quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Ode Marítima


Não sabia o que era a Ode Marítima. Quer dizer, não é preciso ser um expert para saber, é um poema de Fernando Pessoa, figurado no heterónimo Álvaro de Campos. E esse foi o meu motivo para o espectáculo. Comprei bilhete e porfiei por  não saber mais. E ponto. Surpreende-me ó Ode Marítima!
E foi isso, um límpido arrebatamento. Tão arrebatado que nem sequer me lembro onde me sentei ou quem estava a meu lado (os meus arrebatamentos são isto, tiram-me de mim; esvazio, à força de me encher deles). Aconteceu como nos filmes, um tu-a-tu, uma proximidade íntima e adesiva, coisa de não saber se a minha cadeira se deslocara para o palco ou ele viera até mim. E ó  Ode Marítima, ainda bem que te escolhi.
Tudo começou com a minha entrada ao rés da hora, sem tempo para comprar aquele panfleto informativo sobre o concerto (desculpas, jamais o comprei) ou ouvir sequer um comentário. Estranho. Havia um indivíduo no palco, pacato e sentadinho. Desligado da plateia, lia um livro ou fingia lê-lo enquanto na parede do fundo, descaradamente, passava uma cara: mais de um metro que ora ria, ora ficava séria, ora nos olhava. Não que fosse feio – o exemplar masculino –, mas desconfiei. As luzes já na semi penumbra a indicar início de espectáculo. Da orquestra, nem rasto. Mau. De súbito, a cara desaparece, o fulano do palco levanta-se, vem à boca de cena e começa a declamar pedaços – graaaannndes pedaços – da Ode Marítima. E um fundo de água cantante, água correndo por dentro e por fora; posto no interior da Gulbenkian, o saltitar do Tejo em remançosos dias. E eu pasmada de maravilha. A adivinhar o actor na colocação da voz, a reparar que o rosto de metro e meio era o seu, a sentir que a voz dele não era só dele e de Pessoa, era minha, eu palpitava nas palavras, no canto da água, na suavidade ondulada e transparente da sua cadência corrente. E depois, não sei como aconteceu, mas há-de ter sido por magia que estava lá e não dei por entrarem, a orquestra já sentada fez nascer uma melodia deslumbrante, tão depressa cheia de gotas cristalinas e praias de água azul, como em  descomposta procela. E juro que ali vi o esforço dos marinheiros da vida dobrando seus cabos das tormentas, e assisti aos naufrágios, braços gritando a amplidão do medo, gente tragada pelo abismo, dobrada pelo terrífico oceano  que, cego de raiva,  alteava forças.
(cont)

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Nós e o Tempo


O Natal é assim, começa-nos na alma. Insistente e com natureza pedinte. Pede e alastra murmúrios, chaga-nos a cabeça lembrando quem nos faz bem ao coração e nos ajeita a vida. Depois, leva-nos pela mão a quem nos fez e ajudou ao que somos e planta-nos indefesos nesse lugar amado, e para muitos temível, onde as ausências incandescem. Portanto, lá veio a infância e a memória de D. Mimi.  D. Mimi que, entretanto, já mudou de lar. Na ignorância dos seus gostos e necessidades depois de um ror de tempo sem vê-la, falei com a filha, “ahnnn..., não há nada que ela não tenha, o lar é bom, tem boa alimentação”. Não insisti. Pensei antes na lição de minha mãe, “toda a gente gosta de mimos”.  Mimar é repetir sem palavras o quanto alguém nos importa, mimos são luzes súbitas sobre um nós de ocasião que não é ocasional. Perguntei onde ficava o lar e certa tarde dispus-me ao bafo quente do ar condicionado, climatazador de sangue velho  que reverbera o cheiro a urina e decomposição.
Chegada da claridade exterior, não a distingui. Apontou-ma a funcionária. Bem na minha frente, a meio da fila de velhos. Avancei. Coloquei-me face ao irreconhecível daquele corpo amolecido e meio afundado no sofá, coisa sem dono, descomandada, e  em posição tão desconfortável ao olhar como ao sofrer. Ajudei-a a poisar as pernas no chão, pus-lhe a almofada nas costas, tentei endireitá-la. Agradeceu-me e perguntou, a menina quem é. E quando disse o meu nome, ela lançou um quem estrangeiro que me mordeu de remorsos; cheguei a pensar que talvez a memória lhe tracejasse. Repeti, “eu, não se lembra de mim, provava os seus vestidos de criança”. Mimi a tactear, num contentamento de mãos que agarravam as minhas, “ah, então não lembro. É que não vejo, filha, estou quase cega com as cataratas. Estou para aqui sem préstimo nenhum, não conheço ninguém”.
E naquela sala de barulhos impróprios, foi contando o calvário de ser fardo para a única filha, de não poder ler nem ver a TV, das lágrimas, da alegria de um bisneto para que não tem olhos. Em volta, uma velha aferrolhada em zanga, boca torcida e olhos malvados, asneirando feita panela de pressão, a largar vapor de quando em vez; outra, terço ao pescoço, cantava, “ai, ai ai, eu gosto dessa mulher....”; ao lado de D. Mimi, uma velhota magrinha e alta, aperaltada em blusa de laço e mantilha, depois de me esquadrinhar de alto a baixo, encetara decisivo monólogo que queria ser conversa. Olhava-me  e falava, falava, falava. Depressa compreendi que bastava acenar semeando aqui e ali um pois intermitente. Não desejava respostas, queria contar, mostrar que existia. Tanto velho para duas únicas visitas.
E a alegria de D. Mimi ao saber da filhós e dos pasteis de grão. A sofreguidão de comê-los logo ali, migalhas por si inteira, “desde que comecei nesta vida nunca mais provei coisas destas”.  Foi decerto o deus das pequenas coisas a guiar-me o pensamento. Só pode.
No conforto de sua casa, a filha que se apresta a viagens no estrangeiro mês sim mês não, vivendo de rendas que são muitas e são boas. Aqui, a mãe cega, em longa lista de espera para a cirurgia às cataratas.
E depois a vida é que não é justa...

