terça-feira, 31 de março de 2020

Trinta e Um de Março


Os dias em que estiolo no casulo têm horas imóveis, sombras de noite em pleno dia, são talvez tristes. Marcho no portátil a procurar vozes, conversa que ocupe a mente enquanto as mãos se moldam a isto e aquilo. E tive grata surpresa, que ainda bem, pronto.
Não encontrei ninguém; ninguém me encontrou. E portanto andei a meter o nariz em sacos que tenho muito arrumadinhos no sótão com trabalhos inacabados e separados à unidade. Afazeres dos que não apetecem e fui guardando para entreter a reforma; mas, reformada, mantiveram-se inóspitos.  Classifiquei-os de material descartável e quem vier que atire fora. Mas o covid 19 faz coisas destas. Listando a lide de hoje: uma blusinha a que comecei a enfeitar o decote com ponto grilhão; as linhas estão junto e suponho que ainda me sirva, mas como esqueci o ponto, já procurei a revista onde aprendê-lo. Um saco com lãs em labirinto e de que consegui fazer dois novelos depois de muito penar acrescentado de ameaças de, corto isto tudo e quero lá saber. Um pedaço de tricot sem destino e que submeti a novelo. Duas meadas de lã grossa por dobar e que estão em espera, Roma e Pavia não se fizeram num dia. Uma toalha de bidé com uma rendinha manual a que só faltavam remates. Entretanto,  inventei-lhe um desenho que está riscado e pronto para amanhã bordar. Bolas, fiz tanta coisa esta tarde! Resta acrescentar que acompanhei tudo com a doença da mana Carpenter que, pobrezita, morreu anoréctica e para animar escutei algumas canções. Mas, contagiada pelo fim triste, a voz soava-me a funeral e isso. Portanto, fui ouvir um concerto de Joan Baez quando tinha vinte e quatro aninhos. Voz e mulher que admiro. Dei umas voltas no James Taylor que acho eu toca extraordinariamente bem, mas a minha cabeça hoje quer coisa mais soft. E encerrei a época musical. Bom, não. Ainda ouvi o resto do concerto na Gulbenkian e comecei outro.
Nos entremeios recebi da família uma foto nossa com os garotos ainda muito pequenos. Eu magríssima, cabelo pretinho  e um riso que já não me pertence. Na verdade, não me reconheci. Foi um dos meus irmãos que, ao comentar, me alertou para mim.  Mas fui aquela. Olaricas.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Trinta de Março


Ora bem…deixa cá ver as novidades do dia. Primeiro, é claro, bebi um café. Procedi a um acerto e concordei comigo: é preferível mudá-lo, em  permanência, de terça para segunda feira; e desaparece a raiz da culpa. Depois, fui dar um passeiozinho curto. Mas atrasei-me. Portanto, o senhor do guindaste atravessado na estrada já estava encarrapitado no lugar e tinha um cilindro oco de cimento ligado ao gancho, mas ainda em repouso. Talvez fosse um aqueduto. Quando me aproximava, decerto ligou a ignição que ouvi a máquina começar a rosnar enquanto o pesado canudo iniciava a ascensão. Eu a dizer bom dia e a desviar-me para a lateral do monstro, até aos torrões que hão-de ser passeio.  Experimentava-lhes a consistência, quando a máquina, plof, foi abaixo. E logo o suposto aqueduto no chão e o senhor lá do alto da sua irritação sabedora, em pedrada bem assente, “merda pá máquina!”. Esqueci os torrões e dei uma gargalhada que emendei acto contínuo, peço desculpa. Mas antes de voltar ao piso da rua, bem o vi a sorrir.  Isto não é um acontecimento? Ai é, é. Do covid?  Bom, lembrei-me dele por ter visto a dobrar a esquina uma vizinha que a metros de distância tapou a cara. Mas eu feita eu, Bom dia, como está, num sorriso largo; e ela comprometida e apressada, Bom dia, por detrás do cachecol. E eu, ai.
Bom, o resto do dia passeio-o à espera da chuva que se anunciava para as treze e chegou às dezanove. Ainda estou para saber onde é que essa galdéria se meteu durante tanto tempo. Que isto com chuvas é preciso andar sempre em cima delas, ou desalvoram. O que é que eu fiz durante esse tempo? Ora essa, ando a fazer o que os outros fizeram para aí aos dezoito, vinte anos, mais coisa menos coisa. Ontem vi um vídeo sobre os Rolling Stones, gente que só conhecia de nome e do Satisfaction. Hoje foi mais agradável, bisbilhotei  a dupla Paul Simon e Art  Garfunkel e um concerto de Joan Baez na Noruega.  Como me limitava a ouvir a cantora e copiar as letras das canções, só hoje constatei que me visto um bocado como ela. Ó pá, o que eu estou de  démodée. O concerto é de 1978. Já não deve dar tempo para me actualizar. É muito ano, poça!
Posto isto, foi um dia bonzinho e cheio de movimento. Ainda comecei um concerto da Gulbenkian, daqueles que metem coro e se vêem as árvores ao fundo. Tão bonito. Mas as coisas boas não se comem todas de uma vez.
 Tenham uma boa noite. E tal.


domingo, 29 de março de 2020

Vinte e Nove de Março


Um dia ainda vamos lembrar estes tempos incomuns. Pela estranheza. Ruas quase desertas e sem um som; lojas fechadas; farmácias a venderem ao guichet do serviço nocturno e quase sempre com fila. As pessoas recolhidas em casa. Não se ouve um riso, uma conversa e passa um carro de quando em quando. Os animais, esses, mantêm o seu imperturbável. Os cães ladram quanto querem  uns aos outros, de longe, adivinhando-se, resposta pronta a qualquer ladrido. E os gatos passeiam-se tão langorosos como sempre.
Imagino que as frequentadoras regulares do salão de cabeleireiro andem desenxabidas a puxar cabelos a um lado e a outro sem atinar com o sítio certo das madeixas, e portanto mais feias, e portanto que chatice; que os/as atletas de ginásio estejam a ressacar e também a engordar se não tiverem recurso caseiro a que se ater; que as crianças estejam a passar-se com os trabalhos escolares feitos em casa e a enjoar a casa; que os pais idem idem, aspas aspas; que um monte de gente se maldiga ou pelo menos pense, mas por que é que não fiz isto ou aquilo, por que razão adiei; que os padres se aborreçam em igrejas cheias de ninguém; que o longe que não pode agora fazer-se perto, comece a doer.
Afinal, gente, a rotina diária era coisa tão boa e nem dávamos por isso. Mas tanto a desejamos agora. A vida tem estranhos caminhos.
E eu que no tempo de tricot oiço programas de rádio em podcast, só hoje reparei que acompanharam a debandada geral. Sim, porque continuo a ser eu, julguei que alguém se teria esquecido do podcast. E um lápis qualquer tem.  E dei um tempo. Qual tempo qual quê. Só “A Força das Coisas” não perdeu o ritmo. Até ver. Abençoado.

sábado, 28 de março de 2020

Vinte e Oito de Março


Leio por aqui e por ali que agora a casa se arruma - não a si mesma, infelizmente - durante a semana. Por haver tempo e estarmos confinados intramuros. Mas, sendo assim, que resta para fazer no fim de semana. Não se sabe. Desde sempre que nestes dias rejeito os pequenos passeios por falta de apetite para encontrar gente que é outra e trabalha durante a semana e cada vez sou mais bicho do mato e desapeteço de ver pessoas. Uma empreitada de episódios de série também não me convence, gosto de ir seguindo um episódio por dia, nas calmas. A tv está alugada ao covid e a telejornais sobre, e portanto nem chego perto. À noite, abro uma excepção para me sentir medianamente informada e sofrer um bocadinho. E hoje, acaso ou não, o quintal esteve inóspito, notei-lhe mesmo um desconforto nublado. Também resolvi dar folga ao tricot por via de certo queixume que me nasce na mão e urge calar, a clausura está ainda muito verde. E para que se note que é fim de semana. Mas faz-se o quê.
Pela manhã, ainda li umas páginas do livro “A peste escarlate”, que trouxe a custo zero da biblioteca pública; dois ou três artigos de Maria Judite de Carvalho; quatro ou cinco poemas de António Machado (vida interessante a deste poeta). Entretanto, passei pela tarde sem qualquer préstimo. Se pudesse apagava-a e pronto. Tão pouco vivemos e dei-me ao luxo de perder uma tarde.  Com franqueza. Merecia umas palmadas. Isso é que era.
E, palavra de honra que não entendo quem afirma, será que depois do covid voltamos aos contactos antigos, beijamos e abraçamos como dantes? Mas que é isto, gente, pois se estamos desertos que termine o espaçamento para nos lançarmos nos braços uns dos outros. Se até penso que, mal levantem a guarda, ocorre transumância nunca vista em Portugal…até eu já tenho agendados uns quatro almoços. Ao vivo e a cores.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Vinte Sete de Março


