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domingo, 12 de julho de 2026

Pirilampos na Noite Escura

 

        Apazigua-nos, é dever cumprido deslocarmo-nos a lugares onde alguém discorre sobre gente das letras que admiramos. Vale em dobro se se evolou a presença física do homenageado e só na obra está presente. Que ao leitor apenas a obra interessa; a relação entre ele e o escritor é o livro. Segui a regra: vivi uma relação feliz com Lobo Antunes por mais de quarenta anos; guardo de todas as obras a boa lembrança de encontrar alguém que entende a dor, que sabe da amálgama de que somos feitos e a entende sem julgar. Guardo alguns episódios comuns que ele esqueceu e em mim foram importantes: o que marca o leitor, não tem de deixar vinco no escritor - no leitor a relação é de um para um; no escritor de um para inúmeros. Portanto, compareci numa das sessões de poesia a que José Anjos preside anualmente no Âmbito Cultural do El Corte Inglês. Receava não poder comparecer, a selecção da assistência, cada vez mais apertada, impediu-me a frequência de várias conferências e cursos no presente ano. Quis a boa sorte que, ora, estivesse presente.

        Durante a sessão ouvi ler crónicas que conheço e tenho em casa; versos de fados; poemas breves e mais longos, alguns com a verve satírica que lhe vivia na mente; entrevistas sérias e contundentes ou quase em carne viva. A meu lado uma jovem senhora bebia tudo de enfiada, o corpo inclinado para a frente; não me olhou uma única vez, não contemplou a ampla assistência; mãos no colo apertando uma malinha jovem, esguia, cabelo liso, fino e castanho a bater nos ombros, tez pálida, boca pequena e delgada que se não descerrou. Uma Nossa Senhora dos tempos modernos. Seria uma leitora voraz do autor, tanto parecia beber as palavras que escreveu. Desejei que não lhe esteja a fazer falta vê-lo, ou que apenas queira vê-lo ali, no que escreveu. Mais que ouvir o conhecido, foi ela a comover-me. Contudo, não foi sentimento geral. Quando algum público se compenetrou do “em que consistia a homenagem”, foi saindo. Há factos que me fogem ao entendimento. O que esperavam?! Uma reencarnação? Os irmãos que restam e nem sei quem sejam? A mulher se a tinha? Pelos vistos não lhes bastava a apresentação que foi fiel ao próprio Lobo Antunes “ a melhor biografia de um escritor são os seus livros”.

        E lembrei-te no confinamento a que te obrigou a doença, a cama de onde saíste para a morte, uma visita ou duas por semana. E isto durante mais de cinco anos. Vizinhas que nunca te visitaram e lá estavam no funeral, amigos impressionáveis que não puseram pé em tua casa, querendo ignorar a alegria que sentias quando e se o fizessem; família que ia ver-te uma vez no ano ou nem sequer isso, primas que nunca pisaram o teu chão. Parentes que vieram para assistir ao transporte do teu corpo sem vida. Vieram a quê?! Talvez a seres filha única e herdada. Não escreveste nada, apenas viveste. Não casaste. Não tiveste filhos. Escolheste por tutor um amigo de infância.

        É isto a vida. Também.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Ambiguidades

 

        Slauerhoff é poeta (e novelista) holandês. Morreu aos trinta e oito anos, antes de se habituar à idade. Conheci-o com “O Descobridor” de Cristina Branco que uma amiga me apresentou e até ofereceu. Desarmei de encantamento. Ambos, poeta e cantora, eram a minha medida. Depois desse vieram outros cêdês, sou de coleccionar músicas e livros de autores preferidos. “Ulisses” foi um dos que mais gostei e reconheço que, enquanto fez parceria com Custódio Castelo, todas as canções e fados valiam, tinham peso singular; depois que a parceria se dissolveu encontrei vários assim-assim sem perder o interesse pela voz da Cristina.

        Sem porquê, lembram-me muito os versos – que, nesse tempo, cantei à exaustão – de “A uma princesa distante”. Ficou-me o início da canção, “Jamais voltaremos a ver-nos / entre nós dois há um mundo pelo meio. / Por vezes, de noite, à janela nos detemos / mas são outras as estrelas que vemos”. Bom, talvez a história de vida de Slauerhoff os torne compreensíveis, naturais: o poeta era médico em navios, fácil lhe seria cruzar uma princesa ou alguém a quem assim designasse e que, expectavelmente, não veria mais. Ignorante da data da composição, posso imaginar que cantem uma despedida irrevogável como terá sido a do seu divórcio. Mas na verdade imagino outras coisas. Slauerhoff sempre foi de saúde débil e morreu diz-se que de malária, mas por certo também da tuberculose que o consumia há tempo demais. A tuberculose não faz poetas, mas dá certa sensibilidade em grau exacerbado, uma melancolia quase mórbida e que advém talvez da sensação de se sentir morrer aos poucos. Por si mesma, a doença não é aguda, é antes um enlanguescer de tudo que antes era interesse e vivacidade, uma desistência e falta de desejo que enfraquece corpo e alma e se faz acompanhar do matraqueio da tosse. Imaginei sempre, mesmo antes de pesquisar a vida de Slauerhoff, que ambos se cruzavam num navio, um entrando, outro saindo; que eram duas pessoas iguais a todas as que entravam e saíam, mas que só entre eles o raio acendeu, só eles souberam dessa possibilidade impossível. E acho bonito. E possível.

        Se dou por mim à janela, penso neles, se existirão factualmente amantes indefinidos que miram céus diferentes. Ignoram o nome um do outro, mas, num cruzamento de olhos, reconheceram-se.

        Mesmo que falso, é bonito na mesma:)

domingo, 19 de abril de 2026

Mágoa

 

        Pensamos gostar de escrever, agrada-nos dizer sim ao apelo de deitar às letras o que sentimos ou imaginamos e que é sentir diversamente. Mas por vezes perde-se o apetite, ataca-nos uma afasia capsular, um transtorno talvez inominável a barrar as palavras. Em geral – mas não sempre – surge relacionado com o sofrimento e a injustiça que comporta. Não o Teu sofrimento. O sofrimento que presencias, a dor que sentes sem a sentir, a mão que apertas e deslaça nas tuas, o riso que já não ouves e faz de ti palhaço incapaz, um rosto a minguar na almofada, olhos sem expressão. É certo, todos morremos de alguma coisa e somos de alguma forma um fracasso que passa pela vida: não a dominámos e antes fomos e somos joguetes da perversão que exerce sobre o tempo que pertence a cada um e no final nos anula.

