas alunas a que se juntou uma terceira. Pareciam nascidas da terra, tão súbito o abraço circular e participado. Pronto, e lá contaram o que lembravam das minhas aulas, de um passeio que fiz com todas as turmas e para o qual houve rifas na escola porque muitos alunos não podiam pagá-lo. E etc.

        Mas o que mais gostei mesmo, veio da única aluna que não reconheci de imediato. O flash aconteceu quando ela, “eu era da turma de psicologia, a turma do Pedro Cruz”. E de repente vi o Pedro com vinte ou vinte e um anos, muito mais alto que qualquer da turma, um proscrito já com vários dias de suspensão no activo – e chumbos – e que, suspeito eu, me fora encomendado por isso; a professora que ano após ano leccionava psicologia, resolvera que estava farta e passou-me a disciplina retirando-me das turmas antes minhas e que solicitara. Acontece que o Pedro era um aluno regular, tinha notas positivas, não faltava às aulas e intervinha com frequência; mesmo se um pouco desfasado, notava-lhe o esforço para acompanhar o meu pensamento. Todos os professores me tinham prevenido contra ele. Aquando da visita de estudo, membros do conselho pedagógico aconselharam à saída, como protege o capuchinho do lobo mau, professores que antes nem me olhavam,  não leves o Pedro, embebeda-se e faz trinta por uma linha, já pôs professores à nora por não comparecer no autocarro à hora estipulada e chegar com os copos. Levei o Pedro. Em vésperas da viagem, ficou para o final da aula e pediu, professora, na hora de almoço, a minha namorada pode ir ter connosco? É que ela estuda em Lisboa e assim namoramos um bocadinho; ela quer conhecê-la. Anuí e avisei, olhe Pedro, tenho confiança em si, levo com muito prazer a turma inteira -e avisei - não me entristeça, ouviu? Olhou nos meus olhos e quase sorriu, fique descansada, professora.

        Tinha-os preparado para o Centro de arte Moderna na Gulbenkian. Sem mérito, copiara um pouco o que o professor e crítico de arte, Rui Mário Gonçalves me ensinara: olhar para um quadro durante algum tempo, identificarem-no e anotarem o que viam e lhes sugeria; eles repetiam o que eu mesma fizera, o relatório sobre um quadro à sua escolha. Começámos por uma visita completa para escolherem a obra que preferissem e depois dei-lhes uns vinte minutos para notas e contemplação. Na hora de almoço – para não inibir alguns alunos, combinámos levar todos lanche; era mais aconchegante -, a namorada apareceu e veio simpaticamente cumprimentar-me. Informei-os da hora a que o Pedro devia voltar à nossa companhia e desapareceram. Foram impecáveis, voltaram ambos à hora marcada, mão na mão. Ela seguiu para os estudos e ele ficou connosco e continuámos a visita no Planetário. Que os encantou.

        Quando o flash esvaiu – é incrível o que se pensa em um ou dois minutos – perguntei à Maria José, e que é feito dele, do Pedro? Resposta, não sabe? Ele adorava-a, tirou o curso de psicologia. E eu contente, mas ainda com reticências, e acabou-o? Ela peremptória, Sim professora. E olhe, já tem quatro filhas.

        Faltou-me perguntar o que fazia. Egocêntrica, cresci naquela vitória. Claro que tive a ajuda do amor, penso que a namorada foi um incentivo poderoso (ignoro se foi com ela que casou). Na euforia do momento, após a alegria de uma aluna publicar um livro de poesia e ter a generosidade de querer a seu lado a antiga e primeira professora de filosofia, daquele encontro com as minhas meninas de antes a garantirem, eu hoje olho para os quadros de outra forma, digo que esqueci o resto e me limitei a viver o momento. Pode que não volte a vê-las. Mas isso não interessa nada.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Sem Título (II)

 

        A vida por vezes parece conjugar-se para se/nos exibir em vaga determinada: ou se sucedem os azares, as mortes, os planos gorados, a falta de amigos e até o abandono de alguns que o não terão sido senão por interesses próprios ou mera casualidade; ou nos chegam boas novas sob variadas formas. Ora, se nas primeiras entristecemos involuindo e remoendo causas possíveis enquanto, esforçadamente, esbracejamos perguntando-nos até quando vai durar a malapata. Se duvidamos de sermos hábeis o suficiente para recomeçar e nos sabemos a submergir, tal a força com que se apresenta. Nas segundas, que são, invariavelmente, de comunhão, provamos acalmias frutuosas, cheiram a pomar. Sentimos que o ego maltratado como que ressurge das sombras. Não fica mais forte - isso de, "o que não me mata faz-me mais forte", é muita vez treta. No que toca ao corpo é até absurdo, o corpo, porque nos acompanha, guarda todas as marcas de golpes e tormenta e não fortalece por isso, antes se fragiliza. A mente ganha experiência, é verdade. Com a rudeza dos outros e até a própria, aprende a reconhecer sintomas, acautela-se – mas, por bem e por mal, tanta vez se engana.

        Creio que atravesso época de boas novas. Profissionalmente falando. É verdade que não sabemos o que deixámos nos alunos – como os filhos, eles criaram asas e voam a expensas suas, o que nos faz a alma leve. Mas, se dos filhos vamos sabendo, dos alunos que voaram para longe da vista, desconhecemos tudo, desejando que se não tenham perdido ao descansar em base falsa. Um destes dias fui surpreendida pelo convite de uma aluna. Ligou-me passados uns vinte e tal anos a convidar-me para apresentar o seu primeiro livro de poesia. Tive-a como aluna um único ano, numa cidade que não é a minha. É verdade que me fez várias visitas, “obrigou” a mãe a levá-la até minha casa e eu desvanecia a cada uma porque sentia nela o prazer de me rever, uma certa vaidade orgulhosa, assim como quem diz, “vê? Não a esqueci.” Certa vez ofereceu-me uma tarte de amêndoa feita por si e fiquei sem palavras, não a esperava a ela e ainda menos contava com a tarte, por acaso bastante boa. Tive de concluir que ocupava um lugar no seu coração. Depois disso, ainda lhe enviei alguns postais de Natal e ela retribuía de algum modo. E, como é natural, a vida dela foi-se alargando de gente e afazeres – é também professora - e não insisti. Corro atrás das amizades, é verdade, mas não ad eternum, há que dar lugar. Recuar para zona de penumbra é, por vezes, o mais salutar. Desimpede caminho.

           É evidente que gostei um imenso de a rever, é mais velha do que eu era quando a tive por aluna, quinze anos inteligentes, curiosos e interventivos, atentos às minhas palavras. Veio de novo a minha casa para me desanuviar a mente acerca da apresentação. Disse-lhe que sou avessa a um público que me olha e que em mim não é público, mas uma data de pares de olhos a julgar-me - é desconfortável; que isso me tolhe e me faz mal. Olhou-me profundamente e vaticinou: tome como mais um desafio e acompanhe-me neste sonho que finalmente concretizei. E assim me convenceu.

        Inútil dizer que não fui nada do que pensara; não disse o que preparara, não usei as palavras certas e etc. Acresce que todas, incluindo ela, levavam uma data de folhas com o discurso ou a resenha dele – tinha-me avisado, “não quero discursos nem esquemas, só umas palavras sobre a poesia e o livro, vamos estar em família”. Ora a sala estava à cunha, mas só um terço era família. Como é certo que a pessoa da mesa que a apresentou e apresentou o livro - uma prima da mesma idade que com ela partilhou e partilha muita vida e a conhece talvez como ninguém -, me tirou parte substancial do que eu pensara dizer, mas, asseguro, disse-o muito melhor que eu – pôs várias pessoas, e ela mesma,  de lágrima no olho, incluindo a moderadora que chorou copiosa; tivemos de esperar que a voz lhe viesse para fazer a apresentação seguinte que era a minha e da qual já contei o suficiente. 

        Foi a mais linda apresentação que até hoje me foi dado assistir. Dois primos (por acaso casados) cantaram e encantaram: melodias alentejanas a duas vozes com ele tocando viola; além disto, a garota declamou, acompanhada à viola, um poema constante do livro e  escrito no dia do casamento de ambos. Dois jovens amorosos e já com um anjito encaracolado que nos intervalos do canto pedia o colo da mãe.

 (cont.)

