quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Dia TRINTA e UM

 

        Venho tarde e a más horas desejar um bom ano a quem passou por aqui em 2025. Agora que já é 2026 e tudo continua bastante parecido ao ano e dia anterior.

        Permitam-me acrescentar a minha gratidão a quem se dá ao trabalho de me ler; e mais a quem me comenta, aos que pegam no que disse e discorrem livremente ou alinhavam umas linhas cingindo-se ao lido. A esses que só da escrita conheço, um bem haja sem tamanho. E a certeza de que, podendo, por aqui virei a revê-los.

        Que um anjo vos acompanhe e guie em 2026.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Dia TRINTA

 

        O tempo de sermos no mundo vai-se. Esgota. E a mesma fugacidade envolveu o Natal: chegou e passou, comboio rápido que não abranda ao vislumbre das estações, antes as deixa para trás com a pressa de quem vai apagar um fogo que lavra mais à frente. Não se conteve no aniversário de nascimento divino, um Menino que, diz a religião cristã, veio salvar o mundo que parece não ter salvação. Pois, digo eu, que venha. Só um deus pode pôr mão neste fricassé indigesto. Mas deixemos o futuro que eu estou para contar o passado.

        Por razões extra programa não foi um natal semelhante a outros. Mas juntou-os a todos. Os primos reuniram sem falhas. Vê-los crescidos, cada um em seu caminho, palrando animados e amigos, descansa o espírito. Há neles resquícios das crianças que foram: gestos inadvertidos e um fundo imutável no olhar afirmativo que lhes delata forças e fraquezas. Hoje, a juventude desaparecida, são homens feitos, pernas compridas sob a mesa, barba rija e voz forte, enchem e despejam copos com o à vontade que a adultícia lhes deu. E a minha princesinha abstémia continua princesa, sorriso fácil e bonito, flor silvestre adaptada à condição de ser única. Depois, o clã dos mais velhos. Foi noite em que tudo saiu bem: bolos, doces, cozinhados. Tão bem que, contrariamente a outros natais, a refeição que começou cedo terminou depois das vinte e três. A ninguém o tempo foi pesado. Não houve telemóveis nem TV e a barulheira desvairava. Minha mãe, pessoa tão calada, o que pensará da verborreia que nos invade todos os natais e festas?! Ela que não viu os filhos crescer (ou terá visto?), que dirá dos netos adultos e mais dos caminhos que trilham? Será decerto mais compreensiva que meu pai, carvalho rígido e incapaz de entender o percurso de alguns netos. Este ano, por cansaço meu ou alheamento geral, não vieram sentar-se connosco nem ficaram a mirar a lareira enquanto jantávamos. Mas, junto ao Jesus que tem o tamanho da ovelha, meu irmão e família sorriam-nos da foto de outros natais. Quem sabe meus pais os visitaram, os pais sabem onde são mais necessários.

        Guardo de cada natal o meu ramo de alento e que por vezes são conversas, lembranças que se fazem presentes. Este ano, talvez por estar longe, o filho mais novo, que agora aprecia Cristina Branco, comentou a olhar-me: cresci a ouvir os cds que tens dela e não lhes dava importância, mas agora, se a oiço, lembro-te na cozinha a trabalhar e ouvi-la e penso quanto mudamos o gosto com a idade. E disse isto a olhar-me com olhos ternos, ternos. Noutro dia, sorrindo, comentou: andei ali a folhear alguns livros teus e vi um em que fizeste uma dedicatória para ti mesma. O livro é do Houellebecq e tu escreveste, “em tempo de experimentações. Só para experimentar”; e dataste e assinaste. Não recordava o escrito, mas lembro-me de o ter comprado numa Feira do Livro na Alfaguara, mercê de uma vendedora muito jovem e persuasiva. Desconhecia que este filho folheasse livros meus. Agradou-me. Outro ramo foi trazido por minha irmã que chegou cedo para ajudar e ajudou mesmo. E me deu um presente que ela sabe do meu gosto, tanto como sabe que o não compraria.

        E agora? Agora vi-os partir um a um. Alguns para outro país, estes para outra cidade. É de hábito. Como as andorinhas, saem juntos ainda que as rotas sejam outras. A casa perdeu brilho, retomou o quase silêncio e as noites repetem-se nas intermitências do sono, pausas cheias de pomadas e unguentos que isto de ter mesa posta durante cinco dias tem preço.

        Cá estou de novo. Para fechar o calendário. E vos rever, se tal se pode dizer na escrita.


segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Dia VINTE E DOIS

 

        Natal é acreditar. Crer que um Menino Deus nasce por dentro de nós e é com Ele que a vida nos endireita as costas e nos faz olhar em frente e de mais alto. Porque muito da vida é surpresa e cada uma nos rouba mais do que tempo. O imprevisto semeia flores e feridas, sangue vivo e ternura cicatrizante, novidades melhores e piores, e inexplicáveis magias que nos trazem ideais perdidos. Natal é tempo de paz e aconchego familiar, rasto do amor de um Deus que nasce uma e outra vez no coração dos homens.

        É esse tempo de inocência que desejo para nós todos.

        Bom Natal!



domingo, 21 de dezembro de 2025

Dia VINTE e UM

 

        No ano em que resolvi fazer natal desde o dia primeiro de Dezembro; quando decidi que não esperaria pela chegada do espírito natalício e o fabricava eu mesma; neste ano de boas intenções e em que a casa me acompanhou e se vestiu de festa a tempo e horas e não apenas na véspera. Pois este ano, este preciso ano, mal os preparativos tomaram jeito, e quando eu supunha que seria o melhor natal dos últimos anos, começaram as notícias tristes. A morte ganhou-me parentes afastados e vizinhos; não contente com eles, levou-me um dos amigos imortais. E agora que convalescia dessa perda aguda e já tentava de novo o ambiente natalício, dizes-me que tens cancro e a cirurgia será em Janeiro. Sms tão pequeno para tão grande notícia, tão pouca palavra para tamanha inquietação e desgosto. Sem poder ver-te. Não sei se emagreceste, preocupa-me se comes ou não, se consegues dormir, se haverá mesmo um deus que te vele e dê sono quando nada aponta para isso.

        Jamais imaginei ir por aqui num calendário de natal. Estou até com raiva ao Menino Jesus. Vou deixar de lhe falar. Ignorá-lo.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Dia DEZANOVE

 

        Não será uma prenda de Natal, mas um acaso como tantos. Hoje, pela primeira vez, a gata ficou no meu colo (hoje que foi ontem). Mas é verdade, gosto de pensar que sou, enfim, uma dona satisfeita. Quanto demorou a confiança! É provável que tenha sido muito maltratada: ouve um barulhinho e desata a fugir; se nos viramos num súbito de pressas, idem; se levanto um pouco a voz, igual. Dizia-se de animais assim, que eram assustadiços. Hoje talvez se diga que são stressados. No entanto, agorinha mesmo subiu-me para o colo e aguarda, pacientemente, a hora do jantar. Na verdade já se enroscou e é bem capaz de dormitar - um novelo sobre as minhas pernas no chão de veludo aquecido que é a coberta da camilha.

        Penso que tão súbita abnegação acontece por via do espírito natalício.

