domingo, 27 de novembro de 2022

Sombra Chinesa

 

Mas, quando o inverno ia a meio arrependeu-se dos ímpetos e variações da água e os dias abriram criadores. As manhãs desembrulharam um solinho amarelo que se aguentava até meio da tarde e tingia o ar do mundo, pintando-o em tons de friorenta palidez que o oblíquo dos raios solares amarelecia. Depois das quinze, chegava-lhe uma névoa crescente e esmorecia de todo. Logo, logo, a noite apressava-se, qual dama avançando em passinho nervoso.  Grata ao benefício do tempo que convalescia, a aldeia aproveitou o hiato e tomou providências: rachou lenha; pôs os animais no pasto que assomava em frescura verde; perdeu-se pela humidade dos pinhais e, sacudindo ninhadas de cogumelos, trouxe gravetos e paus que enfeixava,  mulheres e crianças carregando-os à cabeça em alarde de força e equilíbrio, uma mão a sustentar aqui e ali os pendões da lenha; as velhas encheram os estendais de farraparia, pernas e braços bailando ao vento e que elas recolhiam mal o sol começava aos desmaios; e seguiam para casa, um alguidar de cogulo  à ilharga, deixando para trás o baloiço dos arames vazios; os garotos voltaram à rua e, depois da escola, aproveitavam a claridade por obrigação ou brincadeira. O sol de inverno era sangue novo.

Foi talvez esse espírito alegre e diáfano que fez menos redonda a admiração do povo quando, por um princípio de tarde, deu com Jaime pacatamente sentado na rua de Zefa do Prado que lhe puxara a cadeira do quarto, a única que tinha. Conversavam. A velha ia zanzando por ali, uma mão nas flores outra no vasculho. E num dedo de conversa, dizia a quem passava e  se detinha, quem havia de dizer que o Jaime me vinha visitar, veja bem que ainda se lembra dos rebuçados de mentol que lhe dava em pequeno. E ele sem palavra, sentado muito direito, costas acompanhando o espaldar trabalhado, um meio sorriso no rosto e a confirmar de cabeça. Talvez houvesse gente a quem intrigava a súbita proximidade, Jaime não era de se meter dentro de casa das pessoas. Conheciam-lhe o carácter, sempre preferira o campo aberto e a lonjura e nem dos antigos colegas da primária parecia ter saudade.

Mas os dias eram curtos para debelar a sujidade acumulada e nos campos havia muito dano a reparar. Homens e mulheres agradeciam a chuva que lhes trouxera algum trabalho em herdades e quintas de nome, enquanto por casa, velhos e crianças faziam o que podiam para retomar o quotidiano: limpavam paredes cheias de escorrimentos, punhados de fitas castanhas, carris da água desenhados na cal; sondavam telhas partidas que alguém tinha de mudar; varriam lixo de dias; lavavam carradas de roupa nos tanques públicos a que tinham de partir o gelo da noite.

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Sombra Chinesa

 

Admirava essa água que nascia bebé no cimo do monte de Maria Florinda e corria a engrossar até à estrada, enchendo e esboroando a esmerada valeta que o cantoneiro reparava ao longo do ano. A vala recebia a espessura líquida que julgávamos  rio, correndo sabe Deus para onde. Diziam os mais arteiros que saía liberta para os lados da ponte e onde eu imaginava um lago enorme, crescendo a cada inverno. Revia as manilhas atravessadas no portão de nossa casa e que anos antes, em dias secos e luminosos, eu atravessava ao desafio, arrastando-me pelo interior e saindo impante do outro lado, suja e com teias de aranha agarradas a roupa e cabelos. Ou, no inverno, em intervalos de chuva, um rudimento de cortiça talhado sem arte e a que chamava barco, um mastro que era haste de um bugalho afiada à faca e atravessada por  um triângulo de papel a fazer de bandeira. Enviava-o no sentido da corrente, de um lado a outro do túnel, correndo feliz a apanhá-lo do outro lado, como quem, no temor de perdê-lo, dá a mão a um filho pequeno. E repetia a viagem até ao enjôo ou azar, a vela desfeita ou ele embarrancado em qualquer lixo ou saliência casual.  Então, já sentia o peso da idade, os treze anos que ninguém me dava e me impediam de ser infância.