 É um garoto magrinho, a cara cheia de de óculos. E a minha rua nunca foi tão bem tratada como desde que a autarquia o contratou.  Há-de andar pelos vinte e mais, mas parece ter quinze ou dezasseis. Ele não varre apenas, também arranca as ervas da rua. Quando dava as minhas voltinhas a horas decentes, encontrava-o. Notava que faz noutras ruas o mesmo que na minha (pena que não o mandem mais vezes para este sector) e as pessoas param a falar com ele. Conheço-o desde pequenino. Mora lá para baixo, onde toda a gente diz, “o bairro dos pobres”, lugar que, segundo parece, serve a vários senhores que gostam de se  infiltrar  por dentro da miséria moral.  Os pais – tem uma catrefa de irmãos – passavam à minha porta no caminho para a escola. Primeiro vi-o passar no interior de um carrinho de bebé muito antigo e em que a irmã, mochila às costas, se sentava no parapeito, as pernas gordas a dar a dar, e o garoto só uma cabecita que mal se via. Depois passava pela mão da mãe, as pernitas tão magras que impressionavam e correndo sempre em passinhos pequenos. E mais tarde foi a sua vez de mochila às costas. Para cá, para lá; para cá, para lá. E deixei de vê-lo. Talvez frequentasse a C+S. O pai, sempre de fato – tanta vez curto ou comprido de mangas e pernas -, é um alcoólico pacato e meio terno que me passa à porta em várias fases, enclausurado em eterno mutismo.
O garoto ignora que o conheço quase desde o berço. Mas cumprimenta-me sempre. Um dia em que ele andava varrendo a minha rua e por acaso tinha feito um bolo, não resisiti. Parti uma fatia muito evidente, coloquei-a sobre um guardanapo e fui ter com ele. Pareceu-me ter gostado da ideia. E eu aproveitei a embalagem e elogiei o trabalho que tem feito, falei das ervas e disse até que um dia ainda escrevo à autarquia a frisar isso mesmo. Ele corou (há que tempos não via alguém corar) e lá ficou a mastigar enquanto eu regressava à cozinha. Entretanto, na second hand, comprei uma camisa – não sei onde tinha a cabeça – que não serviu a ninguém mas era mesmo, mesmo, a medida dele. E pronto.
Hoje, o garoto veio de novo limpar este sector. E não é que, com um bolo ainda morno,  o vejo da janela?! Olhem, levei-lhe nova fatia(zona) e uma bebida fresca (estava um calorão). Sabem o que ele fez, virou a esquina e tirou-me as ervas todas até à ponta do quintal. Tão queridinho (claro que só reparei mais tarde). E o covid? Ai, ai, ai. Pois... não me lembrei dele. Querem o quê agora?!
Acho que vou começar a comprar-lhe uns trapinhos. Digo que não serve ao meu filho. Ele sabe lá. Se o covid permita, claro. 


quinta-feira, 26 de março de 2020

Vinte seis de Março


Eu estava satisfeita com o meu dia quase normal. A curtir um friozinho razoável, dera um passeio higiénico anterior ao subir das persianas e abrir de janelas; tinha feito as compras da semana no super (nunca eu imaginei que ir ao super fosse tão grato acontecimento), tudo muito razoável, comedido e sem fila. Agora é claro que saio e não levo apenas a carteira, também atrelo o frasco do álcool para a desinfecção depois de; e há o cuidado de não andar a mexer na cara e isso, coisa em que sou vezeira e não posso jurar. Mas estive atenta e fiz o  possível. E portanto, arrumados os víveres, nova desinfecção.
Assim como assim, toda esterilizada, roupa mudada e tal, bebi um chá  de recompensa e cirandei pela net. E comecei, emendo, recomecei a ver uma série policial inglesa de que estou a gostar, um episódio por dia para haver uma coisa boa em espera. No entanto, de vez em quando, dão -me uns remoques de estar a perder tempo com as séries e coiso. E que resolvi eu. Ora bem, fazer duas coisas em simultâneo. Pois não dizem que as mulheres são as campeãs da simultaneidade de tarefas? Portanto, fui buscar o tricot e o desenho da folha que ando a tricotar bem a meio do trabalho, e pus-me com um olho no burro e outro no cigano, a ver a série e a continuar a minha folha que, não desfazendo, até está com bom parecer. Quer dizer, neste momento nem sei que diga. Como vocês estão calculando, não perdi pitada da série, mas faltou a atenção ao desenho. Bom, eu até estive atenta ao esquema, só que olhei para o esquema da parte superior da revista e a folha era na parte inferior. E não sabia? Sabia pois, a folhinha já estava começada. Mas como olhava para a série, nem reparava que a folha degenerara. Vale que o tricot só me prende por meia hora. Depois? Bom, estive a outra meia hora a desmanchar, porque aquela coisa de laçadas e malhas acavaladas é do pior. A série vi-a todinha e ainda lhe dei trinta minutos de atenção exclusiva. Conclusão: posso já ter sido dessa estirpe de várias coisas ao mesmo tempo. Mas estou fora do clube.
E depois. Depois é o desalento dos avisos dos médicos, primeiro os italianos, depois os vizinhos espanhóis. E sinto uma espécie de culpa por não poder ajudá-los e estar ainda em casa descansada. Como é que esta é uma guerra de todos, se os países europeus não se ajudam uns aos outros e as pessoas morrem em asfixia por falta de ventilação; é de todos a responsabilidade quando se decide que este tem de morrer porque o outro é mais novo, tem menos patologias associadas e mais condição de sobrevivência e portanto é ele que é ventilado. Quanta desumanidade.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Vinte Cinco de Março


Descendo de uma família de mulheres entusiasmadas com flores. Quando era criança doía-me que minha mãe não fosse igual às outras mães sentadas à porta a conversar e fazer crochet, a que chamavam “fazer renda”, nome que,  aliás, me parece o mais apropriado à actividade. Minhas tias também não eram dadas à agulha de barbela e tão pouco minha avó, senhora de grande despacho e certeiro tiro vocal.  E todas gostavam de flores. Cada uma as cultivava. 
Habituada a regar e proteger, a ter cuidados se colhia  alguma minimizando estragos e dano na planta mãe, também as fui acumulando em completa  desordem. A maioria chegou-me por mão de amiga ou vizinha.  Raras as que escolhi. Mas talvez as goste mais por isso. Algumas, também as compro para oferta e vivem largo tempo em minha casa antes de rumarem ao destino. O alpendre começa a parecer-se com coisa nenhuma no excesso de vasos e vasinhos acumulados. Isto acontece porque a maioria, mesmo sendo planta de interior, prefere a rua à casa. Deixo-as escolher, vivemos em democracia.
Este ano, no aniversário, deram-me duas orquídeas de um rosa escuro e profundo que tem de certeza outro nome na paleta das cores. Pessoas diferentes, flores iguais. Pu-las no escritório onde já tive uma branca e especial que está enorme e linda junto da eleita a quem a destinei. Pois este par chegou florido. No Outono, como quem pousa anéis depois da festa, despiram as flores e por ali ficaram. Cumpri, até hoje, o recomendado: pouca rega e o solinho da tarde. Via-lhes o vulto por detrás da cortina da janela. Pareciam-me bem. E vai daí, um destes dias ao regar, reparo que uma tem já três hastes com botões e a outra enfeita-se com duas.
Eu queria que o covid espavorisse antes da floração. Mas estou céptica. E no entanto descobri que as orquídeas são flores bonitas e de pouco sustento.   Parecem tão frágeis e aguentam-se com um nada. Coisas.
Logo eu que tanto gosto de malmequeres.