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Rudimentos

 

        O que me faz gostar de Lisboa não é ser capital do país, ou ser a mais linda cidade que já vi. Ignoro qual seja a cidade de eleição, não visitei assim tantas e gostava de voltar a todas, que em cada uma encontrei espírito e beleza. Contudo, admito: as cidades italianas estão bem posicionadas. Cheguei à conclusão que Lisboa me agrada sobretudo pela surpresa do seu quotidiano tão diverso do que observo na minha cidade só de nome. Gosto-a desde o comboio ou automóvel que me levam – é um tempo só meu, uma muda de pele. Se sigo de carro, breve me farto do rádio e da música e fico-me a percorrer quilómetros pensando em coisas como esta que ora escrevo. E penso com tanta intensidade que absorvo e passo pelos radares sem dar por tal e depois as multas e assim. E agora acho que vão ser pontos na carta. Mas isso não interessa nada e até enfeita.

        Em termos de beleza, Lisboa parece-me sempre mais bela vista da ponte. Penso nas ruas e no formigueiro de gente, mas não os vislumbro. Ao longe, a cidade é paisagem a gosto: tem o verde semeado aqui e ali, a água do Tejo que parece descansar serenamente no enleio doce de quem não quer partir, e as casas prédios, mamarrachos altíssimos, surgem bonitos na lonjura que tudo branqueia. É idílica a cidade vista da ponte, como se habitada por duendes e feitiços de boa índole. E penso: vou entrar dentro dela, corrê-la na superfície das veias que a tatuam; vista daqui de onde a penso, é um aglomerado de edifícios que não vejo verdadeiramente, resume-se a manchas claras pintalgadas pelo verde intermitente colinas acima. Se desço para a Segunda Circular esvai-se o sonho, são apenas ruas, automóveis apressados que afrouxam no radar (deste acho que nunca me esqueci) para acelerar de seguida, um montão de trânsito que nos chega do aeroporto, dos lados do Oriente e sei lá mais de onde. E depois vêm os semáforos e o para-arranca que permite olhar melhor os outros condutores – uns fumam, janela aberta, cotovelo de fora; outros seguem concentrados, sozinhos no mundo, negando o ao redor; outros concentram-se em furar as filas, fazem ziguezague de uma a outra e breve evaporam – apressam-se, sabe Deus porquê –. Prefiro pensar em motivos quotidianos, por alguém que os espera e a hora vai adiantada; porque lhes nasceu um filho e vivem a ânsia de ver esse pedaço de gente que tanto lhes pertence; porque se atrasaram num almoço demorado; porque são visita ou trabalham em hospital onde se cumpre escrupuloso horário; porque o patrão os quer a horas não sei onde; porque lhes deu forte dor de barriga. Mas também pode que sejam apenas palermas dos que têm raiva às filas e não aprenderam a espera. Há gente assim.

        No Metro as surpresas nunca são demais nem as mesmas. Há quem me dê lugar e já disse que são africanos ou brasileiros, os portugueses estão o tempo todo a olhar o telemóvel. Entra um rapaz com cabelo rapado e com uma lista vermelha a meio do couro cabeludo. Na estação seguinte sobe uma rapariga com um corte modernaço, cabelo castanho natural e abaixo das orelhas louro quase branco. E que bem lhe fica! E uma brasileira com seu bebé ao peito, a chupeta pendurada do babete e ele a abocanhar o pescoço da mãe e depois tentando, sem êxito, chegar à chupeta pendurada, o desejo na boquita que abria e fechava talvez imaginando a chucha (deu-me ganas de ir lá satisfazê-lo). Minutos volvidos, a mãe deu-se conta dos esforços da criança, puxou a chupeta e foi lindo ver a avidez do pimpolho. Que bom ser bebé e sentir assim pertinho o calor e o cheiro da mãe. O garoto estava numa de contentamento inegável e adormeceu tranquilo. E entraram aquelas duas garotas de mão dada, olhos de bem querer, ciciando e sorrindo. E achei tão bonito observar assim um amor de comunhão.

        As gentes de telemóvel em punho são deveras desengraçadas e não dão conta de nada. Sou a favor do adereço, julgo-o mesmo necessário em certos casos. não rejeito a tecnologia, mas o uso excessivo, o desmedido tempo gasto em coisa que espremida dá zero. Esta peça, parece-me, retira-nos dos outros. Anda toda a gente a ouvir música, a jogar, a ver filmes, a ler e ver comentários de futebol (eles nem dão por tal, mas, subreptícia, lanço um soslaio ao conteúdo de quem se senta a meu lado de telemóvel em punho). Não dão lugar a velhos, grávidas, mães com filhos pequenos. É mais fácil não os ver. Tal qual o ditado popular.


quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Sem Título

 

        A vida por vezes oferece-nos um rebuçado. Que vale tanto mais quanto menos o esperamos. Um destes dias encontrei na padaria uma antiga aluna. Tenho-a visto ao longo dos anos. Conheço alguma família e soube do curso, do primeiro emprego na terra e depois um salto para Lisboa. Encontrámo-nos de longe em longe no comboio, cada uma lendo o seu livro; esta moda de lugares marcados impediu sempre que nos sentássemos juntas. Mas o seu sorriso mantém a mesma simpatia. No momento, ela bebia um café e eu comprava pão. À minha estranheza por vê-la ali respondeu, consegui mudar-me para esta câmara, agora vivo e trabalho aqui. Dei-lhe os parabéns, disse o de sempre: que bom, está perto de casa, acabaram as viagens diárias de comboio. E rematei com a verdade, gostei muito de a ter como aluna. Perguntei-lhe pela mãe, senhora que eu conhecia vagamente e enviei um abraço acrescentando que ela provavelmente não me conhece. Agradeceu sorridente, ai conhece, conhece, eu falei muito na professora e fiz questão que ela soubesse quem é. Achei um pouco estranho, mas não adiantei. E ela tomou balanço e quando eu já apertava o saco do pão acrescentou ao sorriso, a professora foi muito importante para mim. Respondi, lembro-me muito bem de si, sabe? Mas ela tornou, é que a professora nem faz ideia de quanto foi importante para mim...eu estava a fazer filosofia de 12º porque a nota de matemática fora baixa e não deu para entrar no curso que queria, mas, no final do primeiro teste consigo fiquei desanimada com a classificação que era ainda mais baixa que a de matemática. Pensei que com a filosofia também não ia conseguir. Contudo, no final do teste, lembro-me como se fosse hoje, a professora escreveu, “Vai conseguir melhor. Acredite!”. A professora não faz ideia e nem sabe quanto me ajudou. Nesse ano e noutros - e concluindo o último gole de café -,  na vida. Apeteceu-me abraçá-la.

        Devia ter-lhe mostrado quanto me agradou aquela súbita confissão, mas pus-me a debitar balelas verdadeiras, não me lembro do que escrevi, mas ainda bem que a filosofia lhe serviu. Ela, se serviu professora, tive óptimas notas, entrei no curso que desejava.

        Fiz o caminho de regresso pensando no facto aparentemente sem qualquer importância de ter deixado um comentário num teste. E fez-se presente outra turma a quem quase interessavam mais os meus comentários finais que a classificação. Por onde andarão esses adolescentes que hoje são quarentões. Algum lembrará os meus recados a vermelho no final da prova?! Que de mim será memória?! 

    Nada sabemos do que deixamos nos outros.


segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Nuno Markl

 

        É muito fácil simpatizar com Nuno Markl. Gosto do Markl. Como diriam os meus filhos, “o Markl é boa onda”, querendo significar pessoa bem formada, portadora de ingenuidade própria que dá o tom e o faz mais genuíno. Aviso: não o conheço senão da Mixórdia de Temáticas que, embora seja de tempos idos, me dispõe; também ouvi um ou outro diálogo da Comercial em rádio alheio; nunca escutei “O homem que mordeu o cão”; não assisti a nenhum dos espectáculos ao vivo em que participou. Ainda assim, digo que é fácil estimar o Markl e “ver” que é um bom profissional (se não for, olhem, falhou-me a intuição). Um bocado ao acaso – modo em que vejo TV – vi-o claramente visto, numa entrevista; disseram-me que no programa “Alta definição”. A entrevista já ia a meio, mas agradeço o facto de contar a sua experiência sem lamechices e também sem esconder o drama. Viver com dois AVC é obra. Markl cumpre o calendário na íntegra: medicação, fisioterapia, tudo que lhe vai sendo prescrito. Está ciente de que o tempo de recuperação é variável, sempre lento, pode nunca recuperar totalmente. E vai somando cada pequena vitória – a recuperação do AVC é o seu Everest pessoal.

