sábado, 23 de outubro de 2021

Sombra Chinesa

 

         Esfumada a francesa, a dupla revigorou. Jaime extasiava perante senhoras e jovens de alta roda que ousavam o fato de banho. Mas, nas praias que correu, raro as viu em tal preparo. Dizia-lhe Paulo que no Algarve é que era, ou nas praias do Estoril onde havia mesmo menina que, num duas peças decotado, varria o juízo a um homem .  Nas praias alentejanas, não. Tantos dias eram ovos goros, nem um assomo de fêmea. Mas, na estada em Porto Covo, aldeia minúscula de pescadores e praias pequenas, encontravam por vezes uma ou outra mãe de família no recato da barraca listada, a sopeira sempre à mão e por conta da prole, um pescador contratado para carregos e guarda costas. As madames - à média de uma ou duas por praia –, matronas enfarpeladas e pouco apetecíveis,  bordavam ou aborreciam-se na sombra da lona estirada sobre a entrada. Não era bem visto ser trigueira, tom que quadrava a trabalhadores braçais. E a gente citadina fazia gala na distinção, que, vá-se lá saber porquê, sempre a cor da pele serviu para dividir os homens. Seguindo os ditames da moda, as damas empoavam rosto e demais pele visível, olhos e boca a ressaltarem da alvura. Só os mais informados sobre tendências e usos estrangeiros o saberiam, mas a era da pele de leite estava de partida. A elite horrorizava o rosto escuro de varinas e pescadores e protegia-se. O sexo feminino embiocava ou exibia chapéus de aba extensa, revessava melancólico e besuntava produtos para clarear a pele. Mas deitava disfarçado olhar à destreza dos braços morenos e musculados dos homens. Mais tarde, no confessionário, “tive maus pensamentos”, uma atenção de ventosa ainda agarrada à indiferença de membros retesados no esforço de puxar cordas e redes. Neles, o ranço de cheiro a peixe. As damas desagradadas de si, mirando-se num espelhinho, cheias de boquinhas e trejeitos. Mas a ventosa. A perturbação. Um remoinho interior de abraços morenos a confundi-las, mas que quero eu. E davam por si a invejar o desplante das varinas de língua fácil e roda de tamanco habituado. As varinas que ondulavam em perna pela rua, eterno bandeio de saias enodoadas, sementeira de escamas e escorrimentos, canastra à cabeça, um filho ou outro nos calcanhares. As damas retocavam o pó de arroz e o espelhinho mostrava o rosto pensativo que eliminavam com um estalido.

Jaime e Paulo eram deuses dourados, folgando pelas areias no entusiasmo de mar e céu, uns dias por outros atrevendo-se a banhos. Banqueteavam-se pelas tabernas, riam e conversavam horas a fio, Paulo cumprindo papel de anfitrião. Adormeciam de bem com a vida e, durante o sono, Jaime era seduzido por sereias de terra metidas em estonteantes duas peças e tinha sonhos molhados e exaustos de que acordava entre o susto do coração descompassado e o prazer do corpo a deslaçar. Pensava às vezes em Veridiana e procurava imaginá-la a melhorar, nos olhos um lampejo da força antiga, o corpo ganhando energia. Vivia a desejo, como a sua mãe agradaria.  Descobria-se na novidade do mundo.

 

terça-feira, 19 de outubro de 2021

Ritual

 

Guardei-te. Em saudade e doçura. Pés para a frente e cabeça para trás, olhos difíceis a mirar-te a definição horizontal de espelho luminoso. No desejo de conservar-te assim todo um inverno, de seres em mim cálida e suave, debruada por terno recorte de serra em fundo. Aos poucos, o dia dobrava-se sob oblíquos raios de sol e a poalha dourada e outoniça enchia o ar. No céu sem nuvem, uma gaivota deslaçada e sem pressa. E no fofo da areia, em saltinhos de mau jeito, como quem teme vidros ou picadela de cardo marinho, quatro corvos passeantes. Lá em baixo, as vagas cresciam e vincavam soberanias. Diziam brusca e estrondosamente que o mar se fechara em si e, em longos braços de espuma, varriam a praia deixando lençóis rendados  que entrelaçavam em ressaltos de água e areia. Longe do mundo, eu lia Tchekov e lagartava, o sol fazendo caminhos na pele.