        Tanta lei, tanto decreto, tanta norma de viver. E não há quem pense no sofrimento inútil, doloroso, progressivo e inexorável de uma vida transmutada e que não deseja continuar. Ficamos eternamente na questão, presos – dizemos – à ética. Mas que ética existe em assistir à deterioração progressiva de um corpo e sua dependência de terceiros para todo e qualquer gesto?! Que ética é essa que deixa pessoas conscientes mas já sem palavras ou movimentos, à mercê dos outros, esperando a morte que lhes tarda e a que a debilidade própria impediu a antecipação?!

        Quanta injustiça no mundo. Mas também muita luta: de mulheres e seus direitos, de imigrantes, de salários mais justos, por uma habitação que nos guarde, pelas crianças que vivem apavoradas em cenários de guerra e morte e por todas as outras a quem devemos protecção, etc. É assim a injustiça dos homens. Mas contra ela lutamos e lutaremos. Não lhe veremos fim. Mas podemos lutar, temos um corpo e uma mente que podem determinar-se em deixar um mundo melhor. Mas e eles? Esses que são atingidos por doenças desapiedadas, das que matam passo a passo, em suplício de Tântalo?! Que luta podemos por eles?! Nada podemos. E isso não apenas dói. Corrói, retira pretensas certezas, enraivece e subtrai qualquer desejo. E a vontade, essa vaidade tão humana, serve zero, é inoperante. Mas em nossas camas dormimos o sono dos justos.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Tudo é Caminho

 

        Lembra-me muito certo poema que retive, ignoro se ipsis verbis, “Não sei viver, nunca soube viver/ sou um relógio que pára de quando em quando/ falta-me o ritmo, a continuidade(…)”. Talvez sejamos todos, mas uns mais que outros, esse relógio avariado que ora trabalha, ora não; ora cavalga rápido, ora se imobiliza sem motivo visível, para arrancar de novo também sem razão. Podia desculpar-me com o mundo e o descalabro a que assistimos; com o estado depauperado de Portugal e dos que no país tudo pagam e pouco recebem; com a educação que tanto falha nos seus princípios cada vez mais complexos e de menor exigência - a haver futuro, a factura vai pesar, já pesa; com a miséria que verificamos na saúde e são os mesmos que trabalham a vivê-la, que os restantes encontram outros meios que não o Serviço Nacional de Saúde; com tanto empréstimo que, de alguma forma, terá de ser pago pelos de sempre e, por regra, enriquece também uns certos mesmos.

        Preocupa-me, em democracia, o regresso da nomenclatura que denuncia a realidade social de ricos e pobres – os ricos amontoam na sua classe, enquanto os pobres se dividem entre os muito pobres, os miseráveis sem casa, alguns com um quartinho alugado e que não têm dinheiro que lhes aguente o mês inteiro. Depois vêm todos os empregados nisto e naquilo, os pequenos agricultores e outros; são a imensa maioria: com dobrado esforço, contenção e certa dose de empréstimos conseguem sobreviver e ir cumprindo a fracção das dívidas. Se um acaso os lança no desemprego, o passivo acumula e descem um degrau ou tornam-se dependentes da boa vontade de familiares, em regra os pais reformados e que lhes abrem portas ou a bolsa, ficando pais e filhos na corda bamba. Muitos, sobretudo casais jovens, após o dia quinze vivem da ajuda dos progenitores; pertencem à célebre geração mil euros. E são muitíssimos. Por último, dentro da classe dos pobres quase remediados, está a chamada classe média baixa que tem uma incomensurável distância da classe média alta; tão incomensurável que a classe média alta se inclui já no grupo dos ricos, é outra coisa. A classe média baixa não depende dos progenitores para se aguentar até final do mês desde que use de alguma contenção; em geral não se endivida senão por aquisição de casa própria ou compra de veículo e não cai em incumprimento nas prestações da dívida. A classe média baixa é hoje o que deveria ser a classe mais rasa de uma democracia, a pobreza miserável não é própria deste regime político e nem da dignidade humana que tanto se apregoa. Mas existe.

        Não sou da notícia, irritam-me tantos comentadores na política e ainda mais no futebol. Desgostam-me as guerras por capricho, a devastação como caminho do poder, o desrespeito pela dignidade de cada homem, as “amizades” políticas exclusivamente por interesse.

        Por cá, tornámo-nos democratas da palavra. Como se, por magia, ela se transforme em acção. Mais de cinquenta anos de democracia e estamos nisto.

        Desculpem, não era deste assunto que vinha falar. Faltam-me soluções para tamanha doença e nem sequer é tema do meu agrado. Deu-me para aqui.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Subterfúgios

 

        São engenheiras, arquitectas, doutoras. Fazem parte dos quadros de todas as autarquias e são pagas como quadros superiores. Merecem-no, concorreram ao lugar e ficaram; ignoro se com ou sem as chamadas “cunhas”. Conheço algumas. Há as que não conseguiram ainda colocar-se na cidade de origem, mas trabalham em zonas limítrofes; e as que preferiram ficar por lá e regressam apenas para rever os pais ou por festa. Quase todas casadas e com filhos levam a vida como podem. Dessas algumas que conheço, há as que trabalham em autarquias castigadas por ventos e cheias. Acredito que quem frequente redes sociais se depare com pedidos da mais variada natureza, as situações calamitosas existem e a ajuda popular faz muita vez a diferença. Mas não deixo de pensar em todos aqueles que a não pediram – por vergonha de mendigar o que necessitam, por não saberem como fazê-lo, ou por motivo que agora não antevejo. Eles também são gente e talvez a sua necessidade seja maior.

        E depois recebo um sms de uma dessas meninas bem educadas, quadro superior e família endinheirada, pedindo verba para um desumidificador a colocar na sua sala de trabalho. Talvez eu esteja errada, mas vou ignorar o pedido. Ofende-me.

domingo, 30 de novembro de 2025

Os Agentes Secretos

 

        Fui ver “O Agente Secreto”. Gostei. Mas, apesar das sequências de violência física serem poucas, é filme que custa assistir. O retrato que dá do povo brasileiro, segundo o que já li e vi – saliento um vídeo de uma crítica de cinema do país – é fiel, está ali o Brasil brasileiro. Certo, a acção centra-se no ano de 1977. Mas, se não tivesse já viajado até lá, perdia a vontade. O que os meus olhos viram e interpretei foi: muita injustiça, a podridão no mundo dos que existem para proteger o povo e são apenas canalhas, leões disfarçados de cordeiros, usurários, gananciosos sem limite ou piedade. Dói que Portugal esteja a assemelhar-se, que existam forças da autoridade corruptas, vampiros que não protegem e antes exploram a miséria desvalida dos que chegam. No filme, auto denominam-se refugiados; em Portugal são-no de facto. Esses crápulas são os executores da esperança que resta. Que cobardia nojenta! E assistimos à impunidade cinematográfica desde o conforto de cadeiras estofadas e ar condicionado, se bem com o desagradável da mastigação de pipocas. Ou sabemos da desmesura portuguesa na hora de almoço, no resguardo do lar, enquanto mastigamos uma refeição. Não obstante, soa a inaudita mentira. Contudo, é verdade, não há como iludi-la. Ainda não vivemos num país onde se contratam matadores profissionais para fazerem “um trabalho”. Mas vamos a caminho, e em passo de gigante. Mamãzinha, dá licença? Quantos passos? E não são três passos à bebé: os nossos GNR não pediram a ninguém. Agiram deliberadamente, armaram em donos e senhores de quem chegava ansioso por trabalho. Povo bárbaro que esqueceu o que penou na estranja e quanto agradeceu aos que lhe deram a mão. Triste povo o que ignora a dignidade e respeito devidos a qualquer homem.