        Menino Jesus é melhor não te esticares mais nas más notícias ou não sei se aguento. Estamos às portas do natal e não dás folga, vêm de enfiada.



quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Dia DEZOITO

 

        À medida que envelhecemos gostamos mais de contar, lembrar gente que passou por nós e não ficou, gente que encontrámos em viagem, que vimos e deixámos de ver com a ligeireza dos anos que não pesam; gente que nos contou a sua história. Ficou-nos a narração, algumas expressões textuais, mas não os narradores. Hoje, Menino Jesus, ouvi várias dessas histórias. Que, à medida que a gente se aproxima do fim, falha também a contenção, choram-nos os olhos e escorre-nos a humidade do nariz, mas a memória ainda as chama e vai-as encadeando com certo prazer se temos ouvido que se proponha. O meu almoço de natal foi este tête-à-tête com a minha professora de inglês. Separam-nos treze anos. À época, pareciam-me uma vida e hoje sinto que temos quase a mesma idade. Admiro-lhe a cultura e o gosto por ler e ensinar – somos colegas de disciplina na Academia. Segundo as bocas do mundo, é senhora de fortuna pessoal. Discreta. Sozinha como poucos. Filha única de pais da mesma condição, viúva e sem filhos, a família cinge-se a uns primos vagos que, segundo parece a gostam, mas podem correr todos atrás do mesmo. Confraterniza com eles, são o que tem. O Natal é uma data triste para ela. Almoça com algum dos primos (já em segundo grau que os mais chegados também se foram). A casa é linda, cuidada, marca-lhe o bom gosto. Ali reina o silêncio. O silêncio de um dia, e outro, e outro. Resta-lhe falar com o cãozito que adoptou. E diz-mo à despedida, quase num murmúrio, quando ponho a minha mão na sua, desejo bom natal e prometo que em 2026 vamos fazer um almoço por mês. Olha-me com o olhos verdes de sempre e remata, “sim, sim, já tínhamos pensado isso no ano passado; e olhe que já não tenho muito tempo; as amigas que ainda vivem estão todas a ficar xexés”.

        Não o disse, mas acusei a culpa, Menino Jesus. A gente também cá está para amenizar a solidão dos outros e esquecera completamente os almoços prometidos e a dividir despesas. Notei que a minha professora estava à vontade, talvez por ter companhia; enquanto falava da vida que viveu, parecia fora de tempo. O tempo que a gente (eu) não dá a quem o precisa.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Dia QUINZE

 

        Hoje enrolei-me em luto de corpo inteiro. Caiu-me a alma na sarjeta; perdi o Jesus do presépio e o natal esfumou.

        Portanto, desculpem. Quem sabe amanhã apanho a alma, dou-lhe umas palmadinhas, lavo-a com jeitinho na água da torneira a desenrugar sujidade escondida nas pregas da tristeza, enxugo-a na toalha mais fofa. Pode ser que reviva.

domingo, 14 de dezembro de 2025

Dia CATORZE

 

        Por ti. Só por ti nos juntámos de novo, um magote de maduros a cair da árvore. Foi ali e era Dezembro, estávamos todos a mastigar a tua ausência tentando o sol doente numa esquina; e o que fora o teu corpo e depois de ti é nada, acondicionado no frio de uma caixa de madeira, fazendo a última viagem. Um corpo desabitado que o fogo consumiu. Contigo desapareceu a nossa imortalidade.

        Levaram o teu ser mortal para a mesma igreja em que te vi casar, bonito e pálido de morrer; antes, assisti-te aos vómitos, limpei-te a testa suada, endireitei-te o nó da gravata que viraras para trás, verifiquei se nem um pingo te maculava o fato. No final da cerimónia de casamento, o rito prometido: Transportaste a tua mulher na mota do nosso melhor amigo que por tal viajara nela, as roupas do casório dentro da mochila. Emprestou-ta sorridente, era promessa antiga que ambos cumpriram. Foi assim que chegaram ao banquete, a noiva feliz e despenteada, o longo véu apertado entre os dois; tu, a parar a mota como quem acabou de ganhar a lotaria, chave na mão. E nós a rir com todos os dentes e a bater palmas. Lembras-te?

        Não acredito que te tenhas ausentado. De todo. Conheço-te, andas por perto de quem te gosta e tu gostas. Mas ser humano é este não bastar do pensamento, esta exclamativa necessidade de ver, ouvir, sentir o outro. Quem sabe, talvez eu venha a sentir-te a meu lado.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Dia TREZE

 

        Estou aqui a pensar que, nos nossos vinte anos, me fizeste um colar de búzios pequenos que usei até perder. Nem sei quando levei a mão ao pescoço e não estava lá. Suponho que o fecho barato comprado na loja da praia que vendia de tudo, se terá desenroscado e caiu em parte incerta. Tenho mesmo uma foto em que apareces ao fundo, sentado na areia, paciente como só tu, a furar os búzios um a um. Estás tu e o teu tom de moreno sugestivo, mais os dentes brancos e tão regulares que os supunha óptimos para publicidade a dentífricos e os olhos cor de mel que uma das tuas filhas herdou. Gastaste horas e horas para furar aqueles búzios pequenos sem os danificar. E hoje queria tanto ter ainda o colar que me fizeste. Rodá-lo no pescoço pensando nos teus dedos a afeiçoá-lo. Mas há muito não o tenho. E hoje perdi-te. A ti. Perdi-te como?! Não sou capaz de te imaginar morto, entendes? Não consigo ainda. Vem-me à memória a tua carripana com a prancha no tejadilho e nós no barco dos automóveis para Tróia, contentes a mais não poder. Recordo o escaldão que apanhei quando me levaste enquanto velejavas. Trazias quase sempre uma namorada. Mas as tuas namoradas não colidiam comigo e nem eu com elas. Um dia enviaste-me uma receita para tirar a nódoa que pusera nas minhas botas preferidas. Quando recebi aquela folha quadriculada de caderno, que conservo não sei onde, já as botas tinham mais nódoas e deixara de me importar com elas. Mas a tua preocupação aqueceu-me, tu importares-te com essa coisa mínima, foi bonito demais.

        E fomos todos ao teu casamento. Estavas lindo e doente por via de uma despedida de solteiro exagerada. E logo vieram as crianças que lembro de chupeta. Guardo o colar de missangas cor de rosa que uma delas me fez. Não me escrevias, mas as tuas filhas fizeram-no; quer uma, quer outra. E enviam-me cartões de boas festas que põem os meus riscos coloridos a um canto.

        Na minha festa de aniversário estavas já muito doente. A tua filha mais nova festejava o aniversário nesse dia. Tu mudaste o almoço dela para o jantar e vieste almoçar. Aqui ao lado tenho o ramo de flores secas que me entregaste: “são lá do quintal”. E eu chorei por ver-vos aos dois tão alegres. Chorei por sentir em mim o teu esforço. Chorei por saber que não voltaríamos a reunir-nos. E pedi uma única foto: “os do campismo!”. E ali estamos todos. Imortais de fotografia.

        Agora não posso mais ligar-te. Limitar-te/me ao passado, isso é que é difícil.


Dia DOZE

 

        Olha meu Menino Jesus, tu desculpa, mas ontem não tive nem uma vontade pequena de te escrever. É verdade que, por norma, vou lá todas as sextas. Que só quando a vida me troca as voltas mudo o dia da visita. Que, embora não pareça, saio um tanto acabrunhada. E que depois a vida tem de retomar o ritmo e me encho de tanta coisa para “esquecer” a degradação a que chega um corpo que já não se sustenta, mas pensa e sente e vê.

        A um Deus que tudo sabe, o que posso acrescentar?! O que se diz de um caso insolúvel a que só a morte põe fim? Mas a morte vem vindo tão devagar para quem sofre! A morte teima em passinhos de bebé, oscila, pára e recomeça. Anos nisto. Que respondias tu a quem deseja morrer e não sabe sequer mover-se, levantar uma colher para levar à boca, assoar-se, aparar a baba que escorre. Vá...que farias?!

        O que são as estrelas de Natal quando todo o sentido esvaiu, a doença deixa apenas o passado e mesmo ele vai-se confundindo, misturando e perdendo importância - esquece-se o nome do gato ou o movimento dos lábios para beijar; tudo se deixa cair no fundo poço da doença. Não há querer que a alcançe.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Dia ONZE

 

        Este natal não vejo o costumado movimento nas lojas, não encontro pessoas com embrulhos. Não vi senão um grande laço a espreitar na boca de um saco. O poder de compra será assim tão curto? Os portugueses andam assustados, receiam uma guerra? Ou apenas estão “nas tintas” para o Natal como época de lembrar quem queremos bem e por isso lhe comprarmos uma prendinha agradável?! Talvez seja a mescla que vai minando a tradição.

        Depois de verificar a abulia da minha cidade, resolvi ir a Lisboa cheirar o natal, reparar nos livros e trazer alguns. Dei mesmo uma volta pelas lojas com preços acessíveis e que costumo encontrar cheias. Viajei no metro à cunha, mas a gente que havia não carregava presentes; cruzei imensas pessoas nas ruas da Baixa, assisti aos turistas na esplanada da Brasileira, entrei na Bertrand mais antiga de Lisboa onde duas meninas com idade para serem minhas netas me atenderam tão simpaticamente que mereceram o elogio. Não havia ninguém a embrulhar presentes. Nem talvez a comprá-los. Bom, estava lá eu.

