terça-feira, 28 de agosto de 2018

Paisagem


Será um pouco cedo para terminar o verão que tanto tardou, mas o odor a terra molhada é cheiro que reconforta. Lá no fundo, as raízes ignoram os pingos grossos e esparsos, carregados de impiedosa poeira. Vítima da insuficiência, o marasmo radicular apercebe apenas o súbito frescor da terra. Que só a mangueira de água corrente congraça raízes e chão, tudo o mais é arrepelo e esgatanhada forma de vida. Cá fora, o dia veste cinza baço e faz-se carnaval  do tempo húmido: um fundo de água suja no copo, tela de cinzentos anúncios que não medram. Agosto nostálgico, em molde de Outono.
Talvez as gaivotas mirando o astro com seu olho de desconfiança lateral, bico semiaberto, emudecidas de pasmo, arrepiem um, “já?!”. E as ondas a labutar reviravoltas em arcos consternados, e logo depois, a exibirem perecíveis exclamações rendadas que encostam na areia, "sozinhas”. E, quem sabe, os pés nus de um pescador vagabundo a saudar a areia molhada, coisa íntima só deles, conciliábulo de quem verte seguranças pela planta do pé e se enterra de gosto no mundo que conhece. E a névoa que tudo isolou e engoliu. Não há a segura confiança da serra deitada ao rés do mar em pose natural, nem os longes de ruazes brincalhões que se elevam em pinotes de barbatana, nem a mágica linha do horizonte que pega o fim com o princípio, tão linda no seu estar imaginário. Há apenas o marulhar suave, sussurro da natureza envolto em gotas condensadas. Um mundo próximo e húmido, ignorada cena de mistério.
Lá em cima, o verde ainda reina. Mas já as folhas resvalam das árvores, mansas plumas que rolam até colarem na humidade, estrénuas e incapazes. E há um prenúncio de amarelos outonais, uma insinuação de ser triste que se afirma. A natureza prepara o seu canto de cisne colorido.

domingo, 26 de agosto de 2018

Solilóquio


A vida é esporádica em surpresas boas.  Tão esporádica que ficamos gratos ao acontecer de pequenos nadas e novidades sem susto. Na atonia do hábito,  M foi esse agrado natural, broto de flor rente aos passos. Vamos chamar-lhe M (de mulher, pois). Há anos que me tinha sido apresentada. Duas garotas pequenas, um marido sorridente e ela. Não voltámos a encontrar-nos. Entretanto, a vida fez de nós o que quis. Os filhos cresceram, ganhámos peso, brancos, rugas e um quê de pragmatismo no semblante; e perdemos sonhos. A realidade encruou. Vieram doenças comuns e incomuns, um cancro a puxar-lhe o marido. O cancro é um aniquilador de relações, prova de fogo onde todos os intervenientes se queimam e muita vida sossobra. Restam ela e as garotas, hoje mulheres e independentes. Em casa, ela. Na mesma casa que sonhou com o seu amor. Aquela onde ele respondeu a um sujeito a quem a mostrava e que o considerou sortudo, “tenho sorte pela casa, mas, sobretudo, tenho sorte por viver com a mulher por quem estou apaixonado”. Se M fala do marido, nasce-lhe na voz um aroma de ternura desvalida e genuína, quiçá parecido com o dele se a tinha a ela por assunto, “todos os dias em que vivemos juntos, e foram 18 anos, me fazia sentir esse amor, havia sempre uma palavra ou expressão a sinalizar o meu lugar especial”. M fala baixo e sem revolta. Mas nariz e mãos são indiscretos sensores da sua sensibilidade delicada. Conheço casos de gente mais nova que enche os dias de lamúrias  e queixas de má sorte. Embora tenha gasto cinco anos a reaprender-se, M não é assim, toca a vida para a frente e agradece os pequenos prazeres.
Foi um prazer  conhecê-la e estar consigo, M. Volte sempre.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Flores Sem Tempo


