sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Vida na Cidade Ocre

 

        Manhãzinha, rumámos aos Jardins Majorelle. Saídos de um pequeno almoço europeu e tão variado como nos melhores hotéis lisboetas, frescos e leves, chapéus e óculos de sol, manguinhas de verão intenso bordejando algodões e acetinados resplandecentes. Nada de hiperbólicos decotes ou cavados impudicos, que a velhice se quer mistificada de apenas madureza, mesmo se o gato deixa o rabo de fora. Bom, também é verdade que os árabes são muito ciosos do pudor feminino e convém não arriscar.

        À porta dos jardins, aí sim, uma multidão de turistas e outra de igual tamanho de insistentes vendedores de tudo (100% masculinos). Aguardámos vez na torrina de sol que anunciava um dia igual ao anterior, chapéus e óculos chamados à liça, alguns sortudos guardando-se na sombra que encurtava por muros e edifícios. Bem na nossa frente, para lá do portão, o chamado insistente e clorofílico da frescura adivinhada nos jardins, um “ai quem me dera ali” a subir-nos das entranhas. Expectativa em cascata.

        Após a entrada, definidos horário e ponto de encontro, libertos de guias e outros aperreios, passeámos por esses jardins divinos (cerca de um hectare), antes propriedade de Yves Saint Laurent e Pierre Bergé que habitaram a casa (visitei apenas o rés do chão, hoje museu) e conservaram e ampliaram os jardins. O nome Majorelle vem-lhes do criador, o pintor francês Jacques Majorelle.

        Em boa hora o costureiro e seu compagnon de route doaram os jardins à cidade de Marrakesh. No roseiral da casa foram espalhadas as cinzas de YSL, mas há um memorial a cada um dos dois, ilustrando o que julgo seria o amor entre ambos, e deles por tal lugar (ignoro onde repousam as cinzas de Bergé). É ideia romântica ficar para sempre no pedaço de terra que mais se amou, à beira de quem se quis e partilhou a experiência. Romântica, mas não acessível ao comum dos mortais. No que, diga-se, não há grande mal; mortos, nada valemos, o corpo, que em tudo nos acompanhou, perdeu o ser. A ausência da vida despojou-o, é lixo descartável.

        Cada um sente os jardins a seu modo. São intensamente coloridos, variados (razão de serem ditos no plural) e frescos. Não se percebe bem como, mas são frescos. Tudo neles é um hino à vida no que tem de mais sagrado. Pode ser apontamento meramente subjectivo, mas senti-me em romagem de respeito pelo espírito de Majorelle e Yves/Bergé que por ali transpira, respira e nos comove; há belezas assim, quebram-nos as defesas. É prazer que não se descreve sentir que os pés nos levam de um lugar a outro e a beleza se mantém em deliciosa harmonia entre criação humana e espécies vegetais. Passeio contigo, como por tanto lugar que a vida me tem permitido espreitar guardando impressão. Eminente solitária, nunca vou só. Estamos nos caminhos envernizados e vermelhos, vamos de mão dada pelas ruas enfeitadas de azul a que chamo “mediterrânico” e é afinal o “azul majorelle”(mistura de azul ultramar e cobalto), cor criada pelo pintor e que anima a casa onde trabalhou no rés-do-chão, habitando o piso superior. A casa aparece-nos como uma visão e afirma-se pela leveza: é pequena e quase etérea na modernidade que a veste, uma mistura feliz de dois estilos, mourisco e art déco. Por ali abundam os amarelos solares e, na doçura das buganvílias que bordam alpendres e pérgulas, no tom ocre de algumas peças, no todo das mil e uma espécies vegetais que proliferam nos jardins bem tratados por duas dezenas de jardineiros, admiramos um éden em miniatura; e larga verba da fundação criada para o efeito. De habitação particular, esmerada em delicadeza romântica, do sonho de Majorelle salvo da ruína e concretizado por Yves e parceiro, à criação da Fundação e mostra pública dos jardins, a evolução é radical. Intensamente positiva. O propósito da doação feita à cidade pela dupla Yves-Bergé merece aplauso. Era até pecado que tão funda harmonia se desse a ver apenas a alguns pares de olhos. E não é de descartar o benefício monetário procedente das visitas a este paraíso. Ganha a cidade; ganhamos nós.

