sábado, 31 de outubro de 2020

Um Versículo

 

Livro de Rute 1, versículo 16

Não insistas comigo, respondeu Rute, para que eu te deixe e me vá longe de ti. Aonde fores, eu irei; aonde habitares, eu habitarei. O teu povo é meu povo, e o teu Deus, meu Deus.

 

 

Foi num romance de amor feito em belezas de cordel que li o versículo pela primeira vez. Então, não fazia ideia do que fosse a Bíblia. O mais sagrado que conhecia em letra impressa era o catecismo. Dele, lembro crianças lindas como não há, e figuras etéreas e celestiais, anjos de asa aberta vigiando garotos que atravessavam pontes estreitas sobre rios caudalosos. Perguntei vezes sem conta a minha mãe por que razão as respectivas mães os deixavam ir para aqueles sítios tão perigosos, parecia-me que havia de ser coisa de gente desobedecida. Mas impressionei com a força daquele amor posto assim em três linhas de letra miúda. Não procurei saber mais. Os meus sete oito anos estarreciam à profundeza do sentimento e sua entrega absoluta; e no que nos ultrapassa não se mexe, é assim por assim ser.  Ajudada pela trama do romance - a frase era posta na boca da heroína e dedicada ao amado -, criei a noção de se tratar de um amor profundo entre homem e mulher.  E assim vivi e cresci sem atropelos de maior. Curiosamente, foi também numa aula de catecismo que descobri O Livro de Ruth e o seu verdadeiro sentido. Por qualquer razão, enquanto frequentei o colégio, as aulas de religião e moral ministradas pela minha querida directora, senhora a que não consegui até hoje encontrar defeito, cingiam-se ao novo testamento e a questões da existência para as quais eu não estava minimamente preparada e só hoje valorizo (custei a chegar lá). Tinha pois dezassete anos quando descobri o antigo testamento. Foi numa aula de catequese, que se estamos num colégio de freiras temos catequese até à morte, mas com outro nome. Ali, dava pelo nome de Grupos de Reflexão. A irmã responsável não se parecia com a amável e sábia directora, mas dava-nos a bíblia para a mão. Portanto, enquanto ela ia falando, eu entretinha-me a descobrir pragas e más vontades de um Deus irado e vingativo e sacrifícios humanos que me arrepiavam dos pés à cabeça mas também me descansavam, tinha a certeza absoluta que nenhum dos meus progenitores seria capaz de pensar em me oferecer em sacrifício a um Deus. Foi também por essa altura que entendi que não há milagres, a fé humana tem perna mais curta que a mentira e portanto falta matéria prima que os produza.

Bom. Antes que me perca ainda mais: certa vez de catequese (ou reflexão, se preferem), ao folhear a bíblia como de hábito, dei de caras com o Livro de Ruth. E eis senão quando, descubro que as palavras que tanto admirava eram de Ruth sim, mas dirigidas a outra mulher. Ruth, então viúva, falava para sua sogra. Caí das nuvens. Muito boas e amigas seriam a sogra e Ruth. Portanto, ao invés de perderem brilho, as três linhas cintilaram. Creio que existe bem no fundo de todos os homens essa esperança de encontrar assim um amor devotado, uma amizade radical de onde habitares habitarei, a certeza absoluta num outro de companhia, seja ele quem for.  Não é um “Deixa tudo e segue-me”, mas é quase. E se for esperança infundada? Não há esse tipo de esperança, tudo que se espera existe enquanto espera.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Um Prazer Simples

 

Sou de prazeres simples. Não por mérito, apenas por ser. Constato um perseverante desinteresse pelo rebuscado e entrei naquela fase da vida em que até a dita simplicidade prazeirosa – alguma – me vai sendo negada. É verdade que descartei alguns prazeres simples, mas sonhei manter outros. Que teimam em fugir-me das mãos. E não incluo os efeitos covid na vida que ora vivemos, situação anómala que gostaria fosse temporária e espero não vir a considerar normal. Escrevo sobre aqueles prazeres menores a que tenho apego: nadar, comer de tudo com moderação e gosto, andar, respirar livremente, observar a movida do mundo, beber água se tenho sede, sentir  a gratidão do corpo na harmonia desenhada entre ele e a cama. Mas, talvez por ser esporádico e acontecer apenas uma vez na semana, aprecio vivamente o meu café com leite moreníssimo e a fumegar. Do café, que o mérito afinal todo lhe pertence, amo o aroma intenso e palpitante que se evola mal começa a fervilhar e subir na cafeteira, antevendo-lhe o sabor. Acintosa, espero-o desde a véspera, deito-me a imaginá-lo e não é raro que, nessas benditas manhãs, acorde com os galos. De resto,  espero-o em todos os átonos dias de jejum, que mal a almoçadeira vazia logo a saudade me defrauda, agora, mais oito dias. E fico mudamente a contá-los. Mas quantos vagares caracoleiam por tanta hora.

