sábado, 20 de novembro de 2021

Sombra Chinesa

 

Poderia contar que Veridiana se finou num outono poético e partiu como quem adormece, qual folha desprendida pela aragem. Mas não seria verdade. Foi num outono de poesia, sim, mas morreu exaurida, roubada de si. A impiedade da ceifeira esventrou-a. Sem voz ou réplica, sobravam-lhe a pele colada no esqueleto e os olhos sofredores implorando sabe Deus o quê, decerto o fim. Só o coração, músculo em tudo teimoso, sustentava a agonia. E a vizinhança compungida, mais lhe valia morrer, dizem que vai um cheiro a morte naquele quarto que só visto. E, sem transição, acusavam, estes médicos não valem o que ganham. E em silvo desdenhoso, sempre à cabeceira, sempre à cabeceira, é um gastador de dinheiro e  mal dela se não fosse a Celestina do tratorista. Aquilo era dar-lhe uma injecção e pronto. Algumas avançavam certezas sentimentais, espera pelo filho, a pobrezinha; não morre sem ele. Ignoravam que, em fraqueza titubeante, reiterara ao ouvido debruçado de Formosinho, deixa-me acabar, depois o chamas.

Desensofrido e solitário, Formosinho entregava a mulher aos cuidados de Celestina e do doutor e rumava às vinhas, arrastando-se desarvorado por entre as videiras. Já sem fruto, as cepas avermelhavam e despiam-se suaves. Sobressaía-lhes a vida retorcida, os nós imitando sofridos aleijões, parecia-lhe que em  sintonia com o padecer de Veridiana. Alheado e como louco, enterrava sapatos e bainha de calças na poeira e, penitente, calcorreava torrões fora, somando horas de angústia e impotência que derramava como quem deita adubo à terra. À vista das vides e gavinhas apodrecidas que agora lhe surgiam padecentes, lembrava o sofrimento caseiro, o relógio parando nas horas doloridas. E era em vão que buscava culpas e justificações para tamanha crueldade. A harmonia vivida parecia-lhe já sonho, quimera evaporada por castigo da sorte.

Contudo, a natureza seguia o seu curso. Em cada manhã, o  sol rompia doce e igual e havia no ar uma serenidade de pássaros em ramo que anoitece. E a indiferença alegre das crianças  prolongava o mundo natural. Aproveitavam a temperatura acolhedora e, depois da escola, enchiam as ruas de algazarra.  Ou, em pequenos grupos, perdiam-se pelos quintais à descoberta de tudo, pedrinhas que brilhavam, lisos pedaços de tijolo pedindo ser atirados no jogo do pisa, flores coquetes que as garotas arrancavam para aninhar detrás da orelha ou prender com gancho; enfim, exploravam um nunca acabar de tesouros. Pelos jardins, flores fora de época enalteciam jubilosas. Senhoris, puxavam o colarinho dos atributos e sentiam-se raras; esqueciam que só o atraso de gelos e vento norte dava luz verde à basófia.

Não chegara ainda o agastamento desabrido da frialdade a chamar a pressa de gestos  e o cheiro a lenha queimada em dias soturnos que  almejam a tepidez do lar. Portanto, havia muito quem lidasse por fora e vislumbrasse o desvario de Formosinho. Ao longe, semelhava boneco desarticulado, ébrio caminheiro entre as longas filas de videiras. E as mulheres paradas, olhos fitos, persignavam-se, o homem anda desvalido que nem cão vadio.

19 comentários:

  1. Uma ficção trágica, triste, cruel. O contudo, a haver contudo, tardou e não melhorou.
    Será assim a realidade?
    Alivie-nos Bea, já nos chega a pandemia a ceifar velhos.

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  2. Bom, Joaquim, a vida é trágica; logo, as histórias não podem fugir sempre à tragédia. Além do mais, a morte está em todos nós desde o nascimento:).
    Não nos livramos da pandemia, Joaquim. Quem sabe seja ela quem, na hora marcada, nos leva. Entretanto, e apesar de cuidados, o melhor é viver sem pensar muito nisso. Ou Auto confinamos, coisa por demais abominável. Digo eu, que sou quieta e pensativa.
    Boa tarde:)

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  3. Li o seu texto - devagar como gosto, para agarrar sensações que não quero perder.
    E, mais uma vez, imaginei a cena de um filme, talvez com atores locais que conhecessem bem os lugares e fossem bons observadores das vidas humanas.
    E as coisas, leves ou fatais, podem ter tantas interpretações, como se vê pelas reações face à doença e morte de Veridiana. Quanto a Formosinho, acusaria a falta da mulher, no entanto, o rumo da natureza não se alterou. É a vida. Mesmo.
    Bom domingo, Bea, com belas palavras dentro.