terça-feira, 24 de março de 2020

Vinte e Quatro de Março


A madrugada antes dos pássaros, antes do sol, surpreende o sono da terra, uma imensa cama onde a humanidade repousa deslembrada. Há nos adormecidos um quê de inocência que dói perturbar. Assim procede o amor materno, acordando de mansinho, condoído do gesto.
Em atenção à dormência geral, não levanto a persiana e tento ler. Mas acontece que não aguento o mundo em jejum, portanto, fecho o livro e espero. E espero.
Depois do pequeno almoço, e já pronta para nada, espreito a rua. Não passa vivalma. Animo e dou um passeio. Antes das oito, em tempo de covid, há um nada de persianas subidas (quem sabe, as que nunca são fechadas), não encontro uma pessoa por ruas e quintais. Na perpendicular ao fundo, passam dois carros pesados. Perpassa uma aragem fria, certo ar de madrugada que desfaz e sabe bem – tudo agrada num raro passeio a pé. A rua térrea das duas velhotas antes sentadinhas no muro, está em arranjo. O muro sumiu e debaixo da árvore já não há o côncavo de terra onde se encaixavam as duas à conversa partilhando uma saca de papel. A casa pequenina com barras azuis está quase pronta. Um bibelot na paisagem. Quem a habite vai gostar da rua desimpedida. O bem de uns não é o bem de outros.
Na vala à beira do caminho crescem ervas altas de mistura com flores silvestres e de jardim.  Tão orvalhadas e frescas, imortais de juventude. E chego a casa florida. Entretanto, martela-me um pensamento curioso de Maria Judite de Carvalho numa das suas crónicas. É qualquer coisa como isto (não estou a citar), o ser humano reconhece que não consegue viver sozinho, quer companhia. Mas qual? A do rádio, da tv, do cd, da música (digo eu que vivo agorinha, dos sms, mails, redes sociais). Pergunto-me se a escritora terá razão, se os outros nos interessam mediados pela tecnologia, assépticos remedeios onde ninguém verdadeiramente se encontra. Oxalá não.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Vinte e Três de Março


A vida é o que é e pronto. Hoje levantei-me bué maldisposta. Porque sim (excelente razão). Também porque uma amiga mais velha me ligou passava da meia noite. Acordei assarapantada, pensei que era não sei quem, corri para o nervoso do telemóvel que não parava de chamar e parecia quase aos pulos em cima da cómoda. Li o nome no visor com um olho aberto e outro fechado, apressei-me a atender e ouvi assim um resmalhar, coisa de mexer em sacos de plástico ou por aí. Parecia-me a minha avó que levava a noite nesse estandarte, e há-de estar lá no outro mundo a resmalhar e a irritar Deus Nosso Senhor que não tem culpa nenhuma dos feitios que cada um ganha nesta vida. Bom, mas a verdade é que essa amiga tem uma doença severa e eu parecia um disco rachado a soletrar-lhe o nome. E depois, pimba, desligou. E isto, parece que não mas deu-me cabo dos sonhos e do sono. De modos que o primeiro pensamento do dia não foi amável, ora bolas tenho de ir tomar banho. Toda a gente gosta de tomar banho. Eu não gosto. Detesto lavar-me. Embora o que eu mais goste seja estar lavada. E aqui está um verdadeiro problema, quase, quase um paradoxo. Avante. Desci a escada a pensar como resolver a situação do banho. Abri a janela da cozinha só com uma mão e aos sacões e a rua sorria imersa num solinho daqueles. E eu como quem descobriu a pólvora, já sei, vou  fazer café, deixar espalhar o aroma e depois bebo-o devagarmente. Havia uns restinhos de consciência que resmungavam, sempre a mesma coisa, não conseguirás cumprir nada,  não era para ser hoje, atina. Mas olhem, fiz como de outras vezes, i-gno-rei. Calei-os com um encolher de ombros, modo de dizer, não me macem que não vos ligo meia. E garanto, mal o aroma me chegou às narinas, fui tomada de tal encanto que apagou tudo. Depois de um café podem vir banhos seguidos, cabelos a escorrer, o que for. Sou toda paciência e não te rales.
Não contente com isto, aqui para nós que ninguém nos ouve, daí a umas horas arrisquei a leitura de uns poemas de António Machado no calor do solinho. E, pasme-se, em fato de banho. Yes! Bom, só pela metade porque o café dá-me paciência, mas não me tira a preguiça. Uns vinte minutos, não mais; antes do meio dia como a prescrição médica de anos atrás. Segui hoje. Mais vale tarde que nunca.
         E é claro que este post se deve a um café. Amanhã volto à norma, que é como quem diz, apresento-me ao natural, sem gracinha nenhuma.


domingo, 22 de março de 2020

Vinte e Dois de Março


O domingo começou por ser o dia em que, banho tomado, limpos e penteados, íamos à missa, ritual que, hélas, nos retirava de casa. A missa era apenas um rito a cumprir antes do nosso verdadeiro ritual, o almoço. Que nem sempre era melhorado, mas, em geral, havia um copo de laranjada para cada um de nós. A semana inteira aguardávamos o copo de laranjada. E fazia-nos tão felizes.
No tempo de colégio e durante o curso, sábado e domingo mudaram, apreciava sobretudo os dias da semana. O fim de semana tornou-se cansativo, estudar, lavar e passar a ferro, arrumar a casa, coser, e etc. Longe de qualquer  contacto com gente da minha idade. Já não havia laranjada que me convencesse e preferia a igreja vazia ao cumprimento do ritual.
Depois, as laranjadas desapareceram e experimentámos a larangina C. A mudança invadiu-nos. E mudou tudo. Tudo não, os fins de semana mantiveram a tónica: eram de trabalho árduo, desagradáveis. Durante mais de trinta anos, ao domingo à noite pensava, vá lá que amanhã é segunda. E ia para o emprego radiante. Não que trabalhasse menos durante a semana, mas tinha a profissão para descansar, esquecia tudo. E descansava mesmo.
Disse adeus à profissão e excessos de trabalho não existem. Mas mantenho quezília com os fins de semana. Há uma tristeza em ser domingo e apenas um almoço diferente. Conclusão: não atingi o verdadeiro espírito do domingo.Pergunto-me que farão na quarentena as famílias, com filhos e sem eles, num domingo igual a quase todos que já vivi. Eu que em tanto ano não aprendi a responder à tristeza do domingo. E elas, saberão?!
Oxalá.

sábado, 21 de março de 2020

Vinte e Um de Março


Há muito ano que a aparelhagem e uma coluna de Cds moram na minha cozinha. Já dei conta de várias, vapores e gordura não perdoam. Quando a última avariou, por razões extra, desisti de nova compra. E a cozinha silenciou. Deixei de cantar. A música existia-me episódica e apenas nos caminhos digitais. Mas, quem é mais atento e perspicaz, notou. E fez-me o gosto. Nova aparelhagem. Fiquei sem palavras. Contente, comovida. Oferta tão significante. Injustiça de mal agradecida, pouco uso lhe dou e até quase me esqueço que existe. O que a gente muda. 
Mas há os fins de semana em que toca. Estou na cozinha a burilar cozinhados, ele insere uma pen e a música que anda a ouvir enche o ar. Escutamos os dois mais ou menos em silêncio. Depois pergunta-me se gosto e eu a rodeá-lo de questões palermas, gostas porquê, o que gostas mais, como se chama, de onde é, que idade tem. Por ser curiosa, mas também por saber que, ao invés do que sucede comigo, investiga até ao fim os objectos do gosto. Falamos de filmes e realizadores, trocamos experiências. Aconselha e desaconselha. E o gozo que me dá ouvi-lo. Babo. Em seguida, pesquisa o rádio, sintoniza-o onde lhe apetece e mostra-me lugares onde gosta de ir. Depois, como quem já cumpriu, sobe a escada e desaparece. E eu baixo o rádio e continuo a função. Tenho o fim de semana ganho.
         Hoje, sem mais nem quê, recomecei a ouvir música. Na rádio. E não apenas. Saudade pura. Dos meus cds. Das vozes que me visitam alegre ou tristemente. Das nossas conversas que o tempo mingua, adiadas sine die pelo funesto  interregno das nossas vidas.
         Talvez tenha sido lembrança natural. Mas ouso aconselhar a música,  ajuda a suportar a vida. Não esqueçam a música caseira. A vossa. A  que estabelece sintonias.  E se ela nos arrasta e o sonho se instala?   Quem o não precise que atire a primeira pedra.

