Manhãzinha, rumámos aos Jardins
Majorelle. Saídos de um pequeno almoço europeu e tão variado como
nos melhores hotéis lisboetas, frescos e leves, chapéus e óculos
de sol, manguinhas de verão intenso bordejando algodões e
acetinados resplandecentes. Nada de hiperbólicos decotes ou cavados
impudicos, que a velhice se quer mistificada de apenas madureza,
mesmo se o gato deixa o rabo de fora. Bom, também é verdade que os
árabes são muito ciosos do pudor feminino e convém não arriscar.
À
porta dos jardins, aí sim, uma multidão de turistas e outra de
igual tamanho de insistentes vendedores de tudo (100% masculinos).
Aguardámos vez na torrina de sol que anunciava um dia igual ao
anterior, chapéus e óculos chamados à liça, alguns sortudos
guardando-se na sombra que encurtava por muros e edifícios. Bem na
nossa frente, para lá do portão, o chamado insistente e clorofílico
da frescura adivinhada nos jardins, um “ai quem me dera ali” a
subir-nos das entranhas. Expectativa em cascata.
Após
a entrada, definidos horário e ponto de encontro, libertos de guias e
outros aperreios, passeámos por esses jardins divinos (cerca de um
hectare), antes propriedade de Yves Saint Laurent e Pierre Bergé que
habitaram a casa (visitei apenas o rés do chão, hoje museu) e
conservaram e ampliaram os jardins. O nome Majorelle vem-lhes do
criador, o pintor francês Jacques Majorelle.
Em
boa hora o costureiro e seu compagnon de route doaram os jardins à
cidade de Marrakesh. No roseiral da casa foram espalhadas as cinzas
de YSL, mas há um memorial a cada um dos dois, ilustrando o que
julgo seria o amor entre ambos, e deles por tal lugar (ignoro onde
repousam as cinzas de Bergé). É ideia romântica ficar para sempre
no pedaço de terra que mais se amou, à beira de quem se quis e
partilhou a experiência. Romântica, mas não acessível ao comum dos
mortais. No que, diga-se, não há grande mal; mortos, nada valemos,
o corpo, que em tudo nos acompanhou, perdeu o ser. A ausência da
vida despojou-o, é lixo descartável.
Cada
um sente os jardins a seu modo. São intensamente coloridos, variados
(razão de serem ditos no plural) e frescos. Não se percebe bem
como, mas são frescos. Tudo neles é um hino à vida no que tem
de mais sagrado. Pode ser apontamento meramente subjectivo, mas
senti-me em romagem de respeito pelo espírito de Majorelle e Yves/Bergé que por ali transpira, respira e nos comove; há belezas
assim, quebram-nos as defesas. É prazer que não se descreve sentir que os pés
nos levam de um lugar a outro e a beleza se mantém em deliciosa
harmonia entre criação humana e espécies vegetais. Passeio
contigo, como por tanto lugar que a vida me tem permitido espreitar
guardando impressão. Eminente solitária, nunca vou só. Estamos
nos caminhos envernizados e vermelhos, vamos de mão dada pelas ruas
enfeitadas de azul a que chamo “mediterrânico” e é afinal o
“azul majorelle”(mistura de azul ultramar e cobalto), cor criada
pelo pintor e que anima a casa onde trabalhou no rés-do-chão,
habitando o piso superior. A casa aparece-nos como uma visão e afirma-se pela
leveza: é pequena e quase etérea na modernidade que a veste, uma
mistura feliz de dois estilos, mourisco e art déco. Por ali abundam os amarelos solares e, na doçura das
buganvílias que bordam alpendres e pérgulas, no tom ocre de algumas
peças, no todo das mil e uma espécies vegetais que proliferam nos jardins
bem tratados por duas dezenas de jardineiros, admiramos um éden em
miniatura; e larga verba da fundação criada para o efeito. De
habitação particular, esmerada em delicadeza romântica, do sonho de Majorelle salvo da ruína e concretizado por Yves e parceiro, à criação da Fundação e mostra
pública dos jardins, a evolução é radical. Intensamente positiva. O propósito
da doação feita à cidade pela dupla Yves-Bergé merece aplauso. Era até pecado que tão funda harmonia se desse a ver apenas a alguns pares
de olhos. E não é de descartar o benefício monetário procedente das visitas a este paraíso. Ganha a cidade; ganhamos nós.
(cont.)