Por
vezes abre-se-me uma vontade de parar a realidade. Não me apetece mais futuro
que depois se torna presente; sem descanso, é preciso continuar a projectar
para que o presente se instale com suas surpresas no pensado futuro que, presentificado,
é sempre alteridade. E ainda dizem que
há monotonia. Ai o tédio (deve ser doença de rico, o tédio). Queria parar a
cansativa roda do tempo. Viver pode ser milagroso, bonito de verdade, mas
cansa. Mesmo se essa realidade se cinge
ao que escrevo. É ficção, portanto.
Não me entendo. Pois se sou eu quem decide o quê das personagens, por que demoro e as abandono na história, quais crianças perdidas numa floresta de palavras. Que não são. A todo o momento posso retomar-me de Deus e traço-lhes o destino, faço com elas o que bem entenda. Mas não é exactamente assim: a resolução não depende apenas do meu ser metamorfoseado em divindade ficcional. A certo ponto da história - qualquer história -, os personagens aprendem a volição, querem isto e mais aquilo. E há a ambiência condicionante. Então – é o caso -, paro. E é como se dê um tempo àqueles dois que se pensam escondidos do mundo e estão ainda embrenhados um no outro, alheios às dificuldades em que os homens e a vida são pródigos. E isto é tudo o que, na minha condição de portuguesa chapada e alentejana de raiz, consigo oferecer. Se eu fosse sul americana, não inventava tão impossíveis e dificultosos amores. Ou inventava, mas também os resolvia por recurso a certas artes mágicas que muito admiro. Lembro-me por exemplo do que acontece logo no início de um romance que julgo ser “Como água para chocolate”, mas pode ser outro. Não tenho presente senão a ideia de que há alguém que derrama tanta lágrima que depois de evaporadas enchem a cozinha de sal e há alguidares pejados com o sal das lágrimas. E isto é um demais que me encanta. Por ser muito visual. E porque tem certo ar das histórias que me contavam em criança e onde tudo era possível. OU no livro, “A triste história de Cândida Erêndira e sua avó desalmada” em que há um anjo com ar de ave desengraçada que cai numa capoeira de galinhas. E logo filas de mirones. Paga-se bilhete para ver o anjo no galinheiro, chega gente de todo o lugar para lobrigar aquela triste ave, envelhecida e acocorada sem pose ou auréola. Queria ter essa arte e envolver os meus dois amantes em magia narrativa. E de tal forma os enlaçava que, salvífica, os erguia acima do mundo e os colocava no maravilhoso das histórias infantis que me habitam. Mas o fado dita que sou portuguesa e não sul americana. E por mais que admire aquele imaginário voador, fico-me pelos trilhos terrestres onde tanta vez me engano. E paro. E volto atrás. E dou uns necessários passos. Gabriel Garcia Marquez inventou a história do anjo. Mas, em cada vez que se me para a mente, encarno o anjo que ele inventou. Está tudo ligado.