LISBOA AINDA



Lisboa não tem beijos nem abraços
Não tem risos nem esplanadas
Não tem passos
Nem raparigas e rapazes de mãos dadas
Tem praças cheias de ninguém
Ainda tem sol mas não tem
Nem gaivota de Amália nem canoa
Sem restaurantes, sem bares nem cinemas
Ainda é fado ainda é poemas
Fechada dentro de si mesma ainda é Lisboa
Cidade aberta
Ainda é Lisboa de Pessoa alegre e triste
E em cada rua deserta
Ainda resiste

20 de Março de 2020
Manuel Alegre

sexta-feira, 20 de março de 2020

Vinte de Março


Talvez seja defeito (ou feitio) adquirido com a profissão. Amo o silêncio, não o silêncio total, mas aquele mutismo humano que deixa a natureza falar. Não é romantismo, mas propensão a evitar ruído, grito, chinfrineira. Debaixo dessa superfície alterosa vive certa doçura tranquila, o estalido dos ramos nas árvores; o bater de asas dos pássaros; o desmaio das pinhas encaloradas; o canto dos grilos; o mergulho encarpado dos peixes, mesmo se não são carpas; o restolho móvel das asas adejando nas folhas quando as aves mudam de galho; o som abafado do fruto que cai e se cumpre na obediência às leis da física. E, nos dias de primavera soalhenta, escutando com atenção, ouvimos medrar as plantas. Verdade.  
Ora bem.  E que fazer agora que estamos assim como que presos em casa. Qual ouvir crescer as coisas, é ver da janela e já está. Mas a involução é permitida e, dizem os entendidos, é no interior que tudo começa. A casa. Ah, limpar; ah, arrumar; ah, pintar e não sei quê, organizar, cozinhar, engomar. E escutá-la. Ninguém pertence a casa que não escutou. Fazê-la nossa a valer, não apenas ou nem sequer no papel. Ela geme por portas e janelas, treme nas noites em que o vento se enrola em silvos ásperos como sova de cinto, entranha suores em brasa no pino do verão. E disso nos protege. Noite fora, a casa é sentinela. Vigia. Escuta sem delatar suspiros confessos e inconfessados. Assiste à distensão dos móveis  em estalido artrítico antes do sono, o braço de um sofá, o cotovelo de uma mesa, os pés de um banco, o lume baço de um espelho. E sabe de cor os passitos leves dos fantasmas que o sono dos homens deixa soltos.
Escutá-la. Por uma vez. Na vez das house parties.     

quinta-feira, 19 de março de 2020

Dezanove de Março


Desafiaram-me e  eu disse não. Mas pode ser sim. Posso sustentar um diário por estas paragens. Portanto, e como ando sempre atrasada, hoje é o dia um, o primeiro dia do, ontem decretado, estado de emergência. Dia do Pai. Também. Tão diverso que não esquece. A maioria dos pais não tem a presença dos filhos, os contactos são mediados por qualquer aparelho e talvez lhe seja difícil entender as restrições. A idade acelerou-lhes manias de tudo igual, cultivam as suas rotinas com afã idêntico àquele com que habitualmente as sacudimos. Temos de compreendê-los. E não ceder quando elas implicam o contacto directo. A rotina é o seu compromisso com a vida, o único que conseguem cumprir. O prazer que consagramos aos passeios, visitas e outras novidades dedicam-no eles à satisfação de ir pondo bandeiras no quotidiano, tomar o pequeno almoço, ler o jornal, dar um pequeno passeio. Enchem cada dia com as lutas que vão vencendo. E é isso viver?  A vida é como e o que pode ser. E sempre, à medida que a idade avança, exige despojamento. Eles aprenderam. E assim nós. Aprenderemos com eles a viver confinados. A prescindir para poder continuar. Por ser necessário.
E quando tudo termine, se não tivermos trambolhado corda abaixo, seremos equilibristas de primeira.
Os dados estão lançados. Desfolhe-se  o calendário.
Boa noite



terça-feira, 17 de março de 2020

Carrossel


Voltámos atrás e, mal tinha dado uns passos, fui sacudido por estridências de campainha. Quase em simultâneo, as portas da escola abriram e os rapazes irromperam como leite que derrama, enxurrada de algazarra que me deixou zonzo. Corriam em grupo ou a sós e ultrapassavam-nos sem mais que um ou outro soslaio. E eu varado pela aragem da corrida. Eram mais que na Boa Semente e não havia crianças pequenas. Desta vez, Céline empurrou-me discretamente até ao refeitório.
Chegámos e os rapazes estavam ali. De pé, ao lado das mesas. No silêncio, nem uma cadeira arranhava o chão e até eles pareciam mobília. Mademoiselle dirigiu-se a monsieur Sebastien e os passos ouviram-se claros e arrastados. Impressionado com a disciplina, ainda nem tinha visto o comandante das tropas. De pé, bem na frente de todos. Era jovem e usava óculos fora de moda, semelhantes aos dos velhos no Bairro da Venezuela; tinha cabelo e calças muito curtos, um casaco curto de lã com bolsos metidos e decote em v por onde uma camisa branca espreitava abotoada até ao pescoço. Fixei-o. A pele de rosto e pescoço pouco se distinguia da camisa e as  bochechas de bebé rosado salientavam na brancura. Contudo, o mais impressionante no conjunto era o traço fino da boca, apenas uma linha de cor. Monsieur lançou-me uma olhadela, avaliou-me a desimportância e, como quem enxota um insecto, apontou-me uma mesa. Fiquei junto à cadeira vazia tentando imitar a postura dos outros, todos farda e gravatinha. E eu sem ousar um olhar a direito. Monsieur disse qualquer coisa a que responderam em coro e, a um sinal dele, as cadeiras trovejaram. Olhei e estavam sentados. Sem hábito dos preceitos, durante esse átomo de tempo apenas conseguira puxar a cadeira atrás e sentar-me. Afastado da mesa. Puxei-a à frente e, quase no mesmo instante, gritei com a palmatoada nas costas da mão. Monsieur estava a meu lado, vara em punho, todo dureza e olho fiscal. Escarneceu alguma coisa que não entendi e foi em passo grosso reassumir o comando lá à frente. Senti-me quase tão miserável como quando tia Emília morrera. Na minha mão, o vergão vermelho intumescia e os da mesa riam à socapa enviesando olhares ao Sebastien.
Durante o resto do ano escolar, e sobretudo até aprender a língua, padeci em silenciosa tristeza. Aguentei. Os colegas de mesa e vizinhos no território da camarata, sabendo que não os entendia, pregavam-me partidas que acarretavam castigos e punições variadas. Mademoiselle Céline, perdida na recepção e a contas com os achaques dos pés deformados por joanetes e crises de vesícula que tratava a chávenas de chá, continuava apiedada de mim, mas raro nos víamos. Nas aulas, não ia melhor. A inteligência tolhida na ignorância da língua, desinteressava-me de tudo e os professores deram-me por perdido. Apenas o professor de francês insistiu e me ajudou no traquejo do linguajar afirmando que aquele ano seria de aprendizagem. No final do ano lectivo, uns pares de meses que me pareceram um século, reprovei. Não tinha feito um amigo e doía-me a saudade de Esparguete e madame Simone. E, não fora ter viajado de carro e estar a par da distância, teria tentado a fuga.
Nas férias grandes, professores e alunos debandavam. Mesmo monsieur Sebastien, o mais furioso zelador que sofríamos, arrumou a sua mala antiquada e, de óculos obtusos e calça curta, partiu para termas. O colégio foi esvaziando e a calmaria pousou como capa protectora sobre o recinto. Fiquei eu. Entretanto, o director envidava esforços para contactar Eugénia. Inútil tarefa. Eu era a peça obstáculo, impedia o encerramento anual da instituição e a sua ida para férias. Homem ponderado, Monsieur Le Directeur voz funda de tenor que nos cantava pequenas peças de ópera em serões de festa, não sabia o que fazer de mim. O pessoal encontrava-se em gozo de férias e, nos últimos dias, dera-me asilo em sua casa, uma das vivendas adjacentes ao colégio. A mulher, dama pequenina e geniquenta a quem não se conhecia outra tarefa que passear à trela um cãozito, feixe de nervos ambulante que hoje tomaria a sua dose de ansiolíticos, mas naquele tempo se encharcava em inócuas tisanas de cidreira e camomila, apenas cedendo ao improviso de gritinhos estrídulos e olhares mortíferos endereçados ao marido. A invasão do seu perímetro fazia de nós criminosos irremissíveis. Condenados por amplitude de gestos e magras falanges que pareciam querer desarticular, atropelava palavras em frases atiradas como pedras e que eu entendia parcialmente. 
Dentro da tempestade. Sozinho e soberanamente infeliz.