        Só nas ruas o natal se espraia feito tecto. Imagino que, mal escureça, fiquem bonitas. Nas pastelarias já campeia o bolo rei e tem muita saída. Assisti mesmo a várias encomendas.

        Tenho saudade dos rostos satisfeitos e sorridentes de gente que saía das lojas com vários embrulhos, havia um ar de festa que lhes passeava na figura e as fazia mais bonitas. No natal, Lisboa apetecia. E agora?!

Dia DEZ

 

        Olha Menino Jesus, se o dia vinte e cinco de Dezembro coincidisse com o teu nascimento, estaria a fazer anos que já andavas de cabeça para baixo há uma data de tempo – tinhas dado a volta - , estavas prontinho para nascer. Imagino que a Maria já custava andar e, se eu fosse ela, estaria fartíssima de apostrofar o recenseamento que me retirara da Galileia em altura tão imprópria. A Judeia, como é público, sacudiu o casal quanto pôde e acabaram naquele barraco de Belém, suponho que nos arrabaldes ou mesmo no meio do campo. Sem condições mínimas: nem luz, água, só com o cheiro a bosta animal, que não é nada bom, não senhor. Não consigo imaginar um estábulo arejado, mas pode que naquela altura fossem diferentes. Mas pronto, como os animais não falam, os hóspedes puderam entrar. Não existe um judeu que eu conheça; portanto, não posso avaliá-los com segurança, mas parece-me que Deus Pai se deu ao trabalho de escolher o que não presta para o seu filho muito amado. No teu caso, a imagem é negativa, parecem impiedosos, nem uma grávida a termo os compadece.

        Bom, depois do parto – e quem sabe se durante – o brilho da estrela dava até para acharem uma agulha onde quer que estivesse perdida e os três do presépio só não usaram óculos de sol por não existirem ainda.

        Até que te ponhas de joelhinho à mostra – ainda faltam uns dias -; dá tempo de contar-te que isto de ser velho tem coisas estranhas. Só to digo por entender que, com a vida que levaste nos teus magníficos trinta e três anos, não houve tempo para aperceberes nos outros certos fenómenos. No mês de Dezembro faço listas de compras, de presentes, de artigos para a ceia de natal...sei lá. Puxo do portátil e enquanto isso vou ouvindo música. Mas olha, é uma desgraça, dou com gente morta a toda a hora. Morta ou quase morta. Aparece-me a Bardot com oitenta e tal anos; Margarida Pinto Correia que partiu ainda na casa dos sessenta; filmes e filmes de gente toda defunta, dos argumentistas e realizadores aos actores e actrizes; O Fausto a cantar “Por este rio acima” e já sem navegar para lado nenhum; Michael Jackson e Freddie Mercury fazendo dupla formidável e hoje mais que mortos. Uma lástima. Espero que Enya não tenha morrido, embora saiba que o vocalista dos Scorpions já não canta nada.

        Com tudo isto, também te digo que morreste há tempo demais, dois mil e vinte cinco anos a lembrar-te, imagina. E não gravaste um cd, não deste entrevistas, não há museu que exiba a tua sala de estar, o teu escritório, nem sequer a mesa onde escrevias. E tu escrevias? Lias? Tenho memória de entenderes os livros sagrados, portanto saberias ler. Mas só recordo que certo dia estavas a escrever no chão com um pauzito(podiam ser apenas riscos ou bonecada). Tudo que de ti sei não foste tu a escrevê-lo. Como Sócrates, falavas com as pessoas. Digo-te mesmo: estou em crer que só podes ser um Deus.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Dia NOVE

 

        Hoje despedi-me dos meus alunos seniores. Só voltaremos a encontrar-nos na segunda metade de Janeiro. A chuva, que começara pelas nove e trinta, às quinze fazia um pleno e as ruas eram lagos. Saí de casa pensando que teria apenas uns dois ou três resistentes. Engano. Faltaram uns cinco, talvez. Estou-lhes imensamente grata pela companhia. E sinto-me em dívida - na situação inversa eu faltaria à aula. Portanto, continuámos a comentar o livro de Claire Keegan, Acolher. Bem sei que é pequeno e, ainda assim, só metade das pessoas o leram. Mas conseguimos reunir-nos a comentar capítulo a capítulo, uma aluna a comandar as operações em cada um. Acho bonito que alinhem com as minhas propostas. Não lhes levei chocolates, como me lembrou um aluno; e nem repetimos o Menino Jesus de Pessoa. Apenas tentei que encontrem a imensa ternura que se desprende da história, a pedagogia simples de duas pessoas sofridas que não perderam o essencial: a capacidade de amar. E uma garota-esponja que absorve essa atenção e cuidado durante os meses do verão.

        Creio bem que nos apetecia a todos ter uns Kinsella (o sobrenome do casal) na nossa vida. Acolher é um bom termo para exercitarmos neste natal. Pois não acham?!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Dia OITO

 

        Na quadra que atravessamos, eu, como quase toda a gente, recebo frases bonitas, estruturadas e edificantes, daquelas que basta um clic e já está. Tais palavras, ao invés de contribuírem para o meu bem estar, arrasam-me. Reconheço-me alheia às propostas de tais pensamentos. À sua vista, a minha imperfeição cresce que nem planta de desenho animado ou o célebre feijoeiro mágico que furou as nuvens e chegou ao céu. Tudo o que passou por mim e em mim, e a forma como digeri os ingredientes, fez-me. Mas raro recordo quem me magoou, não agradeço essas mágoas, não aprecio as feridas e nem os arranhões; prefiro pensar noutra coisa. O mesmo amor, ora tão badalado, inflige nódoas negras  e, queiramos ou não, a mágoa mina o sentimento; convém não abusar. Talvez eu deva agradecer as vezes que bati de cabeça, as farpas que arranquei e também lancei, o mal que a vida sempre traz; ou nós criamos e transportamos com acrescento, de uns a outros. Mas é que não me apetece. O meu egoísmo gratifica quem não me destratou.

        Portanto, e porque hoje me deu para a gratidão, aí vai:

        Mais do que em qualquer outro momento, o Natal traz-me todos os que se bateram por mim. Os que me enxugaram as lágrimas no tempo em que chorar era coisa de companhia; os que apoiaram a minha angústia entre os seus dedos e fazendo cadeirinha comigo a carregaram ajudando a resolvê-la; os que me sorriram em dias tristes; os que partilharam as lamentações da morte; os que me empurraram e deram confiança para ir onde queria ou devia; os que, com a constância da ternura, aqueceram a minha vida; os que, com o seu exemplo e sem sermões, me ensinaram e ensinam a viver. Os que ainda hoje me lembram e há tanto ano conheço; os que não conheço mas escrevem aqui ou noutros lugares que leio, fazem livros, filmes, contam histórias que amenizam as horas mortas da insónia. Os que são artistas e me elevam  a outra dimensão através da música, da pintura e outros caminhos da arte.

        Para eles, a minha gratidão.    


domingo, 7 de dezembro de 2025

Dia SETE

 

        Quando cortaram a árvore que me acompanhava o sono, quase chorei. Fui tomada por uma orfandade nova, a falta dos seus ramos compridos que me parecia abraçarem a casa se a via da janela. Chamava-lhe o deus benévolo, guardião de bens e pessoas. E, num repente, ficou só o espaço. Sem ela, um espaço gigante. Pensei nas dezenas de pássaros que, num piscar de olhos, tinham ficado sem morada nocturna. Sabia-lhes o canto madrugador, aviso pré solar. Conhecia a hora azul do recolher, a algaraviada que faziam chamando uns pelos outros enquanto eu fechava os olhos às janelas e mansamente aconselhava, durmam, descansem o olhar. Descoroçoei na tardinha, mirando-os às voltas, em desconcerto. Haviam perdido a cama. Ou, quem sabe, se supunham dentro de um engano e rondavam de novo, olhos aflitos. Perguntei-me onde dormiriam essa noite. Achei que devia tê-los avisado, pareceu-me impróprio, um não se faz, abandoná-los a si mesmos.

