Bem
sei que vives à beira do meu quarto. Imagino que gostes mais desta época em que
podes olhar para tudo apesar de não te mexeres do berço azul – sim, fui eu
mesma que to arranjei, chegaste de oferta, bochechudo e nutrido, mas sem cama.
Bom, “olhar para tudo” é força de expressão, deitado, o mais que vês é o tecto
e rostos debruçados para ti. E são tão poucos; talvez só a mim conheças e
ensaies comigo a exclusividade que, palavra, me agrada superior e pecaminosamente.
Pois, para que te escrevo, se estás sempre aqui, ao alcance da mão. Podia
falar contigo. Será para deixar marca. Ou me tolhem as pernitas rechonchudas,
os refeguinhos nos braços, a fixidez de artifício raso na cal dos olhos sem vislumbre
de vaso sanguíneo. Ou vou encontrando desculpas para escrever-te só por gostar
de ti, calcorreando um caminho de arabescos, com espírito de Heidi nas montanhas, que é como quem diz, em pulinhos contentes. É assim mesmo, nas palavras me
procuro, gasto o tempo a desbravar mato em demanda de mim e curtos são os
momentos em que um perpassar de sombra fugidia me acontece. Chama-lhe o que queiras, mero desejo, devaneio
de solidão, arte de sobrevivência. Mas, no recato de um embrulho, refugiado
dentro de caixa segura e com dístico “Meninos Jesus”, ainda te julgo atento a
mim. Ai julgo, julgo. Pura necessidade, coisa tão humana que talvez nem a
entendas embora sejas Deus, ou sobretudo por esse patamar tão fora de nível.
Descansa,
não vim pedir-Te coisa alguma. Vim apenas fazer-te vénia. Agradecer. Ter a
família em minha casa é, em cada ano que passa, bênção aprazada. Não estará
longe o tempo em que não vou ser capaz de tanto e cada um ruma a seu destino. O
núcleo actual vai partir-se em três, cada um com suas prerrogativas. A vida é
mudança. Porém, deixa que te conte esta minha pequena vaidade, todos lembrarão –
por isto ou aquilo – o tempo de Natal conjunto.
Até
hoje, propicias a melhor noite do ano. E isso não tem preço. E dás-me ideias para
prendas. Este ano foste supimpa, as manas até se esqueceram de abrir o resto dos
presentes que lhes dei. Não nego, fiquei ardendo de satisfação e até um
bocadinho orgulhosa. Bem hajas. Mesmo.
Desculpa
se não consegui satisfazer todos os amigos como recomendas anualmente. Mas
sabes que tentei.
Do
que me diz respeito, agradeço-te a meia dúzia de livros tentadores, é prenda
que amplamente me satisfaz. E é claro que voltei a receber chás e canecas de
chá em abundância. Já posso usar uma por semana. Como sobram algumas, tenho
certa esperança de conseguir uma para cada dia do mês. Tu que achas,
conseguirei?! Depois pensamos na logística, né?
E
agora vou mirar-te o branco dos olhos. Pode que estejas a sorrir-me
brandamente. Pronto, para o caso de precisares ou te fazer jeito – o amor dos
homens nunca te é demais -, olha, gosto
muito de ti.
Um menino afortunado por tão bela prosa.
ResponderEliminarContinuação de Boas Festas
Boas Festas, Magui. É sempre um prazer revê-la por minhas bandas.
ResponderEliminarÉ um Menino muito único, lá isso é.
Consigo imaginar o Menino a ouvir o seu pensamento e a sorrir...
ResponderEliminarO Menino de que falo está sempre de sorriso feito, Dulce. Acho que é antigo, moldado em barro escuro e pintado à mão. Vale pela idade que tem; pela vida que levou antes de me adoptar como morada; por me lembrar quem, com amizade, o ofereceu.
EliminarO "Menino Jesus" também me trouxe chá. Entre outras coisas... :)
ResponderEliminarÉ bebê-lo à saúde, nossa e dele. :)
Oh, sim. Já estreei as canecas novas e um dos chás. São sempre bem vindos.
EliminarE até pode que para o ano seja convidada para um dos dois núcleos que se vão formando. Vai, não vai?
ResponderEliminarBrinca, só pode...
ResponderEliminarAdorei. Se o menino conseguisse ler, ficava aqui de coração cheio =)
ResponderEliminarBeijocas
Ele não precisa ler. A ser verdade o que se diz, soube até antes de mim, Cláudia:).
ResponderEliminarUm beijinho
Também gosto de sentir gratidão!!! Bj
ResponderEliminarBoa tarde, Gracinha:).
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