Nada é mais prazenteiro que receber amigos. Não amigos de falsete ou daqueles que existem em grande quantidade: ah, essa/esse é meu amigo; então não conheço, é minha amiga; sei quem é, é meu amigo, já estive com ele numa festa. E os amigos do facebook ou outras redes sociais são perversão de sentido; e, portanto, não se aplica. Depois, há aquelas pessoas que com razão e ciência reconhecem que existem vários graus de amizade (incluem-se no grupo que tem muuuitos amigos, um conjunto por patamar). Mas, fique claro, cada um tem direito aos seus princípios de amizade; se é aceite e os respeita, não é mais nem menos que ninguém.  
Falo de amigos do peito, aqueles seres que não se escolhem mas se intuem, que acertam connosco e nós com eles e tal maravilha nos emudece a vida toda. São de confiança e amor, absoluta discrição, apoiam-nos de gosto e, na decepção, apenas afloram os mínimos. Há a inevitabilidade de serem poucos, mas, gente sem este elo, manca do coração e não raro desequilibra.
Receber um amigo é esperá-lo desde a véspera ou antevéspera a preparar o lugar de recebê-lo qual pai que alberga o filho pródigo: em festa e de braços abertos, com banquete a seu gosto. Os amigos trocam prendas e cada uma é certeza no gosto do outro. Enquanto estão juntos, fazem confidências e passam um ao outro a didáctica de viver: truques domésticos, dicas quotidianas, pequenos nadas de quem se importa e cuida ternamente. A sua natureza é de silêncio e de palavras. Em tudo que fazem, o que mais sentem é o agrado de estar juntos. O tempo de estar é sempre breve e alegre, sejam dias, horas ou semanas. E nisto se distinguem dos amantes. Os amantes sofrem, por vezes desesperadamente, a separação; sentem a pena do afastamento desde que se encontram, o relógio um algoz impiedoso. Os amigos, não. Os amigos fruem-se sem relógio e sem os ímpetos do corpo que atiram os amantes um ao outro como partes da mesma peça. O prazer da amizade arma-se de gestos que não chocam com a febre do tacto e são um bem difuso e geral de corpo e mente.

trazias o sorriso vivaz dos dezasseis anos enleado no teu vestido amarelo e  os teus olhos derramavam sobras de sonho jacente. Mas, na fracção do nosso abraço, por um instante, fomos inteiras as mesmas garotas crentes.”

sábado, 18 de agosto de 2018

Linhas Divergentes


Na minha terra, mulheres e homens correm e  fazem bicicleta no ginásio, não andam pelas ruas a suar, cabelo ao vento. A minha terra é uma terra igual às outras; se viajo pelas vizinhanças também não os vejo correr ou pedalar estrada fora. Em boa verdade, nas estradas e ruas  reinam os veículos automóveis; das pessoas avistamos cabeças no interior, todas a olhar em frente, sejam ou não condutores; os passeios estão vazios de gente. A bem dizer, nas casas também não há ninguém, os jardins que se vêem são bonitos mas não há vivalma; à medida que as habitações proliferam os muros alteiam e, nas mais caras, os portões automatizam. Por outro lado, as garagens fogem para a cave e têm porta interior de acesso. Tudo muito confortável, sim senhor. Mas encontrar as pessoas torna-se cada vez mais difícil. Vivemos em ruas de casas aparentemente desertas.
Antigamente, defendia-se a casa com um cão, agora defendemo-nos dos outros com muros e inventámos corredores móveis e de vidro fumado para que ninguém nos encontre. Parece. No entanto, falamos sem cessar ao telemóvel e enviamos sms à velocidade da luz, pomos likes em tudo que mexe, bisbilhotamos bem mais na vida dos outros - que querem a toda a força ser bisbilhotados - que as nossas avós entretidas pelas tardes na porta de casa, bichanando pequenas maldades desta e do outro que passava. Ah, dirão vocês, não é a mesma coisa. Pois não. As nossas avós tinham o calor e o frio na porta de casa, tinham-se umas às outras, tinham os cheiros da rua e das pessoas e as palavras eram só mais um elemento e nem sequer o principal. O que as nossas avós queriam era estar um bocadinho juntas, a conversa era o correlato da companhia. O mundo das nossas avós não se defendia de ser humano, aceitava-se. O que verdadeiramente me pergunto, aquilo que chega a preocupar-me, é pensar que andamos nesta vida a meter os pés pelas mãos. Hoje, desdizemo-nos a construir-nos palavrosamente ideais; tiramos fotos exaustivas que retocamos até à perfeição e expomos ao mundo; damos conta dos nossos passos a quem nada se importa com eles e que é praticamente toda a gente. Com isto, que nos tira tempo, vamos perdendo o hábito de abraçar e do sorriso contemplativo que se demora nos olhos de alguém, o doce hábito da atenção aos outros e de que retiramos tanto bem.
Mas que raio de confusão é esta que nos faz pensar que somos o nosso vestido?!