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Vida Contada

 

Voltar onde se foi feliz é tentação a que cedo com frequência. A mesma praia; os mesmos amigos; a mesma sala de cinema; os mesmos programas de rádio. Há um ror de anos, considerava-me moderna, arejada, aberta à sedução da novidade. Hoje, verifico o meu conservadorismo. É provável que tenha cristalizado o amor à terra e suas maravilhas; a preservação das amizades mais fundas; os meus amores mais intrínsecos e olorosos por quem me deixaria esquartejar, se necessário; e a minha impossível nuvem de sonho, liberdade que não há, mas quem/o que seríamos sem sonhos.

Portanto, a Gulbenkian. Lugar de pequenas maravilhas onde mais nos sentimos unidos ao mundo. A beleza ata-nos ao universo, puxa pelo melhor de cada homem. E quanto lamento que, neste país, o belo apareça tão elitista. Que o ensino nas escolas a não fomente a partir de um programa inteligente e sensível.  Que crianças e jovens não tenham a chance de a contemplar nas suas vertentes, ou dela beneficiem apenas e se, em sorte, lhes cabe professor que a preserve. É liminar, não se opta pelo desconhecido. Pode acontecer, mas o princípio aristotélico mantém-se, o que não acontece nem sempre nem quase sempre é excepção. Ora, o espírito de um povo não se forma nem modifica com excepções.  A cultura através da arte amplia o espírito: produz abertura e aceitação, flexibilidade mental e capacidade crítica. É minha convicção que, mais do que a filosofia para crianças, uma educação que preserve a beleza e a harmonia, que eduque o espírito para a necessidade do belo descerrando-o e trazendo-o à rua de todos os homens, fará mais pelo espírito crítico e dará melhores resultados. Claro que é apenas convicção, mera hipótese pedagógica.

Na Gulbenkian, sou sem passado nem futuro, uma espécie de reunião dos tempos, a fragmentação elidida pela harmonia. Apesar da malvadez da máscara, puro inferno no calor deste outono; apesar do meu cansaço que resolveu assentar arraiais naquele fim de dia e me espapaçar no conforto do lugar; apesar de ter fechado os olhos por uns bocadinhos e me virem frases desgarradas que não sei mesmo onde se formavam que nem parecia que vinham de mim, mas era no meu ser que se manifestavam. E portanto não houve qualquer epifania, mas tão só uma olímpica estranheza.  Ainda estou para saber por que raio só me vinham frases e qual a razão de as ter olvidado por completo (não recordo uma para exemplo). Ora, em meu entender, os enigmas pessoais não são de resolver, fazem parte dos mistérios de cada um. Acontecem. Deixemo-los pois entregues a si mesmos.

Mau grado as vicissitudes do regresso, trouxe comigo a esperança de poder repetir. Luz bruxuleando ao fundo do túnel. A espreitar-me. Que beleza.

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

MIGALHAS DE MIM (plagiado)

                                          

         Há pessoas que nos interpretam sem disso terem conhecimento, dizem-nos no completo de nós e como não saberíamos fazê-lo. Espelham-nos. Na realidade física e também no sonho, que sempre o desejo nos move e acicata e cada um é o que é mais o sonho que o alenta. E, dos dois, só o sonho desmede, que a realidade nos fixa e determina ao mundo da norma.