Dou-me conta de saber viver sem outros prazeres, mas não sei se sobrevivo sem estas bagatelas mínimas. Que não me faltem.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Um Professor

 

Ao longo dos dias – com intervalos, é certo – tenho tentado dilucidar pessoas, situações, objectos e o mais que agradeço terem acontecido na minha vida. Escrevi sobre gente que me ajudou a ser e ficou impressa; sobre vestidos; sobre; sobre.

Mas hoje escrevo acerca do professor que menos gostei e se mantém tão inesquecível como o meu preferido. É talvez ele o verdadeiro responsável por ter seguido Letras e não Ciências, facto de que nunca me arrependi. Esse professor retirou-me qualquer hesitação. Ora isto, bem vistas as coisas, é bastante salutar.

Soube desde cedo  que os números não eram a minha praia. Não sei se por verdadeira burrice, achava-os - ainda acho – desinteressantes. Talvez o mundo seja numérico e por isso harmonioso, talvez haja a beleza da matemática, quem sou eu para duvidar se tive duas ou três positivas em toda a minha incrível relação com a disciplina. Pois. Mas não me interessa. Uso o mundo dos números por necessidade e não lhe passo cartão. Quando o estudei, era pesadelo que o professor escurecia.

Fique claro que as negativas que tinha eram merecidas, sabia pouquíssimo de qualquer assunto e o meu estudo em casa consistia em começar o primeiro exercício e falhar, insistir uma ou duas vezes, apagar, partir bicos de lápis confrangido e fechar os livros. Nos dias de chamadas ao quadro, rezava para não ouvir o meu nome. Se calhava acontecer – oito gatos pingados, como havia de escapar -, o doutor mandava-me sentar poucos minutos depois e pumba, uma nega na chamada. Eu aliviava por me sentar, que estar de pé ao quadro, frente à turma conhecedora das minhas habilidades e com os fosforescentes olhos dele pousados na minha figura, dava cabo de mim; mirravam-me as poucas carnes e as meias até ao joelho caíam-me pernas abaixo, apesar de antes de me levantar as puxar com força. Ora, senti-las a descer era quase tão mau como olhar para os números e não saber o que fazer deles. Mãos e pernas não paravam de tremelicar e tinha um objectivo: voltar ao lugar. Portanto, quando ele trovejava um  “sente-se” irritado e cheio de perdigotos, exibindo o mesmo bom modo com que a gente imaginava na infância o diabo de forquilha alçada a enviar mais um pecador para o inferno, eu ia num instante para o lugar,  as meias a descerem o que faltava. Assim como assim, desde que chegava ao quadro que esperava sentar-me. Fim do suplício.

Para meu azar, o doutor ensinava-me três disciplinas: matemática, física e ciências. Ora em física eu era outro desastre. E portanto tinha duas negativas à secção de ciências, daí dar a caderneta a assinar a meu pai sempre de madrugada. Um olho aberto e outro fechado, ele assinava sem ver, o nome todo torto na linha. Honra seja feita ao doutor: no final do ano, para que eu pudesse transitar, dava-me positiva a uma das disciplinas. Por norma seguia a lei da alternância, se num ano me dava dez a física, no outro o dez ia para a matemática. Os dois sabíamos que não merecia nenhuma delas, que eram mesmo dadas. Mas permitiam-me passar de ano.

Sou grata ao senhor doutor que me mostrou sempre o caminho a seguir e o desobstruíu.

sábado, 24 de outubro de 2020

Uma Peça de Roupa

 

Fiquei a remoer. Afinal, bastavam dois passos e ganhava o interior da loja. Uma vez lá dentro, era obrigada a agir, o vestido bem mo pedia. Dois passos. E havia pelo menos a graça de experimentá-lo. Por via das dúvidas, meti uma nota na carteira, a minha amiga estava certa, podia ter sorte.

Quando saí do barco, a força dos dedos na pega da pasta certificou-me. Nem que fossem necessários dez passos, eu ia entrar naquela loja luminescente. Entrei, perguntei o preço a uma menina importante e era igual à exacta nota que cantava hossanas no meu bolso. No augúrio florescente do custo, tomei balanço e fui prová-lo. Era mesmo o meu vestido. Aquele. Comprei-o num arroubo de gosto e orgulho. Nessa tarde de júbilo, deitei olhares frequentes e inacreditados ao conteúdo do saco e, qual Tomé de circunstância, palpei o macio da peça uma vez e outra, decidida a usá-la no dia seguinte.

Pois em verdade vos digo que o hábito também faz o monge. Bem vi, com estes que a terra há-de comer, as cotoveladas de alguns colegas à minha passagem; ouvi mesmo a frase, “isto, sim” e só não me agradou o determinativo. E também reparei que o lado feminino me pespegava um Bom mais. O meu amor infinito pelo vestido e uma romântica visão da morte trouxeram o apelo caseiro, se eu morrer quero ser enterrada com ele, ouviram; e alinhem os canudos da saia, se faz favor.

