Será
um pouco cedo para terminar o verão que tanto tardou, mas o odor a terra molhada
é cheiro que reconforta. Lá no fundo, as raízes ignoram os pingos grossos e
esparsos, carregados de impiedosa poeira. Vítima da insuficiência, o marasmo
radicular apercebe apenas o súbito frescor da terra. Que só a mangueira de água
corrente congraça raízes e chão, tudo o mais é arrepelo e esgatanhada forma de vida.
Cá fora, o dia veste cinza baço e faz-se carnaval do tempo húmido: um fundo de água suja no copo,
tela de cinzentos anúncios que não medram. Agosto nostálgico, em molde de
Outono.
Talvez
as gaivotas mirando o astro com seu olho de desconfiança lateral, bico
semiaberto, emudecidas de pasmo, arrepiem um, “já?!”. E as ondas a labutar reviravoltas
em arcos consternados, e logo depois, a exibirem perecíveis exclamações rendadas
que encostam na areia, "sozinhas”. E, quem sabe, os pés nus de um pescador
vagabundo a saudar a areia molhada, coisa íntima só deles, conciliábulo de quem
verte seguranças pela planta do pé e se enterra de gosto no mundo que conhece. E
a névoa que tudo isolou e engoliu. Não há a segura confiança da serra deitada
ao rés do mar em pose natural, nem os longes de ruazes brincalhões que se
elevam em pinotes de barbatana, nem a mágica linha do horizonte que pega o fim
com o princípio, tão linda no seu estar imaginário. Há apenas o marulhar suave,
sussurro da natureza envolto em gotas condensadas. Um mundo próximo e húmido, ignorada
cena de mistério.
Lá
em cima, o verde ainda reina. Mas já as folhas resvalam das árvores, mansas plumas
que rolam até colarem na humidade, estrénuas e incapazes. E há um prenúncio de
amarelos outonais, uma insinuação de ser triste que se afirma. A natureza
prepara o seu canto de cisne colorido.