        Aquele Brasil suado, gordo e de dentes podres, não sai nas telenovelas. O Brasil que eu mesma vi também não consta. Mas o Portugal - ou os portugueses - que descrevo existe e é de hoje.

        E é isto um desalento, uma tristeza de ser que não há folhagem de outono que dissipe, por maior beleza que exiba (calha-me varrer as folhas, o que retira certa dose de romantismo). As bagas do azevinho já estão no seu ser, o tempo arrefeceu. E derreti perante a publicidade da coca-cola no grande écran. O Natal move-me ainda. As imagens dos animais festejando o natal, encheram-me de ternura. Há sempre uma réstia de esperança.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Coisas da Vida

 

        Não simpatizo com vídeos e pps (ignorante! Não sabes sequer se são a mesma coisa com outro nome). Mas, por integrar dois grupos de almoços, recebo várias mensagens desta natureza, a maioria com duração máxima de dois segundos antes do delete lhe cortar o pio. Contudo, vejo e agradeço os que merecem o meu tempo e avalio se vale a pena reenviá-los a alguém que, longe de Portugal, se me queixa do que, nos momentos de pausa, entretém os colegas de trabalho e lhe falta. Embora as minhas pausas raro sejam preenchidas por tal objecto (telemóvel, claro), entendo quem queira ser igual aos mais. Ora, nessa perspectiva, calhou de ver um vídeo(?) sobre a velhice. Era igual a tantos: uma sequência de imagens de velhos, tudo rugas e cabelo branco, e, em cada imagem, uma máxima bem intencionada que apaguei antes da metade e não reencaminhei. No geral eram lugares comuns. Mas, entre esses, havia a voz do escritor Garcia Marquez, sujeito que me agrada por razões várias. Sou incapaz de recordar a frase exacta, ficou-me apenas o sentido (e nem sei se seria mesmo sua a frase; já deparei com afirmações falsamente atribuídas a gente célebre). Dizia ele que a velhice consiste sobretudo no hábito da solidão. Talvez as minhas colegas de almoços tenham passado sem se deterem, os pensamentos restantes enalteciam amizades longas, casamentos velhos, músicas antigas. Eram optimistas, faziam parecer que a velhice é uma maravilha e que sempre estamos acompanhados, temos amigos indefectíveis e companheiros fabulosos com quem dançamos as músicas do nosso tempo até à morte. Palavra que não entendo a razão de gostarmos de tanta banalidade. Mas é factual, a diferença entre os homens é um bem. Viva a diferença. Viva quem se satisfaz com fotos bonitas de velhos em bom estado. Cada um precisa das suas ilusões, que até nisso divergimos bastante.

        A velhice prepara-se ao longo de toda a vida, é um desembocar natural do que fomos e da forma como tratámos e usámos o corpo e, quiçá, a mente. Concordo. Mas não no sentido em que a vontade do homem pode moldar a velhice que terá. Como em tudo que nos importa, o acaso, o destino ou o que queiramos chamar-lhe, tem voz própria e torce-nos os planos, desmancha-nos o calendário, evapora-nos a aspiração. Não se aconselha a desistência pura e simples, nada de apatias disfarçadas, estar vivo merece mais; nada de, se não controlo o meu destino/vida/futuro, mais vale desistir e seja o que Deus quiser (a haver Deus, será sempre o que Ele quiser). Mas ser velho, entre outras coisas, é mesmo aprender a solidão. Sem dramas. E responder. Responder sempre: aos acasos, à má sorte (à boa é sempre fácil dar resposta), à tristeza (pode ser ficando ainda mais triste para gastar tudo que em nós é roxo de morte; não se sobrevive sem ir ao fundo da peçonha), aos outros que, querendo ou não, nos deitam abaixo; a nós mesmos que inventamos castelos a que nunca chegamos e muros de que ignoramos as portas; às traições do corpo que limitam, isolam e desanimam. A urgência é haver resposta. E se for uma má resposta?! Mas o que é mal?! Cada um responde como sabe e pode. Não encontra eco? Aprende a prescindir. Não por orgulho. Por aceitação de um estado sem fuga e individualmente vivido, que continua a exigir respostas aos que ainda detêm pensamento próprio. Até ao fim?! Nem isso sabemos. Mas não apregoamos que o interesse está no caminho?!

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

A Busca de Sentido

 

        Gasta-se a vida em busca de sentido. Do sentido que temos dentro dela. Não do sentido da vida em geral, mescla de seres animados e inanimados que povoa este mundo que para muitos é de Deus e para tantos será outra coisa. Sentido que nos pertença como homens, o sentido de cada um no mundo pequeno que lhe coube, ou conquistou, ou. E que foge. Se transmuta. Perde-se e readquire-se. Em cada mutação há um florescer por entre pedras, progressiva força ou debilidade, mas sempre afirmação vital. Quanta gente cresce e envelhece sem que a questão lhe aflore a mente. Há uma ignorância feliz, robusta, que se nega o mais que pode ao sofrimento alheio. E vêm as desculpas, não posso ver; sou muito sensível; faz-me mal. Acontece muito com a experiência da morte ou a sua proximidade. Mas quem vê, quem “sabe” do sofrimento alheio; quem, por bem querer, assiste filhos, pais, cônjuges, amigos, gente que se não despega do afecto. Esses, que sentido encontram, que processo os levará a refazer o círculo sempre incompleto do sentido?! Não sei, mas é certo que hão-de levantar-se; depois da tempestade, a bonança.

sábado, 19 de julho de 2025

Bolas de Sabão

 

        Nos dias e momentos em que nada apetece, tenho por hábito picar aqui e ali, blogs a que pouco me prendo e leio por desfastio enquanto penso no a seguir. Creio ter sido assim que cheguei a “A Gata Christie”. Bom, fui muito pelo nome: é bem humorado e lembra-me autora que admiro e de quem, em meu tempo de literatura policial, li tudo que havia a ler.

        O que “A Gata” escreve sobre terapia! Cara mas importante. Um salva vidas de iate, digo eu.