domingo, 15 de março de 2020

Carrossel


Na terceira manhã em França, e apesar das roupas quentes, o frio não aconselhava aventuras. Antes de sairmos, a prima, talvez lembrada da primeira vez, demorou a dobrar-me a roupa nova e arrumá-la. Depois, fechou a mala com um estalido e anunciou, hoje já almoças no colégio. O meu coração contraiu. Sabia que o momento viria, mas nada em mim o desejava. Sentei-me no carro sem uma palavra, desinteressado do lugar que me destinavam, desejando nunca chegar. Mas partir implica que cheguemos, ainda que nem sempre onde desejamos. No caminho, deparámos com o mar. A surpresa daquela imensidão de água móvel pôs-me de nariz no vidro, a prima apontando, estás a ver, ficas com o mar por perto, olha para esta beleza. E eu na admiração bacoca de tanta água junta e no que diria Esparguete se a visse. 
Depois de muita volta, de nos perdermos e por várias vezes invertermos a marcha, de Eugénia baixar o vidro a pedir informações soletrando o nome do lugar, chegámos ao destino. O que me chamou a atenção no colégio foi ombrear com duas vivendas medianas e ser completamente murado, muros tão altos que deixavam visível apenas o cocuruto das árvores. Ficava situado numa povoação pequena, em rua sem movimento. O mar, tinha-mo-lo perdido. Fofuras parou o carro junto ao portão, saiu a tirar-me a mala e despediu-se com aperto de mão, à homem. Eugénia aprumou-se na altura dos sapatos, tirou-me a mala e puxou a argola suspensa no muro junto ao portão. Ouvimos um sino lá dentro, o som de passos arrastados e cada vez mais próximos, e uma mulher envelhecida veio abrir. Tinha cabelo grisalho, escorrido e oleoso que acachapava com um gancho de cada lado e lhe batia nos ombros. Vestia saia e blusa em tons inespecíficos e reparei nos enormes sapatos rasteiros  que  lhe dificultavam o andar. Dirigiu-se para o edifício em frente e de um único piso. As janelas eram gradeadas e havia várias portas. Subimos o degrau da porta principal e a prima abandonou-me a meio da entrada com a maleta e apressou-se a seguir a mulher que lhe fazia sinais para que a acompanhasse.  Olhei em todas as direcções e nem sinal de garotos. O silêncio era quase absoluto. 
Fiel a si mesma, Eugénia depressa se despachou e,  caminhando na frente da mulher, aproximou-se e abreviou despedidas. Parou junto a mim e avisou apontando a mala, não deixes que te tirem nada, ouviste. E depois, uma mão a despentear-me, finalizou, porta-te bem; e estuda que é para seres um homem. E desapareceu fechando a porta. Paralisado, ouvi os saltos dos sapatos a afastarem-se. A mulher olhou-me condoída, passou-me um braço sobre os ombros e levou-me assim para dentro. E foi quando ela começou a falar que me dei conta, eu não entendia nada do que dizia. A barreira da língua isolava-me, era  a solidão completa.
Mademoiselle Céline mostrou-me da casa o que julgou pertinente. Em termos práticos, a dinâmica do edifício era bastante semelhante ao que conhecia na Boa Semente.  Levou-me à camarata e deixei a mala. Observei  as camas lado a lado e o ar de ordem e limpeza nas colchas iguais e sem rugas. Vi o WC com as quatro paredes preenchidas. A todo o comprimento a fila de lavatórios; em frente, as cabines com a sanita. Nas paredes mais estreitas uma fila de urinóis e uma fila de cabides. O que via não era novo, mas estava limpo e conservado. Depois, espreitei o balneário com as cabines de duche, a sala de estudo vazia, a cozinha e a copa avantajada, e o refeitório de mesas e cadeiras iguais e regulares, dispostas como quem espera comensais. Saímos e atravessámos o pátio interior. Para lá das árvores, novo edifício. Apontando-o, mademoiselle Céline disse a única palavra que entendi, l’école.

sábado, 14 de março de 2020

Carrossel


Tinha curiosidade por terra estrangeira e foi num pico de atenção que observei a paisagem. Nada do que via era absolutamente novo. Extensas plantações a verdejar sem vivalma, uma estrada infinda, casas aqui e ali, um ou outro carro a circular e a pressa de camiões enormes, alguns com cisterna. E depois as vilas, aldeias, cidades que víamos de longe ou atravessávamos e pareciam ampliação do meu mundo, tudo em ponto grande. Desiludido com a falta de novidade do estrangeiro, amodorrei a maior parte da viagem e a restante gastei-a a pensar na saudade do que deixara e na falta de vontade para o que ia encontrar. Intrigava-me que Eugénia me quisesse num colégio de outro país, ela que nunca me visitara na Boa Semente. Se Esparguete estivesse comigo, isso sim, havíamos de falar sobre o assunto. Pensando nele, não conseguia evitar certa culpa de abandono, expressa em interrogações sem préstimo porque irrespondíveis: o meu amigo já teria vestido a camisa de riscas, quem o ajudaria agora no sustento inconfessado e trabalhoso do jantar.  Lingrinhas era espião sem arte, não sabia planear um roubo e faltava-lhe presteza para surripiar o que fosse. Esparguete caçoava de boa mente, ó desabilidade, chega-te para lá que só empatas. Esconde-te e assobia se alguém vier. E, posto em cuidados de mais velho avisava, não saias do lugar por nada deste mundo, ouviste. Era entre nós dois que trama e perigo corriam.
Habituado à rasura alentejana do olhar, pasmei à vista das altas montanhas que subimos por altura dos Pirinéus. Fofuras fez várias paragens, cansaço seu e do motor que arfava mais que a prima na noite em que, já em França, acordei assarapantado. Era um silêncio cortado por chiadeira de molas e gemidos que a princípio tomei por autêntica doença. Caí em mim quando me acudiu a imagem de Maria desculpando-se com os uivos do Bolinhas no quintal. Aquilo soava a aflição que crescia. Eu quase sem respirar, incomodado mas atento. As urgências do sexo são mistério em demasia para uma criança. E tu tão longe. Tu pensando no despropósito e que só podia e tinha de ser com a criada. Não com tua mãe. Nada. Com tua mãe, não. Tua mãe uma senhora, pessoa de respeito. Havia no inesperado do quadro um descomposto animal que te ofendia e beliscava sem que soubesses concretizar. E, quem sabe, ela gostaria e talvez imaginasse essa febre a desmanchar-lhe o cabelo de laca, os tropeços do desejo ardendo na roupa, colchetes e botões que nasciam não se sabe de onde, a pele a eriçar sem ordem, o é agora ou nunca que pouco vivera.  Ou seria antes a saudade do que sonhou e sonha ainda quando desliga do mundo, dedos esquecidos nas contas do colar, olhos semicerrados. Que um amor pode passar, mas não passa o que nele foi sonhado, esse é que reivindica pertença. D. Micá sonha em nudez integral, despida  de espaço e tempo. E é feliz, não a acordem. A empregada em confidência, fica assim grandes bocados, nem se mexe; mas parece contente e é melhor não a interrompermos. E eu a colar-lhe um quê de romantismo na mente, talvez sonhe com certo vagar terno a despi-la peça a peça e deixe de ser a deslembrada da casa branca. É apenas ela, Micaela Tovar, em cenário seu. 
No dia seguinte, Eugénia  satisfeita e cantadeira, explanando projectos a dois ao compasso do motor, compramos isto e aquilo, vamos aqui e além. O fofo, mãos no volante e rádio ligado, na sua fleuma de aristocracia silente. Eu, espectador na traseira do carro, um Contador.
 Em França, o ar arrefecia gradualmente e parámos para comprar roupa e abafos. O contacto com os franceses retirou-me ilusões de linguagem, os meus conhecimentos versando mobiliário de sala de aula eram inúteis. Ainda assim, soava-me bem articular, s’il vous plait,  merci bien.  E aprendi nova expressão, l'addition s'il vous plait.