(cont.)

sábado, 25 de outubro de 2025

Vida na Cidade Ocre

 

        A visita a Essaouira, também chamada Mogador por navegadores portugueses que ali construíram uma fortaleza, permitiu-nos mais uma lambuzadela de vida árabe. Da viagem nos ficou a imagem de quase deserto entre as cidades, há a visão da planura a perder de vista e a cor barrenta a uniformizar a paisagem. Nada de morros ou cumes, zonas imensas de nem uma árvore, um casinhoto, alguém. Por vezes, bem na distante linha do horizonte, adivinhávamos um casario.

        Fizemos uma paragem na beira de estrada onde um rebanho de cabras devorava uma árvore, os animais empoleirados pelos ramos em diligente repasto, facto que deleitou turista. E os camelos. Ingenuamente julguei estarem ali por acaso. Observei-lhes a bossa, os arreios sebentos, um certo ar de burro de carga, comum aos nossos já poucos burros. Passou-me uma onda de compaixão por vê-los assim “em quieta melancolia na poeira do caminho”. Mas logo houve turistas de apetite aceso para uma voltinha. E os árabes servis, contentes do dinheiro por vir, os camelos ajoelhados, a carga subindo e eles a levantarem-se e elevá-la às alturas, obedientes à rédea por curtos minutos. Os turistas exultavam encavalitados na pobreza resignada daqueles monstros de olhar tristonho. E eu abstracta, para quê esta exibição de europeu palerma, quanto vale dizer “andei de camelo”?! Lembrei-me dos circos que visitavam a minha terra e onde alguns meninos, mediante paga, montavam um ou outro animal. Somos sempre os mesmos. Ao longo da vida, os mesmos.

        Essaouira é cidade piscatória e a sua baía um semicírculo bem aberto de praia ventosa; a água não destoa do ocre e em nada se assemelha ao azul mediterrânico. Mas as ondas. Incansáveis no mesmíssimo marulhar. O mar nos seus longes, afastado dos barcos que ali repousam da faina, parece negro, faz-se mistério.

        Do forte que foi português nada resta, o que vimos é fruto de reconstrução. Nem sequer soubemos se manteve ou não a traça. Que, à parte o estado de conservação ser superior ao dos nossos fortes, é parecido e tão ventoso como linda é a paisagem marítima que se avista. Em dia claro, os vigorosos bamboleios do mar de breu, ali se transformam em fúria de vaga mal disposta e levam a imaginação ao caminho das embarcações portuguesas, um alvoroço na tripulação ansiosa de chão firme. Aqui e ali há uns resíduos de português em nomes de pensão ou outro comércio. Mas a cidade respira apenas o árabe. O comércio de rua torna difícil a caminhada até ao restaurante. Por todo o lugar se expõem matérias diversas. Pintores e artesãos têm na rua a sua oficina e a variedade manda: da roupa tradicional a peças em couro, dos doces mais simples a peças de fruta e alimentos para nós desconhecidos. Sem contar com as especiarias e perfumes que enchem o ar, cheiros pegajosos e adocicados em estranha promiscuidade. Essaouira não corre atrás do turista, mas todos oferecem o que têm ou sabem fazer. E todos inclui velhos e crianças expondo artigos simples dos que nem consideramos poderem ser vendáveis e me fizeram olhá-los melhor: notei-lhes o ar indiferente e recolhido, estavam e não estavam ali, cumpriam.

        O povo árabe cultiva a aparência. Qualquer dos restaurantes que visitámos tinha portas velhas e gastas, entrada pequena e amorfa em rua estreita, e não indiciava o espaço alargado e sumptuoso das zonas de comer quase só frequentadas por turistas. Onde e o que comem os artistas de rua, os pescadores, os comerciantes, os tantos que vi nas motas a cair de podre e que, miraculosas, os transportam? Perguntei ao guia e ele respondeu que não comem nos restaurantes por onde andámos e que a sua vida não é como a nossa, eles não têm poder de compra.

        Na volta, por entre os descampados que se enterravam em silêncio próximo à noite, as torres de mesquita destacavam-se nos povoados e garotos sujos, e suponho que suados, envoltos em nuvens de poeira, jogavam futebol em campos de improviso. Passámos por vários grupos de garotos, o entusiasmo correndo atrás da bola. É fora de dúvida: o futebol existe-lhes.