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Nulidades


Há qualquer coisa de útil e essencial em cumprir horários e trabalhar e  nem as férias seriam elas sem o esforço e  a diferença que as antecede.  A índole humana, salvo as excepções do costume, considera o trabalho imprescindível à subsistência, equilíbrio e sanidade mental.
Proponho-me agora descarrilar sobre o assunto. Portanto. Ora, o jardim do Éden devia ser outra coisa porque aqueles dois não trabalhavam e, segundo consta, eram felizes.  Bom, também podemos inferir que não somos felizes porque trabalhamos. Talvez possamos, sim. Mas podemos pensar diferente, como por exemplo, que é que nos garante que Adão e Eva eram humanos?! Vá, digam lá, apresentem suposições. Para já, feitos de barro soprado, não me parecem grande coisa. E Eva, esculpida a partir de uma costela, devia ser minúscula. Ou Adão um mastodonte. E nem quero pensar muito no assunto para não ficar com problemas na procriação que houve. Avante.
Do que sei e leio, os humanos trabalham a vida toda, esforçam-se até à morte por isto e mais aquilo. E são felizes aos bocadinhos (ou pensam nisso). Portanto, meus caros (“caro” é um apelo a produtos raros e que não saldam), não sei mesmo por que é que chamam a Adão e Eva o primeiro homem e a primeira mulher. Bom, também não entra aqui o evolucionismo que me estraga tudo de uma vez e portanto não convém. Ná, eles não eram humanos e nem viviam no planeta Terra, de certezinha. Não interessa nada que Tibre e Eufrates delimitem o Éden ou mais ou menos por aí.  Ponto final, parágrafo.
Posto que não cheguei a lado nenhum e também não propositava tal, vou andar de bicicleta numas descidas maravilhosas  com subidas de escândalo.
 Ok. Fiquem bem. Disponham.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

À hora da Sesta


No verão, posso dar-me ao luxo de ver TV. Portanto, depois de almoço, instalo-me na frescura penumbrosa da sala, faço um zapping rápido e, por falta de interesse ou esquisitice própria, desligo o aparelho e vou à vida. Idem no pós-jantar. Raro dou à cadeira a maçada do meu peso. Gosto de filmes de época, filmes contados, filmes com crianças, filmes antigos e a preto e branco. Se agarro um  a meio, logo me transformo em atenta espectadora. Hoje, para variar, aprontava-se “The book of Henry”. Na cena inicial, as duas crianças levaram-me à certa. Depois, havia a excelente Naomi Watts, outro incentivo concludente. E é claro que chorei desalmadamente, cenas familiares onde amores materno-filiais abrem esgatanhadas feridas de sangue, plantam-me num vale de lágrimas. 
Pronto, sei que é tudo fita, os filmes não repetem situações reais; se o fazem, dão-lhe novo tom e dimensão e daí os dizeres, “inspirado em situação real”. Mas é que é um filme lindo. Pode ver-se em  família, não versa os ardores do sexo, os baques cardíacos da violência, o kitch pindérico de tudo au point. Razão por que, sendo fictício, parece coisa possível (que não é, não se deixem enganar).
E ok, não desvendo. Quem quiser que veja, ora essa. Aviso: gastei três lenços de papel e isto porque esgotei o maço e não me levantei a buscar mais. De modos que fiquei para ali a amassá-los e dobrá-los para fazê-los render, que ranho e lágrimas é muita humidade por junto e ainda desfazia o material. Portanto, caso vejam, ter um lencito à mão não será mal pensado. Naomi? Talento espectacular.
Para amainar, fui andar de bicicleta. E força nos pedais.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Fracturas


