segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Meu Menino Jesus

  

Bem sei que vives à beira do meu quarto. Imagino que gostes mais desta época em que podes olhar para tudo apesar de não te mexeres do berço azul – sim, fui eu mesma que to arranjei, chegaste de oferta, bochechudo e nutrido, mas sem cama. Bom, “olhar para tudo” é força de expressão, deitado, o mais que vês é o tecto e rostos debruçados para ti. E são tão poucos; talvez só a mim conheças e ensaies comigo a exclusividade que, palavra, me agrada superior e pecaminosamente. Pois, para que te escrevo, se estás sempre aqui, ao alcance da mão. Podia falar contigo. Será para deixar marca. Ou me tolhem as pernitas rechonchudas, os refeguinhos nos braços, a fixidez de artifício raso na cal dos olhos sem vislumbre de vaso sanguíneo. Ou vou encontrando desculpas para escrever-te só por gostar de ti, calcorreando um caminho de arabescos, com espírito de Heidi nas montanhas, que é como quem diz, em pulinhos contentes. É assim mesmo, nas palavras me procuro, gasto o tempo a desbravar mato em demanda de mim e curtos são os momentos em que um perpassar de sombra fugidia me acontece.  Chama-lhe o que queiras, mero desejo, devaneio de solidão, arte de sobrevivência. Mas, no recato de um embrulho, refugiado dentro de caixa segura e com dístico “Meninos Jesus”, ainda te julgo atento a mim. Ai julgo, julgo. Pura necessidade, coisa tão humana que talvez nem a entendas embora sejas Deus, ou sobretudo por esse patamar tão fora de nível.

Descansa, não vim pedir-Te coisa alguma. Vim apenas fazer-te vénia. Agradecer. Ter a família em minha casa é, em cada ano que passa, bênção aprazada. Não estará longe o tempo em que não vou ser capaz de tanto e cada um ruma a seu destino. O núcleo actual vai partir-se em três, cada um com suas prerrogativas. A vida é mudança. Porém, deixa que te conte esta minha pequena vaidade, todos lembrarão – por isto ou aquilo – o tempo de Natal conjunto.

Até hoje, propicias a melhor noite do ano. E isso não tem preço. E dás-me ideias para prendas. Este ano foste supimpa, as manas até se esqueceram de abrir o resto dos presentes que lhes dei. Não nego, fiquei ardendo de satisfação e até um bocadinho orgulhosa. Bem hajas. Mesmo.

Desculpa se não consegui satisfazer todos os amigos como recomendas anualmente. Mas sabes que tentei.

Do que me diz respeito, agradeço-te a meia dúzia de livros tentadores, é prenda que amplamente me satisfaz. E é claro que voltei a receber chás e canecas de chá em abundância. Já posso usar uma por semana. Como sobram algumas, tenho certa esperança de conseguir uma para cada dia do mês. Tu que achas, conseguirei?! Depois pensamos na logística, né?

E agora vou mirar-te o branco dos olhos. Pode que estejas a sorrir-me brandamente. Pronto, para o caso de precisares ou te fazer jeito – o amor dos homens nunca te é demais -, olha,  gosto muito de ti.

 

12 comentários:

  1. Um menino afortunado por tão bela prosa.
    Continuação de Boas Festas

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  2. Boas Festas, Magui. É sempre um prazer revê-la por minhas bandas.
    É um Menino muito único, lá isso é.

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  3. Consigo imaginar o Menino a ouvir o seu pensamento e a sorrir...

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    1. O Menino de que falo está sempre de sorriso feito, Dulce. Acho que é antigo, moldado em barro escuro e pintado à mão. Vale pela idade que tem; pela vida que levou antes de me adoptar como morada; por me lembrar quem, com amizade, o ofereceu.

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  4. O "Menino Jesus" também me trouxe chá. Entre outras coisas... :)
    É bebê-lo à saúde, nossa e dele. :)

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    1. Oh, sim. Já estreei as canecas novas e um dos chás. São sempre bem vindos.

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  5. E até pode que para o ano seja convidada para um dos dois núcleos que se vão formando. Vai, não vai?

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  6. Adorei. Se o menino conseguisse ler, ficava aqui de coração cheio =)

    Beijocas

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  7. Ele não precisa ler. A ser verdade o que se diz, soube até antes de mim, Cláudia:).
    Um beijinho

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