(cont.)


quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Vida na Cidade Ocre

 

        No interior do palácio Bahia, uma enormidade de gente tão ou mais encalorada que nós tornou difícil saborear pormenores da arquitectura árabe, a beleza dos tectos, as colunas graciosas e o mais. O edifício foi remodelado, mas ressalta-lhe certo ar de abandono e deterioração desgostosa. Senti-lhe o desconsolo das portas abertas, a perda do mistério que perpassa no recato encantatório da intimidade que se quer velada de raios solares, o lamento de tantos pés sobre chão outrora vedado ao povoléu, o desagrado de tanto olhar irrestrito, estranho, pousando a doer no que antes era mundo particular. A patine do tempo, as rugas de casa velha, o cheiro mofento e cansado que se desprende do todo e condensa nas paredes, estão lá, espreitam por entre a beleza da construção, igual a miséria que se esgueira por frestas da opulência. Ouvi-lhe esse protesto rouco de séculos, a desdita calada de saber que este é o modo errado de ver o mundo árabe: a mágoa do contínuo de si sem véus, o sem limite turístico a destruir a pureza essencial que in illo tempore ali fez casa. É palácio que, imerso na diferença, no que não é si mesmo, vai perdendo a identidade. E contudo vive, sente. Doem-lhe os torniquetes, o lucro, as invasivas e diárias multidões que o vão amputando.

        Não vimos os jardins que julgo terem vários hectares. Foi visita a má hora e julgo que o palácio só não fechou portas por delicadeza, afinal - terá pensado de umas janelas a outras -, vieram de tão longe, estão suados, não têm hábito destas torrinas, há que deixá-los entrar, deixá-los moer-me os ossos descarnados, permitir que transgridam e tragam às minhas rugas sem blush o pó das ruas, que agridam a penumbra e reserva que me pertenceu e encham as salas de cheiros profanos e bafos de sol abrasadores.

        Mau grado o castigo do sol, a visita permitiu-nos, caminhando na parte velha da cidade, observar intra muros o quotidiano árabe. Ruas estreitas desembocavam noutras ruas e, mais ao fundo, vislumbrávamos ainda outras. Todas semelhantes. Labirínticas. Os gatos, animais que os árabes pensam selvagens e livres, são propriedade comum e existem em qualquer lugar; vivem nas ruas, bem alimentados, de todo o género e idade, não temem as pessoas - dei colo a alguns gatos bebé, tão pequeninos e ternos e bonitos quanto se pode imaginar. Edifícios que pareciam pobres lado a lado, tronco a tronco; nunca de mão dada. O guia pormenorizou que se nos internássemos neles verificaríamos que o interior tem aspecto diverso; os árabes, que descobri cheios de estratagemas, conservam-lhes o aspecto exterior de pobreza inacabada para fuga a impostos e ladroagem. No seu elemento, expondo-se ao sol como se na sombra, chamando clientes em mau inglês, mãos fatigadas armadas de abanico para afastar o mosquedo da mercadoria, assim vimos o povo árabe. E tão poucas mulheres nos foram visíveis nessas ruas onde decerto também existem. Mas os cheiros. Vários. Nem sempre a especiarias. O estômago a protestar na revolta da tagine. E ali sim, apercebemos o caótico movimento do trânsito em ruas e sobretudo nas praças mais antigas. Recordei Paris em hora de ponta: a Praça L’Étoile repleta de trânsito automóvel que entrava e saía por todos os lados, nós a configurarmos absurda desorganização. Que urgia atravessar. Num soslaio, apercebi duas japonesas mirando o trânsito como quem enfrenta um problema matemático de difícil resolução. Apostámos nelas e, mal avançaram, imitámos. Salvaram-nos. Despedimo-nos sorridentes e gratos. 

        Regressemos a Marrakesh. Saindo da medina, seguimos em autocarro confortável e chegámos à parte nova da cidade. Percorremos a avenida ampla e “civilizada” do hotel. Aqui e ali, manchas coloridas de buganvílias escorriam de muros altos ou erguiam-se em aprumos de orgulho bem alimentado. Do lado oposto, as habituais marcas próprias de cidades europeias, supermercados das mesmas cadeias, oferecendo quase os mesmos artigos (fui verificar). Podíamos imaginar-nos em qualquer lugar importante da Europa, tal a semelhança. A diferença patenteava-se na arquitectura do hotel e no polícia armado a guardá-lo na entrada. Que das fortalezas muradas, onde as buganvílias reinam, nada é visível. Como canta Chico Buarque, afirmo, "tanto mar", separa as duas Marrakesh. Tanto mar de preconceito, desejo vão, vaidade, poder a separar os homens. Muros em cima de muros.

