No molho desatado de acasos e destino, tenho de convir que me calharam factos memoráveis. Pormenores que arrumei nos desvãos da alma mas nem por isso esqueci. E cada um deles merecia ser contado tal a diacronia que os levou a permanecer. Contudo, se acaso me assaltam a memória, não deixo de compará-los com factores hodiernos; sem a busca de similitudes que talvez sejam causa da lembrança. Ou nada disto. O certo é que me chegam à memória quando deveriam estar como balde e esfregona: arrumados e invisíveis aos olhos (neste caso, da alma). Porém a memória é quem é. E gratia plena por sê-lo.
Quando, por exigência profissional, eu calcorreava este e aquele lugar, a senhora Z recebeu-me de braços abertos em sua casa; cedeu-me o quarto melhor – o seu - e passou a dormir na sala. E este favor não foi pago nunca, apesar da mensalidade que lhe era devida. Ora esta mulher tinha uma família grande e dois dos filhos e mais os netos coabitavam com o casal. A casa era uma fonte de gente. Era o tempo de a TV ter hora de abertura ao fim da tarde e fecho com a bandeira nacional e hino, já não recordo a que horas uma e o outro. Acontece que, apesar do barulho, a senhora Z considerava a TV como única companhia fiel; acendia-a durante a tarde, horas antes do início da programação. E era vê-la a rodar (ou calcar) o botão, com o ar satisfeito de quem procura a porta de amiga especial. No écran surgia o símbolo RTP rodeado de figuras mais ou menos geométricas que variavam entre a penumbra cinzenta, o branco e o negro. E havia música até começar a emissão. Dava-lhe alento, dizia. Não era uma mulher sorridente, o que denunciava abundância de escolhos que, curiosamente, se desvaneciam na presença da TV. Não que escutasse a música ou pudesse sequer fazê-lo – havia vozes que altercavam, o mais das vezes, aos berros – forma de os irmãos falarem uns com os outros. No meio disto, as crianças choravam ou brigavam por este ou aquele objecto, ela irritava-se aos gritos, decibéis em crescendo, as cortinas que faziam a separação dos quartos, acediam à guerra e, como soi dizer-se no meu lugar de origem, “andavam num badanal”. Ninguém ouvia a TV ou ligava a notícias, a TV era mundo independente, fazia o que queria sem que alguém mudasse canais ou acusasse a heresia de lhe baixar o som, facto que deixava a matriarca fora de si. Era um sufoco. Como se alguém tentasse esganá-la, vociferava, Vocês querem matar-me? Deixem o aparelho, só quem mexe nisso sou eu, ouviram? – e rodava o botão para a posição inicial ou, por pirraça, levantava o som. O gesto era tão enfático que eu esperava o dia em que a peça lhe ficasse na mão, o que nunca sucedeu.
Chegadas ao cume do possível e perante a voz e comando, as altercações baixavam de tom, um ou outro membro desaparecia atrás da cortina que ficava a oscilar de raiva, e a discussão que já prometia pancada, perdia interesse. Quanto à TV, asseguro: era rainha incontestada, apenas emudecida após o hino nacional e quando o che...che….che….de final de emissão se fazia notar.
Neste quotidiano sem falhas, fazia-se um intervalo de silêncio para ouvir a telenovela “Gabriela cravo e canela” interpretada pela sensualíssima Sónia Braga que não se poupava a momentos de erotismo caricioso onde o romantismo escondido dos tugas se espanejava surpreso. Ignoro se a telenovela melhorou a vida sexual portuguesa, mas que conseguiu silêncios profundos, conseguiu. Em casa da senhora Z, não foram poucas as brigas entre cunhados, irmãos, primos, avós e etc, que sanaram ao som da música da anunciada telenovela. Eu assistia siderada a esta paisagem humana e mais me parecia uma espécie de fenómeno da anunciação à Virgem – era o templo e o tempo do respeito absoluto.
Foi no ano em que frequentei o propedêutico, as aulas mediadas pela televisão. É claro que não pedi para assistir a emissão naquela TV de companhia. Comprei um mini televisor que via no quarto com bateria. Zelei pelo bem comum.
(Cont.)