segunda-feira, 31 de maio de 2021

Sombra Chinesa

 

Finda a quarta classe, minha avó decidiu que devia  continuar os estudos na cidade e, após demorados concílios com a amiga, ficou assente que me enviava para casa de madrinha Felícia. Não me agradou a solução. À beira de abandonar a vida de sempre, achava que sem a Liu nada me podia correr bem e nem tinha a mesma graça, faltava-me a companheira de brincadeiras, a confidente, a amiga que me esperava paciente e não saía para a escola sem mim. Mas, acima de tudo, pesava-me ficar longe de minha avó.  Suportava mal que não estivesse à minha beira, tomando conta. Espontâneo, vinha-me à memória o impressivo “colegial” de Régio, a saudade materna a assombrá-lo. Lera e relera o poema, verso a verso, num livro da biblioteca escolar e memorizara mesmo um pedacinho,  “ se não fora eu ter-te assim/ sempre à beirinha de mim/ já teria morrido/ ou já teria fugido/ Ou já teria bebido/ algum tinteiro de tinta”. Via-me já romanticamente a escrever cartas compridas a minha avó, mas, agruras do destino, ela não lia nem escrevia. Portanto não teria qualquer resposta. Pelo que, de pronto me senti muito mais infeliz que o poeta, além de me faltar o apoio materno que o assistia, minha avó era iletrada. Quem sabe se não morreria mesmo de saudade. Por seu lado, Liu negou-se peremptória à correspondência aduzindo com alguma lógica que nos veríamos todos os fins de semana, não gostava de escrever e em sua casa não havia dinheiro para minudências. Compreendi que estaria por minha conta em lugar estranho e, num aperto,  só madrinha Felícia me podia valer. Portanto passei à análise da amiga de minha avó, pondo de um lado semelhanças entre as duas e do outro – bem mais importante –, as diferenças. Mas resultou estudo tão frustrante que o abandonei pela metade. Cumpre-me dizer que, imbuída de amor já saudoso, para além da idade e alguns gostos culinários, pouco encontrei de semelhante entre as duas. Minha avó surgia-me incomparável. No concernente às diferenças, as qualidades de uma correspondiam aos defeitos da outra. Não antevia nada de prazenteiro no meu percurso académico de curto prazo.

Entretanto, a velhota lavava vigorosamente as roupas dos seus senhores e gastava os dias no tanque. Na escassez de tempo livre que conseguia, dava-se a pormenores de enxoval que me maçavam, fazia-me experimentar combinações sem donaire que ganhavam forma na velha máquina de pedal. Mas, depois de observar os saiotes de Teresa, todas as combinações artesanais - às florinhas ou bolinhas -, me pareciam irrisórias e resmungava sem rebuço por ter de me despir para prova de artigo tão patusco. Ela olhava-me por cima dos óculos da costura e nada dizia, olhos pedindo mudez. Na minha inconsciência, ignorei a súplica silenciosa. Não me faltou a crueldade da infância. E o meu enxoval ia crescendo dentro da maleta que teria de carregar até casa de madrinha Felícia.

Foi na véspera da partida, quando minha avó contava as peças e lhes acertava vincos arrumando-as, que me dei conta do pouco que possuía. A mala era pequena, havia duas combinações a estrear, mas sobrava muito espaço. Foi então que a filha do Pelinhos nos espreitou ao postigo e perguntou se podia entrar. Minha avó abriu a porta intrigada e ela disse muito depressa pondo um embrulho sobre a mala aberta, isto é para a sua neta, já não serve à Teresa e talvez lhe dê jeito lá para onde vai. E saiu como tinha entrado. Açodada. Silenciosa. Corri para o embrulho. Continha duas combinações de nylon com folhinhos e rendas e dois saiotes rendados e de armar. Em embalagens individuais, duas cuequinhas iguais às combinações.  Minha avó quedou pensativa desdobrando os macios do nylon e murmurou vagarosa, isto é novo, as combinações não têm repelão de uso ou lavagem. Acrescentava um silêncio comprido e voltava meditabunda, isto é novo. Depois, como a desculpar-se não sei de quê, talvez os saiotes fossem da garota, mas o resto… Mas eu desvanecia mudamente, interesses basilares a fazerem-me o norte: eram artigos que jamais sonhara ter. Bonitos e meus. Incrível.  E icei de novo a filha do Pelinhos aos píncaros. Não obstante, até à hora da partida, minha dilemática avó intrigava face à mala, quem sabe, surripiou as peças ao caixeiro viajante. É que nem posso ir agradecer ao homem, ainda assim ele não saiba do fraco negócio e dê cabo da vida à rapariga.  

quinta-feira, 27 de maio de 2021

O que ando a ver

 

Herdei o teu gosto pelo cinema. Veio-me de ti e do tio. Não conheço ninguém como nós três para se dependurar num filme. Mas viste apenas três fitas na vida. Uma de Joselito, outra sobre a vida de um toureiro que presumo espanhol e outra com Sarita Montiel, La violetera. Lembro-me de primas e tias te pedirem para os contares. Era um encanto ouvir-te contar. Gostarias destes tempos. Que prazer,  poderes sentar-te em casa a descansar e ver um filme. Tu que recusaste sempre fazer parte do ajuntamento palavroso de mulheres, raparigas e crianças viradas ao pequeno écran. Hoje podias, desde o sofá, dar rédea solta ao sonho.