(cont.)

domingo, 19 de outubro de 2025

Vida na Cidade Ocre

 

        A cidade de Marrakesh - assim grafada por todo o lugar com a notação árabe por baixo -, data do século XI, é anterior à fundação de Portugal e, de acordo com os audio-guias, fundaram-na os berberes. Terá sido capital de povos nómadas do deserto e no século XVI, época de grande prosperidade de dois sultões, reputados arquitectos ali construíram e restauraram palácios, mesquitas e jardins de grande beleza, facto que nos recorda ser a cultura árabe muito desenvolvida desde a antiguidade, basta pensarmos no saber e beleza que ensinaram e espalharam pela península ibérica.

        Ninguém, além dos fiéis, pode entrar nas mesquitas da cidade. Limitámo-nos pois a enfrentar a soalheira apenas para mirar o exterior da mesquita Qoutoubia, cujo minarete me lembrou a Giralda de Sevilha que visitáramos num passeio pedestre agradável e madrugador, impossível daí a duas horas. Sevilha diurna é cidade que palpita salero, mas escalda. Óptima para noctívagos e ainda melhor para madrugadores. Qoutoubia, a “mesquita dos livros”, assim chamada por ser local efectivo da venda de livros (à sua volta montavam as bancas de livros para venda), é a maior de Marrakesh e salienta-se no mundo árabe. Data do século XII. Isto se Sami, o nosso guia muçulmano, não nos enganou. Sami peremptório: só em Casablanca existe uma mesquita que pode ser visitada por turistas. E eu um, ora bolas!, que o guia ignorou olimpicamente.

        Os jardins da Menara, no fim de uma avenida pedonal bastante larga e nova, foram algo decepcionantes. Constam de um tanque enormérrimo com uma construção bem ao fundo e que não entendi se dentro ou fora da água. E a água do tanque/lago serve o regadio do que supus ser um olival a que não se vislumbra fim. Curiosa a ideia de os sultões escolherem este jardim para namorar – não investiguei junto de Sami, se com qualquer mulher do seu harém, se apenas com as especiais. Sami relevou um dado sultão pelo número exorbitante de mulheres - entre mulheres e concubinas - mas não me ficou senão que serem muitas era sinal de poder e que as meninas eram bastas vezes oferecidas pelos pais ao sultão devido a benesses concedidas. Está certo, minha mãe retribuía favores com galinhas vivas e de patas atadas, os árabes antigos davam a filha preferida a fim de ficarem aparentados com o poder (digo eu e não Sami que viveu no Porto durante doze anos e afirma convicto que aí bebeu o que tinha a beber na vida inteira). Como dizia o agora abstémio e pacífico Sami, sempre pronto à desculpa de sultões açambarcadores do género feminino, ali mandava o costume. Não gostei.

        Internámo-nos na medina, ou seja, a velha e murada Marrakesh. Daríamos um belo quadro. Deslocávamo-nos como bois pachorrentos estorricados de calor, as mulheres a derramar, quase todas empunhando leque numa luta desigual com o clima (não esta serva de Deus que tem uma meia dúzia sempre em casa). No que nos pareceu tempo árduo, entrámos no Palácio Bahia que data do século XIX. E amei, na entrada do palácio, mesmo antes dos torniquetes, o vapor de água no rosto a reanimar-nos. Refresco para turista. Por mim, ficava por ali até ensopar. Talvez pelo excesso de calor não apus o devido valor ao que vi e gostei de ver. Amei o pátio interior com laranjeiras pela suavidade e leveza da sua arquitectura, o verde a crescer-nos no olhar sem afugentar o braseiro; sentei-me a observar o pátio grande e despido que nem ouvi para que serve; percorri os aposentos que hoje são ocupados pela família real durante o inverno e que por tal razão nesse hiato não são visitáveis.