        Na manhã seguinte, engastado em silêncio, o mundo parecia outro. Não houve a música de sempre. Perdi a esperança: os meus(?) pássaros tinham voado para outra árvore. Desejei que fosse tão acolhedora como o deus benévolo e estivessem cantando por outras paragens.

        Mas o homem põe e Deus dispõe. Ou, neste caso, os pássaros. Não sei como fazem, mas moram no azevinho gigante. Pois, não é a mesma coisa. Agora, vizinhos do estendal, dão música à roupa, é ali que cantam. Não sei por que arte se não picam em tanta folha quezilenta, mas estão lá. Por certo, a surpresa do azevinho não foi menor que a minha. E apesar da gata, horas sob a árvore, cabeça erguida e olhos fixos de polícia em espera paciente; apesar da felina já ter apanhado e comido alguns, os pássaros não abandonam o lugar. Parece-me meio triste, o azevinho. A passarada comeu-lhe quase todas as bagas e o pintalgado vermelho rareia. Só os ramos baixos, com os meus agradecimentos a D. Gata, surgem pontilhados, exibindo graças antigas e tão de si mesmo. A meia altura da folhagem, os troncos, parcialmente despidos, mostram a velhice indecorosa. A evasão de tanta folha foi decerto trabalho das aves. Agora, poisam calmamente e adormecem em sua cama. Como pertence. Em castelo blindado por agulhas.

    Não sei se bendiga os pássaros, se o azevinho que tudo lhes aguenta.

sábado, 6 de dezembro de 2025

Dia SEIS

 

        Há dias assim, de fóssil. Não é desamor, nem desilusão. Apenas um buraco cheio de nada. Tão repleto que nos desvia do movimento do mundo, os outros ficam lá atrás e desimportam, o tempo estagnou. Não é agonia, nada nos dói. E contra a desilusão levámos vacina. Também não lobrigamos que seja desamor, o grau de atenção de que somos beneficiários é estável, não menorizou. É talvez a vontade de morrer por umas horas, deixar de ser por alguns dias, presentificando o poema de José Gomes Ferreira, aquele em que alguém toca à porta e quem abre responde, hoje está morto, volte outro dia. Esta pausa necessária no ser-se humano, não é desistência nem continuidade, e muitos a encontram em linguagens paralelas das quais saem mais fortes (sairão?). Contudo, desse limbo se ressurge por impulso involuntário, basta saber mergulhar. Dizia meu pai com fleuma acerca de um dos meus desaires automóveis: tudo que entra, sai. Digo eu que o mesmo para os mergulhos: depois de aprendidos, o ressurgir à tona é benefício de quem pratica a modalidade, difusa arte da sobrevivência que se apresenta em pleno: grácil e temporal. E eis-nos regressados ao mundo das efemérides, nadando em águas frágeis. Como pertence.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Dia CINCO

 

        As pequenas coisas. As coisas mínimas que por vezes esquecemos e, em certa hora, tanto faltam. Este post, já aviso, nem é bem de natal. Será um bocadinho se o esticarmos com cuidado para não romper.

        Após o breve preâmbulo, vamos nós para o Metro. Nós que sou eu. Sentada em hora de ponta – grande sorte -, dediquei a minha atenção às sobras de um scone simples. 

        Entretanto, comecei a ouvir fungar. Disfarçando, deitei um soslaio à colega do lado. Era uma miúda entre os dezassete e os vinte, tão encasacada quanto eu, o cabelo castanho apanhado com gancho, naquele modo descontraído que só a elas assenta, longas tiras fora do aperto resvalando rosto abaixo. Cabisbaixa, a garota fungava uma e outra vez. Ou sorvia o pingo. Tudo sem resultado. Sempre disfarçando, vi-a levar os dedos ao nariz vermelho. Comecei a ficar aflita por lhe imaginar a aflição. Abri a mochila e tacteei os lenços de papel enquanto pensava na sua reacção - podia achar-me intrometida, envergonhar-se e até mandar-me meter na minha vida. Estava tão ocupada em não deixar cair o pingo e manter a cabeça baixa que não me viu retirar os lenços e abrir a embalagem. Estendi-lha aberta: não quer tirar um? Virou-me uma gratidão castanha e aveludada enquanto retirava o lenço, Obrigada. E eu, acontece aos melhores; a mim também já sucedeu. Ela, é o pingo. E assoou-se a sério. Depois, nada. Só seguimos viagem lado a lado e concentrei-me a olhar para a janela do Metro que, como é do conhecimento geral, beneficia de paisagem ardorosa. A garota saiu uma paragem antes da minha, mas deixou-me a boiar num sorriso tão bonito que até acho que se fez Natal.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Dia QUATRO

 

        Este ano não espero pelo ímpeto natalício. Parto sem ele para desempacotar os sinais da época festiva. Já cortinas e folhos me espreitam desenrugados e festivos, todos leveza cuidadosa pousada nos sofás da sala. Começa cedo quem pouco pode e muito deve.

        Olha, meu Menino Jesus, talvez seja extemporâneo pôr-te mesmo à beirinha de mim. Talvez haja outra forma de me dares a tua mão e irmos em frente. Mas é vendo-te dia a dia que me embebo de Natal, a idade levou-me o voluntarismo que já tive; ficaram os rituais. Portanto, queda-te aqui, simples presença que reconforta. Basta-me passar e ver-te de perninha ao léu, bochechinha de barro, moreno qb (foste cozido em demasia, talvez), vindo das mãos de alguém que te passou para mim com o amor que uma amizade profunda pode conter. Alguém que ainda vive e a quem dou lembrancinhas pelo Natal e não só; alguém que sei de fonte segura me tem essa amizade que não quebra e tanto te/lhe sou grata.

        É Dezembro. E sabes da minha alegria extra. Só tu conheces a funda saudade daquele sobrinho que há anos não vejo e já sei quando chega. Pois fá-lo chegar que, sem ele, não é o mesmo natal e, mais que eu, a mãe o precisa. Só tu podes avaliar a alegria que sinto pelo outro sobrinho que nos falhou durante anos na consoada e, finalmente, volta acompanhado; e sabes quanto comoveu o meu coração com o fundo abraço de uma vez, reconciliação para que não houvera zanga, “querida tia, eu sei que entende, querida tia”. O que as pessoas precisam às vezes para serem sinceras! E agradeço-te os sobrinhos que, natal sim natal não, estão connosco, e este ano nos calham; o que eu gosto dessa nova sobrinha não é dizível, nem tão pouco a alegria de tê-los em família. E da presença infalível e determinada da minha princesinha, também ela num caminho difícil onde sempre estaremos de braço dado. Mas também sabes quanto gostaria de ver assim os meus filhos que, por motivos diversos, chegam sós. Tudo tem o seu timing. Talvez ainda haja tempo para vê-los chegar acompanhados. Ou não. Tu dirás (ou serão eles?). 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Dia TRÊS

 

        Há filmes que tenho enorme prazer em repetir. Pelo realizador, pelo tema, pelos actores. De tantos que já vi, um dos que revejo com olhos primeiros é Cinema Paraíso. E é sempre o mesmo encanto. Move-me. E revejo-nos – aos portugueses como os conheci – naquela gente. Ganhou vários prémios, mas julgo que ao garoto ninguém deu um; talvez seja de lei não premiar gente de palmo e meio. Mas o miúdo merecia, é actor de excepção e excepcionalmente bem escolhido. E depois há a qualidade musical de Ennio Morricone a debruar as cenas, a injectar-lhes intensidade por sentimentos e emoções. Sobre esta fita poderia escrever umas páginas e ficaria incompleta a minha admiração pela obra de arte que Tornatore criou e permite leituras plurais.

        Este é um calendário de Natal. Mas Cinema Paraíso é um filme de natal - apela ao que temos de melhor, chama pela inocência do que fomos, pela amizade que impulsiona sonhos e salva vidas, pela vida que se vê desfilar paralela às fitas. Sem pregação ou moralismo expressos, serve a muita lição.

        Fernando Pessoa tinha um Menino Jesus fugido céu e que carregava no colo, “num ritual todo materno”. Eu tenho um filme, uma amável e amorável fantasia que, bem vistas as coisas, anda comigo por todo o lugar e foi a primeira prenda de Natal que me ofereci neste ano (obrigada, rtp play).