         Pois é. Anos e anos a ler o blogue Tempo Contado. Dia atrás de dia. Umas vezes em concordância. Outras nem tanto. Algumas em aberto desacordo. Mas a alma de escrita está lá, em tudo que sai daquela bendita pena. E muito lastimo quando o autor me falte  e siga a lei da vida, que é também a da morte. Ficam as histórias, os livros, os pensamentos que vai deixando nas crónicas e no blogue; quiçá nas entrevistas que não leio, nos possíveis vídeos que decerto abundam pela net e ainda não bisbilhotei. E portanto. Não acrescento. Basta ler o que escreveu e de que sou copiadora assumida. Cá vai. Julgue-o cada um como entenda. Para mim é uma preciosidade. Profunda.

 

"É contigo que falo, me abro, deixo entrever boas e más horas, te mando em código sentimentos, abjurações, raivas, alegrias. É para ti que componho frases onde tudo está e tudo se esconde, a aparência mascarada de realidade, o acontecido embrulhado em fantasia, o eu tantas vezes multiplicado que não reconheço a própria sombra e desconfio que não seja minha a voz que julgas ouvir.

Falo-te e contudo não existo, nem sequer como me imaginas, porque a todos os momentos me refaço. Escondo e escondo-me, reapareço, invento-me. Iludo-te com palavras, e elas, fazendo ricochete, transtornam a imagem que de mim formas, a do espelho em que julgas ver-me e onde nunca estou.

Falo, tu escutas. Parece realidade mas é só aparência, distância e sonho, a bela ilusão do possível que nunca acontece, o poder volátil do desejo tonto. Enfio palavras como contas num rosário de orações, sem credo nem sentido, ignorando que música te farão ouvir, ou se de alguma dor sentirás alívio.

São só palavras, migalhas de mim, sacudidas com fingido descaso, mas na esperança de que, se as apanhares, te dêem a ilusão de que estivemos a falar e nos compreendemos."

 

Não é uma preciosidade?

 

domingo, 10 de outubro de 2021

Amélia

 

 Foi nesta hora que Violante descabeçou a nova. Um olho no salta-pocinhas empoleirado no escadote a limpar a prateleira dos barros toscos e vidrados, e outro na registadora cheia de dedos numerados e mãos de trocos, anunciou como quem não quer a coisa, o salta-pocinhas arranjou madrinha, não querem lá ver que  a Amélia se ofereceu para lhe tratar da roupa. Qual odor invasivo, um vento de admiração insinuou-se por toda a loja. Silêncio. O salta-pocinhas entesou no escadote e o cutelo da carne estacou a meio caminho, machadadas absortas sob o punho do Januário. A estupefacção arrebatava os quatro cantos do mercadito. E, logo logo, o burburinho despudorado, um cacho de mulheres junto à caixa, o quê, como é que é isso, conta lá. Lá atrás, silêncio canino. Perdigueiros  de orelha à espreita, os homens respigavam a novidade como quem não quer nada. Violante, gaveta da registadora aberta e satisfeita de si, sem atender o pedido mudo do garoto, pois é o que eu digo, a Amélia toma conta da roupa do salta-pocinhas. Que o gaiato é como os mais, não passa do portão, a Amélia é assim, que se há-de fazer, aquilo nem é bem um portão, é o balcão das trocas. Pois não vemos todos como vende o leite e os queijos. Mas as mudas aparecem cerzidas e sem nódoa, botões cosidos e emparelhados. E, apartando uma barra de sabão que embrulhava em papel de jornal, reconhecia, que até me deu jeito, isso é verdade. Tomara eu dar conta das minhas coisas, quanto mais andar de posse dos trapos do salta-pocinhas. O mulherio, olhos de raio x complacente fixo no fogo que enrubescia a atrapalhação do garoto, reconheceu, anda mais limpo, isso é verdade.