Certo dia, a minha irmã mais nova numa excitação, Bea, anda cá ver, a locutora da televisão tem um vestido igual ao teu. Um salto de mola e ficámos em cacho a mirar o écran. Uma menina que encontrava por vezes no metro entretinha-se a debitar notícias,  o vestido a um terço da figura. E o olho crítico do meu irmão sabedor arrematou dando de ombros, ora, o teu é muito mais bonito, aquele nem parece igual. E dispersámos.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Uma Peça de Roupa

 

Desde os bibes de folhos que gosto de vestidos.  Dos vinte aos trinta tive apenas dois e não coabitaram. Era época de calça de ganga, camisas engravatadas que herdava dos meus primos, botas caneleiras e casaco de carneira. Levei dez anos nisto. Mesmo mais.

O primeiro vestido da minha juventude, já o contei algures, era uma nuvem rosada de gregas e florinhas breves que comprei antes dos vinte, mas me acompanhou para além. Levou-me um mês da bolsa de estudo. Eterno nele, o sabor a extraordinária extravagância.

Deparei com o segundo vestido  numa montra da baixa lisboeta. Branco pérola, cortado na cinta, ampla saia de godés. Era um tecido macio e nacarado e a saia caía em cachos junto ao corpo do manequim. Emudeci agarrada à pasta, a minha imagem de parola embevecida no vidro de resplendente transparência. Tinha manga curta e decote em v, abotoava na frente singela e o corpo ajustava com cinto. Tudo nele me agradava, o cair, o comprimento abaixo do meio da perna, a manguinha ligeira, o pormenor do cinto discreto. Não pensei em experimentá-lo e nem ousei entrar na loja e apreçar. Continuei caminho. Durante a tarde, à lembrança do vestido contrapunha barreiras, nem deviam ter o meu número, eu bem sabia que só nos Porfírios de saudosa memória encontrava roupa que me servisse. Oh, mas era tão lindo. Incomparável. Quais Porfírios qual carapuça, aquele era um vestido a sério. E todos os dias eu parava a namorá-lo na mesma exacta figura que me dispenso de repetir, é só subir umas linhas e ela aí. Deitava uns soslaios ao interior da loja, mas o impecável das empregadas resplandecia e, naquele fulgor, a minha raiz campónia imobilizava de chapéu na mão, pés no capacho. Seguia contrariada a desculpar-me mentalmente, perguntar não ofende, o que custa é entrar e ter de falar.  Durante uma semana. No fim de semana, em conversa com uma amiga, contei do vestido. E logo ela me arrasou científica, não sejas parva, segunda vais lá e perguntas, ou pensas que em Lisboa os vestidos não se vendem, qualquer dia queres e não há; e assustam-te as vendedoras porquê, não és menos que elas. E olha, se for muito caro, é melhor fazeres caminho por outra rua, escusas de te andar a moer, atira para trás das costas, há muita loja e muito vestido - no meu interior, não há, não há, não há, para mim há só aquele; por fora, calada -. És tão palerma que nem sabes se não o compras. E mesmo que não compres, não sejas bacoca e faz o favor de o experimentar, pelo menos vestes uma vez. E despachou conversa com um elucidado e exclamativo ora essa.

(cont.)

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Depois da Chuva

 

Depois da chuva, restam ilhas folhudas a entupir a sargeta, coladas no chão lamacento, aguardando vassoura e pá, em montes que o vento armou. Desta vez, o temporal arrancou um ramo da árvore que me guarda a casa e nomeio de Deus Benévolo e trouxe-me orquídeas de um branco pérola. Por entre as camadas de folhas escurecidas e sardentas de velhice aquosa, espreitavam delicadas e pedintes. Eram apenas flores esparsas, arrancadas  à família pelo temporal. As orquídeas de rua florescem em cacho e não creio que tenha ficado uma. Seriam talvez da vizinha da frente e foram forçadas a atravessar a rua. Viraram esquinas e chegaram às traseiras de minha casa em lastimoso estado. Algumas, de corola desdentada; outras, esfoladas dos encontrões; aquelas, acidentadas e murchas. Ainda assim,  não perderam o traço, era visível a finura do recorte, a seda das pétalas, a fragilidade  que tanto lhes pertence. E a vassoura, cheia de cuidados, varreu-as de leve.

Matinal, saí de galochas mas não choveu. O rapaz com olhos de azeviche foi de carro para a escola (muito bem). O senhor Zé contou-me que ontem apanhou uma molha daquelas. Sem chuva, as manas caninas que ontem tinham a gabardine encharcada, corriam delirantes. Depois do temporal, qualquer dia seco é alegria. Faltou-me encontrar uma Menina do Mar para eu pôr num baldinho e passear com ela por aí que tão longe me ficam as amizades. Mas, agora me lembro, não vivo junto ao mar, a minha casa não é a casa branca das dunas. Contudo, encontrei um gatinho que trouxe no colo e é meigo como só ele, o que bastante me empata a lida, mas eu gosto. Talvez seja a minha Menina do Mar, um palmo de vida.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Flores

 