        Sou eterna e humildemente grata a todos os que participaram ou contribuíram para a qualidade intemporal de Cinema Paraíso.

        Benditos sejam.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Dia DOIS

 

        Pronto, desconfio que o Menino Jesus esteja um tanto enxofrado com o post de ontem. Não é que eu prefira 40 homens de meia, calção e pluma no chapéu, a um salvador do mundo. Nada disso. Mas tive de atender ao costado português que me habita.

        - Repara, meu Menino Jesus, que és muito mais velho. De verdade, és velhíssimo e os conjurados ainda vivem a infância da tua idade. O número dos teus natais comparado com o dos seus primeiros de Dezembro, fica a léguas. Por outro lado, “desculparás-me”, mas quem tem o mundo todo, não sabe de lutas pela nacionalidade, não sente este orgulho um bocadinho parolo em se dizer independente (ok, ok, já sei das muitas dependências que sofre Portugal por mor de portugueses fracos do miolo e umbiguistas até ao tutano; isto, para não te aturdir com adjectivação contundente). Desculpa, mas volto à minha: quem tem o mundo todo não precisa conquistar; a conquista é força de propulsão humana. Podes crer.

        - E olha, hoje fui com as minhas alunas ver a vila Natal em Óbidos. Não acredito que gostes do espectáculo. Se eu fora criança, não lhe achava graça, mas andava por lá uma carrada de turmas. Agora imagina sendo velha. É que, calcula tu, ainda há quem pense que velhos e crianças são a mesma coisa. Como é que, em 2025, ainda se pensa isto?! Faltam, na minha cidade, decisores esclarecidos. E cultos. Mas pronto, fazemos de conta que está tudo bem.

        - Um recado: tu não te atrevas a sair da manjedoura onde tens o burrito e mais a vaca, que o vento encana pelas ruas de Óbidos fora e regela-te, ficas roxinho de frio; olha que as gripes deste ano são de caixão à cova.

        - Óbidos é toda bolas, laços, prendas(com laços) e pinheiro verde(com bolas). Aborreci tanto vermelho e verde e mais os quilos de brilho falso. Bom, salva-se a ginja, única bebida que me lembro de gostar e tão depressa não provas, que aos bebés não se dão essas coisas.

        - Não sei bem porquê, mas esta visita afastou-me do Natal. Tu que dizes?

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Dia UM

 

        Hoje é o dia dos célebres 40! Alguém os lembrou?! Pois. É que não é só um dia acrescentado à Black Friday (este ano acho que a dita friday, em claro contrassenso, se estende a todos os dias da semana; e, e...). E também não chega lembrar que é o primeiro dia do mês do Natal, data que muitos preferem apesar do frio, do trabalho extra e de tanta coisa que devia ser e não é. Em mim é, sobretudo, o Primeiro de Dezembro, Dia em que se comemora a primeira revolução de que tive notícia: a revolução de 1640. E de que me lembrei quando nos meus desatinados 18 anos me disseram ter havido uma revolução em Lisboa. Fiquei parva. Quero dizer, mais abalholhada que o normal. E, imaginem o que me veio à mona: a duquesa espanhola a fugir para Espanha; sempre a tinha imaginado a pegar nas saias tufadas e compridas e fugindo a pé por montes e vales, a esconder-se nas moitas como podia, mal assestava de ver alguém. Era a minha versão. Pois do que me lembrei eu, que, na escola, até rezava por Salazar e lhe pedia bolsas de estudo nos intervalos da vida (já contei que não fazia ideia do que fosse tal coisa, mas pedia na mesma e escrevia em folhas A4 e a que chamava folhas de desenho, com uma folha de 35 linhas por baixo para não entortar a letra). Dizia eu que, em 1974, desconhecia qualquer duquesa espanhola pavoneando-se por terras portuguesas e julgava que em Portugal só tinha existido um traidor, aquele Miguel de nome bonito e tão mau rapaz que foi defenestrado. Toma! Deve ter aprendido que não se atraiçoa a pátria, mas como morreu, nunca teremos a certeza sobre tal assunto. Pois. Então eu pensei que traidores não havia e nem duquesas. O que seria então essa coisa de haver outra revolução? Se já nem havia rei, nem nada… Levei um ano inteiro para descobrir semelhanças e diferenças entre as duas revoluções.

        Pronto: cumpri o meu dia revolucionário andando em cima do estendal da roupa - cada um luta por onde e como pode - porque vem chuva de novo e me esqueço com frequência que tenho uma secadora. Dou daqui um viva solene aos quarenta conjurados sob o comando de D. Antão Vaz de Almada (não tenho certeza do nome, mas acredito na memória) e eu a imaginar uma espécie de exército a marchar para o Paço Real, quarenta nobres armados de boas intenções e espadas e isso. E depois, Viva el rei D. João IV!, gritado talvez da mesma janela de onde empurraram o tal Miguel, a duquesa em fuga, ainda para aí na Mouraria, que por acaso não sei onde é, mas que, sendo mulher os conjurados deram de ombros e nem lhe fizeram caso (seriam machistas?!). Não me pareceu bem isto de aclamarem um rei sem ele saber, o que a professora nos contou foi que D. João era duque, e vivia em Vila Viçosa num palácio. E está visto que os conjurados estavam a atirá-lo para o trono. Mas tudo bem.

        Portanto, já devem ter compreendido que revoluções é comigo. E como pregar o amor é sempre revolucionário, e novo, e bom, este é o meu primeiro post do calendário de Natal.

Viva o 1º de Dezembro! (data que, na cidade de Évora, é célebre pelas serenatas)

domingo, 30 de novembro de 2025

Os Agentes Secretos

 

        Fui ver “O Agente Secreto”. Gostei. Mas, apesar das sequências de violência física serem poucas, é filme que custa assistir. O retrato que dá do povo brasileiro, segundo o que já li e vi – saliento um vídeo de uma crítica de cinema do país – é fiel, está ali o Brasil brasileiro. Certo, a acção centra-se no ano de 1977. Mas, se não tivesse já viajado até lá, perdia a vontade. O que os meus olhos viram e interpretei foi: muita injustiça, a podridão no mundo dos que existem para proteger o povo e são apenas canalhas, leões disfarçados de cordeiros, usurários, gananciosos sem limite ou piedade. Dói que Portugal esteja a assemelhar-se, que existam forças da autoridade corruptas, vampiros que não protegem e antes exploram a miséria desvalida dos que chegam. No filme, auto denominam-se refugiados; em Portugal são-no de facto. Esses crápulas são os executores da esperança que resta. Que cobardia nojenta! E assistimos à impunidade cinematográfica desde o conforto de cadeiras estofadas e ar condicionado, se bem com o desagradável da mastigação de pipocas. Ou sabemos da desmesura portuguesa na hora de almoço, no resguardo do lar, enquanto mastigamos uma refeição. Não obstante, soa a inaudita mentira. Contudo, é verdade, não há como iludi-la. Ainda não vivemos num país onde se contratam matadores profissionais para fazerem “um trabalho”. Mas vamos a caminho, e em passo de gigante. Mamãzinha, dá licença? Quantos passos? E não são três passos à bebé: os nossos GNR não pediram a ninguém. Agiram deliberadamente, armaram em donos e senhores de quem chegava ansioso por trabalho. Povo bárbaro que esqueceu o que penou na estranja e quanto agradeceu aos que lhe deram a mão. Triste povo o que ignora a dignidade e respeito devidos a qualquer homem.

        Aquele Brasil suado, gordo e de dentes podres, não sai nas telenovelas. O Brasil que eu mesma vi também não consta. Mas o Portugal - ou os portugueses - que descrevo existe e é de hoje.