quinta-feira, 12 de março de 2020

Carrossel


             Parámos para jantar em lugar de beira de estrada e pernoitámos, a prima cosendo motivos uns nos outros, aqui ainda é Portugal, meu anjo, há asseio; sei lá se essa estrangeirada muda os lençóis; e depois, não sei outras línguas, como é que me posso queixar se ninguém me entende. Fofuras despia o casaco sem palavras, cansado de volante e talvez dela. Abriu a mala dos dois, tirou o pijama e, antes de se fechar na casa de banho, delatou-me num meio sorriso, olha que o teu menino tem a mala vazia. Eu estava sentado na cadeira do quarto, mão apoiada na mesinha pequena e apenas ergui os olhos para a figura da prima que mirava o divã aberto e pronto a um canto e que, num repente, se virou coruscante, o quê, tu não tens roupa. Neguei com a cabeça. E ela avançando para a casa de banho, a voz a adaptar-se a um harpejo terno, ó fofo, então sabias disto e não me avisaste. Através da porta ouvia-se a água correr e um assobiozinho fino de cançoneta. A prima recuou, deixá-lo tomar banho coitadinho, foi muito quilómetro com o volante nas mãos. Depois, bem na minha frente e mais ameigada, merecias umas palmadas, tu; que ideia foi essa de não trazeres nada. Agora o que vestes, meu palerma. Mas eu, firme na satisfação de Esparguete com as minhas prendas miseráveis, nem lhe respondi. E ela dando de ombros, filosófica, bem, aquilo deviam ser só trapos. Assim como assim, tenho de comprar-te algumas peças para o colégio, não te querem lá de mãos a abanar. O novo colégio. Estrear tudo mais uma vez. Mas o dia esgotara-me e, ao contrário do que pensava, adormeci sentado à mesa.  
Acordei com Eugénia a sacudir-me, vá, preguiçoso, levanta-te. Tens de tomar banho, ontem deixaste-te dormir. Vês, deitámos-te vestido e tudo.  
Pequeno almoço tomado, partimos para Espanha. Era já perto e havia que atravessar a fronteira. Para os meus onze anos, a fronteira foi uma decepção. Ia até agoniado, pensando que seria coisa de acesso difícil e que poderia não conseguir acompanhá-los, afinal eram dois adultos e eu uma criança. Mas quando perguntei se descíamos do carro e íamos a pé riram e descansaram-me, que atravessávamos de carro. Pensei que era boa ideia. Então, julguei que seria habilidade de condução e encomendei-me às brancas mãos do santinho de Eugénia, ele havia de conduzir-nos fronteira fora até sairmos do outro lado, que é como quem diz já em Espanha, ilesos e prontos a continuar. Mas nada foi assim. Apenas uma paragem mais ou menos demorada, com papeis para aqui e para ali e um guarda de luvas a revistar-nos o carro e mexer em todo o lado, malas e maletas, tudo revirado sem delicadezas, um tempão de perguntas. E depois a prima, como quem ganhou prémio, estamos em Espanha, olé. Olhei e pareceu-me a mesma estrada, não achei diferença excepto na linguagem dos guardas que vieram de novo e fizeram tudo mais ou menos igual. Quando saímos da alfândega, Eugénia suspirou, ufa, estava difícil passar com o garoto, pois se sou a tutora dele.  Concluí que as tutoras deviam ser as pessoas que nos deixam em colégios.

Epidemia vinte vinte


         Primeiro o corona foi novidade que não nos assustou, estava muito longe. Em seguida, instalou-se ligeira dúvida, propagava-se a uma velocidade estonteante e matava sobretudo os velhos que sofriam de outras complicações. Mas continuava longe, a Europa ainda ilesa. Na nossa mente nascia uma certeza irrevogável, íamos ser contagiados. No mundo global em que vivemos, com chineses por todo o lado e gente em idas e vindas à China, produtos para cá e para lá, não havia hipótese de sairmos incólumes. E assim foi, França, Alemanha, Itália e aqui na vizinha Espanha. Ao longo dos dias, enquanto o vírus ia alastrando pelo mundo, em Itália, doença e número de mortes agudizavam, os italianos ainda incrédulos, confiantes de que a vida podia prosseguir normal. Os casos na vizinha Espanha aumentavam e os telejornais lusos garantiam que não tínhamos sequer um caso. Curiosamente, não soava a boa nova, lia-se um aligeirado lamento. De súbito, os primeiros casos em Portugal e nós eternos optimistas, são poucos, isolam-se, debelam-se e já está. Mas o exemplo de Itália mostrava que não, o país de quarentena. Entretanto, os nossos casos positivos subiam exponencialmente. Hoje, esperamos para ver. Há escolas e outras instituições encerradas; eventos de multidão foram cancelados e o país vai estar letárgico ao longo das próximas semanas.  
          Na net, avisos vários, um desfraldar de bandeiras vermelhas aqui e ali. Que me deixavam indecisa. Apelando à minha responsabilidade. E eu, vou; e depois, não vou. E tão depressa sim como não. Mas ontem, um decisivo sms teu, previdente, conhecedor da minha psicologia, “é melhor que não venhas, isto vai escalar e sabes bem que és das mais vulneráveis” (tão querido, tão querido). Mas o evento até foi cancelado, vê tu. E ponto final. Não vou ser colaboracionista. Com um vírus? Nem pensar. E fico mais ou menos quietinha à espera que passe. Se vier, que fique registado: não vou de vontade.

