quarta-feira, 29 de março de 2023

Intervalo

 

Por vezes abre-se-me uma vontade de parar a realidade. Não me apetece mais futuro que depois se torna presente; sem descanso, é preciso continuar a projectar para que o presente se instale com suas surpresas no pensado futuro que, presentificado,  é sempre alteridade. E ainda dizem que há monotonia. Ai o tédio (deve ser doença de rico, o tédio). Queria parar a cansativa roda do tempo. Viver pode ser milagroso, bonito de verdade, mas cansa.  Mesmo se essa realidade se cinge ao que escrevo. É ficção, portanto.

Não me entendo. Pois se sou eu quem decide o quê das personagens, por que demoro e as abandono na história, quais crianças perdidas numa floresta de palavras. Que não são. A todo o momento posso retomar-me de Deus e traço-lhes o destino, faço com elas o que bem entenda. Mas não é exactamente assim: a resolução não depende apenas do meu ser metamorfoseado em divindade ficcional. A certo ponto da história - qualquer história -, os personagens aprendem a volição, querem isto e mais aquilo. E há a ambiência condicionante. Então – é o caso -, paro. E é como se dê um tempo àqueles dois que se pensam escondidos do mundo e estão ainda embrenhados um no outro, alheios às dificuldades em que os homens e a vida são pródigos. E isto é tudo o que, na minha condição de portuguesa chapada e alentejana de raiz, consigo oferecer. Se eu fosse sul americana, não inventava tão impossíveis e dificultosos amores. Ou inventava, mas também os resolvia por recurso a certas artes mágicas que muito admiro. Lembro-me por exemplo do que acontece logo no início de um romance que julgo ser “Como água para chocolate”, mas pode ser outro. Não tenho presente senão a ideia de que há alguém que derrama tanta lágrima que depois de evaporadas enchem a cozinha de sal e há alguidares  pejados com o sal das lágrimas. E isto é um demais que me encanta. Por ser muito visual. E porque tem certo ar das histórias que me contavam em criança e onde tudo era possível.  OU no livro, “A triste história de Cândida Erêndira e sua avó desalmada” em que há um anjo com ar de ave desengraçada que cai numa capoeira de galinhas. E logo filas de mirones.  Paga-se bilhete para ver o anjo no galinheiro, chega gente de todo o lugar para lobrigar aquela triste ave, envelhecida e  acocorada sem pose ou auréola. Queria ter essa arte e envolver os meus dois amantes em magia narrativa. E de tal forma os enlaçava que, salvífica,  os erguia acima do mundo e os colocava no maravilhoso das histórias infantis que me habitam. Mas o fado dita que sou portuguesa e não sul americana. E por mais que admire aquele imaginário voador, fico-me pelos trilhos terrestres onde tanta vez me engano. E paro.  E volto atrás. E dou uns necessários passos. Gabriel Garcia Marquez inventou a história do anjo.  Mas, em cada vez que se me para a mente, encarno o anjo que ele inventou. Está tudo ligado.

terça-feira, 21 de março de 2023

Dia da Poesia



 BREVE ENCONTRO


Este é o amor das palavras demoradas

Moradas Habitadas

Nelas mora

Em memória e demora

O nosso breve encontro com a vida

Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética III, O Nome das Coisas

Sombra Chinesa

 

O amor tem suas prerrogativas, tolda a vista e o juízo dos humanos.  Se para Jaime tudo era novo, não o era menos para ela. Dava por si a espiar sinais da idade, adivinhando rugas e cabelos brancos que não lhe existiam, receando - apesar de sentidas negativas e repetidas juras - que um dia Jaime escolhesse garota da sua idade, se fartasse dela com receio do mundo e da condenação que padre Fausto declarava pecado capital. Que a ela pouco se lhe dava, sempre vivera nas margens dos preceitos religiosos e mantinha com os homens uma espécie de pacto de uso consentido, a cada um o seu quinhão. Conhecia bem a violência e a força masculina a que respondia na mesma moeda, puxando dos recônditos a raiva que lhe entesava os músculos. Em cada desavença que ultrapassava a palavra, lutava contra o universo dos homens. Acudiam-lhe pontiagudos olhares lúbricos e sorrisos untuosos a remendar as intenções perversas dos ditos bem casados e pios. No corpo a corpo, vingava o sofrimento injusto das mulheres, fora sempre  esse o cerne das suas vitórias. Acendia-se-lhe nas entranhas um vulcão que respondia com lava à sobranceria saloia e besta dos homens que subjugavam pela força e tratavam as mulheres como animais desobedientes, sem pingo de vergonha por acto tão desleal. Chegada a sua vez, comprazia-se em humilhá-los, vencê-los onde se julgavam fortes, mostrar-lhes o desconforto de ser dominado, a quebra no orgulho macho a encorpar por ser a  fêmea a deitá-lo por terra, a imobilizá-lo, o pé no pescoço. Então, qual mamífero com sua cria, fazia-se ciosa do corpo e, ocultando os seus mistérios, sacudia aproximações. Ou desprezava-os. Esperava a noite e, num abandono liso e sem palavra, partia. Apagava-os do presente. Eram gente morta na memória. Assim sucedera com o pai de Teresa. 

