Livro de Rute 1, versículo 16
Não insistas comigo,
respondeu Rute, para que eu te deixe e me vá longe de ti. Aonde fores, eu irei;
aonde habitares, eu habitarei. O teu povo é meu povo, e o teu Deus, meu Deus.
Foi
num romance de amor feito em belezas de cordel que li o versículo pela primeira
vez. Então, não fazia ideia do que fosse a Bíblia. O mais sagrado que conhecia
em letra impressa era o catecismo. Dele, lembro crianças lindas como não há, e
figuras etéreas e celestiais, anjos de asa aberta vigiando garotos que
atravessavam pontes estreitas sobre rios caudalosos. Perguntei vezes sem conta
a minha mãe por que razão as respectivas mães os deixavam ir para aqueles
sítios tão perigosos, parecia-me que havia de ser coisa de gente desobedecida. Mas
impressionei com a força daquele amor posto assim em três linhas de letra miúda.
Não procurei saber mais. Os meus sete oito anos estarreciam à profundeza do
sentimento e sua entrega absoluta; e no que nos ultrapassa não se mexe, é assim
por assim ser. Ajudada pela trama do
romance - a frase era posta na boca da heroína e dedicada ao amado -, criei a
noção de se tratar de um amor profundo entre homem e mulher. E assim vivi e cresci sem atropelos de maior.
Curiosamente, foi também numa aula de catecismo que descobri O Livro de Ruth e
o seu verdadeiro sentido. Por qualquer razão, enquanto frequentei o colégio, as
aulas de religião e moral ministradas pela minha querida directora, senhora a
que não consegui até hoje encontrar defeito, cingiam-se ao novo testamento e a
questões da existência para as quais eu não estava minimamente preparada e só
hoje valorizo (custei a chegar lá). Tinha pois dezassete anos quando descobri o
antigo testamento. Foi numa aula de catequese, que se estamos num colégio de
freiras temos catequese até à morte, mas com outro nome. Ali, dava pelo nome de
Grupos de Reflexão. A irmã responsável não se parecia com a amável e sábia
directora, mas dava-nos a bíblia para a mão. Portanto, enquanto ela ia falando,
eu entretinha-me a descobrir pragas e más vontades de um Deus irado e vingativo
e sacrifícios humanos que me arrepiavam dos pés à cabeça mas também me
descansavam, tinha a certeza absoluta que nenhum dos meus progenitores seria
capaz de pensar em me oferecer em sacrifício a um Deus. Foi também por essa
altura que entendi que não há milagres, a fé humana tem perna mais curta que a
mentira e portanto falta matéria prima que os produza.
Bom.
Antes que me perca ainda mais: certa vez de catequese (ou reflexão, se preferem),
ao folhear a bíblia como de hábito, dei de caras com o Livro de Ruth. E eis
senão quando, descubro que as palavras que tanto admirava eram de Ruth sim, mas
dirigidas a outra mulher. Ruth, então viúva, falava para sua sogra. Caí das
nuvens. Muito boas e amigas seriam a sogra e Ruth. Portanto, ao invés de
perderem brilho, as três linhas cintilaram. Creio que existe bem no fundo de
todos os homens essa esperança de encontrar assim um amor devotado, uma amizade
radical de onde habitares habitarei, a certeza absoluta num outro de companhia,
seja ele quem for. Não é um “Deixa tudo
e segue-me”, mas é quase. E se for esperança infundada? Não há esse tipo de
esperança, tudo que se espera existe enquanto espera.