O dia acordou doente por via do sol que cumpriu o horário, mas se apresentou olheirento. E as olheiras do sol espalham o amarelo deslavado pelas horas, uma cor desmaiando em fraqueza, coisa de tom aguado e reles que não vale o que come. Mas eu sei que, lá longe -não assim tão longe, só que a distância  fica bem ao texto, dá-lhe ar de história – o velhote, a Violeta e a Lili já saíram de casa. E temos encontro marcado. Quero dizer, não temos mas temos. Que é como quem diz, eu espero cruzar o trio; e eles, quero eu crer que sim, esperam encontrar-me. Pois é claro que não me apetecia levantar. Bom. Não podemos fazer só o que nos apetece. E o que num momento desagrada daí a dois ou três minutos pode tornar-se agradável. Portanto, além do meu pensamento matinal “tomara a noite para me deitar”, aponho flores: gosto de estar levantada, caminhar faz-me bem à psique, tenho saudades das cadelitas. E mais. Mas até sair de casa tudo está numa confusão de vai não vai, tão depressa penso, deito-me de novo, hoje não vou; como, mas o que fico a fazer já vestida e pronta, depois arrependo-me e não posso emendar que eles já chegaram a casa.

E afinal, saio. A aragem faz-me bem, mau grado a pressa dos dedos nos botões do casaco. Ao fundo da rua deserta pisca o carro daquela garota simpática que vi crescer e agora traz uma réplica no banco traseiro, roupão e chupeta, testemunhas de sono remanescente. Estão ambas às voltas com o trinco do portão da avó. Cruzo-as, a mascote vira-me a chupeta e a mãe sorri-me um bom dia de pressas de emprego. À medida que estugo o passo (ainda estou fresca e, ao cumprimento, entra-me certa vontade de viver) e saio do bairro, elas entram em casa. Na rua seguinte, sei do cãozito guedelhudo e silente que vem ver-me às grades do portão e depois volta para casa. E vejo o esforço daquele garoto que pedala, mochila às costas. Vem dos montes e já fez uma subida mais difícil que esta. Há-de chegar à escola antes dos outros, aquecido e cansado. No primeiro dia cumprimentei-o e ele ergueu os olhos da roda dianteira; no segundo, cumprimentámo-nos; agora sorrimos um para o outro e cumprimentamo-nos. Tem um sorriso tão bonito, ele. São doze ou treze anos e chamo-lhe olhos de azeitona preta. Parece-me que usa óculos mas não tenho a certeza; um dia em que a manhã arrefecia, trazia um gorro que lhe fica lindamente e me fez pensar nos que tenho e inda não saíram do ninho.

Depois encontro o mata-velhos que vai decerto à padaria, ainda o vejo de regresso. Passo mais ou menos incógnita por vivendas de olhos fechados, uma ou outra persiana que sobe, um roupão a desfocar por detrás da cortina. E, mal faço a curva, mais abaixo ou mais acima, o trio. Quando o senhor Zé incentiva a Violeta, atravesso para o lado deles e abro os braços. Ela lança-se como a perseguir um coelho e eu ajoelho na estrada de parco movimento. E ali ficamos as duas no ritual de matar saudade. Entretanto, já mais perto, a Lili corre também e, apesar do ciúme da irmã, consegue chegar-se a mim. Depois chega o velhote que fica a olhar-nos agarrado ao pau com que as toca e que o ajuda. Conversamos uns minutos e despedimo-nos com o até amanhã se Deus quiser da praxe. Há metade por andar, um ou outro agricultor que me cumprimenta, os cães daquela velhota que trata de animais perdidos. Mas o caminho está feito.

domingo, 18 de outubro de 2020

O que o Dinheiro não Compra

 

          Diz-se que o dinheiro não compra a felicidade. Diz-se. Porque também compra. Compra bem estar, paisagem, pessoas, animais e outros eteceteras. E, se bem usado, que é como quem diz, se usado por pessoas de bem, compra mesmo o que não é comprável, afectos. Não por adulteração dos mesmos, a compra só existe porque a largueza económica propicia contactos que em escassez seriam impossíveis, há tempo e lugares desconhecidos de quem luta pelo pão diário. Em suma, apresenta um leque de  oportunidades maior e, julgo, a escolha tem outra qualidade. Basta comparar: a nostalgia de ser rico ou ter meios de sustento alargados existe em todos os pobres, mesmo nos que nunca chegam a formular o desejo; mas a de ser pobre, que eu tenha conhecimento, não existe nos mais afortunados. Bom, é verdade que há uns romances lamechas que apoiam a versão pobrezinha e feliz, género salazarista deixado para trás em alguns espíritos. Outros que se propõem tecer o conto de fadas e desenham a pobreza a misturar com a riqueza. Tenho grande pena desses heróis e heroínas, não me parece que sejam felizes para sempre, facto que é deixado ao critério do leitor uma vez que o escriba dá por bem terminá-lo num momento feliz, em geral o casamento.

