Mas,
quando o inverno ia a meio arrependeu-se dos ímpetos e variações da água e os
dias abriram criadores. As manhãs desembrulharam um solinho amarelo que se
aguentava até meio da tarde e tingia o ar do mundo, pintando-o em tons de friorenta
palidez que o oblíquo dos raios solares amarelecia. Depois das quinze, chegava-lhe
uma névoa crescente e esmorecia de todo. Logo, logo, a noite apressava-se, qual
dama avançando em passinho nervoso. Grata
ao benefício do tempo que convalescia, a aldeia aproveitou o hiato e tomou
providências: rachou lenha; pôs os animais no pasto que assomava em frescura
verde; perdeu-se pela humidade dos pinhais e, sacudindo ninhadas de cogumelos,
trouxe gravetos e paus que enfeixava, mulheres e crianças carregando-os à cabeça em
alarde de força e equilíbrio, uma mão a sustentar aqui e ali os pendões da
lenha; as velhas encheram os estendais de farraparia, pernas e braços bailando ao
vento e que elas recolhiam mal o sol começava aos desmaios; e seguiam para casa, um alguidar de cogulo à ilharga, deixando para trás o baloiço dos arames vazios; os garotos voltaram à rua e, depois da escola, aproveitavam a claridade por obrigação ou brincadeira. O sol de inverno era sangue novo.
Foi
talvez esse espírito alegre e diáfano que fez menos redonda a admiração do povo
quando, por um princípio de tarde, deu com Jaime pacatamente sentado na rua de
Zefa do Prado que lhe puxara a cadeira do quarto, a única que tinha. Conversavam. A velha ia zanzando por ali, uma mão nas flores
outra no vasculho. E num dedo de conversa, dizia a quem passava e se detinha, quem havia de dizer que o Jaime me
vinha visitar, veja bem que ainda se lembra dos rebuçados de mentol que lhe
dava em pequeno. E ele sem palavra, sentado muito direito, costas acompanhando o espaldar trabalhado, um meio sorriso
no rosto e a confirmar de cabeça. Talvez houvesse gente a quem intrigava a súbita
proximidade, Jaime não era de se meter dentro de casa das pessoas.
Conheciam-lhe o carácter, sempre preferira o campo aberto e a lonjura e nem dos
antigos colegas da primária parecia ter saudade.
Mas
os dias eram curtos para debelar a sujidade acumulada e nos campos havia muito dano
a reparar. Homens e mulheres agradeciam a chuva que lhes trouxera algum
trabalho em herdades e quintas de nome, enquanto por casa, velhos e crianças
faziam o que podiam para retomar o quotidiano: limpavam paredes cheias de
escorrimentos, punhados de fitas castanhas, carris da água desenhados na cal; sondavam telhas partidas
que alguém tinha de mudar; varriam lixo de dias; lavavam carradas de roupa nos
tanques públicos a que tinham de partir o gelo da noite.