Os
dias em que estiolo no casulo têm horas imóveis, sombras de noite em pleno dia,
são talvez tristes. Marcho no portátil a procurar vozes, conversa que ocupe a
mente enquanto as mãos se moldam a isto e aquilo. E tive grata surpresa, que
ainda bem, pronto.
Não
encontrei ninguém; ninguém me encontrou. E portanto andei a meter o nariz em
sacos que tenho muito arrumadinhos no sótão com trabalhos inacabados e
separados à unidade. Afazeres dos que não apetecem e fui guardando para entreter
a reforma; mas, reformada, mantiveram-se inóspitos. Classifiquei-os de material descartável e quem
vier que atire fora. Mas o covid 19 faz coisas destas. Listando a lide de hoje:
uma blusinha a que comecei a enfeitar o decote com ponto grilhão; as linhas
estão junto e suponho que ainda me sirva, mas como esqueci o ponto, já procurei
a revista onde aprendê-lo. Um saco com lãs em labirinto e de que consegui fazer
dois novelos depois de muito penar acrescentado de ameaças de, corto isto tudo
e quero lá saber. Um pedaço de tricot sem destino e que submeti a novelo. Duas
meadas de lã grossa por dobar e que estão em espera, Roma e Pavia não se
fizeram num dia. Uma toalha de bidé com uma rendinha manual a que só faltavam remates.
Entretanto, inventei-lhe um desenho que
está riscado e pronto para amanhã bordar. Bolas, fiz tanta coisa esta tarde! Resta
acrescentar que acompanhei tudo com a doença da mana Carpenter que, pobrezita,
morreu anoréctica e para animar escutei algumas canções. Mas, contagiada pelo
fim triste, a voz soava-me a funeral e isso. Portanto, fui ouvir um concerto de
Joan Baez quando tinha vinte e quatro aninhos. Voz e mulher que admiro. Dei
umas voltas no James Taylor que acho eu toca extraordinariamente bem, mas a
minha cabeça hoje quer coisa mais soft. E encerrei a época musical. Bom, não.
Ainda ouvi o resto do concerto na Gulbenkian e comecei outro.
Nos
entremeios recebi da família uma foto nossa com os garotos ainda muito
pequenos. Eu magríssima, cabelo pretinho e um riso que já não me pertence. Na verdade, não
me reconheci. Foi um dos meus irmãos que, ao comentar, me alertou para mim. Mas fui aquela. Olaricas.