Entretanto, pelo braço do inverno chegaram geadas que inteiriçavam a terra e pousavam em todas as coisas, plumas leves de corista que tolhiam fortemente homens e bichos. Era uma leveza maligna que cerceava sem escrúpulos a ousadia de qualquer rebento novo e enregelava os homens que saíam de casa abotoados em seus casacos de meia tijela, mãos em bolsos esburacados a grossura dos bonés  enfiada até às orelhas. Nessas manhãs brancas, o mundo suspirava por algum bem e no ar em gume palpitava o desejo, quem me dera hibernar.

Vieram névoas cerradas, dias de tudo dentro da nuvem, pestanas e sobrancelhas que engordavam de gotas minúsculas e frias, estradas molhadas, caminhos patinhados e peganhentos, a calma dos automóveis  supervisionada pelos faróis, o mundo às aranhas, puxando dos olhos de raio-x para se enxergar, onde estou, quem vem lá.  Nos campos, animais abúlicos, balidos breves de novelos impressionistas, atarraxados sobre lençol a que não se via fim.

E houve “dias de morraceira”, horas e horas de chuva miudinha como se o regador do céu entupido e com dano no ralo. Na aldeia, o chão das ruas empapava e a lama fazia das suas. Regressadas da escola, as crianças permaneciam em casa. Mas a gente miúda vive de gastar energia, correr, saltar. E a confusão instalava-se.  Judiavam com os bichos e os irmãos mais novos, derrubavam cacarecos, desarrumavam o lume, punham todos em perigo.  Quando o chinfrim se tornava insuportável, perdida a paciência de mães ou avós, uma porrada aqui outra ali, os arruaceiros eram arrastados por um braço até aos barracos de arrumos ou à soleira da porta (havendo um paradouro a protegê-los da morraceira), qualquer lugar ao abrigo da chuvinha e onde não fossem causa de moléstia. A ninguém agradava a chuva “molha parvos”.

Reconfortava-me a cadência suave e prolongada da chuva nocturna, cantiga mansa que ninava o meu sono e não iludia o ressonar compassado de minha avó. Em casa de madrinha Felícia, o som de chuva visitava-me de longe em longe, quando, por um acaso, chegava zangada e, numa fúria de vento, batia urgências na minha janela de varanda, exigindo de mim alguma coisa que nunca entendi. Era outra chuva. Uma contestatária.

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Sombra Chinesa

 

Por este motivo ou aquele, o curso dos anos modifica-nos e espicaça o interesse por questões e parâmetros da vida que antes nos eram estranhos ou inexistentes. E verificamos a ingenuidade tonta de concepções criadas ou apenas apropriadas e postas como infalíveis. A ampliação do mundo interior foge à banalidade das certezas, embora a primeira reacção seja procurar a réplica, tapar a dúvida com nova certeza que se quer absoluta. Porém, uma vez instalada, a dúvida pergunta e pergunta; pode o sujeito ignorar-lhe o justo valor, mas cada pergunta é já parte da resposta.  É assim que o adolescente – alguns  -  pergunta de si para si, quanto do que pensa e faz é efeito da liberdade – se é que ela existe – e quanto há de molde e condição nas suas decisões.  E talvez entenda que habita o vaso comunicante da história, fora do qual não sabemos existir.  Ora, à época, pensamentos desta natureza não me acudiam. Minha avó velhinha sustentava a pulso a redenção dos meus dias irresponsáveis, e eu encarnava a inocência saloia correspondente à idade: vivia o presente sem outra nuvem que a vida escolar - os sempre temidos resultados de testes e exames. Era inconscientemente feliz. Mau grado a sua ameaça reiterada - ou talvez por esse motivo -, o “qualquer dia morro”, soava-me a estribilho que levava à conta de fogo fátuo, certo gosto mórbido que lhe crescia na proporção da alvura capilar. Minha avó, mulher pouco demonstrativa no que toca a ternuras e outras vitualhas, escondia em bolsa de silêncio as pequenas misérias que lhe minavam o corpo e, no meu parco raciocínio –  em geral, os jovens dispensam tal questão -, a velhice limitava-se a alterações capilares, abundância de rugas e dificuldades motoras. Alheia à mecânica do corpo e esquecendo leis naturais dos seres vivos, as aparências bastavam-me. As aparências. Que, no eterno e casual jogo da vida, salvam uns e perdem outros.