         Posto isto, torna-se mais ou menos difícil apresentar “coisas que o dinheiro não compra”. Porque, se não compra todas – e não compra de facto -, sejam alegres ou tristes, vivem-se com mais conforto se os bens económicos abundam; o sofrimento rodeia-se de conforto e mesmo os acasos negativos e dolorosos são vividos com menos angústia. É a vida, que fazer? Vivê-la como nos calhou e tentando sempre mais. Mas, se não a herdámos ou não soubemos conquistá-la, é porque a abastança não tem a ver connosco. De vez em quando convém entender que os moinhos são moinhos.

         Será que ricos e abastados são todos felizes? Nada disso, a má cabeça dos homens  é indiferenciada; os acasos também não escolhem classes sociais; a morte, sendo natural, hospitalar ou não, pode que lhes seja mais suave, mas é morte.

      Portanto, há na verdade algumas coisas que o dinheiro não compra: as leis naturais a que o homem, que também é natureza, está sujeito; os acasos que em muita gente dão pelo nome de destino; a nossa massa genética (alguma já é comprada e com bom dinheiro); a consciência de nós e do mundo que criamos e vamos desenvolvendo. Mas será que estes factores são realmente alheios à economia. É indubitável, sou incerta quanto ao poder da sua garra em tudo que é humano. Basta observar a dimensão da ganância dos homens e os estragos que causa.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Memória

 

Todos temos um repertório de memórias e, se a vida enfia no ocaso, não havendo mal que o perturbe, o leque é amplo e variado. Cinjo-me pois a memórias gratas. Delas aparto as que são íntimas, as caricatas e que lesam terceiros. E já o ramo fica menor. Como dentro deste escalão quase tudo são memórias que brevemente se contam, deixo duas ou três.

Enquanto exerci como professora primária, apenas uma vez consegui levar os alunos da primeira à quarta classe. Foi experiência gratificante e tecemos relações simpáticas. A nossa sala era a mais alegre da escola. Os alunos enchiam-me de vasos floridos que sujavam os nossos armários e os da colega que leccionava à tarde e tinha a paciência que talvez eu mesma não tivesse quando a água da rega escorria armário abaixo.  Bom. Para além disso, na parte superior das paredes, aquela acima do friso, havia árvores desenhadas e feitas com papel de lustro representando as estações do ano (tudo feito por nós, claro). Não contente com isso, ampliados por minha irmã, os bonecos do livro de leitura da primeira classe “O Papu”, pontuavam um por letra, e ficaram até ao final do quarto ano. E havia, é claro, os trabalhos dos alunos. A certa altura, descobrimos que dos leques que os garotos faziam cortando folhas de caderno, sendo cortados de revistas e agrafados uns nos outros, fazíamos uma flor. Então foi um nunca acabar de revistas garridas e de leques unidos e florais que pendurámos nos candeeiros e noutros espaços livres. Era uma sala fantástica. Pois nessa sala fantástica, como é natural, havia alunos fantásticos. E uma das alunas tinha manifesta preferência pela professora, vinha à secretária perguntar os pequenos nadas e ficava ali a sorrir-me até a mandar para o lugar. Certo dia, na resposta a um problema do género, x tem tantos anos e o irmão tem menos tantos, quantos anos tem o irmão, ela respondeu: o irmão tem x anos. E tu, pedrinha de ouro, tens y anos. Bom. Qual relação da sala enfeitada com esta resposta. Nenhuma. Os enfeites cumpriram, enfeitaram o texto.

Outra boa memória que tenho prende-se também com a escrita. Certa vez estava a ler uma ficha de um filho e era sobre a família. Estilo, chamo-me, e um espaço; o meu pai chama-se, outro espaço. E ele com letra apurada tinha escrito no lugar o nome, o nome do pai e no espaço da mãe, a minha mãe chama-se… e acrescentou, eu chamo-lhe fofinha. E era verdade, quase sempre me chamava assim. Não sei ainda hoje onde ouviu a palavra que não era usada lá em casa.

A última que só é última por não me apetecer contar mais, vem ainda da escola, mas já da secundária. No dia de S. Valentim o meu grupo disciplinar enchia a escola de novidades. Como o texto já vai longo, não vale a pena citá-las. Ora, num ano pensei que seria engraçado fazer dois bolos e juntar ao cesto dos bombons de modo a deixar em cada uma das três mesas da sala de professores uma coisa doce. Os colegas estavam assoberbados com trabalho e ninguém se ofereceu. Eu costumava fazer uma torta de chocolate. Mas continuava a faltar um bolo. Não podia pedi-lo aos alunos que já se responsabilizavam pelos bombons e tinham ainda outros trabalhos. Mas numa turma comentei que me faltava um bolo para a sala de professores. No final da aula um aluno ficou para trás e quando os outros saíram, eu faço-o professora, sei fazer um bolo simples nas formas de buraco, se o quiser…era um aluno que vivia a doze quilómetros e se deslocava no autocarro da escola. Saía de casa antes das sete e entrava depois das dezanove. Mas, no dia seguinte, o bolo estava no lugar. Não esqueço o gesto.

