Não
sabia o que era a Ode Marítima. Quer dizer, não é preciso ser um expert para
saber, é um poema de Fernando Pessoa, figurado no heterónimo Álvaro de Campos. E
esse foi o meu motivo para o espectáculo. Comprei bilhete e porfiei por não saber mais. E ponto. Surpreende-me ó Ode
Marítima!
E
foi isso, um límpido arrebatamento. Tão arrebatado que nem sequer me lembro
onde me sentei ou quem estava a meu lado (os meus arrebatamentos são isto,
tiram-me de mim; esvazio, à força de me encher deles). Aconteceu como nos
filmes, um tu-a-tu, uma proximidade íntima e adesiva, coisa de não saber se a
minha cadeira se deslocara para o palco ou ele viera até mim. E ó Ode Marítima, ainda bem que te escolhi.
Tudo
começou com a minha entrada ao rés da hora, sem tempo para comprar aquele
panfleto informativo sobre o concerto (desculpas, jamais o comprei) ou ouvir sequer
um comentário. Estranho. Havia um indivíduo no palco, pacato e sentadinho. Desligado
da plateia, lia um livro ou fingia lê-lo enquanto na parede do fundo, descaradamente,
passava uma cara: mais de um metro que ora ria, ora ficava séria, ora nos
olhava. Não que fosse feio – o exemplar masculino –, mas desconfiei. As luzes
já na semi penumbra a indicar início de espectáculo. Da orquestra, nem rasto.
Mau. De súbito, a cara desaparece, o fulano do palco levanta-se, vem à boca de
cena e começa a declamar pedaços – graaaannndes pedaços – da Ode Marítima. E um
fundo de água cantante, água correndo por dentro e por fora; posto no interior
da Gulbenkian, o saltitar do Tejo em remançosos dias. E eu pasmada de maravilha.
A adivinhar o actor na colocação da voz, a reparar que o rosto de metro e meio
era o seu, a sentir que a voz dele não era só dele e de Pessoa, era minha, eu palpitava nas palavras, no canto da água, na suavidade ondulada e
transparente da sua cadência corrente. E depois, não sei como aconteceu, mas há-de
ter sido por magia que estava lá e não dei por entrarem, a orquestra já sentada
fez nascer uma melodia deslumbrante, tão depressa cheia de gotas cristalinas e
praias de água azul, como em descomposta procela. E juro que ali vi o esforço dos marinheiros
da vida dobrando seus cabos das tormentas, e assisti aos naufrágios, braços gritando a amplidão do medo, gente tragada pelo abismo, dobrada pelo terrífico oceano que,
cego de raiva, alteava forças.
(cont)