        A terapia parece-me período de actividade paga de atenção ao outro; coisa muito mental. Não aparenta ser de dificuldade assinalável que justifique os preços irrisórios a que se guinda. Portanto: somos um largo conjunto de desajustados a nível mundial e os/as terapeutas, e mais a sua eterna proposta de auto conhecimento, mantêm resultados restritos. Elitistas, digo. Gostaria sinceramente de saber se os beneficiados se tornaram melhores pessoas. São melhores para os outros? Têm maior e melhor capacidade de doação? Fazem melhor o mundo desde que a terapia lhes entrou na vida? Apesar da máxima socrática (o filósofo), “conhece-te a ti mesmo”, o sentido parece-me diverso. O certo é que as surpresas vindas de outrem – boas e menos boas – me determinam bastante (pode ser falta de análise?). Vou-os e vou-me neles aprendendo, actividade sempre inconclusa. 

        No abraço da velhice, aprendo o desprendimento; afrouxo laços – o mundo dos velhos vai-se estreitando e vamo-nos despindo e despedindo à medida do entendimento da nossa perda de importância. Os anos e a circunstância restringem-nos ao essencial e a isso somos gratos, perdida a elasticidade que nos disparava para diversos campos. Afastados do mundo da necessidade, por certo ficam alguns amigos, mas já sem premência; fica a família, mas sem ilusões; ficam amores e seu caudal (minguado ou não). Ainda que o presente nos exista, tudo vale mais no que fomos.

Descartados os terapeutas de ofício, o que resta ao extenso mundo que os não frequenta?! O mesmo que a todos os analisados e aos próprios analistas: viverem da forma mais propícia que conseguirem. Ou, no caso da Gata, ir passando a ferro e dando abraços, e amizades e isso, que um dia também há-de mudar. É bem mais nova que eu, essa menina. Ainda lhe faltam umas coisas, tal qual me faltaram a mim:).

Enquanto haja, é tudo vida.


domingo, 24 de novembro de 2024

O Mundo Que Somos

 

    

    As festas natalícias não parecem abaladas pela incerteza dos tempos. Os espíritos embebem em supostas preparações, marcam-se almoços e jantares de Natal nas empresas, entre amigos e conhecidos, e este espírito corre por instituições e outros organismos corporativos. No corrupio de refeições festivas, os restaurantes exultam e vão encher. Contratam mais um ou outro imigrante para ajudarem na época mais afanosa e fornecem-se de ingredientes, aumentam contratos de peixe e marisco, põem doceiras e cozinheiras de sobreaviso e encomendam paletes de ovos, resguardam encomendas de carnes e enchidos. E as couves, as couves de Natal que poucos comem noutra época do ano. A sociedade de consumo não pára.

    Acordo no meu quartinho silencioso e confortável e penso nos que outros homens lançaram à guerra, os que ela surpreendeu e não foram vistos nem achados senão para as consequências – não têm como eu um lugar próprio, limpo, isolado das intempéries e, até ver, seguro. Muitos perderam a rede familiar que sustinham e os sustinha, não gozam de fins de semana e para eles todos os dias são igual inferno. Não têm banhos quentes nem as refeições a que foram habituados num tempo que lhes aparece tão recuado como sonho antigo. E desses, estejam onde for, seja qual seja a sua nacionalidade, pertençam aos que ganham ou aos que perdem, sou irmã de alma. Mas irmanarmo-nos com a dor e o sofrimento, deplorarmos a injustiça intestina de toda a guerra, é nada. A piedade dos homens não minora sofrimentos, não tem mérito, é apenas decorrência natural em quem é humano. O facto de me serem hábito no pensamento não os toca. E eu gostaria que bastasse lastimá-los com sinceridade e veemência para que algo de bom lhes acontecesse.

    Em dias e noites de temporal, açoitados pelos elementos, penso mais nesses abandonados da sorte. Penso sem proveito. Penso sabendo que, quando o Natal se aproxime, também o meu mundo se enfeita para receber a família, também corro aqui e ali, colaboro no desejo de que tenham uma noite pacífica e agradável. Mas eles continuam lá sem diferença. Que poderemos fazer?!

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Da Santidade

 

    Quando a acelera do padre Gama ronronava na curva do portão, tinha vontade de desaparecer. Era como se, indubitáveis, as suas palavras puxassem para mim a santidade que repugnava e antes não me apoquentara. Não sei quando me abandonou o terror religioso, mas recordo nítidos os momentos em que passava na esquina do monte correndo sem parar. Ali existia uma pequena azinheira que a minha imaginação guindara a poiso de Nossa Senhora – porque Ela ia aparecer-me de certeza, tinha aparecido às santas todas e aos três pastorinhos, portanto, aparecia-me. E de seguida, eu morria ou adoecia de morte. Ou ia para um convento, que Nossa Senhora não fazia por menos, acontecera, sem falha, aos que a tinham visto (factor que não entendia: como é que uma aparição podia ser uma coisa boa, se os contemplados acabavam todos mal?). A minha solução era correr sem medida e, nunca por nunca, olhar a azinheira. Se a Senhora lá estivesse mas eu não a olhasse, não chegava a santa, podia seguir estudando na vila e pedalando pelos caminhos da vida. Conclusão: espero que a Mãe de Deus não se tenha dado ao trabalho de pousar na enfezada azinheira da esquina, árvore tão pequena que só por milagre se aguentaria a uma nuvem com uma senhora que, mesmo etérea, pesava. Por mim, enquanto aquele projecto de árvore existiu e éramos as duas na esquina, nem um soslaio me mereceu.

    Porém, certo dia escurecido em que corria desalmada, o coração ao pé da boca, ouvi a voz de meu pai, onde é que vais a correr tanto? – e depois em solilóquio - A gaiata tá maluca. Abrandei. Do que tinha investigado, os encontros com Nossa Senhora eram mais ou menos íntimos, a presença de meu pai, ateu convicto, salvava-me. Mas como é que eu lhe explicava a corrida?! Deixei por conta dos mistérios que acontecem aos treze anos e segui ao meu destino. Disfarcei.

    Entretanto, o padre Zé regressado, lá se foi a acelera e mais o senhor padre Gama. Voltei ao meu ser e nem resquícios da perspectiva de santidade que me imolava a contragosto. Foi fumo que dissipou.

    Passados alguns anos, naquela esquina de sol virada ao montado, havia um acordo tácito: fazíamos uma pausa na lida e comíamos laranjas depois do almoço. Eram dias de férias, luminosos e gélidos, e havia a brevidade do calor invernoso a reflectir na cal e o sabor frio e doce dos citrinos, as cascas em monte e nós quatro unidos no cheiro do fruto, dedos ágeis separando gomos. Eternos e sem idade, os chapéus e bonés de meu pai na cabeça, palrávamos sobre os pequenos nadas da vida, partilhávamos as novidades diferentes que vivêramos em período escolar, mãos lambuzadas ajudando à história e que depois lavávamos no tanque de rega. Deuses uns dos outros, bentos de sol e futuro, existíamos naturais e sem susto.