         Nesse ano, abateu-se sobre nós um inverno à moda antiga: rigoroso e variado de chuvas. Vieram as chuvas fortes formando regueiras cada vez mais espessas. Na vila, eu olhava a meditabunda rua de  madrinha Felícia, água gorgolejando nas sarjetas.  E revia a aldeia banhada de chuva: as águas desciam até à estrada arrastando o lixo dos caminhos de terra, pauzitos, pedrisco, areias, pássaros, ratos e toupeiras  mortos, trapos sujos, cascas de laranja, ervas de raiz ao léu; se encontravam resistência, havia um depósito de lixo e elas, mais depuradas, curvavam e seguiam viagem em caminho natural.

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Sombra Chinesa

 

       Mas a existência é incessante movimento. O milagre de estar vivo implica que, a contento ou não, as relações entre os homens sejam surpreendentes. Estremecem uns e sacodem outros roubando-os ao aparente marasmo de felicidade, desgosto, ou apenas à rotina amodorrada e complacente. Que em tudo os homens se detêm e estagnam, mas nunca a vida os deixa por muito tempo no casulo. Em tanto caso semelhante a este, cabe aos humanos ser causa de mudança, afectando-se uns aos outros.

         Contudo, a quietude na aldeia parecia duradoura. Entre a espera dos pais de Ernesto e a lufa lufa do quotidiano, os dias passavam iguais. Quanto a Jaime, abandonada a bicicleta, viam-no por vezes detendo-se aqui e ali, em passeios de fim de tarde. Passava muito direito, metido em seus casacos senhoriais, e pouco ia além do salve-o Deus devido a qualquer, que lá bem falante era ele. Do que fazia ainda pela aldeia nada se sabia e pouco a pouco as opiniões foram esmorecendo e o assunto deixou de ser conversa, desaguou no esquecimento.

No íntimo, permanecia em muitos o aguilhão da prosperidade de Formosinho e nem a morte prematura da mulher conseguira amenizar a dor de cotovelo, antes viam tal desgraça como contra senha da boa estrela, a vida de Veridiana era a paga devida à sorte. Os pé rapado não perdoam a quem, sendo um deles, se subtrai à condição. É imperdoável que alguém suba a pulso e honestamente. É imperdoável que arrisque. É imperdoável que até a sorte, essa madrasta de tantos, o bafeje.  Esses, aguardavam o desfecho de Jaime. Pressentiam que se atardava pela aldeia por motivo que não vislumbravam. Esperavam. Armados de paciência bovina.

E desobrigavam-se doutras expectativas. Dispensavam elucubrações sobre a filha do Pelinhos. Não lhe notavam a pressa de gestos, a impaciência, os suspiros longos, a inquietude em crescendo. Só a Zefa do Prado, atenta à vizinhança, lho reparava, ó mulher, para que é tanta pressa no arrumo da casa, Roma e Pavia não se fizeram num dia, tens alguma obrigação em espera? Acalma-te que tanta pressa até me faz mal à vista. Mas ela não parava, esfregava, limpava, brunia como se dessa maratona lhe dependesse a vida. Zefa do Prado não era dada a psicologias, mas ia conhecendo a vizinha e sempre ia dizendo, olha que o Chico tanto tempo por fora não te faz bem nenhum. Ela exibia um simulacro de sorriso que até parecia meio de troça e não respondia. Mas retomava a canseira com renovado vigor, esfregava, varria, areava até não haver rasto de sujidade ou poeira.