        Este menino grande trabalhava em excesso e tocava muitos burros; “comia só porcarias”(disse ele); dormia pouco devido ao número de actividades em que se metia e a ser o tal bom profissional bem preparado; e “não sabia dizer não” aos pedidos. Nos últimos tempos, se acaso se encontrava com alguém fora de pressas, perguntava-se a quem estaria a falhar naquela hora. O rapaz vivia em stress. Espero que tenha aprendido a dizer sim ao que o corpo pede – farto de pedir e não ser atendido, esse que vive com ele colapsou pelo lado mais evidente. A canção de Variações não inventa, o corpo é que paga. Não precisa dizer que não, basta-lhe dizer sim, como se vê. É que o corpo não lhe pregou um raspanete, sovou-o sem dó e fez greve de um dos lados. Sorte, os danos não atingiram a mente. Ao longo do programa Nuno riu, gracejou, disse que o seu objectivo agora é servir de exemplo e acompanhar os que como ele sofreram e sofrem as consequências de um AVC com danos colaterais; acrescentou que, talvez daqui a um ano faça um espectáculo bem humorado a contar a totalidade da sua experiência. Li naquele “talvez” o irremissível assimilado: a vida pode apagar-se num repente. Ouvi-o dizer que repetia chavões, frases mais que batidas, mas verdadeiras: o importante é o amor e a amizade. E, caso curioso, dentro do amor está, além das pessoas que ama e lhe retribuem amor e amizade (as que lhe valem nesta fase), está, dizia eu, o amor a fazer rádio.

        Gente como o Markl não é vaidosa, não se acha importante, trabalha por gosto. O jovem disse mesmo que se perguntava muita vez se deixaria de si alguma coisa em alguém, ou tudo se perdia destituído de grandeza no corre-corre da vida.

        Quem nos dera muitos como tu, Markl! Apesar de algumas maldades parvas, recebes diariamente inúmeros incentivos de quem gosta de te ouvir na rádio e aproveitou o balanço para te dizer porquê - foi preciso haver a doença para entenderes que a tua presença e voz fazem falta no país e que o humor “muito Markl” ajuda quem o ouve, as tuas conversas são o alka-seltzer no indigesto dos dias.

Nota que não tem a ver: Hoje nem vinte pessoas assistiram às comemorações do dia em que a República Portuguesa faz anos. Claro que houve convidados, mas refiro-me a todos os que chegam sem convite e este ano não chegaram. Não interessa se os portugueses estão zangados, com quem. O aniversário da república portuguesa é um lado positivo do País. Que é isso de não irem apagar as velas?!

Viva a Res pública!




quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Música de Todos os Dias

 

        A música é arte antiga. Merece respeito. Música criada com palavras; ou só ela, flutuando numa sala desde os grandes espaços ao recôndito de um escaninho. Música assim não conhecíamos.

        Sabíamos músicas da natureza – do leve desprender de uma folha ao murmúrio da água correndo nas regadeiras; ninguém aflorara sequer as ondas mansas da praia estival ou o bravio e exasperado mar que o inverno constrói. Sentíamos a brisa num sussurro a brincar-nos nos cabelos e o uivo do vento que nos levava de vencida, braços abertos, “olha eu a andar para a frente e a ir para trás”. Doía-nos haver gente que não pode ouvir e apenas sente da música a vibração. Desses sabíamos, havia dois gémeos surdos-mudos a morar lá em cima.

        Da infância guardámos a música dos guizos e das patas das mulas puxando lestas carroças, a voz das mães jovens cantando a seus meninos, as estridências da primeira vez num comboio que nos soavam musicais sem que o fossem. Habituámos o ouvido ao leve restolhar dos gatos sobre as folhas quebradiças da figueira, sabíamos o silvo do ar na roda da frente da bicicleta, esperávamos o assobio que nos unia em brincadeiras de quem nasce para o trabalho e antecipa, pelos irmãos mais velhos, a estreiteza do tempo de brincar. Ainda que não seja dito, todos lembramos o som do caldeiro a tocar a água na escuridão do poço, sabemos da torção de enchê-lo e da subida a pulso, a música nascendo da água baldeada que teimava em voltar a si e caía num eco trinado de pureza integral. No fundo da alma de cada um dos gaiatos de rua, mora o som vibrátil da membrana interna das canas que os mais hábeis deixavam exposta para o efeito, “toca lá”; e todos tocávamos apurando o sopro e o lábio inferior até que a membrana rompia e cessava a música. Essa era a nossa gaita de beiços.

        Inda sei a música dos grilos e a respiração nocturna das laranjeiras. Outros saberão das modinhas que assobiavam, do conforto alegre de um lume de chão e dos estalos da lenha musicando toda a cozinha; do trinco da porta e da volta da chave, música que a todos descansava de ladrões (o que roubariam, penso hoje).

        Imagino que minha mãe me cantasse muita vez; recordo-me de estar sentada nos joelhos de um capitão cujo nome esqueci e a cantar para ele. Ignoro-lhe a figura, mas são memórias de genuína ternura. Se minha mãe me levava a sua casa, a mulher mandava chamá-lo ao quartel e ele ia ver-me. Teria sido um bom pai aquele capitão e julgo que a minha presença faladora e cantadeira lhe dava grande prazer. Não sei quais os seus humores noutros momentos, sei que quando nós dois nos juntávamos ele era feliz e eu também.

        O rádio do meu avô acompanhou-me na saúde e na doença, levei-o comigo para todo o lugar. E continuei cantando pela vida para a tornar mais animada e bonita. Ou seria homenagem ao ensinado por minha mãe, embora não a iguale no dom. Que pensarão hoje os meus amigos de então acerca da música e do que cantávamos empoleirados no valado de minha casa?! Alguns já partiram em modo definitivo. Outros terão suas moléstias, estes descasaram, enviuvaram ou apenas foram e são sozinhos, ignorando talvez que todos o somos, que não os imagino com grandes filosofices. Levava-os a ouvir música clássica, hoje um gosto meu?! Mas eu mesma a frequento cada ano menos... Fiz outras amizades, com incentivos musicais próprios. Canto pouca vez e só em alguns momentos me lembro da música, agora ao alcance de um clic. 

        Prezo cada vez mais o silêncio que me tem vindo a seduzir; e os pequenos sons - quando uma amiga ri e eleva a sua voz determinada fazendo-me reconhecê-la; se outra trauteia em surdina uma canção; se a gata mia ternamente. E quando os filhos chegam e dizem como quem vem dali perto, “tão mãe”, há um rio que canta na voz deles. Ou na minha alma, que é a mesmíssima coisa.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Memórias de Bolso

 

        O tempo correu e, por razões de trabalho e estudo, rareei na costureira, o guarda roupa limitado a calças de ganga e compridas blusas em tricot, a grossura do fio dependendo das estações. No verão, dava-me ao luxo de mandar fazer umas blusinhas airosas e frescas. Foi num desses dias encalmados que, enquanto me sorria e dava passagem, logo nos cumprimentos, deixou cair uma lágrima solitária que ficou a escorrer-lhe rugas abaixo. E de imediato, a menina desculpe, mas é que desde que morreu a minha filha estou assim, choro por tudo e nada; e agora gostei de a ver, e olhe, lembrei-me dela, sei lá, parecia-me ela ao postigo da porta…. e, num gesto rápido, como que arrependida da fraqueza, puxou da brancura de um lenço com barrinha preta e enxugou o rosto. O que nos faz a saudade! Nunca fui parecida com Inês, mas saiu-me espontâneo, Eu conheci a sua Inês. E ela numa admiração, de onde? Pois se ela quase não saía de casa… - e toda se suspendeu na expectativa de alguém que, não sendo da vizinhança, lhe conhecera a filha. Ela andava no Centro Social com a prima, aprendiam a bordar crivo e eu era garota de escola e ia aprender ponto-pé-de-flor. – esclareci. Sorriu, o que ela gostava de lá andar! Entrava em casa, mãezinha se visse a professora, sabe tantos pontos como não imagina; e contava de tudo: o que ali diziam e quem eram as outras raparigas, onde moravam. Mas foi só uma semana, o tempo que o pai esteve fora em trabalho.