    E nunca senão em letra eu me decidi a contar estas avarias mentais, secretas tropelias de meus anos verdes.


segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Da Santidade

 

    Não recordo o teor dos diálogos e julgo que logo após me fechava com os garotos na casinha que meu pai cedera para as aulas e esquecia tudo. Tudo, não. O padre insistia em repetir afirmação que, a cada vez, me assustava mais. Dizia ele convicto olhando-me nos olhos, “ a menina é uma santa”. A princípio limitava-me a sorrir incrédula e acenava que não. Mas ele insistia, “a menina é uma santa”. Na vez seguinte, fosse qual fosse a conversa, lá íamos parar ao estribilho. Aquilo impressionava-me sobremaneira. Era inegável que eu não tinha o aspecto das santas que conhecia de imagens e santinhos que minha mãe guardava. Nas horas livres, ia dar volta à caixa onde um monte de santos e virgens confraternizava a esmo; elas, se não estavam de olhos em alvo, miravam-me docemente – podia ser que alguma daquelas figuras fosse menos áurea, menos bonita, menos penteada. Passava-as uma a uma, atenta ao detalhe. Mas não, todas surgiam impecáveis, lindas, olhar de bondade resplendente e sempre limpíssimas. Além disso, exibiam sugestiva patine e surgiam tão viçosas como a flor que seguravam - quase sempre uma açucena -, factores que não quadravam ao meu ser. Arrumava a caixa descansada, eu jogava noutro baralho

    Um dia tomei coragem e quando o padre voltou à santidade, disse-lhe que era impossível, faltava-me perfil (não disse perfil, ainda desconhecia o termo); e enumerei uma soma considerável de diferenças. Ele sorriu com bondade e volveu que os santos são pessoas como as outras, mas de bom coração; acrescentou que havia santos em todas as épocas e a maioria era desconhecida. Voltei a ficar de pé atrás. Mau, não me digam que eu podia ser santa. Sem revelar o que fosse das dúvidas que me perseguiam, investiguei junto de minha mãe se seria verdade qualquer pessoa ser santa. Para meu assombro e tristeza, ela assentiu. Eu, mas como é que se sabe que uma pessoa é santa? E minha mãe, só Deus precisa saber, os santos são como tu e como eu, mas distinguem-se porque praticam o bem, erram menos e têm fé mais forte. Varei. E como quem sente faltar-lhe o chão e se ampara à primeira coisa que encontra, insisti: mas os santos eram pessoas ricas, estão bem vestidos, limpos, têm boas cores...Minha mãe deu-me o seu sorriso mais terno, filha, os santinhos da caixa são pinturas, desenhos, ninguém sabe se eles eram assim. E rematou, não vês que o Francisco, a Jacinta e a Lúcia eram pastores? Parece-te que eles guardavam as ovelhas limpinhos e com túnicas claras?! Caiu-me o coração aos pés: então o meu S. Sebastião varado de setas e ainda assim lindo de morrer, podia ser um homem feio e barrigudo em vez do deleite musculoso e meio erótico de tudo no lugar?! Pronto. Estava feita. Ainda por cima, podia ser santa. Se tinha calhado aos três pastores, podia calhar-me. E aí começaram os meus tormentos. Fui ler a vida dos pastorinhos de Fátima e fiquei pior: dois tinham morrido em criança e a terceira, a Lúcia, tinha ingressado numa ordem religiosa e, que eu soubesse só saía para ver papas (lembrava-me de a ter visto com Paulo VI). Ora eu estava viva. Portanto, ou morria daí a pouco tempo, ou acabava em clausura. Bela perspectiva.

(Cont.)

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Da Santidade

 

    No caminho dos dias e das vontades, interessei-me pela vida e trabalho de Paula Rego, que é como quem diz, comprei dois livros sobre. Uma das obras é um conjunto de entrevistas amplamente ilustradas, feitas e coligidas por Anabela Mota Soares, “Paula Rego sobre Paula Rego”; a outra é de Cristina Carvalho “Paula Rego – a Luz e a Sombra uma forma de olhar”. E vem isto a propósito de, anteriores às conversas, já os pensamentos serem como as cerejas. Estando a pensar nas pinturas executadas e que se encontram hoje em Belém na capela da presidência, mais precisamente, no quadrinho Anunciação, reparei que a forma como a pintora encarava a religião é muito comum. Semelhante a muita gente, Paula Rego vê no divino as pessoas de que Deus se serviu. E recordei Kant, o filósofo a reconhecer não possuírem os humanos estruturas intelectuais para entender o transcendente, razão porque tudo referem ao humano. Mas essa, sendo a mesma, é outra questão. O certo é que não consegui evitar a comparação de sentimentos pessoais e recuei aos meus treze anos e às suas mirabolantes inquietações religiosas.

    Cresci dentro da religião católica e sempre me lembro do padre Zé. Segundo me contaram, protagonizámos alguns episódios nos meus primeiros anos de vida. Minha mãe era profundamente religiosa, a beatice ausente- uma pessoa de fé. Tentei imitá-la sem grande proveito e também sem grande preocupação pelos fracassos, sempre soube medir a diferença entre nós. Ora, a dada altura (a tal dos meus doze-treze anos), o padre Zé ausentou-se da paróquia por mais de um ano e foi substituído nos serviços religiosos por um velhote regressado do então Ultramar, o senhor padre Gama, que cedo me distinguiu sem que eu entendesse porquê. Talvez o padre Zé tenha posto mão nisso, não sei. O certo é que conversávamos nos finais das cerimónias religiosas.

    Nessas férias, minha mãe tivera a ideia de me pôr a dar escola paga, facto que me encantou e hoje recordo com ternura. Foi a forma mais simples de me dar tarefa do meu agrado e pôr fim às brigas e pregações de meu pai acerca da minha fraca produção campesina e do enfunado desinteresse por tarefas caseiras. Além disso, granjeava uns escudos para uma ou duas peças de roupa. Nesse primeiro ano de trabalho de férias comprei lã e mandei fazer um casaquito; e adquiri um par de botas. Considerei-me rica.