segunda-feira, 9 de março de 2020

Carrossel


          Dei por mim parado a meio do corredor, mala na mão. Tratei de afugentar lembranças, disse adeus a Madame Simone e retomei a marcha. Na camarata onde dormíamos, a minha cama ao lado da de Esparguete como se nada se tivesse passado. Uma cama ainda minha, com os sinais do meu corpo e um rasgão no lençol. Tudo em estranha normalidade. Mas os objectos são assim mesmo, não sentem e nem se rebelam, dizem os entendidos. Quem me dera copiá-los. E partir, chegar, estar, seriam a mesma coisa. Quem me dera.
Emalei os pertences. Pensava que mal a fechasse – pouco tinha que arrumar – ia embora, fugia à despedida. Olhei o bamboleio das roupas no fundo da mala, a camisa às riscas com que roubara as maçãs espreitava-me mal dobrada. Retirei-a no intento de nova dobradura. Estendi-a sobre a cama como Esparguete tinha ensinado, dobrei os dois lados o melhor que consegui, ajeitei mangas e voltei a dobrá-la a meio, compondo o colarinho. Depois, fui deixá-la sobre a almofada de Esparguete. Fiz o mesmo ao resto das peças. Finalmente, fechei a mala vazia e encaminhei-me para a saída. Maria e a prima aguardavam. O abraço de Maria presentificou a situação, a partida fez-se realidade irrevogável. As suas palavras, boa sorte, Contador, que Deus te acompanhe., estabeleceram com lisura o meu limite na Casa da Boa Semente. E depois, dando-me uma palmadinha na face despediu-me, não percas a vontade de contar histórias. E recuou.  Peguei na mala a protestar com a prima, eu levo, eu levo, e desci até ao carro. 
Ao volante, o Fofuras, cotovelo de fora,  disfarçava bocejos num rádio conveniente e musical, como qualquer chofer que está e não está dentro da vida dos clientes. Saiu do carro, tirou-me a mala, colocou-a com presteza no porta-bagagens e quando me abriu a porta, olhando a prima que descia devagar os degraus, disse em segredo, tens roupa de penas, tu, a mala parece vazia. Não respondi, atento que estava às janelas da sala de estudo onde os meus amigos pontuavam nesse momento. Mas, ao invés do que sucedera à chegada, ninguém assomou. Entretanto, a prima chegou. Abriu a porta, despiu o casaco azul claro e passou-mo dobrado, deita-o a teu lado, não o quero amarrotar. Depois, passou a mão pelo rosto do Fofuras, podemos seguir, meu santo. E eu todo virado ao vidro traseiro, olhando a Boa Semente. A casa diminuía no meio do campo, rodeada por quintinhas e casitas menores. Um cão ou outro seguindo pela berma da estrada, carroças e burros no último trabalho do dia, carrego campestre de feno, lenha, sacos de trigo ou cevada. Gente cansada e amorfa, pés aspirando sossego, corpo que o dia quebrou.
Era já noite quando atravessámos a cidade. O artifício da luz sobre as árvores do largo a dar-lhes novo rosto. Em zelo de soldado exemplar, avultavam na esquadria quase deserta da praça, compactas e hirtas. Imbuídas da sisudez que o sol havia de diluir, miravam o automóvel em claro desdém eléctrico. Um ou outro carro arrumado a casa de bom gosto, marcava terreno e distinção; de médico ou advogado, certamente. A estação de camionagem surgiu feérica, um passageiro na bilheteira, dois ou três carros já em posição de dormir, uma mulher que corria com mala mais pesada que a minha e atravessava em perigo esforçado a bocarra escancarada de saída das viaturas. E depois uma avenida de árvores que agigantavam para o escuro, em zona de vivendas com jardins murados de que víamos apenas o negrume de arbustos que ultrapassavam sebes e cimento, as lanternas acesas na porta de entrada a lembrar famílias felizes. 
E de novo o campo alentejano. Ele e nós. O automóvel sempre em frente, a cortar fatias de escuro e a dividi-lo em esquerda e direita do alcatrão, enquanto o rádio, alheio ao caminho, barafustava alegrias. Os olhos dos animais, espanto solitário que remelgava no écran dos faróis e sumia na escuridão. E eu inquieto, e se o bicho não conseguiu escapar à sofreguidão dos pneus. O meu Alentejo nocturno, ramo de cheiros penetrantes que Esparguete me ensinara a conhecer e de que me afastava.  O automóvel engolia quilómetros e ia interrompendo os mistérios da noite, coelhos espavoridos a galgar a estrada, um pássaro retardado embatendo no vidro, o redondo imperfeito do ouriço que lesmava alcatrão fora. Um rasgo de perturbação na quietude dos lugares.  

domingo, 8 de março de 2020

8 de Março


Que dirias se soubesses que há hoje um Dia da Mulher. Que dirias tu, escrava de nós todos, mesmo dos que te pagavam com amor desmedido e egoísta. Que dirias. Não é pessimismo. Julgo que não. A morte, em certas vidas, é lastro de encerramento definitivo, o desfecho mais leve. E a certeza de que não voltas a repetir-te. Não sei quem destina o quê e se algum destino existe na errância que é a vida humana. Mas a impossibilidade de repetição consola-me. A tua unicidade assegura que não se repete a circunstância. Contudo, facto que não é indolor, há mulheres agredidas todos os dias, mortas, espezinhadas em vida e após a morte, como se alguém queira apagá-las da face da terra ou reduzi-las à mediocridade invertebrada. Muitas são agredidas e mortas em crime passional, nada está mais próximo do amor que o seu reverso, e, se as emoções entram ao barulho, o homem, aqui entendido como sujeito masculino, campeia na animalidade.
Depois há as assimetrias caseiras: no trabalho doméstico e na profissão; nas responsabilidades educativas e afectivas para com os filhos; na orientação da vida comum e na gestão do círculo familiar; no apoio aos mais velhos; na economia do agregado.
Pergunto-me se em vez de um Dia da Mulher não seria preferível uma formação contínua e obrigatória dos homens. Não me parece saudável a forma como abordamos o assunto.
É só.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Tolentino


Presumo que agora te escreva menos. Menos. E não por falta de apetite para. Se houvera tal profissão, eu seria feliz escrevente de cartas. Punha mão, mente e caneta à disposição dos mais e escrevia por eles. Cartas. Rendadas e aconchegantes; lúcidas e travadas de razões; perspicazes e decisivas; longa e demoradamente amorosas; preocupadas e tecidas de conselhos. E mais eteceteras que existem e eu inventaria por ser dada à comunicação epistolar. Que é o mesmo dizer que giro fora do tempo, mas paciência, cada um é o que é e faz as rotações que faz.
Eu sei. Senti-o no ano passado quando vieste mostrar-nos o mundo a que ora pertences. Apontaste simpaticamente, agora sou este e a caminhada não para. Mostraste distância e diferença entre seres pároco no Rato pejado de paroquianos com pergaminho e bibliotecário do Vaticano. Sem um aceno, despediste-te em regra. Agora, na tua igreja que foi, há um mundo afadigado na compra dos teus pequenos escritos e que se apresta a guardar a mais ínfima das tuas palavras sábias. Remédio santo para o mal dos tempos. Ou torna-te isso mais próximo. Não me entendas mal. Também compro livros teus se acaso gosto deles e não me saem muito do orçamento. Mas nunca farei das tuas palavras o meu rosário, não as colecciono como se fossem as necessárias Avé Marias de uma novena. Entretanto, trata de não morrer às mãos do corona que fazes cá falta, a tua hora ainda não chegou e nem Deus te agradece partida extemporânea.
Tem juízo, se fazes favor. Lava as mãos, não te ponhas com beijinhos e abraços, segue as indicações. E que a sorte e o acaso te protejam.
Pois é, a tua igreja está mais vazia este ano. E não apenas pelo previsível desvio a que o vírus conduz. Mas não cesso de agradecer-te a ideia destes cursos, lufada de ar fresco na modorra. Perdão, não só a ti.
Oxalá cries por aí um bem perdurável e benfazejo, bálsamo do intelecto que seja de difusão. Que não és de estar sem deixar marca.
Porta-te. Sê o mesmo Tu. Sempre. E fica Bem.