(Cont.)


quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Vida na Cidade Ocre

 

        Os preparativos de viagem são já viagem. Sente-se no fazer das malas que o corpo materializa e a alma não segue. Porque a alma foi na frente e está lá, no limiar do desconhecido, tão pronta para ele como, em cada manhã, o quadro negro da infância esteve pronto para o giz. Nela, ainda tudo é possível. Mas o corpo é outra coisa, mãos diligentes arrumam pertences, dobram, vincam, arredam docemente e nasce um breve espaço, logo preenchido por meias, uma écharpe leve, um sabe-se lá. A alma - a minha, que recusa pesquisar e antever - está em branco, sem possibilidades actualizadas sobre os ignotos lugares a que a diligência caduca do sensível é supostamente alheia. E será por esse natural aliciar do espírito, pelo que contém de expectante, que ele caminha na frente, liberto de concordâncias. Mau grado o reconhecimento sem evasivas do pragmatismo científico, nada nos existe tanto como enquanto vive de ser hipótese.

        Nas viagens que usam o avião, o segundo momento acontece quando sentimos faltar-nos chão depois da nave emergir do ensaio em passinhos de bebé e armar em leão enfurecido. Repentina e insuspeita, ronca e galga na pista qual corredor alucinado para quem a insuficiência dos pés é notória porque breve se desprende do solo. Oh momento bendito! A par do irremediável de, em segundos, estarmos demasiado altos, convencemo-nos: somos parte da aventura.

        Tenho um amigo que começa a babar mal delineia a viagem. Extasia com os lugares a visitar e programa o que ver e quando em cada um deles. A profissão de guia assentava-lhe que nem luva. Eu descansava-lhe nos planos. Conheço-lhe de perto a qualidade. Por motivos meramente circunstanciais e que não beliscam a nossa amizade, já não viajamos juntos. Portanto, viajei com uma agência. E digo: não é o mesmo. Redigo: é muito pior. Mas a vida é o que é. E mais vale deste modo que de modo nenhum como já sucedeu. Pura palermice encartada. Minha, pois claro.

        Éramos quatro, número que nos pareceu suficiente para “manter o clima”, ainda que o resto da malta, hipoteticamente, fosse do mais sorumbático. Que nem eram. Mas viajar com amigos tem outro charme. E descansa-nos mais.

        Vivemos ora em Portugal uns restos de verão. Mas, face à canícula do verão alentejano, o calor de Marrakesh é sufocante e o sol martiriza. O primeiro almoço, em restaurante marroquino, quase só para frequência turística e com ementa entre o marroquino e o europeu, encantou. Diga-se que mais pela decoração árabe do que pelas iguarias. Achei o máximo estar sentada num divã a almoçar rodeada de almofadas. Todos os dias as tagines estavam disponíveis. Tão disponíveis que causaram a vários excursionistas dissabores intestinos que, por acaso e alguma cautela, não me atingiram.

        A primeira ronda pedestre aconteceu durante a tarde. À parte o massacre do calor, lembro as longas fitas de alcatrão, planas e rectas, nas avenidas modernas que atravessámos. Mas a esta imagem sobrepõe-se a confusão de tudo ao molho e fé em Alá, que é atravessar uma praça com trânsito. Entendemos de imediato que as motas – qualquer veículo motorizado com duas rodas – fazem a lei. Para elas não há semáforos, a cor vermelha não as altera: mantêm o ritmo, perseguindo o seu fim sem hesitações. Os automóveis são mais respeitadores e param no vermelho, mas colam-se uns aos outros e mudam inesperados de direcção. Vi alguns amassados, mas não tantos como seria de esperar. Resumindo: para um europeu, guiar em Marrakesh obriga a tirar nova licença de condução. A primeira impressão foi escaldante, cansativa e cativou pela diferença. A vida na cidade ocre, à parte as novas avenidas repletas de hotéis e condomínios fechados, lembrou-me em alguns aspectos, a vida portuguesa provinciana de há mais de cinquenta anos. No fim do dia os meus olhos insaciados reviam as buganvílias brancas e festivas, nem uma folha seca, acenos de frescura subindo e descendo muros. Impensável suavidade a debruar o inferno.

(cont.)

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Lavagante

 

        Por fortuito acaso originado nas distracções a que sou dada, encontrei-me em Lisboa sem compromissos. “Lavagante” nem sequer foi primeira escolha. Mas, após pesquisa aturada, verifiquei ser o filme mais curto; e o último argumento de António-Pedro Vasconcelos. Dois motivos de peso. Haver Nuno Lopes também conta, é rapaz que não desmerece. Resolvi-me.