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Sombra Chinesa

 

As manhãs de domingo eram dedicadas à venda. Nos intervalos da roupa a corar, do banho dos homens, do apurar do almoço, de um ferro de brasas a pegar e chispando faúlhas pelas aberturas laterais, um corrupio de vizinhas vinha pelas novidades. Entravam a endireitar ganchos no cabelo, apertando o avental na cintura, sacudindo a água que ainda pingava das mãos. Murmuravam um dá licença prosaico, davam os bons dias e eram todas olhos: desvaneciam. Nascia-lhes alma nova, que ao pobre qualquer nada satisfaz, e até esse nada se lhes furtava em demasia.  Sobre a mesa e a cama, em pose convidativa, confortava-as uma luzinha de cidade. Perdiam-se em encantamento, boca aberta em admiração silente e quase mística. O olhar percorria as peças num contentamento e só depois, quando o preço e as prestações eram estabelecidos, lhes sobrava uma tristeza melancólica do quase nada que podiam levar consigo. E algumas ficavam-se pelo benefício da visão. Ele eram as pequenas delicadezas do nylon; a subtileza de encaixe em púdicas e ansiosas blusinhas colegiais, gola subida e rendada; os apelativos conjuntos de dralon em tons pastel, o casaquinho ilustrando a suprema elegância do pobre: botões de madrepérola; pequenas joias de pechisbeque que faziam os encantos de quase todas – brincos, camafeus e anéis de pedra azul, verde, vermelha; calcinhas de folho pregueado, um modelo no cartão a exibi-las, pernas até sei lá onde e elas esperançosas, quem sabe se eu assim; sorridentes gorros infantis que apetecia comprar aos pares, no prazer de vê-los aflorar o rosto dos seus meninos a que chamavam gaiatos a vida toda; suspensórios masculinos de largura e natureza diferente dos que apreçavam nas lojas da vila e muito mais bonitos, que bem ficariam nos seus homens, apostavam de si para si que nem o pneu da barriga se notaria.

Nesses anos, também eu beneficiei das vendas caseiras. E, manda a verdade que o diga, a vendedora tinha-me particular estima e trazia peças que subtraía a outros olhares, ainda assim a cobiça não as arrebatasse. Devo-lhe pequenos mimos que, aliados aos presentes que me foram na mala quando parti a estudar na vila, nos reaproximaram. Minha avó encanecera e faltavam-lhe as forças. Caminhava apoiada numa cacheira também chegada da capital. Mas gostava desses particulares comerciais e juntava o que podia para os meus alfinetes. Se eu chegava de fim de semana, o que nem sempre acontecia, enfiava-me uma nota pequena na mão dizendo a antever o meu glorioso contentamento, vá, vai lá ver se gostas de alguma coisa; se não chegar, compras na mesma, a avó depois paga o resto.

Entretanto, o Chico regressou e encontrou a mulher com negócio próprio, facto que beneficiava ambos. Abandonados os receios do Chico e obliterado o chinfrim da mulher a quem tão prolongada ausência magoara o amor próprio, a Zefa do Prado garantindo a quem a queria ouvir que lhe negou a cama e o homem dormira por mais de uma semana no cubículo de Teresa, um divã estreitinho que só visto e em que mal cabia, de certeza os pés a sobrarem do colchão e a enregelar no rigor invernoso. A  permuta de mercadoria encerrou a querela e trouxe  benefício a ambos - propiciou novos clientes e engordou as vendas. Ela em casa e ele por fora. A vida não podia  correr melhor.

sábado, 12 de novembro de 2022

Sombra Chinesa

 

Por entre devaneios que lhe traziam memórias viajantes, a filha do Pelinhos tornava à comparação.  Verificava que, ao invés do conforto do rápido, o comboiozito de duas carruagens parava em todo o lugar, sem falha de estação ou apeadeiro; não conseguia grande velocidade e, em alguns trechos do caminho, esfalfado da corrida, abrandava e seguia arfante e cardíaco, sacudido por um catarro de gasóleo.