sábado, 24 de novembro de 2018

Nós e o Tempo


A corrida do tempo anota-se em anos, décadas de calendário, semanas medidas por sois e luas e outros espartilhos para que não há fuga. E no entanto há gente que usa a proximidade das fibras para se situar. O cotim, a alpaca, o feltro, a chita, o linho, a popeline, a pura lã. E mais. Falar de cada uma situa o momento, a classe social, a carteira gorda ou magra, a pedantice e a pelintrice que tanta vez dão o braço, a miséria engravatada e a opulência com e sem disfarce. Mesmo o carácter chega a conformar-se ao contacto das fibras.
A história que vou contar vem do tempo do nylon. O tempo em que ela fazia vestidos na Bernina. Vestidos para meninas finas. Lindos, tufados e que vendia a bom preço para as lojas. Como precisava modelos e lhe era proxima, provei alguns, os alfinetes de cabecinha em invisível martírio de agulha: ora eram as pernas, ora as costas, ora a cintura. Pespinetes, picavam pela calada. Lembro-me de ver armado sobre a Bernina, impecável no seu todo,  um vestido branco pintalgado de bolinhas vermelhas, quarto redondo rematado por folho franzido, um lábil lacinho de veludo vermelho a alinhar à esquerda. Modista jovem e de unha aguçada, preciosa ajuda no desalinhavar.  Alta, magra, qualidades que o tempo escaqueirou e não condiziam com o diminutivo a que ainda responde, Mimi.
Depois, a voragem do tempo consumiu-nos,  linhas concorrentes que irradiavam à medida dos passos. Nasceu e morreu gente. O mundo mudou. Um presidente caído de uma cadeira também ela cheia de anos, precipitou a mudança. E enquanto a modista da Bernina centriptava à beira da solidão, eu centrifugava para o mundo. E esquecia a leveza do nylon.  Talvez com remorso, que dava por mim a encontrar desculpas. Cogitava por exemplo que o interesse por um montão de pessoas simultâneas é impossível. Por vezes, recebia notícias, “quase não anda”; “pôs tudo em nome da filha”; “está muito pesada e o problema das pernas agravou”. E nem assim buli.  Lamentava-lhe a imobilidade. E voltava a esquecê-la. Ou seja, resolvi que não era comigo.
Depois, caiu em casa e por lá ficou sozinha até a filha assomar. Vizinhas ambas, porta com porta. Mas ultrapassou as doze horas sem uma mão amiga. Foi o motivo necessário: pô-la num lar.
(cont.)