O futuro sem homem não a assustava, mas, por exemplo de criação, força atractiva da natureza, ou por ser de crista levantada e desafiadora, preferia-os por perto.  Parecia-lhe a vida menos átona. Isto até Jaime lhe entrar porta dentro, a decisão amorosa no desarrumo dos caracóis, olhar agónico sublinhando a ausência de som que uma seda de dedos a tacto balbuciava.

segunda-feira, 13 de março de 2023

Sombra Chinesa

 

E que dizer dos amantes sem mundo e de curto tempo.  Desprovido de necessidade, o universo era-lhes sobejo e vago. Imerso em devaneios com rosto e forma definidos, Jaime vivia dias aéreos e ditosos que esparveciam Ernestina por abundância dos inadvertidos sinais de enamoramento. Lia-lhe as noites nas olheiras, no jeito deslembrado de andar pela casa, no sono que o tomava mal se estendia no sofá da saleta. Perguntava. E Jaime sorria, fazia mistério.  A mulher  abismava para as suas costas curvadas, horas a escrevinhar o que - e isso não o sabia ela -, mais tarde, em recobro de canseira amorosa, havia de ler em presença e de viva voz, deleite conjunto de madrugadas fugidias, as horas num sopro.

A filha do Pelinhos desvanecia. Não sabia ao certo se mais lhe agradavam os vagares do amor, se a voz de Jaime a contá-los. E, antes da dobra sacramental, selava de beijo cada folha lida. Não cuidava em destruir provas e toda se derruía em lágrimas se lhe acudia o assunto ou lhe perpassava na mente a existência do Chico. Antes guardava a arte do amado como se venera osso de santo, ou a aldeia na admiração da veia poética de Padre Fausto espraiando-se nas homilias. Ainda jovem, o sacerdote deixava o pessoal de cara à banda com a arte oratória que Deus lhe dera. No cume do ritual, encavacadas da fraqueza, as velhas, em disfarce de ajustar o traçado no peito,  fungavam para o negrume de xailes fumosos, enquanto as mais novas limpavam arrependidas lágrimas à costa da mão, talvez pecando, “mal empregadinho, um destes é que me ia a calhar”.  A jovens de maior comoção – a juventude ainda tem a lágrima ao canto do olho -, pingava-lhes o nariz e puxavam da manga lencinhos miniaturais, um quadradinho dobrado a força de ferro e onde só cabia muco de assoadela ligeira a que escolhiam lugar, ainda assim não maculasse o bordado de maior apreço.

A filha do Pelinhos, mais entendida em contas e expedientes de vendedora que em leituras para que nunca tivera tempo e de que nem sabia se gostava, derretia com as palavras de Jaime que, no seu entender, punham a um canto os sermões de Padre Fausto e todos os santos do céu - em osso ou de corpo inteiro. Os homens que a tinham vivido não eram letrados, e auges do coração chegavam-lhe com a robustez de tronco de árvore, imbuídos de secura. Um macho pobre de meios simplifica o futuro se não faz cama à brandura, ou ainda o tomam por frouxo; a brandura não quadra com mãos calejadas. Notava-lhes o gosto no sufoco de um abraço ou na vertigem de sexo que se instalava no olhar, uma espécie de loucura urgente que lhes tomava o corpo e ela apetecia. Jaime inaugurava um mundo de palavras, loucura mansa que a cativava por modulação. Notava agora a vida das vogais, o prazer de casadas consoantes, a doçura do seu nome ciciado sílaba a sílaba. Alheia a romances e filmes, provava o sortilégio da linguagem, o sabor dos vocábulos, a escada de sonho que mora nas frases. Nesse encantamento, supunha-se capaz de horas infindas a ouvir-lhe as descrições e a festejar-lhe o ego e, pródiga em superlativos de extremo, julgava o seu menino o rapaz mais bonito e inteligente do universo.

segunda-feira, 6 de março de 2023

Sombra Chinesa

 

Os dias corriam sem atrito, deslizavam no calendário e escorregavam tempo abaixo. Isto pensaria alguém chegado à aldeia, notando a pacatez dos moradores e observando artes femininas na barra desbotada e que um dia fora azul, mas agora desmaiava nas frontarias.  Ou os olhos se perdiam na tristura de paredes descaliçadas onde as crianças, em despique que colhia  vencedor, fantasiavam objectos e animais nos recortes de acaso onde a cal desgrudara. Mas todos os grupos têm no subsolo a sua fonte de movimento. No magma que reinava sob a calma e a pobreza, a aldeia borbulhava. Esperava o estouro. Talvez só os amantes e Formosinho vivessem alheios ao que os rodeava.