        E fizemos de conta que não sabíamos o que acontecera depois. Mas eu insisti, cantava tão bem a sua Inês! Minha mãe também cantava bem, mas a Inês cantava ainda melhor; todos os dias lhe pedíamos que cantasse alguma coisa. A senhora deu-me um sorriso grato os olhos brilhando lágrimas, é verdade, cantava muito bem. – puxou de novo o lencinho e enxugou os olhos – As meninas da costura faziam o mesmo. Olhe, até o namorado lhe pedia que cantasse para ele. O namorado de que eu não soubera. Quando lho disse ela esclareceu, era aqui quase vizinho, muito bom rapaz que ele é, estavam bem um para o outro – e ficou-se a meditar. - Quando a minha Inês adoeceu já eram noivos de casamento marcado - e eu tonta, a partilhar da sua comoção. Refez-se um pouco e continuou, a voz a faltar-lhe de quando em vez - A minha Inês já tinha até escolhido o vestido e o véu no Tito Cunha; dizia-me, mãezinha vimos as duas comprá-lo que já juntámos dinheiro para ele….- fez uma pausa muito longa e quando conseguiu, acrescentou, - eu é que fui comprá-lo, a menina nem sabe o que me custou entrar naquela loja sozinha, para comprar o vestido de noiva de que ela gostava. A minha filha estava a morrer mas queria vestir o vestido viva - mais uma pausa de lágrimas – Eu e as enfermeiras, aquele pessoal todo do hospital que a conhecia, ajudou e esteve presente na cerimónia. O noivo levou-lhe o ramo e foi assim que casaram. Estava magrita e pálida, mas ainda assim tão bonita, a minha filha. Mas fizemos-lhe a vontade, não queria morrer solteira, queria ter o nome dele no dela, já que mais não podiam.

        E eu que podia fazer perante isto? Face ao dito e ao subentendido?! Nada senão esperar que o desgosto voltasse ao silêncio de hábito, se remetesse ao recôndito de mãe tão profundamente sofrida. Quando já guardava o lenço no bolso, rematou, a menina não é daqui, não sabe estas coisas, mas olhe, o rapaz tanto a visitou no cemitério que acabou casado com uma rapariga que, no mesmo dia, perdeu o namorado num acidente e ali o visitava também. Gosto dele como de um filho e ela andou aqui na costura muitos anos - encolheu os ombros conformados -, a vida tem sempre de continuar.

        Muitos anos mais tarde, já ela, felizmente, viúva, quase nos tornámos vizinhas. Reencontrámo-nos na retrosaria. Toda ela em negro, era uma velhinha tão amável e sorridente como não se imagina. E detinha a mesma voz maviosa. Conheceu-me, convidou-me para sua casa, contou-me dos filhos vivos, dos netos, de todos serem excepcionalmente bons e atentos com ela. Convidou-me para um chá. Hoje, de certeza, repousa junto da filha. O genro que foi no papel, criou parcialmente dois filhos e finou-se com a mesma doença de Inês. Como usava dizer a senhora X, a vida tem sempre de continuar, é requisito da espécie - digo eu.

domingo, 13 de setembro de 2026

Memórias de Bolso

 

        Naquele pleno de ausências, cada banquinho marcando o lugar de uma aprendiz, a máquina de costura antiga, de roda e correia às voltas com ela se os pés na grade lhe impunham o impulso devido, era o único aparato; e a senhora Z, franzina, rosto miudinho e afável surgindo de dentro do lenço, fazia corpo com ela. Se por algum motivo se erguia e abandonava a cadeira, a máquina exibia uma nudez inquieta e desfigurada que ela apaziguava ao sentar-se. Se a máquina fosse mulher, eu diria que o acto de sentar-se a vestia.

        Para lá da porta interior, sempre fechada e sem ruídos audíveis, crescia o mistério. Se alguém por lá cirandava, era silencioso; de modo que me dei à liberdade de imaginar na cozinha, sentado a uma mesa baixa, um homem ríspido e carrancudo, voz de trovão e a que só faltava o chicote para completar o impo de ferocidade; e via sem ter visto, a raiva com que desapertava o cinto e batia nos filhos e na mulher que os estremecia, a voz a perder-se num fio de ternura se os nomeava, o meu joão, o meu josé, e firme nesse amor atirava-se a protegê-los, braços abraçando a dor e o corpo deles que apenas por ela se calavam ao progenitor carrasco.

        Imaginei que havia um jardim nas traseiras. Livres de escadas e prédios, todos os pobres tinham um jardim em qualquer lugar. Havendo casa e nela mão de fêmea, a pobreza era florida. Podia ser entremeado com as couves, existir na bordinha do canteiro das nabiças, junto ao poço de picota, ao redor da casa, na frente, atrás, dos lados. Onde pudesse ser. Ou apenas havia um conjunto de latas velhas que o merceeeiro atirava fora e elas repescavam para plantar malvas que ressequiam de calor, brincos de princesa que resguardavam do sol com guarda chuvas sem préstimo, cabos bicudos talhados em tábua moldada a canivete para melhor espetarem na terra e eles cumprindo missão, desasados por falta de varetas. Se não havia casa de pobre sem flores, era certo que a senhora Z cultivava com muito amor esse jardim que a filha plantara, ambas tinham acompanhado os sucessos das flores, mondado as ervas daninhas, abacelado algumas doações da vizinhança que vinha enquanto o facínora estava fora em trabalho, e uns dias depois tinham envasavam ou punham na terra. E decerto Inês por ali se perdia, sonhando futuros que não lhe chegaram. Ou falando com elas, afagando uma corola aqui e ali, levantando uma haste pendida, ordenando a beleza com as mãos que tão bem recordo. Juventude tão solitária teria de expandir-se por algum lugar, qualquer coisa a que chamasse sua. Julgo que ela e as flores que não vi gozavam entre si dos pequenos segredos que existem entre quem se gosta e quase nem precisam ser ditos. A juventude quando é sã, é pródiga no bem querer, e Inês sê-lo-ia mais pela circunstância. É sabido que flores cuidadas com amor crescem melhor e mais bonitas. E o mesmo sucede a qualquer animal, o amor satisfeito dá-lhes vigor e alegria. Portanto, é quase certo que, se acaso tinha ordem para sair, a senhora Z depenava o jardim e ia  oferecer à filha braçadas das suas flores preferidas. Aquele espaço tornara-se sagrado, estava imbuído da presença de Inês. Hoje também penso que o pai o reparava com saudade (talvez remorso). Nenhuma maldade compromete a totalidade do ser humano. 

        Imaginava tudo isto e não conseguia coragem para contar que tinha conhecido a jovem, que ela me encantara a meninice, que fora quase como uma visão, tão curto o tempo em que o puro cristal da sua voz atravessou as nossas vidas. Mas queria muito dizer, era como um desabafo-dívida. De cada vez que a visitava pensava que talvez ela abordasse de algum modo o tema da filha, surgisse uma oportunidade. Esperava que me contasse do desgosto que a roía e lhe minguava a figura, maldissesse a morte ou a má sorte que a perseguia. Mas a senhora Z falava de botões, colchetes, feitios de saias e blusas, das meninas que ensinava a costurar e das conversas que tinha com elas. E o mais, calava.

(Cont.)

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Última Hora

 Informo os meus (poucos) leitores que por questões de saúde pessoal vou interromper durante uma semana (será sufivciente?) a actividade neste blogue.

Até lá

Fiquem bem e que um anjo benévolo vos guarde 

domingo, 30 de agosto de 2026

Memórias de bolso

 

        Contudo, depois de muito instada, minha mãe afirmou conhecer-lhe os pais, dizia-me que ela fora menina como eu, facto que me custava a engolir, tinha a certeza absoluta de que nunca ela fora uma criança enfezada e perguntadeira, antes pensava nela como uma espécie de capuchinho vermelho, criatura amorável e semelhante à das historinhas que me contavam.

        Perante aquela inesperada ausência, na primeira semana pensei consternada, “está doente”, julgava que as doenças caíam em cima dos mortais com a rapidez do raio, eram um acaso infeliz, agora estou bem, agora já não estou. Contudo, tive de me render à evidência, passado o meio da segunda semana, e após mais de dez dias de ansiedade e desilusão, convenci-me: não voltaria. Então, abri cerrada inquisição dirigida às jovens que bordavam com ela. Ninguém sabia (ninguém me quis dizer?!). 

        Passava mais de um ano quando, a propósito do seu nome, lembrei a inclemência daquela falta nunca explicada. Chateei tanto minha jovem prima que ela, talvez incentivada  pelo intervalo temporal, capitulou desenrolando o segredo: a garota fora proibida pelo pai que era homem de temer, batia na mulher e na filha e não as deixava pôr pé fora de portas: quase ninguém as via, só ele  comprava e dispunha em casa; ora ambas tinham transgredido enquanto ele trabalhava longe e apenas regressava ao fim de semana. E que eu não abrisse o bico. Se o monstro viesse sequer a desconfiar do que sabíamos dele, vingava-se nelas.