Sou uma privilegiada, tenho montes - paletes, resmas - de memórias gratas. Assim eu tenha conseguido retribuí-las.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Um Livro

 

         Foi numa incógnita manhã  que  o  professor de psicologia nos leu, durante uma aula, excertos da obra “O Principezinho”. Começou pelo início do livro, mas só o fez depois de nos mostrar, em folha A4, o desenho que encabeça a primeira página, propondo-nos que escrevêssemos o nome da figura que sugeria. Rendi-me ao livro aos primeiros minutos de leitura.  Reconheci-me em quem escrevia e de quem eu sabia nada. Não recordo o que me sugeriu o desenho que a maioria identificou com “um chapéu”, bem ao modo dos adultos inquiridos pelo escritor-criança e que era afinal uma jiboia a deglutir um elefante. Presumo que tenha dito qualquer coisa como um burro tapado com uma manta; ainda hoje é o que me parece, embora não veja sinal das orelhas. Simpatizei com o que lhe interessava nas pessoas - por exemplo a tonalidade da voz -, enquanto aos adultos importava mais a posição social, é filho de quem, como é a casa onde vive, quanto ganha. Reconheço-me nesse lado infantil: interessam-me a voz, gestos e palavras repetidos, as pequenas coisas que vou apanhando. É um lado que me traz dissabores de vez em quando, mas me poupa outros, quiçá maiores, por não atingir a extensão do mal e tão pouco o pensar. Portanto, vale o que vale, que é sempre baixo valor. Acontece que me poupa mais tristezas do que as que exibe. Se me julguem “um bocadinho poucochinha”, ou até “uma anjinha”, paciência.

Em seguida, o professor leu a passagem em que o aviador cai no deserto por avaria do motor e dá de caras com um garoto que quer por força que ele lhe desenhe uma ovelha. Achei aquela conversa muito própria, mas o aviador nem por isso, parece-me que a arte do desenho não era o seu forte e nem estava para aí virado. Ora o garoto teve a minha total aprovação quando se satisfez até ao âmago com a caixa onde a ovelha estaria a dormir. É que se debruçou sobre a caixa desenhada e conseguiu vê-la adormecida. É obra. Note-se que já tinha rejeitado umas quantas ovelhas, ou por estarem doentes ou por outros motivos igualmente visíveis em qualquer desenho. Mas quem não gostaria de um principezinho  assim.

Depois, o professor continuou a leitura na parte do livro em que o garoto encontra a raposa. Aí, o meu coração derramou-se por aquele petit prince que ensaiou, sem ses nem mas, a amizade com a raposa. Sabiam os dois da separação, ele vinha de um planeta longínquo e a ele voltaria necessariamente, tinha lá a sua flor a que devia protecção. A raposa e o petit prince prestaram-se livremente à saudade. E eu, lágrima à espreita (jovens, tudo os comove), pensando no modo como a raposa passaria a olhar os campos de trigo depois de serem amigos. Uma raposa a olhar amorosamente os campos de trigo é ainda hoje a minha melhor imagem de saudade. Também de amizade. Quanto devo a esse professor de psicologia que nos iniciou em leituras emotivas, capazes de agradar a miúdos e graúdos.

         Um dos primeiros livros que comprei foi O Principezinho, de Saint-Exupéry. Li-o aos meus alunos pequenos e maiores; aos filhos; a mim mesma várias vezes. É o único livro que repito de quando em quando.

sábado, 10 de outubro de 2020

Lugares

 

Há lugares extraordinários, agarram-nos, atam-nos a eles para a vida. Foi assim em Veneza, na Praça de S. Marcus. Em tarde de trovoada, anoitecia. Eu, virada ao Gran Canale, as ilhas em fundo, gôndolas já em camisa de noite, azuis e tontas de sono a balançarem-me aos pés. Fotograma indelével que hei-de recordar enquanto o meu eu se não disperse. Ali me uni ao universo, grata por tal memória.

E há os lugares de que gostamos e num repente, toldados por má memória,  se mudam em execrável negrume.

Mas também existem lugares que nos conquistaram desde o início. Não são belos de estarrecer como S. Marcus, antes possuem beleza suave e cuidada e transpiram atenção de pormenor à simbiose natureza-cultura. Neles sentimos uma espécie de paz incólume, envolve-nos certa doçura clorofílica, cheiros de terra húmida e fertilidade, um constante cantar de pássaros. São fáceis, resguardados e abertos. Podem ser de passagem, de sentar por breves minutos ou estar o dia todo. Oh, pública satisfação. É assim que sinto a Gulbenkian de Lisboa. O Jardim, Museu, Centro de Arte Moderna, cafetarias e restaurantes, tudo naquele complexo de admirável simplicidade me agrada. Lá fui expressamente por música e outras coisas, dei-o a conhecer a muita gente, e quando posso ali paro a respirar livremente, recordando o que não vivi ou vivi noutra vida, a olhar as raízes, veias grossas de árvores que persistem em sombra folhosa e resguardada, alheias ao barulho do trânsito, no rumor da brisa um convite, “vem”.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Surpresa

