quinta-feira, 28 de setembro de 2023

Pressupostos

  Estive lendo a entrevista de Guta Moura Guedes na Visão da semana passada, que a vida me anda num atraso que só visto. Devo dizer que  não me move qualquer simpatia pela dita senhora, cuja desconheço na sua quase totalidade; deve, pois, ser preconceito, o que instaura forte possibilidade de erro no juízo. Ou, dizendo-o de forma mais velada, a senhora vive num mundo que desconheço, de que oiço falar e sei que existe, mas orbito em dimensão distinta, onde defeitos e desaires pessoais e familiares abundam e se herdam. Não há quartos que se recordem nem avós com manias coloridas; há camas e enxergas que recordo em todo o lugar ressalvando a cozinha.  Das avós, uma era amorfa  mona, jamais cultivando o sorriso (nem compreendo como chegou a encontrar par); a outra encarnava o invés - atravessava-a uma genica sentenciosa e sorridente que a remetia à acção contínua, tanta vez de moral relativa e muito pessoal. Quanto ao meu avô, não tocava carrilhões, mas harmónio, e só o ouvi tocar num brinquedo de meu primo - adquirir harmónio verdadeiro era um impossível. Pontapés e murros, que eu saiba, nunca deu, nem em sinos nem em qualquer ser animado ou inanimado -  era um pacifista e objector de consciência nato, embora desconhecendo a nomenclatura. Sinto por ele amor incomensurável.

De acordo com o que li, Guta é especialista em design e cofundadora e directora artística de Terra Foundation que vai actuar entre a Comporta e Sines. Não entendi se Tróia ficou de parte propositadamente, se aquilo já está tão danificado que os ambientalistas - que, suponho, a dita fundação integre - andem em frente e já está. Fui investigar a organização e os rudimentos do meu inglês (não me apeteceu o tradutor do google) apenas retiveram  que é organização que pretende harmonia entre humanos e não humanos; fauna e flora conjugadas. E que construíu uma residência artística para poetas e outros artistas, cujos já fizeram pelo menos um concerto de música clássica, na zona do Carvalhal. Por costume e experiência, duvido destas organizações que pretendem endireitar o que está torto. Nutro ampla desconfiança por pessoas que tendem a desculpar os autarcas dos municípios que permitiram e permitem tanto atropelo ambiental. Foram erros deles, sim. Erros pelos quais arrecadaram bastante. E, se o não fizeram, então alguém o fez por eles. Que nunca como hoje houve tanto quadro superior nas Câmaras Municipais. Logo, errar ambientalmente é coisa propositada. 

Posto isto, pesando embora o factor residência artística ao qual sou sensível, e à educação em música clássica do povo (terá sido o povo a beneficiar ?!), desconheço como se chegou à escolha das áreas e dos artistas beneficiados. Posto isto, dizia eu, e para além da estação climática que construíram já numa duna, ficam por aqui na zona do Carvalhal?! 

Bem sei que leio mal o inglês. E é verdade que a música une os homens. Mas não consigo deixar de desconfiar. Espero bem que seja infundada a minha desconfiança acerca de mais um projecto que de facto protege o ambiente, mas apenas acessível aos de sempre. Temo que seja uma continuação do mesmo; resorts extraordinários para os donos disto tudo. E oxalá me engane e Dona Guta seja, afinal, o invés do que imagino. A ser assim, depressa mudarei de opinião.

Digam de vossa justiça

sábado, 16 de setembro de 2023

Os Fingidores

     Nos hospitais, dizia um velho conhecido, "a gente sabe como entra, não sabe como sai". Confirmo.  Mal de quem é velho, pobre e está sujeito ao hospital público da sua zona. E não, os hospitais públicos não são sempre o melhor - meu pai veio de S. José a andar, a alimentar-se e a falar coerentemente, com recomendação de continuar a fisioterapia iniciada; entrou em Évora e perdeu tudo, sendo que o aneurisma está estável; mas fisioterapia? Nada. Mal de ser velho, sofrer e assistir impotente à retirada da autonomia. Mal de ver-se a morrer sofrendo em cada hora. Mal de quem é pobre e, azarado,  cai nas garras da incompetência de adulto jovem ou apenas da falta de humanidade no exercício de profissão tão digna como falha de atitude. E este desabafo não tem por destinatários os empregados de limpeza que, ainda que livres de responsabilidades (ou por isso mesmo), serão talvez os mais empáticos.