        E é isto um desalento, uma tristeza de ser que não há folhagem de outono que dissipe, por maior beleza que exiba (calha-me varrer as folhas, o que retira certa dose de romantismo). As bagas do azevinho já estão no seu ser, o tempo arrefeceu. E derreti perante a publicidade da coca-cola no grande écran. O Natal move-me ainda. As imagens dos animais festejando o natal, encheram-me de ternura. Há sempre uma réstia de esperança.

domingo, 23 de novembro de 2025

Por Mor do Frio

 

        O Inverno adiantou-se ao calendário e brindou-nos com o seu melhor: chuva, frio e até neve na Serra da Estrela. Desprevenidos e habituados já ao Natal com temperaturas amenas, retesámos. E foi ver o cidadão comum - aquele que cria nichos de calor em sua casa e não os felizardos com todos os escaninhos do lar aquecidos -, esse ser transido que também dá pelo nome de povo, ou seja, a mais significativa massa de portugueses, buscando aquecedores no sótão, nas garagens, na despensa, no fundo dos vãos de escada. Os insensatos aparelhos mal começavam a libertar calor, logo poluíam o ambiente com o cheiro incómodo a pó queimado. O pó tem destas manias, infiltra-se em todo o sítio e aglomera onde dedos humanos não penetram.

        Mas a busca não se cingiu a aquecedores, a roupa de outono pareceu-nos de súbito orbitar-nos em ligeirezas de estio. E foi o cabo dos trabalhos. As traças, como toda a gente sabe, morrem e esgueiram-se às mãos da naftalina. Mas o ponto é que os humanos ensovacam ao mesmo cheiro. As naftalinas tanto protegem as nossas lãs mais lã, como causam dores de cabeça, espirros e demais sintomas alérgicos. Além de não ser de “bom tom” uma pessoa cheirar a naftalina, aquelas eficazes bolinhas brancas são hoje associadas aos velhos, só eles ainda lhes são fiéis. E quem é que quer ser velho num mundo que deseja ser jovem e dinâmico. Mesmo que o contraditório seja verdadeiro: Portugal é um país de velhos (não é fenómeno apenas português, mas cada um sabe de si). Portanto, sobretudo no primeiro dia de frio, e após quase uma semana de chuva intensa, vimo-nos impedidos daquele casaco mais quente, de cachecóis mais macios, de calças que nos fizeram aguar de desejo. E só porque as naftalinas alcoviteiras dão sinal de si a uns metros de distância. Mas as peças de lã – pelo menos elas – livres de caixas e gavetas, saídas de armários a que hoje se chamam clousets não se entende porquê, pois elas, assim soltas num estendal, ou arejando numa varanda, todas braços e pernas dançando na brisa, eram felizes – ao menos elas.

        E os pés?! Ai os pobres dos nossos pés! Frios, quase congelados; e nós, onde diabo pus eu as botas forradas, que razão terá havido para as mudar de armário?! E depois das botas, o martírio das meias. As meias mais quentes que sabíamos ter arrumado todas juntas. Mas onde, era mistério.

        Ah! As camas também entraram ao barulho. Os edredons, hélas!, achámos facilmente. Os edredons estão para as camas como os elefantes para a selva: não passam despercebidos. Mas dos lençóis mais quentes nem sempre há notícia, e contentamo-nos com a simplicidade da flanela quando os polares parecem emigrados. Ora o assunto de resolução do frio não se fica por aqui: o povo mais friorento, velhos e velhas de sangue frio (velhos existem de sangue quente), correram por resguardos eléctricos que lhes mantêm o calor do corpo na frigidez da noite. E verificámos o ar condicionado, mas entupiu, deu-lhe um amoque; contactamos o técnico que agora não pode, tem muito pedido por satisfazer, talvez consiga ainda antes do Natal.

        Meus amigos, parece que não, mas tudo isto foi muita coisa para fazer num repente de friúra. Nós os velhos cansamo-nos com tudo o que implica mudanças drásticas. Isto já não é para a nossa idade. Ó Deus, tem piedade! Vem lá mais devagar com o frio sff.

        E que o inverno não nos vença. Que convencidos já estamos.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Coisas da Vida

 

        Não simpatizo com vídeos e pps (ignorante! Não sabes sequer se são a mesma coisa com outro nome). Mas, por integrar dois grupos de almoços, recebo várias mensagens desta natureza, a maioria com duração máxima de dois segundos antes do delete lhe cortar o pio. Contudo, vejo e agradeço os que merecem o meu tempo e avalio se vale a pena reenviá-los a alguém que, longe de Portugal, se me queixa do que, nos momentos de pausa, entretém os colegas de trabalho e lhe falta. Embora as minhas pausas raro sejam preenchidas por tal objecto (telemóvel, claro), entendo quem queira ser igual aos mais. Ora, nessa perspectiva, calhou de ver um vídeo(?) sobre a velhice. Era igual a tantos: uma sequência de imagens de velhos, tudo rugas e cabelo branco, e, em cada imagem, uma máxima bem intencionada que apaguei antes da metade e não reencaminhei. No geral eram lugares comuns. Mas, entre esses, havia a voz do escritor Garcia Marquez, sujeito que me agrada por razões várias. Sou incapaz de recordar a frase exacta, ficou-me apenas o sentido (e nem sei se seria mesmo sua a frase; já deparei com afirmações falsamente atribuídas a gente célebre). Dizia ele que a velhice consiste sobretudo no hábito da solidão. Talvez as minhas colegas de almoços tenham passado sem se deterem, os pensamentos restantes enalteciam amizades longas, casamentos velhos, músicas antigas. Eram optimistas, faziam parecer que a velhice é uma maravilha e que sempre estamos acompanhados, temos amigos indefectíveis e companheiros fabulosos com quem dançamos as músicas do nosso tempo até à morte. Palavra que não entendo a razão de gostarmos de tanta banalidade. Mas é factual, a diferença entre os homens é um bem. Viva a diferença. Viva quem se satisfaz com fotos bonitas de velhos em bom estado. Cada um precisa das suas ilusões, que até nisso divergimos bastante.

        A velhice prepara-se ao longo de toda a vida, é um desembocar natural do que fomos e da forma como tratámos e usámos o corpo e, quiçá, a mente. Concordo. Mas não no sentido em que a vontade do homem pode moldar a velhice que terá. Como em tudo que nos importa, o acaso, o destino ou o que queiramos chamar-lhe, tem voz própria e torce-nos os planos, desmancha-nos o calendário, evapora-nos a aspiração. Não se aconselha a desistência pura e simples, nada de apatias disfarçadas, estar vivo merece mais; nada de, se não controlo o meu destino/vida/futuro, mais vale desistir e seja o que Deus quiser (a haver Deus, será sempre o que Ele quiser). Mas ser velho, entre outras coisas, é mesmo aprender a solidão. Sem dramas. E responder. Responder sempre: aos acasos, à má sorte (à boa é sempre fácil dar resposta), à tristeza (pode ser ficando ainda mais triste para gastar tudo que em nós é roxo de morte; não se sobrevive sem ir ao fundo da peçonha), aos outros que, querendo ou não, nos deitam abaixo; a nós mesmos que inventamos castelos a que nunca chegamos e muros de que ignoramos as portas; às traições do corpo que limitam, isolam e desanimam. A urgência é haver resposta. E se for uma má resposta?! Mas o que é mal?! Cada um responde como sabe e pode. Não encontra eco? Aprende a prescindir. Não por orgulho. Por aceitação de um estado sem fuga e individualmente vivido, que continua a exigir respostas aos que ainda detêm pensamento próprio. Até ao fim?! Nem isso sabemos. Mas não apregoamos que o interesse está no caminho?!

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Vida na Cidade Ocre

 

        Poucos (ou nenhum?) temas de viagens aqui foram tratados com tanta minúcia, mas a substancial diferença cultural talvez justifique o tempo que dediquei a Marraquesh.