    Ora o senhor Padre Gama que Deus levou há muito, aparecia por vezes em nossa casa, velhinho e caquético, sempre no horário da escola paga. Tinha uma acelera que rimava com a sua idade e suponho que falássemos de assuntos triviais enquanto os meus pretensos alunos pinoteavam num recreio feito à medida da conversa. O ponto era que, de repente, o padre parava de falar e adormecia escarranchado na velha motoreta, pés no chão. E eu quedava cabisbaixa e, sem saber o que fazer, mirava estupefacta as nódoas da blusa ou da saia, que só nesse momento me caíam sob o olhar; retraída, ajuizava não ser próprio de uma mestra apresentar-se em tais preparos. Mas estava ali, com nódoas e tudo, muito provavelmente despenteadíssima que de nascença sou inimiga de pentes. O padre não se tocava do meu ser físico e, quando acordava, desculpava-se como podia. Falava-me em paludismo, doença contraída em África que o punha a dormir nos momentos mais impróprios. Pedia-me que o acordasse com um abanão, acto que eu repudiava secretamente e que a minha judiciosa timidez bania com presteza. De modo que as nossas conversas aconteciam nas intermitências do sono.

(cont.)

sábado, 9 de novembro de 2024

Do Avesso

 

    Neste mundo onde o presidente de um grande país afirma que a sua vitória é a vitória do senso comum – até concordo –, Déscartes e demais filósofos são atirados para debaixo do tapete: invisíveis é o que eles são. Porque as opiniões pesam mais que a razão. A razão procura o bem comum e persegue a concordância entre pensar e agir desconfiando de si mesma e de tudo o que existe; as opiniões, por mais discursivas que sejam, procuram um bem particular - individual ou de grupo - e muitas são dogmáticas, não se põem a si mesmas em discussão, mas levantam cabeça e baseiam a acção. Aceitam-se como as verdades luminosas que não são. Tomam gato por lebre.

    Diz Déscartes no início do Discurso do Método que “o bom senso ou razão é a coisa do mundo mais bem distribuída”, dado que ninguém afirma tê-lo em demasia ou faltar-lhe. Ironiza, só pode. Se edifica um método para bem conduzir a razão, é por ter concluído que ela (os humanos) erra em demasia, se confunde e baralha na falta de um método rigoroso que permita distinguir o que é falso do que é verdadeiro.

    O motivo de chamar à conversa um pensador da primeira metade do século XVII, pode parecer anacrónico, afinal estamos no século XXI, sempre são trezentos e muitos anos de diferença. Peguei em Déscartes, mas podia ter chamado Sócrates ou Platão, e até qualquer filósofo actual: a divergência entre opinião e razão, com esta ou outra nomenclatura, está presente em qualquer pensador – uma coisa é o pensamento vulgar e superficial; outra, o pensamento crítico. O mesmo é dizer que uma coisa é o senso comum e outra o bom senso. São mundos separados.

    Um dos maiores e mais poderosos países do mundo faz-se porta-voz e é senso comum. Já não é questão de mostrar um método, a razão foi rejeitada. A opinião, que durante séculos foi zurzida por não saber distinguir o verdadeiro do falso e não ser de confiança, está sentada no poder.

    Os seres humanos são surpreendentes, idolatram o carrasco.

    Vamos em frente, o precipício é já ali. Ou será que vão existir surpresas?!

terça-feira, 5 de novembro de 2024

A Boa Velhice

 

        A gente percebe que envelheceu se, ao lembrar o que sempre gostou de fazer, repara que tudo se concentra num único objectivo: querer estar vivo(a) e com alguma saúde. Porquê? Porque a pouca saúde remete para o óbvio e temido sofrimento, afasta a companhia dos outros chegando mesmo a impedir projectos - comuns ou à unidade. Nestes casos, não é possível iludir a proximidade do fim. O sofrimento reúne consenso: é de evitar. Portanto, ser velho não é impedimento, o que verdadeiramente aborrece são as limitações, as restrições, os cuidado com máquina (a nossa) que durante anos fez parte de cada um sem queixas, e de repente lamuria a desábito. Pressuponho que vivam – os de mais queixas - a equilibrar; gosto da imagem, lembra-me a destreza de minha mãe com as sacas de pinhas à cabeça. Mas não garanto igual destreza. Portanto, a par da exigível habilidade externa que vão driblando como podem, têm agora de controlar os sistemas internos, cujos existiam invisíveis e bem oleados, a cumprir funções sem que dessem por tal. Mas atenção, há o tempo em que se fazem notar, acenam - por vezes, frenéticos: estou aqui, existo. E não, não é capricho egoísta, em geral é doença, mau estar, qualquer roldana que emperrou, falta de óleo numa peça da engrenagem, uma substituição necessária. E enquanto assim vivem, estão bem. Mas estarão?! Pois, não sei. Mortíssimos, estariam, sem dúvida, pior. Serão felizes a regular válvulas e calcular vapores, a evitar isto e mais aquilo, a calcular se o bem de um alimento suplanta o seu mal? Já não é a felicidade que os empurra, mas o desejo de sobrevivência. E continuam a equilibrar – cada vez mais torcidos, cedem na postura, transigem. Sabem por observação que cada cedência é uma corridinha para a meta que poucos desejam - felizmente poucos. Há equilíbrios extremos e extremamente instáveis. Num deles serão absorvidos pelo caminho. Faz-lhes um decisivo delete. E enquanto não, há que vigiar a máquina, impedi-la, tanto quanto sabem, do desnorte que é a rotação livre. Deve ser também para isso que existe a mente.

        Farto-me de ouvir dizer que a boa velhice se prepara a vida toda. É razoável pensar isto, dá-nos guita enquanto somos papagaio no azul. Mas é apenas meia verdade. Há demasiados casos em que a dita preparação serve zero, temos casos na família, nos amigos, nos conhecidos. Isto se não me quiser armar em defensora das classes mais desfavorecidas que mal têm para hoje. Como é que a gente pobre evita carrêgos múltiplos que lhe destroem a coluna onde o cálcio já não abundava?! Como pode haver uma boa higiene dentária (para não falar de outros problemas) quando o fast food é mais barato e satisfaz, surge à mesa pronto a deglutir e assim proporciona algum tempo livre?! Há muita pergunta que, quem vive na realidade quotidiana e popular conhece, mas é incapaz de resolver.

        Já concluo: a boa velhice não é para todos, a velhice confortável e medianamente saudável é só para alguns. E, hélas! É muito casuística e democrática. Salva uns e afunda outros. Há vezes em que os afundados estão no grupo que melhor a prepara. Também acontece. Se sou pela dita preparação? Sou. Mas estou certa que a vida não se compadece na mesma. É como diz Sophia, “um barco que não cessa de seguir sem ti o seu caminho”.

domingo, 15 de setembro de 2024

Apontamento

  A vida oferece-nos uma amálgama de contradições por entre as quais vamos singrando melhor ou pior, de acordo com o temperamento e a situação, navegação quase toda de baixios,  erros e acertos à compita. Deixamos muita pele pelas esquinas, equimoses no flanco que descuidámos e  por onde caímos. Descuido ou falta de senso, chocamos com ângulos em agudo e lá vem a dor inesperada. Não se pense que emendamos para sempre, há equimoses pouco inteligentes, repetem escalavrados antigos, caminhos que prometemos a nós mesmos não palmilhar, buracos onde pensámos nunca voltar. 