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Intermitências da Luz


Primeiro aprontou-se e preparou tudo, uma prendinha, o cabelo lavado, a doce expectativa de um bem querer. Depois, ignorante de casmurrices digitais, perdeu-se no emaranhado de ruas e enviou sms. Experimentou mais umas voltas, contornou rotundas, rodou ruas até final. Nada. Ligou. E a voz, bengala de cego a guiar-lhe as rodas. Esquerda, esquerda, direita. E logo ao portão a voz se encheu de gente, carne, pele, ossos e o mais que se não vê mas colhe num abraço. Entraram e o olhar franzido do cão a avaliar a visita, alarme discreto de patas dianteiras, a traseira em repouso. Ao fechar da porta, reentrou na casota friorenta,  uma pata sobre a outra, focinho no topo: pose de pensador, não fora os olhos fechados.
E elas dobrando corredores, durezas que amaciam ao cheiro de frutos maduros, talvez um champô, uma colónia, um sei lá quê que apetece e será apenas viço de juventude. Depois uma infusão de ervas, bolos, fatias de ovo em sua moleza leitosa, compotas em ponto de pérola, lágrimas que cristalizam doçura e sempre a esperam. E conversa. Conta. Como véu que tudo cobre, os projectos para dar fim ao desemprego, a vontade de independência, a forma admirável como se vai desprendendo do que a perturba. Usa sorriso mais confiante, a mesma pele de pêssego, a insegurança com menos lastro. 
Anoiteceu. Sai embrulhada de escuro, dois dedos de compota num saco de plástico. A rapidez na inversão de marcha, um adeus que promete e desaparece. E o cão, de súbito acordado para a função,  ladrando ao calcanhar dos pneus.
Mais tarde, já ela em casa, um alerta, “o seu sms entrou agora”.
“Da próxima vez...se houver próxima vez....”, tão bonitinha esta canção.


sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Vida Alinhavada


Senta-se por vezes no único banco singular da entrada, pés imersos em pantufas fofas. Logo acima, a invisibilidade dos artelhos no inchaço das pernas troncudas e a estranha mistura de pequeno pé com três dedos de altura de carne luzidia, venal indiscrição da pele soprada que desborda. Usa cabelo curto se alguém lho corta, apanha-o se cresce; quando solto, inibe em timidez gordurosa de fiapos inertes, achegados à brancura entrevista e quase obscena do couro cabeludo. E quanto mais o corpo se expande, menos dá por ele, máquina pesada e lenta que não dá conta do maquinismo, relógio que trabalha sem saber de ponteiros.
Olha sem horizonte, o inadvertido maxilar em mastigação ininterrupta.  E tanto vê como mastiga. A esmo pelos bancos do pátio, sementeira de aqui e ali a aproveitar exíguas sombras, pernas gastas, bengalas, óculos, acolhimentos de manta em veias outoniças,  cadeiras de rodas. Espreitadores do calor solar, os velhos distendem frouxamente e amodorram. Ela não adormece, é a única que atravessa a meia idade o que faz mais notório o alheamento a que ganhou hábito. Isola-se para nada. Ausente de tudo, do lugar, dos outros, de si. E de repente quase grita, olha a minha tia e a minha prima. Na surpresa, recupera a antiga e viva voz. E espera, pescoço ligeiramente  avançado. Os velhos não abrem os olhos, não movem as mãos,  não avançam um joelho, foi frase lançada ao vácuo. Para lá do portão, a família ocupa-se a deixar o automóvel e nada apercebe. E quando entram a sombra de um sorriso distende a boca onde outrora houve uma dentadura branca e certa que fazia invejas no povoado. Depois, por ali ficam as três, as visitas fazendo uso de frases curtas e silêncios compridos a que ela ganhou hábito. Trazem os doces de que gosta e que come apetecida. A prima limpa-lhe a boca, sacode migalhas, ajeita-lhe a capa enquanto ela repete incessante, foi a neta que me deu, é lembrança da neta. Em determinado momento, observa o caminho para lá do portão e o olhar ganha vida, tudo me parece que aquele carro é do Luisinho, é ele que me vem visitar. E depois, hoje há ginástica, os meus filhos e a neta vêm sempre à ginástica comigo, estou aqui à espera do professor. A prima tira-lhe os óculos e apresta-se a lavar o embaciado com detergente. Achega-se uma velhota das que precisam quem as escute, é prima daquela senhora não é, pois não ligue ao que ela diz que varia muito. Os filhos é raro virem vê-la, mas que ela gosta da ginástica isso gosta. Trabalhei anos em sua casa, era boa senhora, repartia muito comigo. E enquanto a prima desencasquiava os óculos e os limpava  rematou, e agora, olhe, estamos as duas para aqui sozinhas.