Viajar é moda e uso comum. Moda, sim. A eclosão de companhias aéreas low cost e a modalidade de alojamento oferecida pelo airbnb propiciam um aumento exponencial  de viajantes. O que era restrito passou a domínio do vulgo. E basta olhar Lisboa para percebermos a transumância, a toda  a hora gente puxando malas cidade fora. Pela manhã,  as filas para  autocarros sectorizados, como os que passam por Belém, fazem subir o mau humor dos autóctones que , comuns e com atraso, seguem para o emprego. Não se entende a razão de o município continuar a sujeitar os residentes  a tal estertor. Acresce que  o turista que ruma a Belém não é sazonal, mas de ano inteiro, facto que mói a paciência de qualquer português que não se encontre em gozo de férias. Quem sabe se instituir um autocarro exclusivo dos turistas não resolvia o problema, pelo menos em hora de ponta.
Oh, mas eu vinha era falar de Veneza. De Veneza, cidade de canais e palácios que um dia se perde por completo se as hordas turísticas continuam a pisá-la num frenesim. Eu sei, também já por lá andei em passeio, contribuí para o afundanço com os meus passos e mais os sacos, as mochilas e a catrefada de artefactos que um turista de poucos meios sempre carrega (os de muitos meios vão de mãos a abanar, não sei porquê, mas desconfio de alguém por eles muitíssimo carregado). Mas nem sei se quero voltar. Quer dizer, a minha vontade era mesmo morar lá por uns tempos (não sempre que ruas de água, ainda que originais, dão pouco jeito). Pelo que leio, Veneza piora e afunda dia a dia, na proporção directa do aumento dos visitantes. E não há qualquer prazer na multidão, verdadeiro  impecilho da arte contemplativa.
No silêncio da noite,Veneza íntima,  janelas abertas e flores transpirando pelas sacadas, um riso ou outro que flutua fugido das varandas. Veneza caseira, linda demais. Veneza palpitando nas suas pontes bucólicas e nocturnas, um ou outro transeunte que não perturba a velatura de sombras irreais, o espelho quieto da água fulgindo aqui e ali. E em cada penumbra de sottoportego, um quê de abrigo e mistério langoroso, talvez um par de encontro à parede, perdido em si, extra mundo. Ou um carteirista hábil em desautorizar turistas desprevenidos.
Perder S. Marcus é hediondo crime. Perder aquela vista de gondolas e ilhas é sacrilégio puro. Deixar afundar a Ponte dos Suspiros e a pobreza lancetada do bairro judeu é heresia contra todos os deuses, existentes e por existir. Haja quem salve Veneza da curiosidade dos homens e do modismo.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Na Fila


As filas na caixa do supermercado  exaltam as nossas pressas balelas. Mas, por vezes, o sabor dos dias e do acaso proporcionam  pequenas pérolas. Nessa manhã, eu estava particularmente descansada e, enquanto esperava, embevecia na garota que fazia as contas. Era uma loirinha de cabelos longamente e não lisos por inteiro. Admirava-lhe o rostinho miúdo e o veludo do olhar quando a senhora à minha frente foi atendida. Depois do cumprimento da praxe e da pergunta sobre querer saco, os artigos começaram a passar de um lado a outro. E eis que a senhora pergunta, você não ganhou um concurso do nosso jornal? Lembro-me da sua cara e do prémio...A miúda corou e assentiu enquanto a independência das mãos garantia a despesa.  E ela, então, e continua a escrever?  Os olhos fulguraram, “o que eu mais gosto de fazer  é  escrever; por mim, passava a vida a escrever." E logo num desalento, "mas agora nem tenho escrito”. E a madame, pois escreva, escreva sempre que mal não lhe faz e pode ser que, um dia, consiga fazer da escrita profissão. E emende o que escreve. Corrija, corrija, corrija. Prestes a abandonar e já a fechar a carteira ainda reiterou, não desista da escrita, você é tão jovem, tem muito tempo para ser boa no que faz. E saiu. A garota olhou-me sorridente e disse na sua vozinha terna, “esta senhora nem sabe a força que me deu; ela tem razão, por que é que eu hei-de parar com uma coisa que me faz feliz?!" E, de alma nova, foi passando as mercadorias de um lado a outro.
E eu patêga, a sorrir e dizer pois. A juventude é tão ilimitada e sem contorno! Tanto possível deixa-nos arrelampados.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Desalento


É possível que a vaga de calor nos tenha alertado para as questões ambientais. Contudo, ainda existem incréus, tresloucados ou ignorantes, convictos  que “no clima ninguém manda”. Propositada ou inadvertidamente, ignoram o impacto de séculos de ganância e estultícia humanas. Porém, o mal é comum de todos ainda que em diferentes medidas. Desleixamos o respeito e cuidado com a vida, não preservamos o legado que permite a continuidade. Ganância e estultícia cegam na visão do próximo que é si mesmo e arredores, alheadas do conjunto a que tudo pertence. Fechou-se o bem comum na despensa e ninguém parece importar-se com o descaminho da chave.
E agora que o fogo enegreceu a serra de Monchique e morreu mais uma esperança nestes políticos que não sabem e nem querem fazer política,  todo o assunto parece excessivo. Oh, há-de reflorestar-se a serra, um dia o verde lhe chegará de novo. Mas, a cada fogo, o planeta empobrece sem remédio, minguado das suas reservas naturais que, dizem os cientistas e está à vista, consumimos desalmadamente.
Talvez seja pessimismo, mas a Terra parece doente que entrou em falência. Não haverá fuga a esta agonia estrebuchante?! Oh, meu doce e belo planeta azul, meu planeta sedimentado em paciência e séculos, desculpa.