Ora, cumpre informar o leitor que salta-pocinhas, roubado à solidão de um monte, pertencia  a família numerosa e grata a Violante por lho tirar de casa. Menos uma boca. No contratado por bate-boca, constava o direito a cama, refeições e idas à escola. A contrapartida era ser pau para toda a obra, sem folgas ou ordenado.  Salta-pocinhas, um saltarico magricela e bem disposto, eterno lápis atrás da orelha, era o preferido da clientela que, em adequado desvelo de bem querer, breve lhe deu alcunha. Só na escola D. Assunção do Pereiro teimava em chamá-lo pelo nome, Manuel António, vai ao quadro. E, o mais das vezes, salta-pocinhas mudo e quedo, desligado do nome que lhe pertencia desde sempre. Porém, no mini mercado detinha rapidez sorridente e imbatível. Além disso, para que negá-lo, os clientes sentiam-no como um dos seus, irmanado na má sorte que os fazia contar os pretos e os brancos, poupando a vida das  poucas notas  que bailavam no interior das carteiras e malas de mão. Era de lei que salta-pocinhas nem um dedo na registadora, fazia a conta no papel de embrulho que o cliente levaria para casa. Sabiam-no em piores condições de vida e isso dava-lhes inédita oportunidade, podiam pôr a uso a superioridade compassiva, coitadinho do salta-pocinhas. E sentir-se bafejados pela sorte, acima dos salta-pocinhas da vida. O dinheiro que ali deixavam era água que o garoto manejava sem pertença; logo, demonstrada a sua transparente honestidade no mister das compras, viam nele uma espécie de querubim sem asas, pontinhado e sujo, sempre de cara alegre.

 

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Tiro aos Pratos

 

Ontem recebi um escrito muito edificante, daqueles “envia esta mensagem a mais três pessoas” e bla, bla, bla. Não entendo a razão de receber mensagens destas, é sabedoria consagrada que tudo que aqui cai, morre. Jamais reenvio. Bom, abro uma excepção (uma graaande excepção) para mensagens bonitas, alegres, belas.  Então, aproveito e reencaminho para destinatário que me acompanhou em tempos idos e vi crescer em bondade e rebeldia; está longe, longe, mas mantém a liberdade de espírito e a fome de conhecimento que tão vedada lhe foi e ainda é. Portanto, não adiantam as promessas de sorte ao terceiro,  sétimo, ou décimo dia, ou a incerta certeza de uma surpresa gratificante, o prémio (ainda que o necessite, vivemos à míngua de inéditos inesperados e gratificantes). Ou advogar uma chuva de coisas boas se reenvie para um x número de pessoas. Ou ainda, se, agindo pela negativa, auguram azares e má fortuna no caso de incumprimento do estipulado: sempre o mesmo x número de divulgações. Que não se pode quebrar a corrente. E tal e tal (detesto correntes). Mal sabem que têm morte certa. Abato-as logo que assomam  aos meus olhos de coveiro sempre de pá em riste. Caem. Mais lestas que tordos.

Mercê desta forma de pensar meio enviesada, é claro que tenho pouca sorte e me caem em cima uma data de azares. Mas o resultado prático é o mesmo. Sou teimosa e criei gosto no abate. É o meu tiro aos pratos. Um desporto. E, alto lá, sou incapaz de não as ler. Portanto, algum mérito terão. A mensagem de ontem era enorme. Uma chusma de deveres e comportamentos éticos divididos por sectores - vários e, em cada, n alíneas - e que, supostamente, farão mais felizes aqueles seres – ideais - que os cumpram: sinal exacto daquilo que nunca seremos, felizes. Mas pronto, reconheço, na qualidade de anjos terrestres seríamos abençoados pela felicidade. Portanto, foi tudo de água abaixo.

Só uma alínea, relativa ao comportamento social, ficou a pairar. Rezava mais ou menos o seguinte, “sorria diariamente para, pelo menos, três pessoas”. Pergunto-me onde é que, na grande parte dos dias, arranjo tanta gente. É que nem que me ponha ao portão a olhar os transeuntes que passam todos encartados e recolhidos, olhando em frente.

É fora de dúvida, tudo que nos sucede tem a sua utilidade. Entretanto, vou partindo pratos.