Se por ali surgia uma criança, era seguro que escolhia ir de pé frente à janela, nariz esborrachado no vidro e olhos fitos na paisagem que fugia para trás. Mais que estranhá-los, a infância agrada-se dos fenómenos e não era rara a constatação, está tudo a correr para trás com muita força. Os adultos sorriam da descoberta e explicavam que era o comboio que corria, as árvores e as casas estavam quietas. E ela incrédula, cheia de porquês compridos que obtinham resposta de ponto final, porque é assim e pronto. Os adultos transportavam a sabedoria da experiência e os porquês infantis caíam no mundo do hábito e assim ganhavam resolução. Mau grado o que os olhos viam,  as certezas dos adultos faziam a solidez do  chão que pisavam: era o comboio a mover-se e não a paisagem. Fechavam os olhos e sentiam a trepidação e o barulho sacudido das rodas rolando nos carris. E era certo que, mais à frente ou mais atrás, esquecidas as dúvidas, aproveitavam os sacolejos para encetar a cantilena soluçada de  a..a..a..a..a..a..a..a..a..a.., que durava até à repreensão, cala-te com isso. Mas, em cada vez, ela sorria enternecida. O quadro trazia-lhe a infância de Teresa e a primeira viagem de comboio: uma avezita de chapeuzinho vermelho olhando aqui e ali no espanto da novidade. A mesma pose de nariz no vidro e o rostinho pequeno e intrigado virado a si, buscando resposta segura, as coisas estão todas a correr para trás. A infância repete-se em cada criança, mas é repetição que não enfastia. E perdia-se numa nebulosa de saudade, um espinho a roê-la: tão longe de si, com estudos, casa boa, bem vestida e alimentada, a filha decerto a esquecera. Pois se nem a férias vinha.   Deixava-se embalar cabeceando cansaço e desalento. A espaços, erguia a cabeça a situar-se e dava um soslaio à mercadoria.

Perto do fim da viagem, já desperta, amontoava a sacaria junto à porta da carruagem e era ali que esperava até a automotora parar.  Descia de ossos sacudidos e num carrego de se lhe tirar o chapéu, o revisor a dar-lhe uma mão no transbordo da bagagem. Respirava. Finalmente em casa, ali todos a conheciam. Entre ela e o chefe da estação nascera um acordo tácito e sem términus. Moída da azáfama do dia, carregava as compras em duas viagens e ele guardava a bagagem sobrante. Uma vez por outra, a mulher deixava-lhe sobre a mesa de trabalho, junto aos mapas dos comboios, um par de meias, um lenço de bolso, uma bugiganga útil. Agradecia.

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Sombra Chinesa

 

 A viagem de volta quase dobrava o tempo do rápido, mas sentia-se entre iguais. Os passageiros eram gente do campo que faltara ao trabalho e, em extremos de aguçada aflição, se deslocava à capital: por doença ruim; a visitar família próxima - alguém que fora operado e estava mal; a tratar de papéis que só ali tinham tratamento; a pedir em vão por um filho, entregando a trémula haste da esperança nas mãos de um conhecido que partira da aldeia e podia bem menos do que fazia parecer. 

    Quem viajava no rápido era de outro quilate. Esta constatação fazia-a minguar, encolhia. Mesmo em segunda classe, a maioria não era gente de necessidade, aflita com a saúde deste e daquele, fazendo das tripas coração a pedir por um filho, um irmão, sabe Deus por quem. Ali, seguiam senhoras de mise, uma nuvem de laca a exalar, mãos que diziam do trato e descansavam em pródigo regaço sobre a mala de mão. Bem se via pelo jeito de vestir e calçar que estavam estimadas, tinham casa boa, quem sabe se até uma sala com sofás, coisa que só vira nas montras lisboetas e nas revistas e jornais que espreitava enquanto esperava pelo barco do Barreiro. O rápido era um senhor comboio, carruagens a que não se via fim quando entrava na estação. Almofadado de ruídos, galgava distâncias e deslizava nos carris como se mal lhes tocasse. Corria em altiva indiferença, passava veloz e orgulhoso por humildes e escuros apeadeiros, lugares de coisa nenhuma, sem mapa a nomeá-los e onde, de longe em longe, uma tristeza embarcava  - para tantos, uma ou nenhuma vez -, temerosa da capital e seus desertos movimentados, mortificada pela ameaça do desconhecido. 