 

Pronto, é verdade, levanto-me a pensar na Lili e na Violeta. Mais exacto: levanto-me em presteza e cuidados a fim cruzar com a Lili e a Violeta. Ora, ora, há quem se levante para ir olhar o telemóvel (que barbaridade), espreitar as notícias, fazer um xixizinho, tomar pequeno almoço vagaroso e com letras à mistura (eu, eu, eu), correr para o emprego, correr para aqui e para ali que as horas somem quando mais precisamos delas. Ora bem, hoje, dia cinco de Outubro de 2020, não encontrei o senhor Zé com as duas manas a cheriscar por todo o lado. Foi a primeira vez. Um desânimo. Às 2ªs matamos saudades uns dos outros. Oxalá a falta seja por bem. Se amanhã os não encontre, armo em Sherlock e investigo.

Portanto, ia eu caminhando toda desvitalizada, pés  apalermados a desenharem passos de costume, a mente numa insistência bacoca a mapear, cheia de pormenores constrangedores, os metros em falta. Ia eu pensando que afinal, bom, era melhor ter permanecido mais um pouco na cama em dia feriado, e que a República me merecia comemoração preguiçosa. Dentro desta nuvem de Madalena arrependida e capaz de começar a chamar nomes a mim mesma, desejava um relógio de voltar atrás no tempo, queria – se pudesse - anular o vivido e introduzir a manhã virginal. Ansiava por um inverosímil marcador que me plantasse, por exemplo, nas seis da manhã (hey!).

Ensimesmada, ouvi o som sem o identificar, reduzido à captação sensorial. E ia dando passos, prosseguia por hábito, sem que  a atenção se dignasse fixar-se aqui ou ali. Desatentos, não catalogamos o que ouvimos. Mas era um som próximo, insistente. Abrandei (mais) e, coincidente com a identificação auditiva, a imagem: na frente dos meus pés, um gatito branco muito, muito bebé. Parecia caído do céu e, perdido da família, miava desalmado.  Peguei e trouxe-o antes que algum automóvel o atropelasse julgando-o ratazana (parece um bocadinho). Pelo caminho, e para lhe acalmar o susto dizia-lhe, vieste festejar a República, não foi. Pois é uma data boa para travarmos conhecimento, muito prazer, Beatriz.

É tão pequenino que ainda não se distingue com clareza o sexo. Preferia uma gata. Mas tenho a convicção de ser gato. É “esgravulha”, tem unhas muito afiadas (acho que é selvagem, o pêlo espeta todo) e, sendo tão pequenino que nem consegue subir e descer os degraus, corre que se desunha. Vai sobreviver, come como se não haja amanhã e não é esquisito, miolos de pão, ração, leite, tudo marcha. Se o meu gato for uma gata, engana-me e eu gosto. Mas não me enganando, gosto na mesma. 

Portanto, a República (não quem o abandonou) trouxe-me um gatinho. Pôs-mo literalmente aos pés. Viva a República!

 

 

domingo, 4 de outubro de 2020

Um Feriado

 

Vivo sem feriados e dias santos. Ou terei já santificado todos os dias do ano. E não vejo por que não, já que o mundo se deu ao desmando de afixar em cada um dos incógnitos trezentos e sessenta e cinco dias um pergaminho de posse e importância nomeando dias disto e daquilo. Ora, se existem os que a gente agradece, dia da mãe, dia  da poesia, dia mundial sem carros, também abundam os que nos põem a matutar na sua utilidade. Há pouco tempo, liguei o aparelho e era dia mundial dos contabilistas; de outra vez, dia mundial de não sei quê que também me fez rir; tempos atrás, ouvi dizer que era dia mundial da sesta.  Mas por que carga de água não nos deixam a maioria dos dias sem etiqueta, que mania de acrescentar obsoletas importâncias, penduricalhos que só desmerecem da virtude de mais vinte e quatro horas para viver, todinhas incógnitas e à nossa disposição. Felizmente, e como é natural em tudo que é excesso, o povo não lhes liga. Escorrem nas paredes do tempo.

Mas nem sempre fui alheia a feriados nacionais e dias santos de guarda e arrisco afirmar todos serem alívio/pausa no combate. Porém, o dia mais saliente era o feriado do corpo de Deus. Dado que o corpo humano tanto gozo e sofrimento dá a cada um, sempre me pareceu excelente que Deus tenha um corpo (toma! É para aprender o que custa) e que, por via disso mesmo, a igreja, na sua imensa sabedoria, lhe consagre um dia com honras de lazer internacional. Dada a proveniência, temos de reconhecer,  é lança em África. Bom. Sendo feriado móvel, era o que primeiro procurava no calendário. Depois, calha sempre em finais de primavera e gerava a esperança de um dia de praia. Além disso, coincidia com época de assoberbado trabalho e bastas vezes o passei em árdua e necessária reclusão. Enfim, o facto de Deus ter corpo, verificado em Cristo e que se repete no mistério da missa, foi santificado no século XIII e ainda bem. É feriado religioso de grande utilidade laica. Dedico-lhe particular afeição.