Nota: vou deixar de escrever por uns tempos. Quando possa e tenha ânimo visito-vos. Que um anjo bom vos guarde.

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Fora de Pé

  Não sei ainda como resolver isto de poderes faltar-me e estar habituada aos teus monólogos mal entravas no carro. Corríamos Alentejo fora e tu, contemplando a paisagem, ias repetindo as mesmas frases nos mesmos lugares - nem podia ser de outra forma, a voz do passado enlevava-te e retinha toda a tua atenção. Não me aborreciam os teus solilóquios e tu tampouco esperavas resposta. Ias desfiando as contas da memória: aqui vim eu na carroça do Ti joão buscar os sacos de farinha para a padaria do Raúl, não havia casas no caminho e nem luz, e eu gaiatola, uma candeia dependurada no carro, cheio de medo que me assaltassem e  roubassem a carga; aqui, fui multado pela Guarda por não trazer capacete - já tu eras nascida; ali, estive com meu pai num casamento de gente rica, fartura de tudo, durou quase uma semana; além, dizem que morreu um toureiro espanhol que seguia para Espanha depois da tourada...E ias afixando  post-ites na paisagem, a voz a enrouquecer, um pigarro aqui e ali disfarçando a nostalgia. 
Há três semanas, numa calorosa manhã de Agosto, desfiavas acontecidos: ias colando post-ites enquanto eu atentava no trânsito, que há horas de muito camião e gente com pressa de chegar a Évora-cidade.  Por entre recordações, avivavas o teu lado agrícola e perdias-te a observar o montado com olho crítico, olha para isto, já nem há bolota, como é que os porcos de montado podem ser os mesmos, tá tudo diferente, nem a carne é tão gostosa como dantes, os sobreiros estão velhos, ninguém planta outros, não os limpam...Fazias um silêncio de respeito, como quem entra em casa conhecida de chapéu na mão e rematavas, é um  dó ver estes campos abandonados, está tudo dado ao desprezo. Se alguma vez dantes, quando o trabalho era a poder de braços, as terras andavam assim, estava tudo limpo e desmoitado, eram ranchos e ranchos de gente na desmoita das herdades. Agora têm máquinas, quase não precisam da enxada, e olha pra isto, é uma dor d'alma. Mas logo esquecias o momento doloroso para apontar nova recordação: da vida que era outra, das pessoas já todas mortas ou desaparecidas nas curvas do destino e com quem tinhas estado no monte acolá a matar um porco; neste, à beira da estrada, viveras um baile de harmónio, os sapatos de teu irmão a apertarem-te os pés. E desfiavas a saudade pujante de ti mesmo e do que penaste nas alvoradas negras do inverno, "grandes geadões" e tu ainda criança descalça, correndo valados fora, o gelo a queimar-te os pés até ao trabalho.  E aquele lugar em que, invariável e proprietário,  apontavas de voz cheia, aqui fez o meu pai uma eira, eu tinha uns cinco ou seis anos e vim com ele, ficámos por cá durante semanas, dormíamos na eira e tudo. Intrigava-me aquela eira feita por meu avô e a que davas importância. Olhava o sítio e nada restava dela. Ia perguntar-te, mas bastava uma ultrapassagem, um sinal rodoviário diferente, um limite de velocidade, e ambos a esquecíamos. Mas este ano era Agosto. E, logo que falaste nela, perguntei o que era. E tu explanando, agradado da minha curiosidade, chamávamos eira aos cereais todos juntos, o meu pai tinha uma debulhadora e fazia a eira, quer dizer, os seareiros das redondezas, e até de longe, vinham aqui debulhar o centeio, a cevada, o trigo, o milho; e, enquanto chegassem carradas de cereal, a gente não saía daqui. Entendi o teu orgulho. Teu pai mandava na eira e tu, o filho do patrão. Tempo tão curto e de tão longa memória. Virei a cabeça num sorriso para ti. Satisfeito, deste um arzinho da tua graça. E mudaste de assunto.
Mas como repetir Évora-cidade, se ora inventaste um mundo só teu, se não nos conheces e nem de ti sabes. E agora?!