Por razões diferentes das tuas, aborreço a tv e uso a rtp play para alguns programas. É assim que assisto a série “Vento Norte”. Vejo os episódios contigo, com a parte de mim que és tu. E, portanto, estamos ali as duas, episódio a episódio. É bom que decorra em Braga, cidade de que nem sei se ouviste falar, mas eu conheço um bocadinho, já lá estive. Por certo foste comigo e também gostas da cidade. Também sei que actriz preferes na série. A bem dizer são duas: Natália Luísa e Margarida Carpinteiro que, por acaso, também fazem o meu gosto. E gostas de Almeno Gonçalves, sei que gostas. Como eu. Calcula que até julgo que uma vez me bateu à porta. Mas também pode ter sido alguém com os olhos e o sorriso dele e eu fiquei a pensar, com quem é que se parece; e lembrei-me que era com Almeno Gonçalves. Outra coisa que te cativa em cada episódio são as roupas. Aprecias os figurinos de época, enlevas com modas tão do teu agrado. Nesta série, tens muito por onde. Só me surpreendi quando O nosso cônsul em Havana me apareceu de Oliveira Salazar. Ora esta. E eu a fazê-lo tão longe.

Hoje assisti um filme que não sei se gostarias, temos apenas um pedaço comum de dois. Chama-se “Lara”. Digo-te, o cinema alemão tem boas surpresas. Verifico que os filmes europeus têm o supremo dom de não me parecerem filmes o que os torna ainda mais saborosos e estimulantes. Deve ser um sentimento de pertença, amor ao berço, sei lá. 

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Raios de Sol

 

         Os meus dias são tocados a sol. O sol dinamiza o espírito, que a carne se fecha em indiferenças a alterações climáticas, não fora o caso de algumas fazerem estragos e uma pessoa duvidar se vêm por bem. Mas o sol. O sol que lembra areia e praia, horas de ângulo raso na calma quase deserta de gente, um dolce far niente muito palpável e de que se ocupa  o meu inteirinho ser animal e sensitivo, em gozoso mistério de absorção. Mar e areia. Tudo envolto no meigo abraço do sol. Que mais se pode desejar. É o que me lembra este cálido soalhento que hoje marcou presença. Mas o assunto é outro. E tal.

         Bom, depois de muito mais de um mês sem um único passeio, falha das minhas amigas Violeta e Lili e a viver sem aquele bocadinho de não sei quê, digo-vos, a retoma horária não tem sido fácil. Deixou de me apetecer andar. É isso. Mas depois não vejo aquelas garotas envelhecidas, todas remelosas, pêlo sujo e despenteado. E nem o senhor Zé que já entendo tão bem e traz no pescoço a máscara enxovalhada. Permanecer em casa dias a fio não dá saúde, e quanto mais doente, maior o desejo de adoecer. Portanto, evito.  

Terá sido por acção do sol e das tais garotas que o passeio melhorou. Que eu melhorei. Mas não só. Começou com um grande sorriso que me fez alguém de dentro de uma carrinha. Logo hoje que esqueci os óculos. Mas era um sorriso tão bem disposto e de quem me conhece –  cruzámo-nos numa curva e a carrinha abrandou -, que tentei corresponder. De seguida, a Violeta lobrigou-me por entre as falripas  e fez o sprint habitual, o dono sentado no muro com a Lili aos pés.  Cumprimentámo-nos efusivas e, ainda eu não me sentara - muito rápidos são os cães –, já ela estava em espera sobre o muro, pronta a pular-me no colo. Sentei-me e veio fazer ninho enquanto a pobre Lili que já não pula nada (está pior que eu), empinava aos meus joelhos. E o senhor Zé ia dizendo, a Violeta é muito coleira, mas a Lili nunca quis colo. E, a fazer conversa, contámos uns diminutos; pergunta-me pelo gato e conto-lhe que é jovem e gosta de colo e mimos, mas também não consegue pular para o colo e nem para uma cadeira. Sobe árvores com desplante nunca visto, mas não pula por ser gordo e perna curta. Rimo-nos e continuo caminho. Não lho disse, mas desconfio que este gato não seja muito normal. Contudo, tem olhos azuis.