            Minha prima sempre pendeu para o trágico pelo que gravou em mim algumas imagens que me violentaram a imaginação e nunca esquecerei, pintava-me quadros bem negros acerca da nossa condição de mulheres e do que me esperava e ela já conhecia, mas, no tocante a Inês, não duvidei: revi o semblante da jovem, bailava-lhe nos olhos a alegria de frequentar a sessão de bordados; reparara ainda que a despedida no fim de semana divergia, era reticente. Se alguém inquiria, vens na Segunda(?), o rosto anuviava e ela era dúbia e entristecida, não lhe vinha o sorriso diário dos "até amanhã". Mas num ápice voltava ao seu ser de alegria comedida e eu assumia tudo por conta de brincadeira comum. Era frequente haver entre elas segredinhos e risos que nos intrigavam - não entendíamos nem víamos razão para tanto secretismo e tomávamos como fazendo parte de serem mais velhas, uma vez que as nossas perguntas ficavam no ar ou apenas provocavam mais risos contidos que nos reduziam à condição de infância ignorante e nos calavam a boca enquanto a mente  remoía. Portanto, mal o segredo me foi desvendado, condoí até às lágrimas e lamentei de alta voz não ter tido conhecimento no tempo certo. Via-a interpôr-se entre pai e mãe e não me impedi de pintar a sua sorte com nódoas negras por todo o lado e muita lágrima de desgosto e dor. Imaginava-lhe os braços tentando proteger-se dos golpes que, quem sabe, se dirigiam à mãe, a principal responsável pelo dislate. A minha experiência de vida não ajudava ao quadro: as crianças frequentavam a rua, a casa servia para refeições, trabalhos de casa e sono nocturno. Uma criança confinada ao lar estaria doente. Pensei no quanto gostaria de acompanhá-la em cativeiro (nunca me veio o pensamento de que a minha presença podia não ser desejada e não ajudar; de resto, que faria ela com a miniatura que eu era?!), mas minha peremptória prima cortou cerce: não saía de casa, nem aceitava visitas; para mais, morava “nos foros de cima”; ora eu desconhecia tal paradeiro.

         Quando expus a questão a minha mãe ela apenas murmurou, “Os homens dessa família têm todos mau feitio; coitadinha da Inês e da mãe”. E senti naquela afirmação uma tristeza funda, como se uma parte de minha mãe lhes pertencesse também; era como se dissesse, "não há maneira de alguém lhes valer". Senti-me embater num impossível que não era a morte. Desconhecia que vivemos rodeados de impossíveis e o caminho se faz a construir possibilidades não infalíveis. Não me lembro do que pensei por haver uma família com gente tão malvada, mas desconhecia-os a todos e, como é natural da mente infantil, fui esquecendo o desgosto e também Inês. Aprendido o ponto-pé-de-flor, tive autorização materna para abandonar os bordados e dediquei-me a interesse que as carrinhas da Gulbenkian propiciavam, bem como à “Fagulha”, revista que uma professora condescendente me dava a ler.

        Ignoramos a imagem legada aos outros, sobretudo aqueles em quem nunca reparamos: porque não são da nossa idade ou porque são, por terem outra condição e outros problemas ou os mesmos, porque cruzamos com inúmeras pessoas todos os dias da nossa vida fremente. Acredito ser nesses outros em que não pensamos, nesses que nos vêem um dia e outro sem que deles demos conta, que podemos deixar imagens mais próximas do eu que somos e, tanta vez, nós mesmos ignoramos. Não sei se me ajudou a viver melhor, mas, ao invés do que parecia, acredito que também Inês é presença na minha vida e me construiu, está dentro de mim como tijolo em parede. Guardo ainda a imagem do bordado a crescer enquanto nos embalava na canção que preferíamos e de que me ficou um pedaço da letra, “conta a lenda que um certo mouro à noitinha ia namorar com as ninfas do rio Douro ao luar”. Garota de escola, não sabia o que eram ninfas; e nem precisava saber.

(cont.)

domingo, 23 de agosto de 2026

Memórias de Bolso

 

        Sem que ela o soubesse, havia entre nós um elo secreto. Bastava ouvir-lhe a voz e já pensava em minha mãe, alguma coisa de mavioso e comum lhes passeava pelas cordas vocais. Acertavam-se ainda na inata percentagem de delicadeza e bondade. O rosto da senhora costureira, amarrotado de rugas, tinha o toque de papel de seda. Vestia de negro cerrado (lenço e tudo) desde que a única filha lhe morrera de cancro.

        Conheci a filha antes da mãe. Jovem de beleza delicada, olhos de Audrey Hepburn e mãos de fada (aprendia a bordar), encantava-nos vê-la debruçada sobre o pano, a agulha indo e vindo na sua mão pequena, a outra atida ao bastidor, simétricas na elegância de dedos e unhas ovaladas; ainda sei a forma como cortava as linhas do bordado, usando tesoura pequena de bicos revirados e que eu julguei anómala até ouvir a explicação. E petrificava a mirá-la em vez de tentar o ponto pé-de-flor que me aborrecia de morte e antes admirando o crivo que lhe nascia em cadência segura, num diálogo entrosado entre mão e pano, auxiliados por agulha, linha, tesoura e bastidor; recordo-lhe o rosto inclinado e levemente penumbroso, a ondulação ligeira do cabelo moreno sempre presa do lado esquerdo com um laço de fita. Além da beleza, a garota tinha certo ar seráfico e parecia-me tê-la visto num santinho da caixa de minha mãe; ainda não me existia Audrey Hepburn, que, nesse âmbito, dava dois-zero a Santa Maria Goretti.

        Tudo se concentrou nas sessões de bordado que juntavam várias raparigas e aconteciam durante a tarde; ora as gaiatas da escola, terminadas as aulas, juntavam-se ao grupo e tentavam pontos fáceis no que então se chamava de “Centro Social”. Saindo a porta, eu desatava a correr com o objectivo de a ouvir cantar. Minha mãe raro cantava fora da igreja e voz como a dela, mas cantando pagão, jamais ouvira. Se puxar pela memória não recordo mulheres cantando; tampouco raparigas; lembro-me de rapazes que assobiavam modinhas simples e de alguns homens tocando em gaita de beiços. 

         Para minha mágoa, e contrariando o meu desejo, existiam tardes em que chegava e já o canto terminara. Entristecia. Nos dias em que a sorte se plantava do meu lado, depois de muito instada pelas demais jovens (tímida, a garota), ouvi-la era o cume da perfeição. Sempre debruçada para o trabalho de mãos, levemente ruborizada, siderava-nos o encanto daquela voz abençoada. Envolvidas pela melodia sentíamo-nos elevadas a um mundo melhor, mergulhadas em sonho e mansidão, aspectos a que o nosso quotidiano era estranho. Uma vez li que um ateu se tornou contrito católico depois de entrar casualmente numa igreja e ter visto uma garota rezando. Ora creio que todas as que escutavam tão belo canto sentiam o impulso de um mundo de beleza; a voz de Inês era chave que abria em cada uma de nós portas ignotas, desde sempre presentes. Inês não era bem da minha terra, dizíamos que vinha “dos foros de cima” e não me parece que alguma vez tenhamos “chegado à fala”. Nós éramos a revoada de crianças que, em alarido, invadia a aula de bordados; elas eram raparigas, por vezes imersas em inesperado segredar, sorrindo cúmplices não sabíamos de quê, o que sobremaneira nos irritava um bocadinho – podiam estar a rir de nós. Inês como que pairava acima desse secretismo cúmplice e feminino que lhe invejava a pele de porcelana fina e a figura estilizada que desprendia pureza e fragilidade. Criança desvairada, decerto lhe senti a diferença já que me parecia uma rapariga inventada, aparecera de repente, encantara-nos, e um dia, sem explicação, desapareceu.

(cont.)