    Talvez tenha sido por nunca ter posto pé na capital que a aldeia se despovoou quando se soube que Salazar enviava um comboio grátis, com paragem em estações e apeadeiros, para carregar gente até Lisboa. E houve mesmo quem, num rebate de saudade, aproveitasse para visitar família que vivia no caminho. Lisboa. Quase ninguém a conhecia. E tão pouco ficaram a conhecer. Foi a viagem dos sem lugar, que o comboio quedou repleto no local em que formara. Aos que foram entrando depois, coube o aperto conseguido ao empurrão. Os das escadas funcionavam como tampa, apeavam a deixar entrar e subiam de novo a poder de braços e força bruta do corpo, a ameaça por bandeira, ou apertam mais ou na próxima paragem não me mexo daqui. E todos se irmanavam e espremiam um nadinha, no entendimento comum  de aproveitar a benesse. Os mais afortunados almejaram o corredor e seguiam  uns contra os outros, em intimidade de magote colado; outros, aboletaram no irrespirável cubículo da casa de banho. Os felizardos que seguiam sentados pouco viam da paisagem, havia gente encostada nas janelas abertas e não se vislumbrava qualquer espaço livre. Os que seguiam de pé abriam as janelas e seguiam debruçados e a criar espaço, só recolhendo o tronco na proximidade das pontes. Eram eles que avisavam dos perigos e davam novas dos que alcandoravam pelos degraus das portas, a deslocação do ar a despenteá-los, mãos fincadas nas pegas para não caírem  e se esboroarem no chão como torrões, um cuidado expresso na turvação das pontes, e elas num arrepio de trepidação, admiradas, que é isto, nunca um homem fugaz me passou tão perto. À medida das paragens, crescia o suplício. Emparedado de gente, apesar de portas e janelas escancaradas, o mal alastrava unânime. Com excepção dos que viajavam nos degraus exteriores, todos sofriam o caminho em doído sufoco. E lá se foi o sonho de viajarem sentados e cómodos. Talvez lhes tenham dito que seguiam com um fim próprio, mas fixaram apenas “ir a Lisboa de graça”. Santa Apolónia ou Terreiro do Paço e Rossio não lhes ensinaram mais que multidões de gente como eles, uma miséria engravatada no engodo de ver Lisboa. Porque tudo era gente. Gente e mais gente. 

    Mas, se a viagem de ida foi de expectativa, a de volta foi desalento. Chegaram esfomeados, suados do excesso de população no transporte, os fatos domingueiros amarrotados e alguns com rasgões, que a fraca natureza do tecido não era imune a puxões e maus tratos. Muitos dos que planeavam descer no caminho não alcançaram o intento, a multidão comprimida  negou-lhes a aberta, tornou impossível a saída. Aos mais ingénuos, estrafegados em aperto que suplantava o acondicionado de sardinha em lata, foram mesmo surripiados os poucos tostões que levavam. Quando a miséria é demais, os ladrões das coisas pequenas  estão por todo o lugar. E se alguém perguntava o que tinham visto, respondiam contristados, nada; só o Salazar e mais uns figurões a botar discurso.

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Sombra Chinesa

 

 Ao longo da viagem descansava no conforto do lugar, os olhos esquadrinhando a carruagem em modo de adivinhação: aqui, vindo dos confins do Alentejo, o estafeta bonacheirão; ali, um estudante absorto, enfronhado no mundo das sebentas e que, imaginava, viria a ser médico ou doutor de leis; além, uma matrona moralista, boca franzida e desdenhosa, olhos a sopesá-la  da ponta dos cabelos ao sapato raso e andarilho; mais ao fundo, um sacerdote cosido no breviário; na sua frente, uma jovem escoltada pela mãe; de viés, junto à parede do sanitário – que coisa bonita era haver uma sanita e dela se ver a linha férrea, pedras e pedras atravessadas de traves, tudo passando velozmente -, um dândi farejava. Aperaltado em brilhantina e lapela, lenço em pose no bolso superior e cigarro displicente entre os dedos, ia lançando olhares disfarçados que teriam por destino a jovem, mas, sabia-o ela a custas próprias, visavam a mala de mão da mãe. 