    Quanto à vida em geral, perseveramos no erro, ou não fôssemos género humano. Particularizando, a questão cresce em complexidade. Temos os casos -  comuns a espécie e géneros - em que a vontade manda e o coração desmanda; ou aqueles em que as emoções e sua imediatez lavram caminho. E mais. Decidirmo-nos por uma via possível representa sempre o afunilar de possibilidades, uma determinação, e nunca saberemos se tomámos a mais certa (será melhor presumir que sim). Diria um colega das ciências exactas de quem discordo, "havia que esgotar todas as vias para sabermos qual nos serve". Mas a vida urge e não espera, e as decisões pessoais raro envolvem apenas um sujeito embora sejam da sua particular responsabilidade. Fora de serem mera reacção, as opções  requerem agilidade mental e, por parte de agente que não seja masoquista, comportam a preservação do eu. Se outros motivos não existissem, tal bastaria para nos fazer errar.  

    Contudo, aceitamos que a  errar também se aprende. Pois sim. Mas, se a origem respeita ao mais intrínseco de cada um, assenta em valores e convicções que fundamentam a acção global do sujeito e a sua conduta essencial,  não será aprendizagem fundamental. Nesse caso admitimos a repetição e, por tal motivo, voltar atrás, além de impossível seria mera inutilidade. Tudo o resto, parece-me, pode ser emendado, remendado, erradicado - ainda que possa originar novo erro; há quem afirme que se aprende a errar melhor, coisa que não sei o que seja. Aprendemos novos erros; os mesmos talvez se repitam menos vezes e podem conter tal força negativa que leve à evitação. Ou, como dizem os manuais, o erro pode ser transformado, substituído por actos de compensação positiva e que menos nos quilhem a existência pessoal e de conjunto. Nascemos inermes, mas fomos feitos para aprender, logo, também para o erro.

Creio no poder da linguagem, penso que justifica e facilita o viver comunitário e a consciência de si. Os erros ilustram a contingência e a diversidade que nos constitui; também a liberdade possível, sempre menor do que a pensámos. Suponho que as escolhas mais perniciosas sejam as que parecem abafar a voz da razão. A vontade de domínio elege-as para, deliberadamente, provocar o mal nos outros. Mau grado desembocarem na menorização humana e impedirem relações amistosas e comunitárias, essas escolhas atravessam a espécie e chegam à ignomínia que é tirar a vida e destruir o quotidiano de inocentes. Ignoro se existe resposta que controle este factor a que analistas, escritores e filósofos deram e ainda dão tamanha atenção. Sem esquecermos a religiosidade e mais suas interpretações teórico-práticas.


quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Prosa do Tempo que Passa

       Morreu-lhe o marido e um filho com 20 anos. Mortes lentas e muito sofridas. A filha  que lhe resta tem doença rara e atrofiante que dá pelo nome de paralisia supranuclear progressiva. Não sabe já do que se passa senão em flashes de lucidez. E será isto uma sorte, benesse da vida ou de um deus que dela se apiedou.

Fez hoje  cem anos. Conhece-me de me ver por ali, sem me acertar o nome. E sempre me sorri. Contudo, lembra-se das rosas brancas do quintal e, se ajudada, vai num encanto olhá-las.  Mas raro reconhece a filha. Nunca lhe ouvi palavra acerca de marido ou filho e julga-se menina, quer voltar à sua terra, lugar onde afirma viver com pais e irmãos. A chamada da terra dá pelo nome de infância e fala muito da mãe.

Qualquer aragem, por mais leve, lhe dará o descanso que merece. Vai evaporando em delicadeza e finura e Deus a livre de um dia, por um momento que seja, ficar ciente do ser em que a sua menina se transformou e mais se irá transformando.

É um passarinho débil e delicado que desconhece o ninho. Não voa e mal se alimenta. 

Pergunto-me se é para isto que queremos ser bem velhinhos. Ou se vivemos a ilusão de que os anos nos não roubam de nós mesmos. O tempo não exige de nós. Exige-nos a nós.

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Setembro

  Chegou Setembro. Não entendo bem como, mas olhem para ele, é bebé e já mexe. E eu a comportar-me como grávida que dá à luz contrariada e olha incrédula e enojada a peça que saiu de si. Nada sente além de estranheza, não há voz do sangue, não estende braços a examinar a criatura e que importa se é ou não perfeita, que sexo tem, ou a cor do cabelo seboso: não a quer. A natureza fez um trabalho que a vontade não deseja. Vai sair como entrou (não exactamente igual): sozinha e por seu pé; havendo meios, desembaraça-se  logo ali do estorvo. Deixa-o para trás como qualquer saco que se esquece (pensa ela). Assina papéis, dá-o para adopção. E eu igual com Setembro. Podendo.

A realidade factual de Setembro  deixa-me perplexa. Que diabo andei fazendo que me retirou de Agosto, ou até do tempo, sei lá. Agosto que me trouxe bons auspícios e me achegou companhias de tanto ano; e propiciou-nos o reconhecimento como se viéssemos de ontem, na certeza de até amanhã. AMIGOS.

  Entretanto, senti que Agosto esboroava, como a grávida deve ter sentido os primeiros movimentos da criança: nada podíamos contra a natureza. Como usa dizer meu primo, no pasa nada. São apenas dois meses, um atrás do outro, assim consta no calendário.

Contudo, esmiuçando melhor, Agosto trouxe consigo uma lua ímpar que espreitei durante dias até atingir o cume de superlua, no que me suponho bem pouco original, imagino que grande parte da população do hemisfério norte assim a festejou. Faltou a abundância de dias quentes sem um agitar de asa ou roçagar de saia, e tampouco sofremos o sufoco de noites esbraseadas e quietas, a terra numa exalação transpirada, adivinhando já a torreira gemebunda de todos os seres sob a canga do sol. Não houve o toque em móveis e niquelados mornos como se um fogo lento os consuma e entre por madrugadas exaustas. Faltou o calor que cansa sem motivo, as pernas que pesam, o suor a empapar camisas, soutiens e mais lingerie que, podendo, se aligeira, pudores sem voz que os salve. E há as casas de brancura a espargir na campina, cerradas como cubos, densas e dolorosas ao olhar, herméticas. Pelos caminhos do alcatrão que derrete e se agarra aos sapatos de quem ouse, rosnam brevemente os ares condicionados de um mundo a quatro rodas. E é só. Nada do som das fontes que não há, nada de verdes vibrantes. A natureza, para sobreviver, pende e semi morre. 

