Estive lendo a entrevista de Guta Moura Guedes na Visão da semana passada, que a vida me anda num atraso que só visto. Devo dizer que não me move qualquer simpatia pela dita senhora, cuja desconheço na sua quase totalidade; deve, pois, ser preconceito, o que instaura forte possibilidade de erro no juízo. Ou, dizendo-o de forma mais velada, a senhora vive num mundo que desconheço, de que oiço falar e sei que existe, mas orbito em dimensão distinta, onde defeitos e desaires pessoais e familiares abundam e se herdam. Não há quartos que se recordem nem avós com manias coloridas; há camas e enxergas que recordo em todo o lugar ressalvando a cozinha. Das avós, uma era amorfa mona, jamais cultivando o sorriso (nem compreendo como chegou a encontrar par); a outra encarnava o invés - atravessava-a uma genica sentenciosa e sorridente que a remetia à acção contínua, tanta vez de moral relativa e muito pessoal. Quanto ao meu avô, não tocava carrilhões, mas harmónio, e só o ouvi tocar num brinquedo de meu primo - adquirir harmónio verdadeiro era um impossível. Pontapés e murros, que eu saiba, nunca deu, nem em sinos nem em qualquer ser animado ou inanimado - era um pacifista e objector de consciência nato, embora desconhecendo a nomenclatura. Sinto por ele amor incomensurável.
De acordo com o que li, Guta é especialista em design e cofundadora e directora artística de Terra Foundation que vai actuar entre a Comporta e Sines. Não entendi se Tróia ficou de parte propositadamente, se aquilo já está tão danificado que os ambientalistas - que, suponho, a dita fundação integre - andem em frente e já está. Fui investigar a organização e os rudimentos do meu inglês (não me apeteceu o tradutor do google) apenas retiveram que é organização que pretende harmonia entre humanos e não humanos; fauna e flora conjugadas. E que construíu uma residência artística para poetas e outros artistas, cujos já fizeram pelo menos um concerto de música clássica, na zona do Carvalhal. Por costume e experiência, duvido destas organizações que pretendem endireitar o que está torto. Nutro ampla desconfiança por pessoas que tendem a desculpar os autarcas dos municípios que permitiram e permitem tanto atropelo ambiental. Foram erros deles, sim. Erros pelos quais arrecadaram bastante. E, se o não fizeram, então alguém o fez por eles. Que nunca como hoje houve tanto quadro superior nas Câmaras Municipais. Logo, errar ambientalmente é coisa propositada.
Posto isto, pesando embora o factor residência artística ao qual sou sensível, e à educação em música clássica do povo (terá sido o povo a beneficiar ?!), desconheço como se chegou à escolha das áreas e dos artistas beneficiados. Posto isto, dizia eu, e para além da estação climática que construíram já numa duna, ficam por aqui na zona do Carvalhal?!
Bem sei que leio mal o inglês. E é verdade que a música une os homens. Mas não consigo deixar de desconfiar. Espero bem que seja infundada a minha desconfiança acerca de mais um projecto que de facto protege o ambiente, mas apenas acessível aos de sempre. Temo que seja uma continuação do mesmo; resorts extraordinários para os donos disto tudo. E oxalá me engane e Dona Guta seja, afinal, o invés do que imagino. A ser assim, depressa mudarei de opinião.
Digam de vossa justiça