Por vezes, o embalo do comboio fazia-a cabecear e adormecia na dolência morna da carruagem, em convidativa oscilação de berço. Não dava pelo fim da viagem e acordava num arremesso, o revisor a cutucar-lhe o ombro, “chegámos”. Estremunhada, olhava em volta estranhando o rápido deserto. E, num repente, o clique da consciência. Apeava-se numa fona e corria desalmada para o barco que aportava ao Terreiro do Paço. Misturada na turba, furava aqui e ali  visando lugar perto da saída. Durante a travessia, no décor de gente tristonha marcando o ponto na rotina das madrugadas, puxava do farnel e fazia o primeiro lanche. Reanimada, punha pé em terra mal descia a plataforma do barco e, sempre numa pressa, saía da estação fluvial e  perdia-se por ruas e ruelas. Queria estar à abertura de portas do primeiro armazém. De um armazém a outro, gastava o dia nas compras. Regressava à tardinha na automotora.  Exausta e ajoujada de sacos. Pairava na carruagem um cheiro de gasóleo que embaçava, mas os bancos corridos de madeira sabiam-lhe a maná vindo céu, tal a fadiga de pés e pernas.  Parecia outra. Ou ela mesma com mais dez anos. O cansaço vincava-lhe o rosto, cheirava a suor e exaustão e não era vizinhança aprazível. Ainda assim, para entrar em barcos e comboios, valia-lhe o corpo que Deus lhe dera. Espontâneos, os homens socorriam-na com a  mercadoria.

domingo, 6 de novembro de 2022

Sombra Chinesa

 

        Ao correr dos dias, a filha do Pelinhos aquietara e dela pouco se falava. Por esse tempo vivia sozinha, o Chico ainda em andanças migratórias. Medroso, o homem convencera-se que a GNR já não abandonava a aldeia e atardava-se pelo Norte. Mas ela era mulher de afrontar perigos. Não parara a venda e escarnecia publicamente dos receios do Chico. Comerciava dentro e fora da aldeia, conseguindo que por ali viessem clientes de lugares vizinhos à procura dos pequenos nadas que fazem a vida dos pobres, agulhas, elástico a metro, botões, uma camisola interior de felpa, cotim para uma calça de trabalho, um xadrez para bibe de criança. Negociante por conta própria, inaugurou um sistema de vendas a crédito, usando meticuloso caderno onde assentava a dívida, o combinado número de prestações e datas de pagamento. O esquema aumentou-lhe o número de clientes e de vendas. E se houve acesas bocas do mundo a alumiar o desplante, muitas a defenderam. Satisfeita, a mãe de Liu via a renda ser paga a horas e, se necessário, tinha o comércio dentro de casa. Mas a Zefa do Prado cegava de inveja pela boa estrela da vizinha contígua. Não pensava na coragem da outra, nos sustos e riscos que corria, nas vezes em que não lhe pagavam os bons serviços. Apenas lhe avultavam as benesses. Invejava as moedas que pingavam, a fama que granjeava, o jeito para vender, a idade ainda florida. E ignorava o mais. Mal a oportunidade surgia, ressumava na conversa umas gotas ácidas. Até quando se condoía dos trabalhos da outra, não enganava: havia espinho disfarçado. Mas, nas suas andanças, a  filha do Pelinhos ganhara tarimba e aprendera a lidar com todo o género de gente. Portanto, levava a malquerença da Zefa à conta da idade e tinha mais em que pensar, o que incitava o rancor da velha.