        A sala encontrava-se dentro dos parâmetros: alguns gatos pingados. Custo a crer que as fitas hoje dêem lucro, mas devem dar ou não existiriam. Apesar de tão pouca gente a assistir, a máquina não me autorizou sentar-me com uma cadeira de intervalo do outro(a) espectador(a). Parvas das máquinas. E eu que gostava das meninas que me davam opiniões sobre os filmes e me informavam sobre a duração da publicidade que me permitia vê-los desde o princípio, após viva corrida; chegava e a sala escurecia; depois o meu problema com a iluminação dos degraus e mais procurar o número do lugar que não via. Enfim, tudo isso passou e agora resmungo para a máquina que não me sorri nem elucida, mas cumpre - desde que não deseje bilhete com intervalo de uma cadeira vazia. A medida pretenderá cultivar relações de vizinhança num cinema quase vazio?! Ná. São birras de máquina programada para casa cheia (ah, ah, ah).

        Gostei da realização de Mário Barroso pessoa que desconheço de todo. Filmou a preto e branco, aproveitou bem os jogos de luz e sombra, e conferiu densidade aos personagens nos grandes planos do rosto. Amei grande parte dos diálogos entre o par amoroso. As duas jovens do elenco surpreenderam-me pela beleza exacta que emanam. Dão corpo ao estribilho “uma é loira e outra é morena” e a loira consegue, mercê do conluio entre linguagem e interpretação, certa aura de mistério sempre sensual. Creio eu que o cinema vive também desse encanto. E há a época: Salazar e a repressão sem descanso, a pide e as cargas da polícia sobre os estudantes (podiam ter aprofundado mais este aspecto), a censura no mundo dos jornais. Nuno Lopes é o jornalista eternamente frustrado com os cortes da censura. É ele o fio que une toda a história. Penso que desconheço O Lavagante de Cardoso Pires, mas a história é verosímil. Parece-me que a trama poderia ser mais desenvolvida, os desconcertos e diferendos entre uma menina-bem com amizades fascistas e um médico com simpatias democráticas, para ultrapassarem a paixão momentânea, seriam inevitáveis, veríamos os acertos e o seu contrário, a mudança em ambos que só o amor traz e justifica a tomada de posição feminina que sela o filme. Não vimos. Pode ficar à conta da subtileza artística. Ou ser outra coisa.

        O certo é que saí sem me envergonhar de mais um filme português. Lavagante deu um passo em frente na reconciliação. Obrigada a todos os intervenientes, incluindo o escritor que hoje seria centenário. Um grande, um enorme Bem Haja, António-Pedro. Orgulho-me de ti, imagina. Ficaste-me.


quinta-feira, 2 de outubro de 2025

A Liberdade Passou por Ali

 

        A fechar o tema e o concerto – foi mesmo um concerto -, Gisela cantou “A casa da Mariquinhas” com a letra renovada e de acordo com os tempos. A letra tem graça e por tal a prefiro à primitiva de que nunca consegui gostar.

           Mas o público. E também a vontade da artista. Porque nos encore cantou e dançou impecavelmente nos seus saltos agulha o malhão, o vira e sei lá que mais. Sempre incentivando e querendo companhia. Pôs toda a gente fora das cadeiras, a cantar e dançar, eu incluída. A bem da verdade, o meu forte é mesmo dançar sem mexer os pés. Mais ou menos o que fiz. Foi um final de alegria colectiva, uma aragem de primavera bem portuguesa, talvez um leve e agradável  aroma de Abril - falo por mim - insinuando-se  por este outono dourado a que os grandes navios ancorados emprestam fugaz magnitude.

        Saímos contentes uns dos outros. Ela, cansada e feliz porque o público a ouviu e lhe quer bem – os artistas precisam desse carinho e atenção. Nós, porque apreciámos o trabalho da cantora, soube ser empática e profissional; fez-se próxima sempre que explicou a razão/razões de preferir esta ou aquela música que ia cantar – ao longo de todo o concerto, Gisela expôs a circunstância que inspirou a inclusão das melodias escolhidas. Deu a mão às mulheres deste país, lembrando aquelas que na sua família foram ou ainda são as dos versos de Capicua. Diz-se que hoje já as mulheres são outras, que conquistaram direitos iguais aos masculinos. Duvido. Continua a parecer-me que as mulheres carregam o mundo nas costas e não apenas na barriga. Convenho: não são todas. Mas são tantas e o peso é tamanho…

        Obrigada Gisela. Bem hajas por nos fazeres companhia e lembrares o que não nos esquece.