        E a praça Jemaa el-fna? Que é dessa famosa praça?! Pois digo-vos que não vi a praça cheia de gente e nem de vendedores. A Praça tão famosa, a praça dos camelos e do sumo de laranja, das cascáveis e etc, era afinal aquela que atravessáramos antes de imergirmos no mundo do comercio árabe. Oh deuses, então atravessei aquela poeirada toda, a barulheira ensurdecedora, e tudo isso vivia na praça?! Pois claro que sim. Estavam a lajear a praça Jemaa el-fna. E portanto as ditas barraquinhas de venda, as que se vêem nas fotos que a net mostra, existiam apenas nos acessos. Bom, estavam lá os camelos pacientes e tristonhos, as cascaveis a serpentearem ao som da música como se um botão as fizesse elevar soltando sibilino sopro que mais se adivinhava que ouvia, estavam macacos muito rafeirosos e com os quais os viajantes tiravam fotos palermas. Os sumos de laranja existiam nos acessos à praça, mais livres de poeira. A bem falar, o que mais havia naquele imenso largo era poeira e barulho de várias máquinas trabalhando a toda a força e em simultâneo. Mais de um quarto da praça estava já lajeado e suponho que a nova versão seja mais higiénica. É pelo menos mais clara. Curiosidade: as serpentes e seus encantadores musicais abrigavam-se na sombra de guarda sóis - a sombra que se pôde arranjar - que falsamente os protegiam do calor. Está uma pessoa habituada a ver corpos em traje reduzido debaixo de um guarda sol e sai-lhe uma cascavel de língua viperina a dançaricar. É também isto a cultura. Ao invés de todas as imagens que tinha pesquisado antes, os habitantes inapeláveis, os reis da praça, eram pó e ruído. E havia muito espaço livre, a maioria das pessoas, chegadas da zona de compras, afadigava-se a abandonar o lugar. Concluí que vi e não vi a praça Jemaa al-fna. Ocupada pela remodelação – palpito que um esforço para galvanizar ainda mais o mundo turístico –, o recinto era outro de si mesmo. O desejo de turistas faz destas. E também retira alma aos lugares. Pergunto-me se esta praça tão célebre voltou a ser a mesma. E suponho que sim, nada muda no espírito árabe e as lajes serão a esta hora (trabalhavam a todo o vapor) mero pormenor.

        Ao crepúsculo. a praça ganhou vida. Sobretudo mais gente a atravessá-la. Os acessos encolheram mercê do pessoal que ali desembocava e dos atrelados que surgiam sabe Deus de onde, em passeios turísticos que prejudicavam os pedestres. Foi assim que perdemos uma viajante do nosso séquito e que, mau grado a multidão, o guia muçulmano fez o milagre de encontrar.

        Não admirei particularmente o espírito árabe, mas convenho: foi pouco o tempo de sabê-lo, dou-lhe o benefício da dúvida. Trouxe a cor ocre e a arquitectura diversa, a tez escura do povo, a usura ardilosa e a falsa simpatia de vendedores, a cor terrosa da planície a perder de vista, o entusiasmo infantil nos jogos de futebol sem campo ou baliza, um entardecer pacífico na planura, as descansadas compras num supermercado em tudo igual aos europeus, o cheiro das ruas mais antigas, mistura de sujidade e especiarias, aqui e ali, ondas saturadas de cozinhados com sésamo ou outra gordura própria, indício de restaurante próximo. E a debruar tudo, o inaudito vigor dos hibiscos florindo Marrocos fora (vimos bastantes no caminho para Mogador).

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Vida na Cidade Ocre

 

        Reconheço: o meu ser distraído não estava preparado para o imenso mercado de bugigangas, roupas e malas de contrefacção com que deparou. E tão pouco para o espectáculo da praça mais conhecida. Mas rebobinemos: na única tarde livre para compras a guia levou-nos até um largo ao fundo do qual havia um café amplo, esplanada coberta, aspecto agradável. Reiterando os sinais do lugar, marcou o ponto de encontro – na escadaria de acesso ao café – e o horário da nossa restrita liberdade. Apontado o lado das compras com o conselho de não sairmos da rua principal (os árabes não são de fiar, acrescentou) fomos à vida sem fazer caso da senhora, o mesmo é dizer que metemos pelas ruas que nos apeteceram sem que alguém nos abocanhasse. O meu grupinho atravessou uma praça em obras, um ruído ensurdecedor de máquinas a trabalhar em simultâneo – prováveis martelos pneumáticos - que me pareceu estarem a levantar lajes e colocar novo pavimento.

                 Caminhámos a afastar-nos o quanto podíamos das nuvens de pó e da surdez, e breve se nos deparou o espectáculo de loja atrás de loja, todas com artigos semelhantes. O mapeamento é fácil, há a estreiteza da rua principal e inúmeras perpendiculares, meros afluentes que ali despejam gente. E tudo é mostra e ponto de venda. As vias são pedonais e veículos, motorizados ou não, não têm lugar e nem cabem em tão reduzido espaço; contudo, por vezes, uma bicicleta vinha  dificultar-nos ainda mais a vida – os árabes têm no sangue a tendência para a infracção; e parece-me ter encontrado a razão da nossa costela infractora (pelo menos da minha). E um ondear contínuo e tranquilo de cabeças subindo e descendo.

        Dentro da moldura, tentando não perder a companhia que o movimento inverso teimava em me retirar dos olhos, perdi a vontade que antes me animara de comprar uma veste árabe. Tanto pensara num vestido bordado a alongar-se-me pelo corpo verão adiante; ou apenas um véu esvoaçante e longo, dos que cobrem as mulheres em dias festivos, manto translúcido em pregas de leveza e saber que só elas dominam e lhes dão ar de santa que busca altar. Pois é, o ar da santidade “não me chegou a chegar”. E não; não pensei em burcas, os pensamentos ruins não me acompanham em viagem, deixo tudo no chão português e não vi uma única (nem lá, nem cá) - já disse que notei pouquíssimas mulheres na parte velha da cidade. Pensei no hijab, gosto dele no inverno, alguns têm um cair divino, talvez pela qualidade do tecido, ou será pela habilidade manual que mistura liberdade com restrição no modo de o preguear em volta de pescoço e ombros. 

        Houve contudo um facto a salientar no percurso de lojas e quejandos: os árabes eram simpáticos, mas não nos chamavam para o seu reduto, nem corriam atrás para que comprássemos o artigo que estivéramos a apreçar. Em contrapartida - devia ser hora de jogo de futebol –, vimos a maioria de transistor na mão como se fosse a chave de casa; muitos, sentados à porta da sua loja em assento baixo, a impedir-nos - ainda mais - a passagem. Quase me sentei ao colo de alguns por andar de nariz no ar e tropeçar-lhes nos cotovelos semi erguidos, transistor colado ao ouvido, olho na clientela (os árabes masculinos conseguem duas coisas ao mesmo tempo, viva!). Perguntávamos preços e eles imediatos: Ronaldo. E eu também imediata, ok. Afinal Ronaldo não é apenas o melhor jogador do mundo, é quase um dos deles, emprega muita gente, é proprietário de um hotel – ignoro se só um – e de uma mansão em Marraquesh. A minha companhia, mais aprofundada que eu em assuntos de futebóis, citava jogadores árabes a jogarem em clubes europeus, talvez até em Portugal (ignoro se algum), e eles abriam um sorriso de orelha a orelha e quase terno – fiquei ciente: a fraternidade fubolística é o que nos une. Fraco, fraco.

        Do balbuciante diálogo que mantivemos em inglês anacrónico, a que o deles não fugia - estivemos bem uns para os outros -, presumi que os turistas portugueses infestam a cidade. Ouvi várias vezes o estribilho corrido, como se uma palavra só: “se queresqueres, se naqueresnaqueres”(leia-se tudo sem espaços).

Pois é, vi um montão de produtos. Mas a única aquisição veio de um supermercado:).

(cont.)


quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Vida na Cidade Ocre

 

        E que dizer dos camelos? Além do olhar resignado que já citei, afirmo que os prefiro na TV ou mesmo mirá-los do interior de autocarro – poupo o cheiro a animal sujo. Os camelos são como pessoas que acumulam suor sobre suor, sobre suor: tresandam. Contando com o seu odor próprio, são bom repositório de náusea. Digo eu. Portanto, quando a guia falou no palmeiral e viagens de camelo, recusei delicadamente e ofereci-me para ficar no hotel, já pensando no livrinho que trouxera. Pois. Mas nasceu-lhe na hora, mesmo à flor do meu nariz, um ar de incrédulo escândalo acompanhado de eloquente estranheza, “Não quer ir ver o palmeiral?!”, disse martelando as sílabas, a voz a prolongar no espanto interrogativo, o olhar furando a herege a merecer tratos de polé. Os meus ombros displicentes, não me apetece. Ela reivindicando a incredulidade, “Vai perder a oportunidade de ver um palmeiral?!” E eu que até já tive uma palmeira no quintal, que vivi a infância junto de outra toda agulhas agressivas viradas a qualquer corpo desprevenido, respondi meio distraída, são só muitas palmeiras juntas e não me interessam os camelos. Ela a escancarar o escândalo, “Ai eu não acredito que quer desperdiçar esta oportunidade!”. Acentuou o quer, como quem diz, quer mas eu não deixo. Sou uma mulher de convicções fortes e sempre pronta a lutar pelos meus direitos; portanto, anuí à vontade alheia e também fui rever os camelos.