quinta-feira, 5 de março de 2020

Carrossel


          Depois, a prima pôs o velho ar de comando e quase voltei a ver a verruga.  Passou-me uma mala, mandou-me arrumar o que tinha e foi acertar os últimos pormenores com Maria. E eu, uma vez mais, não tive voz. Não escolhi. As queixas não passaram da mente. Pela segunda vez e em tão curto tempo, a semi morte de planta arrancada, raiz ao léu. O que eu me tinha esforçado para pertencer à Casa da Boa Semente, para esquecer o mundo do Bairro da Venezuela. E agora, França. França, uma língua diferente e que a escola começara a ensinar-me, mas eu pouco sabia. Não ia além de, la fenêtre, la table, le pupitre, le crayon, le stylo, le cahier. Tinha ainda aprendido algumas expressões, comment vous apellez vous; merci; merci bien, s’il vous plait, écrivez!. E conjugava o verbo ter no tempo presente. Ignorava a razão de os franceses lhe chamarem ávuár coisa que se escrevia avoir; via-se logo que eram pouco inteligentes e algo complicados. Em mim, França não era nada de concreto. Um lugar onde se falava francês, coisa de lonjura tanta que se não fora gostar da professora, não pensaria em aprender aquela fala. E tinha sérias dúvidas sobre a hipótese de vir a conhecer franceses ou ir a França. Talvez chegasse a ser bom aluno na disciplina, apesar dos deveres escolares em falta, mas estávamos no início. E não mais iria à escola, não voltaria a ver a professora. Desanimei. Madame Simone, em meu entendimento, era velha. Uma jovem não tinha o cabelo grisalho e nem o puxava para cima e depois fazia com ele uma espécie de ninho bem a meio da cabeça, penteado que nunca vira a ninguém, mas lhe assentava na perfeição. Madame Simone, ensinaram-me depois os filmes de época, trajava e penteava-se como mulher de outro século, usava aquele ninho bondoso e fofo, óculos redondos com aros finos de metal, pintava a boca de vermelho escuro e punha pó de arroz. Era alta e esguia e nunca a vimos senão de saias compridas, blusas de folhinho ou laço, casacos compridões enfeitados por um camafeu que fazia as minhas delícias. Era uma moldurinha oval e minúscula como nunca vira, debruada de pequeninas contas redondas. No interior, a  espécie de retratinho de uma jovem de perfil, pescoço de cisne, penteado parecido com o de Madame.  A professora de Francês deslocava-se apoiada numa bengala de castão dourado que eu julgava ouro de lei e a que lançava olhares de respeito enquanto a senhora demorava a entrar e chegar à secretária. Já no lugar, Madame cumprimentava-nos com sorriso maternal capaz de aquecer as zonas mais frígidas e saudava, bonjour. E nós em coro, bonjour madame Simone. E eu, palavra de honra, quase jurava que para mim ela uns olhos especiais, só meus. Se chamava por ajuda, saltava que nem mola e apagava o quadro, carregava-lhe a pasta até à sala de professores, apanhava e segurava-lhe a bengala, fechava a porta da sala e devolvia-lhe a chave. E os outros num misto de inveja, graxista, desprezando o motivo simples do sorriso que nos dava ser um bem e gostar dela por não gritar e ser paciente com os nossos desleixos e falta de estudo.  Madame não era nem um bocadinho parecida com tia Emília, mas moravam juntas dentro de mim. Seria a idade a aproximá-las. Ou só eu.

quarta-feira, 4 de março de 2020

Carrossel


          
O mundo inanimado é desafogo mental. Espera-nos imperturbável e, salvo uma ou outra excepção, oferece estabilidade apetecível, segura-nos. Era assim que entendia a Casa da Boa Semente, a cama, o lugar na mesa, os corredores de ligação e as salas. A saleta das visitas continuava ninho de linhas e agulhas, por todo o lado peças por coser e passar, a tábua de engomar sempre armada, pilhas de roupa eternizando por bancos e cadeiras e que só à quinta feira minguavam, por mor da ajuda das mulheres.  Tinha-lhe certo carinho, fora ali que a mulher me estendera o carrinho de linhas vazio, a mesma das maçãs. Era-lhe grato pelas fatiotas do neto, mas, sobretudo, porque nos entendíamos sem muita conversa e, ao invés de me delatar, me premiara. Não lhe conhecia nome, mas tinha a certeza, era minha amiga, interessava-se por mim. Já no fim do corredor, desesperancei, não podia ser ela a esperar-me na saleta, Maria tinha dito, “uma visita”.
Quando empurrei a porta, na penumbra que a noitinha já governava, vi apenas um homem. Era um homem alto, bem trajado, o que eu e os meus amigos chamávamos, um senhor todo fino. Parei indeciso, a mão colada no puxador, era engano, tinha que ser engano, nunca o tinha visto. Mas ele estendeu uma mão branca e lisa como a dos nossos professores, mão de gente que pouco faz ou só escreve, e puxou-me para dentro, anda cá, não tenhas medo. Entra. E depois, ligando o interruptor, a tua visita é aquela senhora. Do canto mais obscuro da saleta, a senhora levantou-se, deu uns passos na minha direcção, parou a meio da sala a fazer efeito e os vultos de roupa encolheram só de vê-la. Era robusta e vestia casaco comprido azul claro, coisa tão fina no meio de peças descosidas e pontinhadas, os pés calçando sapatos azuis escuros de salto, iguais à malinha de mão. Sob o candeeiro da saleta, os cabelos encaracolados e castanhos chispavam, brilho que hoje eu diria ser de boa tinta. Não me lembrava de a ter visto e balbuciei numa atrapalhação, não a conheço. A senhora deu uma gargalhadinha alegre e disse num sorriso de baton, estou assim tão diferente? Àquela voz, eu de olhos esbugalhados, esparvoado e incrédulo, prima Eugénia?! E ela num repente, pois quem havia de ser, seu palerma. E olha, este senhor é o meu noivo, vamos casar. E aproximando-se dele, Já vendi tudo e marcámos o casamento, não é fofuras. E o fofuras a assentir sem palavras. Eu, numa admiração sem destino. Não imaginando que alguém como aquele senhor caísse de amores pela prima que, a meus olhos, já era velha. E depois o pensamento sem parança, mas então ela disse que não lhe pertenço e até veio deixar-me aqui. E logo dava uma guinada e observava, e o que terá feito à verruga que não a vejo, e está mais magra, e tem o cabelo tão bonito que nem parece dela. E na lembrança das saias compridas e pretas de antes concluía, de certeza que ele lhe escolheu a roupa.
Mas, antes de qualquer pergunta, ela estourou, vamos viver para França e tu vais connosco, há lá outros colégios; e virando-se para o senhor silencioso, não é fofinho. E o fofinho decerto novo aceno. Que nem olhei. Melhor, não sei para onde olhei, não me lembro de ver alguma coisa depois. O meu mundo tão recente e tão fresco, a minha esforçada segurança de corredores e salas, as manhãs de trabalho no café do senhor Rogério, os tributos pagos ao Mau agoiro, a trindade amigável que tínhamos jurado, Maria e Octávio, a mulher do povoado. Tudo, tudo desabou.

terça-feira, 3 de março de 2020

Carrossel


Em casa, Maria ralhava-nos pelo atraso agitando a bandeira das horas de estudo perdidas. Nós, braços em volta das sacolas de estopa, calcávamos de leve o contrapeso do jantar a torná-lo invisível e inventávamos desculpas que ela ouvia incrédula e meio distraída. Depois, ordenava-nos a lavagem da loiça, retirava o recreio da noite, exigia o lixo despejado, castigava-nos com função que necessitava ser cumprida.
Privada da alegria do Amora, Maria, que a princípio reagira e instigava todos a continuar, que acompanhara Lingrinhas no luto e nos parecia forte como uma rocha, perdera o ímpeto de luta e vivia tomada de canseira, o labor da casa um excesso. A tristeza emagrecia-lhe corpo e sorrisos e contristava-nos o semblante desinteressado e olhos embaciados. Lingrinhas e Esparguete garantiam-me de pés juntos, em jura convicta, que os gemidos no corredor andavam arredios, eu seja ceguinho se não é verdade. E davam de ombros, olhos gordos de ignorância.  Não lhe sabiam solução.
Foi neste entrementes que, certa tarde em que regressávamos da escola, estranhámos a sua figura na porta entreaberta. Aguardava. Maria proibia-nos a portaria e nunca fazia tal serviço. Perante a evidência anómala, pensámos que algum quinteiro nos descobrira, tinha feito queixa dos nossos roubos domésticos e íamos ser sovados; que um dos rapazes tinha dado com a língua nos dentes e sabia da ajuda matinal que o trio dava no café; que chegara alguma queixa da escola; que o Mau Agoiro se fartara de pagamentos irrisórios e nos denunciara só pelo prazer de assistir ao sofrimento. De coração pesado, fingindo a descontracção que não sentíamos, aproximámo-nos devagar, a domar medos e vontade de desaparecer, sumirmos chão abaixo. Maria de sentinela. Sem entrar. Quando nos encontrávamos a escassos metros impacientou, despachem-se, parece que vêm a pisar ovos. E, sem expressão, apontando-me um dedo, Contador, tens uma visita. Estacámos, mente confusa, olhos de admiração suspeitosa mirando-se uns nos outros, esquecidos de temores e sacolejos de estopa. E ela, então, agora ficam aí especados?! Avançámos e, passando-lhe na frente, franqueámos a porta. Sem atingir quem seria a visita, a digerir a novidade, eu meditava que devia ser engano, uma brincadeira qualquer. Olhei para trás e Maria alertou enquanto trancava a porta, Contador, vais directo à saleta. E eu, que já embicava para o corredor do estudo, emendei os passos e segui em frente.