Além deste, movem-me fortemente os feriados nacionais do 5 de Outubro, 1º de Dezembro e 25 de Abril. Mas aqui entra o meu espírito patriótico, cujo não sei de onde me vem, mas implantou. Acerca dos dois primeiros: minha mãe era mais ou menos omissa, a professora primária pouco lhes ligava e nem sei se nos explicou a razão das comemorações. Mas teve o enorme mérito de comprar as Fagulhas (revista que devia pertencer à Mocidade portuguesa, tenho memória de figuras com o traje) e me deixar lê-las. Foi na banda desenhada das Fagulhas que aprendi sobre o 1º de Dezembro de 1640. Não me recordo de ler nelas sobre o 5 de Outubro de 1910, facto que bastante me prejudicou num exame (não acertei com a data). Quanto ao 25 de Abril cimentou por minha conta e risco. Ter a honra de viver esses tempos gloriosos e acreditar nos impossíveis que prometiam foi beleza ímpar e irrepetível.

Tenho dito.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

À Conversa

 

         As conversas interessam-me quando não começam com “temos de conversar”, expressão que me parece meio judicial. Conversar é uma evasão e a sua falta de ciência atrai, pisca-nos o olho. Não falo da maledicência e coscuvilhice vulgar, mas de conversas sobre tudo e nada, opiniões que gostamos de partilhar e nos exprimem. Estão fora do grande valor, não são vitais, secretas, ou eruditas. Mas são necessárias, desopilam.

Neste campo, o hábito do telemóvel, mercê de alguma falta de senso, faz-nos surpresas. Ouvimos demais. Ouvimos o que não devemos. Ouvimos sem que apeteça ouvir. Bom. Um dia destes, após enorme trabalho para descortinar lugar vago numa sala de espera, sentei-me afadigada na ponta de uma correnteza de cadeiras. Mais de metade ostentava o letreiro, “não sentar” e uma fita de protecção a atravessá-las, cumprindo o preceito: impedir contactos próximos com estranhos ao meio familiar de cada um, por mor do covid-19. Na verdade, o processo afasta-nos na lateral mas esquece-se da traseira e da frente; as filas formavam quase coladas umas às outras e não sei quem se conseguiria espremer para sentar nas cadeiras vagas do meio; duvido mesmo que cheguem a ser ocupadas. Quiçá seja uma boa forma, mas escusavam o letreiro e as fitas de través, gente que se veja não cabe ali e os invisíveis não precisam assento.

Tudo o que já escrevi, imaginem, são apenas preliminares para uma converseta que ouvi à minha vizinha de trás em quem, na febre de me sentar, não atentei. Pois dizia uma voz feminina, quêrida, mais eu tô adorando o qui cê feiz pra mim (aqui intriguei, quem seria a interlocutora?!). Depois de um espacinho continuou, meu marido mi pêrrgunta todo o dia, cê hoje quem é? E dá uma risada gôstosa. Qui eu onte átei e ficou lindo, veja só. Estou amando di vêrdadji meu tiquitáqui (o que seria o tique taque?!). Mais hoje deixei ele pra corrê (?). Olha, cê faiz pra ela assim (pausa; e depois decidida)…podji sê, mádeixa di duass coriss, viu?! (entendi que era assunto de cabeleireira e havia uma cliente nova provavelmente indecisa; apetecia-me virar para trás; talvez ela vendesse aquelas bugigangas habituais e uma fosse o inquietante tique taque, seria um relógio?! Não, bomba não era, a mulher estava contente, ria bastante e tratava carinhosamente a interlocutora)….Deixa ela bem bonita, vai vê fica qui nem eu, cola em você (risos) ah, não, eu confio sim, cê nunca mi disaponta (Ôba, quem será essa profissional espantosa), mais meu tiquitaqui, amiga, tá dimais, amo eli di paixão. Olha cê lembra aquela dji canudinho souto em cabelo naturáu, quando chega, guarda prá mim, fiquei amando ela e vai-mi ficá beim (perucas, perucas! Ou seriam só uns apanhados; hummm, o tique taque tinha a ver com isso decerto, de repente), chamaram meu nomi, ti ligo já, já (beijos ao telefone). E passa na minha frente uma negrinha bandeada e de portentosos calções (eram calções curtos de algodão em tom cinza, mas portentosos por mostrarem umas pernas impecáveis que subiam por ali acima onde tudo avultava qualidade). E vai daí, a menina tinha cabelo comprido e meio liso, atrás cortado em v e que se espalhava pelas costas naquelas ondas que o nosso verão curtiu, bem largas e deslaçadas, a ponta do v quase na cinta. Pormenor: metade do cabelo era castanho normal e a parte inferior brilhava em castanho dourado ou seria louro escuro. Estaria eu em presença  do tiquitaqui?!