Quando a mercadoria escasseou e o atraso do Chico a constrangeu, resolveu-se: iria ela a compras. Contra ventos e marés, apanhava semanalmente o rápido das seis para Lisboa e corria os armazéns conhecidos e mais os que, entretanto, descobriu. Das dificuldades e revezes que sofreu nas primeiras vezes, ninguém ouviu falar. No breu dessas madrugadas, ansiava por luar e estrelas. Detestava o inverno, o gume de frio que lhe trespassava a roupa, a chuva tocada a vento e que fazia inútil a sombrinha. Desassombrada, não temia assalto de homem, mas os estrépitos da natureza. Noites houve em que, à conta do nevoeiro ou por falta de luar, não via um palmo à frente do nariz e seguia a tacto, tropeçando aqui e ali nos caminhos de terra que a chuva empoçava. Àquela hora não se via vivalma e ainda os galos eram mudos. Mas, resmungando com o frio, ou empapada de chuva, chegava no horário. Comprava o bilhete a um ensonado chefe de estação e esperava pelo comboio que chegava pontual e a resfolegar, envolto em fumarada. Bem no centro da máquina, qual olho de gigante a alumiar caminho, uma luz potente varria as sombras.

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Sombra Chinesa

 

As atenções da aldeia assestadas em Jaime, Francisca e Nunes foram deixados em pousio. Mas o tempo não poupou os dois. Cada dia que passava sem notícia, parecia eterno. Diariamente, como Penélope, reconstruíam a esperança no anseio de, é hoje, chega hoje a autorização. Era um tempo de coração na boca. Semanas a fio em espera, obliterando os pequenos problemas diários que, paulatinos, ocupam a mente e vão engolindo as horas. A casa resvalava para o desleixo. No jardim, as flores, sofridas do abandono e enrodilhadas umas nas outras, pasmavam de tanta erva e murmuravam para ninguém queixas de caule sufocado por anémico desânimo, como sobrevivemos a esta invasão, que é das mãos e seus cuidados. Dentro de portas, o mais novo, entregue a si mesmo, naufragava no limbo, o ciúme de mistura com a dor do irmão preso, a constatar, não existo, só gostam dele. Contra vontade, nascia-lhe um inferno revoltoso que o surpreendia. A violência de sentimentos desabava como tempestade inevitável. Feito ainda de ingenuidade púbere, iniciava-se no desconhecido. Ignorava o peso da tristeza madura, o desânimo vital de quem assiste sem préstimo à desventura de um filho e a percebe na sua desfigurada permanência. O peso da impotência.

Nessa época de aflições, ninguém na aldeia conhecia pílulas que descansam a mente e trazem ao redil o sono ausente. Era o tempo de tudo sofrer a frio, demoradamente, sem abébias. Nunes entretinha-se com os motores e quase dormia na oficina. Chegava a casa madrugada alta e adormecia de um fôlego. Mas era o primeiro a chegar.  Emagrecia a olhos vistos, uma escuridão olheirenta afundando os olhos mortiços. Era comum responder com monossílabos, um gesto de mão ou um encolher de ombros; por vezes, um esgar franzia-lhe o rosto.

A casa foi silenciando na espera. Falha de vozes, sorrisos, gritos, sussurros, sofria mal o silêncio:  minguava na falta de luz e arejo, criava cheiros e mofos e até os cortinados de pregas airosas deslaçavam sem graça. Algo semelhante acontecia ao filho mais novo. Mas, se paredes e objectos não podiam fugir à condição, o garoto encetou a fuga e começou a atardar-se por casa de amigos. Enredada no desgosto, Francisca quase agradeceu o facto. A tristeza prefere o silêncio, ama a imobilidade e cultiva o vazio. Valia-lhe a ideia de alimentar os seus. À semelhança do Nunes com a oficina, ela confeccionava as refeições e tratava das compras. A quem a via passar alheada de cumprimentos e num desmazelo de roupas; a quem na mercearia lhe conhecia as exigências ora prescritas; a quem a conhecia desde sempre, parecia outra. Havia nela qualquer coisa de máquina manual a que faltava corda.