Por mais que o verão se tenha feito outro de si mesmo, qualquer alentejano é grato a essas noites fora da sua natureza, seguro contributo para a ilusão do verão que não houve e, pensávamos, viria ainda. É óbvio que os dias de praia, à luz deste Setembro sem disfarce, me surgem de estreiteza tamanha. Quando o presente devém passado tudo se altera: no mundo natural como no humano. Deixa-me pena a água que tão pouco me recebeu. Saudade levei, saudade trouxe. Que no último dia lhe senti a despedida nos cambiantes: perdida a tonalidade azul-anil coloria de um meio verde escurecido. Foi Agosto (custa dar ao meu mês um pretérito). Não havia ainda o crocitar das gaivotas exigindo a retoma, asas rasando a areia, espera paciente pousada junto às dunas enfeitadas de cardos marítimos, beleza arroxeada e tão nefasta ao toque como boa para os olhos.

Quem é Setembro? Não é ainda Outono, mas já se prepara e lhe segue as pisadas. A luz enviesou, os dias encolheram e talvez as cegonhitas da beira-de-estrada estejam de partida. No último dia estavam em seu poiso, quem sabe se intuindo a despedida que eu recusava; ou, em versão mais prosaica, os dias encurtaram e, donas de casa diligentes, preparavam a cama. 

Talvez no final do mês recomece a natação. Talvez seja aceite em alguns cursos, talvez tanta coisa que inda não sei e pode acontecer. Subtraídos dois dias, Setembro é quase todo futuro, um mês de incógnitas. Vou esperá-las com calma, a idade não me permite grandes alentos e nem já estou por eles.

Bem vindo Setembro! (enquanto escrevia o texto mudei de opinião; da ex grávida não tive notícia:)).


Nota: O uso de maiúscula no mês é propositado. 

sábado, 8 de junho de 2024

Tolentino

 (continuação)

A história dos grandes faz-se à custa dos pequenos (já não estou longe do materialismo dialéctico, cuidadinho) e depois, um lugar no céu tem de ter a sua divisa, o destaque de primeira bancada. Daí o afã, a necessidade de uma campa santificada no âmago da catedral. Mas (há sempre um mas), seriam eles, pela vida que viveram, dignos de tal? Não vou ser má propositada. Quem sabe, não deram livre curso ao humano propósito de permanecer. Seria razão de peso. É desejo de todos: permanecer. Em Burgos, fartei-me de ver estátuas jacentes de gente mitrada e outros altos dignitários da igreja. A esses santos homens(?) não bastou a vida que por ali gastaram. Seres prevenidos, garantiram a continuidade intra muros. Ou tinham grande apêgo ao lugar, ou desconfiavam da vida que consumiram. Belos cemitérios, as catedrais. Desconhecemos o propósito, mas o resultado é digno de ser visto.

Estive quase quase a acender-te uma vela igual à de Ravena. Mas em Ravena havia frades de capuz e corda à cintura, e havia a preguiera tão bonita. E Bach. Tomada pela simultaneidade destes elementos, acendi-te uma vela. Desta vez apenas ajoelhei. Nota que a preguiera só aconteceu de joelhos porque os genuflexórios estavam forrados de pele fofa (um sofá para joelhos, vá). Haja Deus! Finalmente alguém pensa nos joelhos. Minto, Eugénio de Andrade valorou-os. Portanto, permite-me o acrescento, "alguém pensou nos joelhos dos velhos". Du-vi-do que os poemas do Eugénio se dirigissem a esses. E tu, poeta, bem sabes que Eugénio criou um poema de pormenor e o dedilhou nuns precisos joelhos. Santificou-os. Diria uma amiga que usa a segunda pessoa do plural, "estais bem um para o outro".

Vejo-te deambulando pela biblioteca do Vaticano e, palavra, não encontro jeito ou maneira para te termos aqui, inteiro e  regressado. Esse teu destino embebe-te. Mas, se um dia fores papa e ainda eu viva e tenha pernas, prometo ir de excursão só para ver-te abençoar o povo que sou.  Se ocupares o cargo máximo da igreja, rezo para que a história não se repita e te não caia o tecto na cabeça.

Acredito sejas homem naturalmente tranquilo. As tuas batalhas navais são internas e vais conseguindo defender o porta aviões. Sempre que podes e as circunstâncias to permitem, amas as pequenas coisas, condição da felicidade possível.

O meu até sempre da ternura

 

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Tolentino

        Destas cartas que te escrevo não terás conhecimento; dois mundos que não se tocam, mas, como disse Galileu e  António Gedeão poetizou, todos rodamos no espaço a igual e estonteante velocidade. Mesmo sem lembranças e recuerdos, é seguro que rodamos e não contam todas as vezes em que te vi e ouvi em missas, entrevistas, conversas  e conferências. Não vale sequer aquele teu olhar que captei/me captou, desconhecendo quem eras.

  Desconfio que nos esqueceste. É a vida. Tens aqueles quilómetros de livros para cuidar e não faço uma pálida ideia de como procedes. Vinha só falar-te do que sabes: Espanha é pródiga em catedrais. Mais que os palácios, são as guardiãs dos séculos, mostram uma ou várias épocas e contribuem para a memória colectiva do país; encaminham o povo ilustrando percursos da arte humana. Que o futuro, sendo novo no tempo, faz-se sempre de passado. O que foi nunca deixa de sê-lo. Mas, sem raízes, quem seríamos. E é isto verdade para o mundo em geral e cada um em particular: à espera do olhar, ali se encontram de mão dada a arquitectura, a pintura, a escultura, a ourivesaria, o requinte do talhe na madeira, no ferro ou na pedra. Não serão obras eternas, mas face à efeméride humana, permanecem. Lembrei-me de ti. Que pensas daquela descomunal grandeza da arte, que refina o gosto e chama a estética do penitente e dos que entram por curiosidade e terminam em rendida apreciação do belo? Maravilha-te a luz coada dos vitrais mas pesa-te o excesso de riqueza? Pensas como eu na carrada de gente sem direitos, morta à sombra daquelas paredes e tectos? Ou  admiras mais o engenho humano que ergueu tais magnificências com rudimentos de maquinaria. Mas reparo - calcula tu -, nas incongruências da religião católica. Reparo nas comparticipações de grandes senhores, a fim de usufruírem de túmulo numa catedral. Julgavam que assim lhes seria mais certo e requintado o assento eterno. Como é que eles liam os evangelhos. Diz-me. Explica-me. Cristo aproximou as crianças e os mais pobres da vida eterna. Mas nenhum - e este é um raciocínio probabilístico -, digo que nenhum, ou muito poucos entenderam que é preciso cultivar a inocência que acredita; e ainda menos foram os que, sendo ricos, se fizeram pobres para agradar a Deus, distribuindo os bens próprios pelos desvalidos. Não foi e nunca será assim.

(cont.)