        Ah! O palmeiral! Ah, o logro de uma data de palmeiras velhíssimas, um ligeiro tufo de folhas lá muito em cima e várias mortas de todo. O espectáculo triste de camelos cheios de moscas e rodeados de bosta, o pó rente à terra sedenta e escarolada, os árabes bajuladores, servis, sorridentes; também eles sedentos, dedos compridos, escuros e descarnados emergindo do fundo de mangas largas no afã das notas que faziam desaparecer em ápices de magia. Passeio e fotos foram um extra; quem gozou(?), pagou. Era isto que eu perdia metida no quarto. Isto e as figuras tristes de turistas de meia tigela travestidos em trajes mais ou menos árabes, imortalizados para a posteridade de álbum ou gaveta nas diversas fases: a vestir, a colocar a faixa da cabeça, montados nos camelos, em grupo, em pose de par ou individual, etc. E o “andar de camelo” merece tradução: rumavam em fila indiana, qual cáfila em deserto, para uma voltinha a cinco ou seis palmeiras, montados em animais de arreios sebentos e submissos à arreata dos árabes (funcionários ou donos?). De novo me veio a imagem de crianças pequenas em diversão. Talvez seja verdade que não sei divertir-me e me falta esse improviso de infância. Enquanto isso, eu que sou contemporizadora mas não completamente estúpida, puxei do livro e li. 

        Chegados do arremedo de viagem, desfardados e contentes da experiência, subiam para o autocarro arrastando uma ponta de odor animal. Mas o dia irradiava, esperava-nos o almoço com suas vitualhas e que finalizava como sempre: um chá espesso e dulcíssimo de menta que eu deixaria intacto.

(cont.)

domingo, 2 de novembro de 2025

Vida na Cidade Ocre

 

        É difícil sairmos daqueles jardins, vão-nos enleando, trepam de tal forma que quase não damos pela presença dos vigilantes e até mesmo da outra gente. À medida que nos internamos e vamos desvendando os seus caminhos, fazem-se insidiosos, entram por nós dentro e vemo-nos reduzidos ao encanto empenhado de olhos e mente que degustam da beleza, incógnitos dos que fotografam ou se fazem fotografar. Há neles esse poder maior que nos faz rasos e pequenos perante a clara afirmação de si; seres ao rés da terra de onde brotam. Face à sua grácil majestade, os humanos são gnomos que pululam sem incomodar. Ali admirei os bambus da beira de caminhos vermelhos, penumbra verde e protectora tocando-se lá no alto. No ar parado, inventei a música do vento a balançar as hastes finas em doce murmúrio, a chuva rara que ali se enreda e cai em gotas espessas, doídas de deserto. Passei sob as pérgulas floridas, cachos de cor a desprender, ambientes de fotografia. Vi os nenúfares no lago, cetinosos e alvos, pétalas lembrando pele humana, rota ciciada dos dedos. Pensei no engano dos nenúfares: tão puros e delineados na sua brancura ideal que brota e se alimenta de água suja, verde, limosa, onde proliferam os mais ínfimos seres aquáticos. Parei no singular jardim dos cactos, pasma com a dimensão e a beleza estranha das formas. Erguidos para o azul, carnudos, densos, como nos filme de cowboys. Mas estão ali, mudos, quedos. Sem poeira nem manadas, sem deserto. Só eles. A solidão que há num cacto que se ergue sem deserto! A solidão que há!

(cont.)

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Vida na Cidade Ocre

 

        Manhãzinha, rumámos aos Jardins Majorelle. Saídos de um pequeno almoço europeu e tão variado como nos melhores hotéis lisboetas, frescos e leves, chapéus e óculos de sol, manguinhas de verão intenso bordejando algodões e acetinados resplandecentes. Nada de hiperbólicos decotes ou cavados impudicos, que a velhice se quer mistificada de apenas madureza, mesmo se o gato deixa o rabo de fora. Bom, também é verdade que os árabes são muito ciosos do pudor feminino e convém não arriscar.

        À porta dos jardins, aí sim, uma multidão de turistas e outra de igual tamanho de insistentes vendedores de tudo (100% masculinos). Aguardámos vez na torrina de sol que anunciava um dia igual ao anterior, chapéus e óculos chamados à liça, alguns sortudos guardando-se na sombra que encurtava por muros e edifícios. Bem na nossa frente, para lá do portão, o chamado insistente e clorofílico da frescura adivinhada nos jardins, um “ai quem me dera ali” a subir-nos das entranhas. Expectativa em cascata.

        Após a entrada, definidos horário e ponto de encontro, libertos de guias e outros aperreios, passeámos por esses jardins divinos (cerca de um hectare), antes propriedade de Yves Saint Laurent e Pierre Bergé que habitaram a casa (visitei apenas o rés do chão, hoje museu) e conservaram e ampliaram os jardins. O nome Majorelle vem-lhes do criador, o pintor francês Jacques Majorelle.

        Em boa hora o costureiro e seu compagnon de route doaram os jardins à cidade de Marrakesh. No roseiral da casa foram espalhadas as cinzas de YSL, mas há um memorial a cada um dos dois, ilustrando o que julgo seria o amor entre ambos, e deles por tal lugar (ignoro onde repousam as cinzas de Bergé). É ideia romântica ficar para sempre no pedaço de terra que mais se amou, à beira de quem se quis e partilhou a experiência. Romântica, mas não acessível ao comum dos mortais. No que, diga-se, não há grande mal; mortos, nada valemos, o corpo, que em tudo nos acompanhou, perdeu o ser. A ausência da vida despojou-o, é lixo descartável.

        Cada um sente os jardins a seu modo. São intensamente coloridos, variados (razão de serem ditos no plural) e frescos. Não se percebe bem como, mas são frescos. Tudo neles é um hino à vida no que tem de mais sagrado. Pode ser apontamento meramente subjectivo, mas senti-me em romagem de respeito pelo espírito de Majorelle e Yves/Bergé que por ali transpira, respira e nos comove; há belezas assim, quebram-nos as defesas. É prazer que não se descreve sentir que os pés nos levam de um lugar a outro e a beleza se mantém em deliciosa harmonia entre criação humana e espécies vegetais. Passeio contigo, como por tanto lugar que a vida me tem permitido espreitar guardando impressão. Eminente solitária, nunca vou só. Estamos nos caminhos envernizados e vermelhos, vamos de mão dada pelas ruas enfeitadas de azul a que chamo “mediterrânico” e é afinal o “azul majorelle”(mistura de azul ultramar e cobalto), cor criada pelo pintor e que anima a casa onde trabalhou no rés-do-chão, habitando o piso superior. A casa aparece-nos como uma visão e afirma-se pela leveza: é pequena e quase etérea na modernidade que a veste, uma mistura feliz de dois estilos, mourisco e art déco. Por ali abundam os amarelos solares e, na doçura das buganvílias que bordam alpendres e pérgulas, no tom ocre de algumas peças, no todo das mil e uma espécies vegetais que proliferam nos jardins bem tratados por duas dezenas de jardineiros, admiramos um éden em miniatura; e larga verba da fundação criada para o efeito. De habitação particular, esmerada em delicadeza romântica, do sonho de Majorelle salvo da ruína e concretizado por Yves e parceiro, à criação da Fundação e mostra pública dos jardins, a evolução é radical. Intensamente positiva. O propósito da doação feita à cidade pela dupla Yves-Bergé merece aplauso. Era até pecado que tão funda harmonia se desse a ver apenas a alguns pares de olhos. E não é de descartar o benefício monetário procedente das visitas a este paraíso. Ganha a cidade; ganhamos nós.

(cont.)