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    1. Obrigada pela atenção ao texto, Maria. São assim os homens, têm de deixar marca, interpretar. Mas a natureza sofre de cegueira interpretativa, é outra coisa, obedece a outras leis. Dizia Kant que as leis nos distinguem claramente. A natureza submete-se às leis naturais e os homens, participando embora delas, também as criam (as leis morais) decidindo se lhes obedecem ou as contrariam.
      O Formosinho que inventei ficou sem chão; dos dois, ela era a figura de maior força. Mas vai ver que se habitua, ninguém morre de desgosto e o tempo a tudo dá o seu lugar.
      Boa noite, Maria. Uma semana a correr bem. E mais descansada.

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  4. ´E comovente ler este texto, não só pela história contada, mas também pela qualidade da linguagem. É um gosto enorme ler uma coisa tão bem escrita. Parabéns.
    Muita saúde, Amiga.
    Um beijo.

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    1. Obrigada, Graça.
      E que o céu nos proteja do vírus insolente. Ou, pelo menos, quando chegue a nossa vez, não nos derrube.
      Boa semana. Um abraço.

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  5. A morte está mesmo presente na primeira parte do texto...quase a cheiramos...
    Felizmente que na metade seguinte "a natureza seguia o seu curso. Em cada manhã, o sol rompia doce e igual e havia no ar uma serenidade de pássaros em ramo que anoitece".
    E assim respiramos fundo...

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  6. A natureza não se rege pelo sentimento e continua a replicar-se de forma mais ou menos inalterável; a sua fixidez é alheia a motivos humanos. E talvez isso nos descanse. Acredito que essa indiferença do mundo natural ampara os homens, todos precisam de chão.
    Boa noite, Dulce.

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  7. Veridiana descansará, agora, enquanto Formosinho irá afogando a solidão nos torrões de terra.

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    1. Luísa
      Oxalá a morte seja isso, um descanso eterno. Ou nunca uma mãe descansará. Que da morte pouco sabemos, e menos do para além. Como poderemos nomear o que, a existir, será de todo diferente e, portanto, regido por categorias desconhecidas; não podemos, humanamente, medi-lo ou sequer dizê-lo. Contudo, sou incapaz de supôr que o amor não as atravesse, ele será esse elo de ligação e, de onde estão, os nossos mais queridos velam. Se é apenas suposição? É. Mas é a crença que nos sustenta quando tudo falha. Sem ela, a esperança morre.
      Bom dia :).

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  8. O Manuel Castanheira nem isso conseguiu.
    Andou desvairado muito pouco tempo.
    E depois foi fazer companhia à companheira de sempre.
    Assisti a tudo.
    Boa semana

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  9. Há assim casos, Pedro, sobretudo em gente de muita idade e algumas maleitas. Em geral, nos mais novos, com maior capacidade de adaptação, o caminho vai-se fazendo.
    Boa semana também para si:).

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  10. Belíssima descrição, apesar de uma parte bastante forte... Parece que até eu conhecia a verdiana e imaginei-a.

    Beijocas

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    1. Veridiana, uma mulher como não há, não é Cláudia. O mau é que, infelizmente há muito quem desemboque em final semelhante. O bom, é que há realmente gente como ela, de boa índole; são anjos quotidianos, desimpedem a vida dos que com eles privam.
      Que encontre alguns no seu caminho, Cláudia.
      Boa noite.

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  11. Ora aí está um misto de emoções e sensações que até dói!!! Vibrei com os momentos do seu texto! Bj

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  12. A Gracinha é uma querida. Obrigada.

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  13. O drama do enredo é muito bem compensado por expressões de inegável beleza poética.
    Abraço amigo.
    Juvenal Nunes

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  14. é mesmo, Juvenal, sou um bocado fraca a inventar seja o que for. Acho que não gosto de grandes enredos. Ou não sou capaz de os criar.
    Um abraço

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