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Memórias de Bolso

 

        Pronto, podem dizer que, no princípio, as telenovelas eram de qualidade superior, que com elas se deu a renovada descoberta do Brasil, que os actores eram soberbos, que os textos bem interpretados criavam o suspense necessário, que a novidade conquista por si mesma, etc. Tudo verdades indesmentíveis, o etecetera incluído. Mas é que me parece que do lado do espectador também houve mudança. Que olhar é o nosso sobre a TV?! Pois é, julgo que reina o futebol e seus conjuntos de andarilhos, entre jogos, comentadores, telejornais longuíssimos que, é claro, também abordam o futebol, mais os canais clubísticos que não vejo nem de raspão, mas é possível adivinhar o assunto. Sou das pessoas menos adequadas para comentar os temas televisivos, cujos, efectivamente, não vejo. Os canais de notícias – onde há telejornais a todo o momento – repetem novidades, entrevistas e vídeos vezes sem conta. E eu que até sofro de alergia a telejornais e ando a leste de quase tudo excepto guerras, fogos, refugiados, futebol e os tristes manda-chuvas do mundo, dou por mim a pensar que já sei coisas demais e que é provável que quem papa as notícias como galinha a milho, não saiba muito mais. Ou sim, mas de pouco serve. É evidente que falo do comum mortal e não de profissionais da notícia. Quase parece que incentivo ao desconhecimento, mas existe – posso enganar-me – excesso de informação sempre a mesma e que não induz à acção. É a banalidade de tudo e não apenas do mal, embora este se revista das mais nefandas consequências. O apelo à carneirada permanece e é bem sucedido

        Em contraponto, lembro uma senhora costureira que conheci e me chamava de menina Bea, deferência que, à época, era a única a utilizar. Conversávamos bastante enquanto me costurava mangas e alinhavava cós de saias. Chegada na minha acelera, ela abria a porta e punha as mãos na cabeça, ai menina Bea que me esqueci que era este sábado e não tenho as suas coisas em prova. Eu nem sempre sorria, mas voltava a montar o meu cavalo a gasóleo (ou seria gasolina?), andava mais uns quilómetros e visitava minha mãe em sua silenciosa morada. À volta, ainda ela ia a meio, mas preferia esperar. E “metíamos conversa” enquanto ela, sentada na cadeira da máquina de costura, dedal no dedo, ia alinhavando bocados de pano uns aos outros e eu escolhia um dos banquinhos baixos das aprendizas. Mulher mais infeliz não conheci. E tinha do mundo e dos outros a melhor opinião. Jamais a ouvi queixar-se de alguém. Para a sua alma cândida todos eram boa gente e em tudo via algo bom. A propósito da televisão que não tinha, calhou uma tarde de sábado dizer-me enquanto os pontos me enformavam a roupa, Olhe menina Bea, eu gosto muito da televisão. Nunca vejo, mas às vezes vou aqui ao lado a casa do meu filho Manuel dar um recado ou saber se está tudo bem com eles e estão a dar anúncios. Que coisa tão bonita! Fico encantada a vê-los, as pessoas falam tão bem e são tão agradáveis, aquilo é mesmo bonito….nunca vi uma telenovela nem um filme, mas deve ser bom ter uma coisa assim em casa e poder uma pessoa sentar-se descansada a olhar para as histórias que contam. Falta-me tempo, a minha nora até me chama para ir ver uma noite de teatro, mas não posso. 

        Tudo lhe saía em voz melodiosa e serena mas o “não posso” ouvi-o tão dolorido e cheio de impossíveis que me comoveu. Talvez ela não o soubesse, mas era-me fácil imaginar a carga que a amarrecava. Difícil era, conhecendo-lhe a vida, compreendermos o brilho interessado do olhar e a genuína alegria da sua alma simples no deslumbre do quotidiano alheio.

(cont.)

domingo, 16 de agosto de 2026

Memórias de Bolso

 

        No molho desatado de acasos e destino, tenho de convir que me calharam factos memoráveis. Pormenores que arrumei nos desvãos da alma mas nem por isso esqueci. E cada um deles merecia ser contado tal a diacronia que os levou a permanecer. Contudo, se acaso me assaltam a memória, não deixo de compará-los com factores hodiernos; sem a busca de similitudes que talvez sejam causa da lembrança. Ou nada disto. O certo é que me chegam à memória quando deveriam estar como balde e esfregona: arrumados e invisíveis aos olhos (neste caso, da alma). Porém a memória é quem é. E gratia plena por sê-lo.

        Quando, por exigência profissional, eu calcorreava este e aquele lugar, a senhora Z recebeu-me de braços abertos em sua casa; cedeu-me o quarto melhor – o seu - e passou a dormir na sala. E este favor não foi pago nunca, apesar da mensalidade que lhe era devida. Ora esta mulher tinha uma família grande e dois dos filhos e mais os netos coabitavam com o casal. A casa era uma fonte de gente. Era o tempo de a TV ter hora de abertura ao fim da tarde e fecho com a bandeira nacional e hino, já não recordo a que horas uma e o outro. Acontece que, apesar do barulho, a senhora Z considerava a TV como única companhia fiel; acendia-a durante a tarde, horas antes do início da programação. E era vê-la a rodar (ou calcar) o botão, com o ar satisfeito de quem procura a porta de amiga especial. No écran surgia o símbolo RTP rodeado de figuras mais ou menos geométricas que variavam entre a penumbra cinzenta, o branco e o negro. E havia música até começar a emissão. Dava-lhe alento, dizia. Não era uma mulher sorridente, o que denunciava abundância de escolhos que, curiosamente, se desvaneciam na presença da TV. Não que escutasse a música ou pudesse sequer fazê-lo – havia vozes que altercavam, o mais das vezes, aos berros – forma de os irmãos falarem uns com os outros. No meio disto, as crianças choravam ou brigavam por este ou aquele objecto, ela irritava-se aos gritos, decibéis em crescendo, as cortinas que faziam a separação dos quartos, acediam à guerra e, como soi dizer-se no meu lugar de origem, “andavam num badanal”. Ninguém ouvia a TV ou ligava a notícias, a TV era mundo independente, fazia o que queria sem que alguém mudasse canais ou acusasse a heresia de lhe baixar o som, facto que deixava a matriarca fora de si. Era um sufoco. Como se alguém tentasse esganá-la, vociferava, Vocês querem matar-me? Deixem o aparelho, só quem mexe nisso sou eu, ouviram? – e rodava o botão para a posição inicial ou, por pirraça, levantava o som. O gesto era tão enfático que eu esperava o dia em que a peça lhe ficasse na mão, o que nunca sucedeu.

        Chegadas ao cume do possível e perante a voz e comando, as altercações baixavam de tom, um ou outro membro desaparecia atrás da cortina que ficava a oscilar de raiva, e a discussão que já prometia pancada, perdia interesse. Quanto à TV, asseguro: era rainha incontestada, apenas emudecida após o hino nacional e quando o che...che….che….de final de emissão se fazia notar.

        Neste quotidiano sem falhas, fazia-se um intervalo de silêncio para ouvir a telenovela “Gabriela cravo e canela” interpretada pela sensualíssima Sónia Braga que não se poupava a momentos de erotismo caricioso onde o romantismo escondido dos tugas se espanejava surpreso. Ignoro se a telenovela melhorou a vida sexual portuguesa, mas que conseguiu silêncios profundos, conseguiu. Em casa da senhora Z, não foram poucas as brigas entre cunhados, irmãos, primos, avós e etc, que sanaram ao som da música da anunciada telenovela. Eu assistia siderada a esta paisagem humana e mais me parecia uma espécie de fenómeno da anunciação à Virgem – era o templo e o tempo do respeito absoluto.

        Foi no ano em que frequentei o propedêutico, as aulas mediadas pela televisão. É claro que não pedi para assistir a emissão naquela TV de companhia. Comprei um mini televisor que via no quarto com bateria. Zelei pelo bem comum.

(Cont.)


domingo, 9 de agosto de 2026

Cronologia dos Domingos

 

        O domingo nem sempre foi este marasmo aversivo. Na infância, o domingo era o melhor dia; o reverso da medalha veio vindo com os anos, teve fases como a lua, antes de se deter no eterno presente, mesquinho de tão vulgar e anódino. Nada acontece ao domingo.