sábado, 10 de novembro de 2018

O Futuro a Quem Pertence


Podem encontrar-se quase diariamente beirando a avenida. Formiguinhas vagarosas, saco na mão a caminho da piscina. Deslocam-se claudicando e a conta gotas, algumas já com bengala, sem outro ritmo que o da idade. Os anos roubaram-lhes dentes e destreza, deram à pele a cor e a textura do pergaminho, no esqueleto artroses vultosas. E no harmónio desconchavado da voz carregam a canseira de uma vida de gritos e choro, algumas gargalhadas e riso, um nunca acabar de conversas. É um caminho de anos, quem sabe se a princípio ainda buliçosas, voz activa, alteada se necessário. E nada de bengala, apenas uma dorzita aqui e ali, umas palpitações a que o médico de família, “isso não é nada”. E a morte longe.
À medida que as maleitas se inteiriçam e lhes resistem, o olhar desculpa-se e adoça. Conforma-se. Amiúda. Faz-se quase invisível. E elas vão andando com passinhos à bebé, mamãzinha dá licença, um pé depois do outro. Pertencem à paisagem. Não se pergunta a uma árvore se está bem de saúde, não se inquire se sofre de frio  quando as folhas alodaçam pelo chão. Como as árvores, vivem, mas importam a quem.
D. Adelaide foi em seu tempo mulher de peito amplo, cinta estreita e anca larga. Não era formosa, mas “possante como égua de boa raça e boa parideira”, assim o dizia o marido, fraca figura  que enterrou há um ror de anos. Encheu-a de filhos que criou a pulso, agarrando todos os cobres que a força dos braços podia comprar. E na cidade não há memória de pessoa mais honesta e alcoviteira, a língua afiada a distingui-la de qualquer. Hoje, ampara-se na bengala e emudece de cansaço em qualquer assento, olhos de flor moribunda. Retoma umas luzes de si antiga quando fala dos netos, mas logo involui, nem eles lhe seguram o interesse.  Se alguém lhe pergunta pela saúde, olha admirada. Parece-lhe questão descabida ou não terá hábito a tal atenção.  As mãos uma sobre a outra forcejam na bengala e contrai  em desalentado trejeito os lábios gretados e a esbranquiçar. Depois, dá de ombro antes do juízo final, para aqui ando, tão cansada que já nem sei o que me faz bem.


domingo, 4 de novembro de 2018

A Gata


A gata chama-se gata e o nome assenta-lhe, responde à primeira. Usa uma linguagem toda olhos e quase não mia. É mansa e doce como ela só, um felino lento e donairoso, olho azul. De quando em quando, escrevo sobre ela. Não me é particularmente ligada e, ao invés do uso de gatos anteriores, jamais se lembrou de me oferecer lagartixas e outras conquistas de predador. Mas sei que pertenço ao seu mundo, ocupo lugar. Sei-o pelos olhos: se passo pela cadeira onde dorme afundada na almofada, entreabre um olho e descansa; Espera-me sentada ao portão e logo se arreda ao ruído do motor, numa vivacidade inesperada e contente, pernas saltando elegâncias sobre as flores do jardim para se colar à porta da cozinha, os olhos um passe de entrada.
Em período de cio, o comportamento também difere do de outras gatas que tive. A verdade é que o instinto lhe aparece um tanto embaciado. Espera que os gatos venham buscá-la a casa e não poucas vezes a subtraio a pedido, abrindo a porta das traseiras à aflita urgência do seu olhar no postigo. Portanto, enquanto os machos, em volta da casa, me enlouquecem com súplicas roucas de árduo desejo, ela dorme refastelada na cadeira que é nossa – minha e dela. Suponho que os machos me detestam por lhes esconder a satisfação do desejo, tão lastimável é o seu olhar quando dou entrada à gatita que, lampeira e sem remorso, se dirige à cadeira das sestas.
Até a caça é nela sui generis: as lagartixas servem-lhe de alegre brincadeira e passeiam-se desrabadas; se acontece matar alguma sem querer, fica que tempos a tocá-la com a pata, espantada com a inércia do brinquedo e, excluído o préstimo, logo a abandona. Em compensação, e para meu desapontamento, não liga meia a osgas, animais que lhe inibem a veia brincalhona de tão parados que são. No entanto, deve gostar de pássaros pois queda tempos infindos de olho na trepadeira que regurgita trinados. Mas não os assalta. Patas firmes no solo, focinhito erguido, fica-se pela curiosidade.
A sua longevidade assusta-me. Um dia será velha, vai ter doenças e morre. Ora foi isto que os outros gatos, mais espevitados e foitos, me evitaram. Por comparação, o percurso da gata é tão diverso que chega a intrigar. Enquanto os antecessores eram azougados exploradores, ela foi caseira, dócil  e, medrosa de companhia estranha, confinou-se ao quintal. Eles exibiam uma meiguice recalcitrante, ela um gosto pela companhia humana, sem meiguice visível, nada de colos e festas demoradas. Por via disto, eles depressa morreram e ela vai durando. Hoje, atreve-se às redondezas, atravessa a estrada, vai sabe Deus onde. E deixou de temer os outros animais, já pouco a salvo de brigas com gatos invasores e dou por ela a enxofrar com alguns cães que mais se aproximam do portão, toda ffffffff....pêlo eriçado e rabo farfalhudo. E, loucura extrema, eles parecem temê-la.
Ainda que a sua condição animal seja bom antídoto, vou ter saudades da minha gata.