Formosinho concentrava-se nos negócios e protegia as vinhas como quem encaminha filhos pela vida. Enchia-se de cuidados e tratava por suas mãos as videiras que plantara com Veridiana. Embebia na lembrança das primeiras uvas, dos receios em tarefas a estrear, do temor que uma filoxera ou desgraça maior assolapasse as cepas e arrebentasse o futuro. Nesse tempo verde, nenhum dos dois se atardava a pensar na própria longevidade: eram jovens e eternos.  Os medos cingiam-se a perigos e desmandos da natureza.

Os jornaleiros observavam-lhe os cuidados e cochichavam que era pancada aquela cisma de não os deixar pôr um pé no pedaço de vinha mais antigo. Mas era patrão e pagava a tempo, respeitavam. Para Formosinho era ponto de honra que mão sacrílega se alheasse das cepas que em silêncio de conluio guardavam gestos e suor de Veridiana e mais a esperança de ambos. A vinha era igreja, e ampará-la assumia foros de culto. 

Não lhe importava o quarto onde nascera Jaime; a cama de bravatas amorosas e desvanecimentos, do sono que o cansaço dos campos mudava em semimorte, das grandes insónias da doença, os olhos vagueando pelo mostrador do relógio, temendo mexer-se, ainda assim Veridiana não se doesse do movimento; da dor de vê-la a mirrar sob a colcha, os pulsos no osso, maçãs do rosto a crescerem-lhe, tanto osso que temos senhores, ninguém diria que tanto osso sob a carne. Via-a por vezes a passear na cozinha, sentia-a encostada ao fogão de lenha que chispava ou deambulando corredor fora, um canto em surdina, doce bálsamo caseiro. Breves delíquios que enxotava em passada rápida. Abria a porta virada ao quintal, descia os degraus e, atravessado de realidade, quedava-se a meio, estou a ficar maluco. Ernestina vinha por ele, que há patrão, deu-lhe um pontada, quer alguma coisa da cozinha. E ele desaparecia sob o pomar, um aceno de não foi nada, não tem importância. O que diriam se soubessem que via a mulher amiúde. E que mais podiam dizer, senão que amolecera do juízo. Calava o segredo. Também por gosto de tê-la só para si, a desabrochar-lhe nos olhos. Sem palavras.

 

sexta-feira, 3 de março de 2023

À Beira Rio

 

Eu queria ver-te havia tempo. Mas tinha de te entregar o tempo. Aprender a viver com a dor que não é física requer paciência, tem avanços e recuos. Digo que não é física, mas conheço as horas em que o coração se retorce e não se entende a razão de não cairmos varados. Também sabemos que, à menor compressão, a ferida sangra. Precisamos despi-la de ser pungente, trabalho que só o tempo consegue.  São dias atrás de dias, meses de adaptação.  A dor da perda prostra-nos fisicamente, torna-nos mais vulneráveis a doenças - dizem os entendidos que são médicos do corpo; e também os da mente. É compreensível, houve grande desgaste físico e psíquico, o organismo ressente-se;  por vezes  não aguenta a pressão e rasga, abre brechas, surge um mal inesperado. Ou são os nossos mortos que, como nós, tardam a habituar-se e nos chamam; talvez tentem levar-nos, não sei.  Também não entendo a razão de não querermos ir. Mas não queremos. De forma consciente ou inconsciente, queremos viver. É a força da vida sobre a morte, espontânea obediência às leis naturais. E há um dia, não sabemos qual, em que a perda foi interiorizada. Ou racionalizada. Mudámos a nossa pessoa querida de lugar. Coabitamos com ela e com a dor que se tornou latência. Sendo um, somos dois. Ou mesmo mais. Vivemos por nós e por eles. E há nisso a alegria do amor e a certeza de que, estejam onde estiverem, nos acompanham. Sempre.

E tudo isto eu te quis dizer hoje. Mas falámos de outras coisas.  É tema sapatinho de cristal, só o silêncio lhe serve.