        Minha mãe preparava o domingo de véspera. Banhava-nos com cuidado todo próprio, um de cada vez, a ternura subjacente à necessidade. Ao domingo dormíamos um pouquinho mais e a mãe desmanchava e refazia-nos as tranças e armava no cucuruto do mais novo/a um caracol que enrolava com o dedo e a ajuda de água e pente. Não tenho memória de ajudá-la e julgo que enquanto ajeitava o almoço ou tratava do asseio pessoal eu devia ler ou fazer trabalhos escolares. Nada sei das manhãs de meu pai e nem recordo uma vez em que tomássemos juntos o pequeno almoço. Aos domingos éramos nós e a mãe que nos enviava na frente para não haver atraso à missa. Mas ela entrava quase a meio e nós, desatentas, virávamo-nos para trás uma vez e outra, vigiando o caminho. Em mim, a função só iniciava se ela estava presente. E tanta vez lhe soube da presença pelo trinado límpido e puro da voz a prolongar os cânticos. Diziam-me os mais velhos que fora uma rapariga alegre, a quem as camaradas pediam que cantasse enquanto trabalhavam os campos. Ignoro se meu pai lhe gostaria da voz e apenas uma vez a ouvi cantar em casa. Depois, havia outro motivo para gostar de domingos, o almoço era sempre um pouco diferente, o que agradava a todos, meu pai já ressuscitado de onde quer que estivesse. Algumas tardes visitávamos com a mãe os avós maternos e era para nós uma alegria fazer três quilómetros a pé, minha mãe carregando sempre o mais novo/a. Passávamos por um pinhal para encurtar caminho e esse trecho era o mais apetecido. Além dos pinheiros penumbrosos que me lembravam os contos que lhe ouvia, onde aconteciam coisas extraordinárias em que eu acreditava piamente ainda que minha mãe fosse avisando que era só história que alguém inventara,  havia flores silvestres de beleza frágil e colorida e muita bicharada que me levava a saltos e gritos palermas: ele eram porcos espinho lentíssimos atravessando o caminho, cobras que resmalhavam soturnas a centímetros das minhas pernas, lagartos inertes na soalheira, guardando no sangue frio o calor que lhes faltava e que fugiam a sete pés mal nos pressentiam, eu saltando para trás que nem gazela assustada e a palavra mágica num berro, "Mãããeeee!"; ela sorrindo, "tonta! Eles fogem com medo de ti, andas aos saltos por todo o lado". Mas esta verdade não satisfazia os tremeliques das pernas nem o baque do meu coração amedrontado. Uma vez ou outra cruzava-nos um homem que nos saudava pedalando pela mesma vereda e fugindo às areias imensas da estrada de carroças que no inverno era uma poça só e de que nos desviávamos em cuidados de não escorregar, minha mãe dando-nos a mão à vez, a fim de a água não nos empapar o calçado.

        A adolescência, mais tumultuosa, desmanchou-me o ritmo inicial dos domingos e iniciou-me em correrias múltiplas. Contudo, tentei imitar minha mãe na sequência das funções. Às tardes visitávamos meu avô uma vez ou outra. Quando me entrou a juventude fiz os meus domingos e ainda os desejava apesar do trabalho que me exigiam a fim de aplanar a semana que não seria fácil sem eles. Abençoava-os, mas terá sido por aí o primeiro desencanto, ainda leve, um tamanho de futuro sem fim à vista.

        O casamento e os filhos, por sua própria natureza e não apenas, foram tragando a alegria dos domingos. E quando dei por tal, o domingo era o dia da semana de que menos gostava e aquele em que mais me cansava. Sem saídas e com bastante trabalho a pesar-me, comecei a abominá-lo. Ao invés da maioria, amava a segunda-feira, desejava o emprego e as horas que nele gastava. Dava-me prazer, relaxava-me falar com os colegas, ou apenas encontrá-los e observá-los na lufa-lufa quotidiana. Exceptuando os últimos anos, a profissão animava-me grandemente.

        Continuo a abominar os domingos embora já não me deixem extenuada. São dias calmos e isolados, mais isolados que os restantes. Mas vejo filmes, leio livros, tenho o tempo que faltou sempre a minha mãe. Devo ser uma sortuda, mas é que não dou por isso. Pobre e mal agradecida:)

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Um Mar de Sargaços

 

        Na minha aldeia que não chega a sê-lo - é um lugar -, segmento balizado na beira da Nacional por duas placas, existem algumas singularidades das que caracterizam lugarejos breves e tão sem importância que nem constam dos mapas. Teve um nome antigo que poucos conhecem: era feminino e aludia à natureza do solo - inda hoje não consigo entender se aquela designação da Nacional, que lhe assinala princípio e fim, é masculina ou feminina. Quem a terá inventado?! Preferia esse nome que lhe delatava a natureza do solo e tinha género. O actual, definitivo e andrógino, pende para o masculino.

        Pois neste lugar de abundante pobreza, tudo foi difícil; não chegava a electricidade e a água vinha dos poços e era emprestada ou vendida a terceiros – nem todos tinham a benesse de poço próprio e a situação mais comum era a da partilha, o poço era aberto pelo esforço dos homens interessados em ter água sua e situava-se no limite dos terrenos, metade para cá metade para lá. Que me lembre, a partilha da água era pacífica. É verdade que abundavam brigas de taberna e sovas nas mulheres com maridos de mau vinho ou pior carácter. Em compensação, muito ali aportava e havia indulgência geral para casos escabrosos: homens com duas e três mulheres, todos cohabitando a mesma casa em preclara harmonia, sem gritos ou ciúme que se notasse; irmãos que viviam maritalmente como coisa natural; gigantes descalços e brutos de feição, com alma de infância que as crianças não reconheciam fugindo deles a sete pés; mulheres asseadas e trabalhadoras, cheias de filhos, cada um de seu pai, mas que conservavam o marido primeiro que todos conheciam por "corno manso", um senhor bem apessoado que não trabalhava ao campo, usava gravata e fora adoptado pelos autóctones; amantes de só de noite e muito sui géneris por serem ambos livres e muito se esconderem com pontinhas de rabo à vista; senhores importantes que ali depunham as suas meninas que os nativos mal tinham ensejo de espreitar porque viviam na clausura de  casas-castelo, uma formosura de sebe-soldado a defendê-las. Tinham estatuto e modo de vida acima da populaça, não se misturavam e saíam de automóvel apenas com os protectores. Eram supremamente admiradas pela condição de saberem prender a si gente graúda.Os filhos dessas relações frequentavam a escola de todos e eram admirados por qualquer: vestiam bem, comiam lanches invejados até ao anátema do sonho, usavam material escolar diferente e muito mais bonito e tinham todo ar citadino que nos faltava. Enfastiados, bebiam sumos de laranja em frasco,  que levávamos ao limite da inveja.

        É evidente que, como em lugares semelhantes, havia e inda há algum vocabulário próprio e de uso corrente a acompanhar costumes e hábitos: Limitamos o termo “aventar” a “deitar fora”; não se diz “vou a casa de”... mas: “vou à da/do”; e dizemos, “estou desasada” querendo referir-nos a um cansaço extremo provocado por trabalho extenuante. 

    Também eu, se partes, quando partes, fico “desasada” no sentido mais estrito e não usado por cá: levas contigo as minhas asas, fico na terra, focinho rente ao chão, olhos de cão mal morto. Contudo, o amor tem de ser leve ao outro, não posso e nem quero deixar-te perceber o peso da tua ausência. Podia utilizar termo mais bonito, mas somos de onde somos, "desasada" é a a forma que me pertence. E que a vida te não pese e sejas feliz.

domingo, 2 de agosto de 2026

O Copo Meio Cheio

 

        Hoje prometo festejar-te. Vieste. Por mim. Não interessa que seja um dia de trabalho e tenhas reuniões umas atrás das outras. Por mim te levantas cedo e almoças em minutos. Sei que esses minutos de descanso existem por um motivo: ganhares tempo ao fim do dia. E prometo dar-te do que preferes: vou cuidar que o vinho esteja bem gelado e o petisco saia a preceito.

        Prometo não lanchar de avental e usar um vestido que achas bonito. Prometo que chego a beber um nadinha de vinho que adultero para um brinde enquanto tu, em ritual de desaprovação, franzes o rosto sorridente.

        Mais tarde, prometo uns doces e uma sangria de champanhe para as tias e não te forçar a estar presente. E prometo o que nem é de prometer: gostar sempre de ti e ser grata à vida e ao Deus que te trouxe até mim. Porque és um dos meus doces enlevos, filho. Ter-te hoje por perto, significa.


quarta-feira, 22 de julho de 2026

Esta Lisboa que Amo

 

         E logo uma viagem embebida em saudade na linha de Cascais a que chamo linha do Estoril e, no presente, só acontece por ter de ser, em nome de uma amizade outra e antiga. Entro no comboio com a sensação de que maculo o passado. Sei que a sacralidade se evolou: não sinto a ansiedade antiga que me precipitava o coração mal punha o pé na gare do Cais do Sodré e me deixava embasbacada no destino, olhos parvos virados ao mar, pensando que ela o via todos os dias lá de cima e que, porventura, uma vez ou outra, frequentasse o comboio. É assim o amor, quer pisar onde pisam os pés de quem gostamos, ter o gosto de olhar o que vêem os olhos do outro, imaginando o que sentiu ou sente quando abre a janela ou apenas corre a mão de habitual delicadeza no étamine simples que conheci nas janelas e tão adequado ao despojamento próprio. Quanto eu gostei e gosto dessa filha do Douro e de Poiares da Régua que como tantos dedicaram a vida ao vinho do Porto que inda provei por bondade sua. Depois saía do impasse comovido e começava a subir até ao destino. Na escadaria até à porta principal, o meu coração entontecido transbordava. Tocava a campainha, entrava e aguardava na sala de visitas o suave roçagar da roupa, já que os passos eram silentes. Ela entrava e trazia consigo o odor a lavanda. Em sua homenagem (alguns lhe ofereci), mora no meu quarto um Ach Brito que gosto de aspirar. É um bocadinho da minha força diária.

        Desta vez, rodeada por bandos de garotos destinados à praia e turistas que rumavam a Cascais e Belém, toda eu era olhares ao relógio do telemóvel. Não sei porquê, mas deparar com o forte onde permaneceram os presos políticos e admirar os longes do Bugio, emociona-me. Nada na beleza daquele mar me afecta tanto como a imensa solidão do farol e mais as histórias que deve guardar, ou a prisão onde vi a firmeza delicada de Sophia segurando uma flor, enquanto nascia a liberdade dos presos políticos nesse imortal Abril de setenta e quatro. Vou contando as estações e, por fim, saio, subo até à paragem de novo autocarro e entro grata à boa vontade do motorista que já partia.

        À medida que nos afastamos, surgem moradias desarrumadas e rotundas novas e espaçosas. De quando em vez, um aglomerado de casas antigas, ruas estreitas, velhos amarelentos nas portas de café, o ar pesado de barbas por fazer e mulheres guardadas não sei onde, a contrastar com o panorama do primeiro autocarro, turistas leves e felizes embora um pouco desorientados na balbúrdia, a patine de Lisboa antiga percorrida por solta garridice juvenil em roupas claras ou alegremente coloridas, pernas e braços ao léu, chapéus e bonés a salvar alguns turistas pouco habituados ao calor do sul europeu. Uma chusma de automóveis estacionados causa os malabarismos do trânsito e, de onde em onde, na vez das rotundas desafogadas, um edifício com pergaminhos e história, imagino que lar possível de grandes senhores de antanho. No subúrbio, os ossos do autocarro chocalham a amargura sofrida em anos e anos de trabalho e maus tratos. É outro país. Passei Tires e, por mais olhares, não descortinei a prisão. Enfim, chego e cumpro a visita que me propus.

        O tempo corre a maratona quando conversamos com quem vive intramuros e tudo pergunta do mundo conhecido. Saio para o transporte, mas a tecnologia barra-me a saída. Corro abaixo e acima a queixar-me que estou presa e que e que… a porteira, velha e coxa, acompanha-me de comando na mão a resmungar, “mas eles vieram arranjar o portão hoje mesmo”; e vai descendo e carregando no botão do comando. A meio do percurso, o portão começa a deslocar-se e corro desentraitada até à paragem gritando obrigados enquanto atravesso a estrada. E o autocarro já lá, no seu posto. A bondade dos dois motoristas de autocarro é directamente proporcional à velhice e achaques dos mesmos. São dois bons homens guiando viaturas em mau estado. Também este motorista esperou por mim. Se não fora a simpatia de ambos teria perdido o comboio para casa.

        No regresso, continuamos a chocalhar. Quão diversos são estes passageiros. Quase todos negros. Verifico a presença de gente nova, sobretudo raparigas. São lindas, quase todas de cabelo natural e apanhado (o dia está quente) aqueles olhos grandes e negros com a expressão que me parece sempre a do bambi dos desenhos animados: têm qualquer coisa de líquido, digo que relampejam ternura dos trópicos. Estas garotas não são alegres e barulhentas como os garotos da praia, mas terão a mesma idade. Todas vestem calça de ganga azul clara ou branca, cintura alta de vespa (vespíssima, diria Pessoa), esguias de não destoar de qualquer modelo de passerelle. Seguem sérias e sem conversa. Não parecem ir de passeio. Talvez se destinem ao turno das dezasseis à meia noite. Ali, toda a gente parece ganhar o pão com a força dos braços e não em trabalhos “limpos” como diziam os mais antigos que eu. Talvez sirvam à mesa, sejam cozinheiras e ajudantes de cozinha, façam o serviço doméstico em algumas casas, vão buscar os meninos de boas famílias à escola.

        Sentadas defronte, duas loiras postiças falam de unhas de gel, uma delas mostra as mãos acabadas de retocar, talvez para convencer a parceira que tem o verniz em decadência, duas ou três unhas descascadas por inteiro. Saem ambas de braço dado, facto tão bonito quanto em desuso. Vi-as dobrar uma esquina, decerto em busca de destino comum.

        No comboio de regresso, a viagem de pé fazia-nos olhar (e invejar) quem vinha da praia e conseguira sentar-se. Os sentados dormiam a sono solto, pendendo a um lado e a outro, eu temendo pela cabecita suada da criança que tombava dos braços da mãe, ela mesma em crise de sonolência. O poder do ar condicionado, perante a multidão invasora e estoirando de calor, era nulo. E nós de estátua, à mistura com cadeiras de praia, chapéus de sol, colchões enrolados e esteiras, crianças quase submersas mas ainda assim agarradas a sacos de baldes e pá, mochilas de campismo, canas de pesca e sei lá que mais. Enfim, um mar de gente e de artigos de praia e mar que não nos davam espaço para cair e que, com grande esforço e muito empurrão simultâneo ao consciencioso, “com licença, com licença, é para sair, com licença”, se apertava a dar passagem aos felizes contemplados.

        Promessa: não repetir a viagem em tal horário.

domingo, 19 de julho de 2026

Esta Lisboa que Amo

 

        Ir a Lisboa faz-me bem à alma. Desencrava-me, vejo gente, entro em lojas, corro de um lado a outro porque tenho poucas horas para muita função. E apesar disso, gosto.

        Viajando de carro, vou pensando pelo caminho no que esqueço em outras horas. O quotidiano encarreira para o comezinho, espapaça-nos o tempo em mesquinhices tão necessárias como “aborrecentes”, para citar uma das filhas de Lobo Antunes na sua contundente linguagem de infância. Portanto, em viagem ganho espaço mental: penso nos meus amigos, no quanto os gosto e no desejo de visitá-los; e penso nesses que nunca vejo e de quem tenho inexplicáveis saudades, quem sabe me esqueceram e nem merecem o pensamento; nesta pausa, erguem-se as coisas que gostaria de fazer e sei impossíveis, as que ainda posso fazer acontecer, etc. 

        Se vou de comboio - acontece menos vezes mas prefiro, leio um livro ou medito levemente na companhia -,  escolho sempre um dos dois bancos virados um ao outro e com mesa a meio. Não que precise da mesa, apenas fico de frente para duas pessoas e com outra ao lado. As “pessoas de idade” têm a vantagem de não serem notadas e poderem observar, facto hoje muito facilitado pelo uso de tablets e telemóveis. Os meus vizinhos estão mergulhados na sua pequena bolha. É raríssimo encontrar alguém com quem se possa entabular uma conversa, mas é vulgar ouvir as conversas mais ou menos longas dos meus vizinhos de viagem ao telemóvel – será porque aproveitam o tempo e súbita lhes surge a necessidade de ouvir uma certa voz (invejo-os). Quando os lugares não eram marcados, entrava atrelada a uma colega ou alguém conhecido e conversávamos a viagem toda. Hoje, viajar de comboio assemelha-se ao ovo Kinder, traz uma surpresa. Não acho mau. Gosto de surpresas (boas).

    Numa destas visitas, e já na capital, meti-me num autocarro julgando-o a via de maior prontidão. Grande lorpa! O transporte devia estar em início de viagem e deu voltas e mais voltas (apesar do google maps me dar o percurso, o autocarro chegou e atirei-me lá para dentro sem consulta prévia, olhei apenas ao destino). E só não apreciei mais a paisagem por ter hora marcada no dito destino e ver os minutos “correndo correndo sem nunca parar/caminho do rio em busca do mar” (parafraseando versos de um livro de leitura da antiga primária, acerca da água; creio). Mesmo dentro da pressa, deu para ver edifícios que devem ser soberbos, alguns dos quais não faço ideia do que sejam porque não consegui ler as inscrições que ladeavam a porta principal; mas passei por um miradouro cheio de gente e de onde Lisboa aparecia linda, vestida de telhados e folhos de brancura bordada a gosto, mais aqui e mais ali; Entrevi a entrada do Jardim Botânico e ignoro se sabia da sua existência; reparei num polo universitário mesmo ao lado e de que não fazia ideia; o Príncipe Real que nem sabia onde ficava (ainda não devo saber) e estava muito cheio de gente nova e acalorada; alguns edifícios retocados e luzindo a sua época - ignoro se apenas no exterior; outros quase em queda livre, facto que me penalizou em extremo. E os semáforos apostados no vermelho e que, se por um lado me permitiam tempo extra para os olhos, por outro, atrasavam-me ainda mais.

      (cont.)