         Já noutra rua, encontro uma senhora talvez uns anos mais velha que eu. Anda limpando o exterior da casa e queixa-se dos serviços municipais. Concordo e digo para mim que devia imitá-la, apesar de reconhecer que não nos pertence tal trabalho. Reparo que anda um galinho com ela (é mesmo galo pequeno, não é uma ternura para com o bicho). Por entre outras diatribes, diz-me que o galito a segue por todo o lugar, só não entra em casa. Avanço, não vai matá-lo, pois não. E ela escandalizada, oh minha senhora, nem pensar, eu gosto tanto dele como ele de mim, já o tenho há quatro anos, criei-o de bebé porque os outros lhe mordiam, tinha que o trazer no bolso. Fiquei a pensar nela a trabalhar na quinta com um pinto no bolso. E lembrei minha mãe que também fazia isso quando as galinhas os enjeitavam (há galinhas um bocado parvas, o mal não dá só nas pessoas). Então a senhora contou-me que, se toca o telefone, o galito vai chamá-la e, enquanto ela está a atender, se farta de cantar. Nós duas não estávamos ao telefone, mas ele desatou a cantar. Penso que seja por ciúme da atenção da dona. E ainda me contou que, sentando-se numa cadeira, logo o bicho se lhe deita aos pés. É um gato ou um cão que tenho aqui, rematou orgulhosa.

Gosto daquela senhora que pouco vejo. Passo e imagino-a perdida em tarefas lá para os meios da quinta. Tem um filho algures em Lisboa e uma netinha que todos dizem, linda, linda. Vive só, os animais por companhia. Dá guarida a cães abandonados e o Município assegura a ração e paga o veterinário. Tem vários gatos e este galinho. E bom coração.

De certeza o caminho encolheu. Ou estarei a entrar nos eixos.

domingo, 23 de maio de 2021

Sombra Chinesa

 

        Corria certa modorra isenta de novidade quando a aldeia alvoreceu e o carro do caixeiro viajante plantado na rua da Liu. Toda a gente esperou novos desacatos, porque aqui d’el rei aquilo era um mau viver, e porque torna, e porque deixa. Mas, desilusão atrás de desilusão, a filha do Pelinhos aceitou o homem sem ruído e, a quem passava, parecia mais amena no cumprimento diário, facto que chamava bichanice condensada num único termo, amansou. Teresa era a mais exuberante. Todos a notavam alegre, como se a companhia masculina lhe adubasse a vida; e era certo,  à segunda-feira exibia o orgulho de uma prendinha que mirávamos em desvanecida inveja.

Da harmonia familiar nasceu um jardim tratado em actividades de fim-de-semana e onde Teresa pontuava de sacho na mão, mais estorvo que ajuda. Para mostrar o entrosamento, umas tardes por outras, o não me toques, alcunha do caixeiro-viajante, pessoa muito dada a calças de vinco e camisas passadas a ferro, juntava-se aos homens da aldeia e abancava na taberna. Jogava o chinquilho e a malha com garbo e pontaria quase infalível e muito invejada, e finalizava, perdulário, com rodada paga a todos. Se as vendas e a distância permitiam, pernoitava em casa e, no verão, era vê-lo à boca da noite na soleira da porta, descansando em cadeira de lona, ou a tratar do jardim. Mas quando se perdia pelas serranias do norte português, madrugava na saída e só estava de regresso no sábado seguinte, já a lua ia alta no céu. Desse tempo, conservo uma única e intrigante lembrança da filha do Pelinhos: era, de entre todas as mulheres da aldeia, a única que não usava avental ou bata e me parecia sempre vestida para sair. Minha avó, como muitas outras velhotas, usava um avental escuro sobre as saias. As mulheres mais jovens puxavam-se de brios e punham aventais vistosos, abundantes em folhos, flores garridas e botões coloridos, garridice de pobre. Eram aventais de laço caprichado e longo nas traseiras, com bolsos realçados por rendas ou avivados a cores, roupa de quem deseja agradar também pelo traje caseiro. Grande parte das mulheres maduras preferia a bata abotoada à frente, inóspita simplicidade que lhes acompanhava e protegia o vestuário. Era peça que não pedia galanteios, funcionava. Usavam-na as mulheres de muito ano e muita canseira no casamento e cada um tire do facto as razões que entenda. Quanto às velhas e seus arreios, o avental era peça de roupa costumeira, sem ele, sentiam-se meio vestidas. Não as alindava nem desfeava, estava-lhes no hábito da fardamenta. Mesmo as que já não urdiam em qualquer tarefa, mesmo a essas se cingia o avental. O avental confere certo sentido às mãos, esconde-as nos bolsos; mãos ansiosas torcem e enrolam o avental enquanto a conversa flui ou emperra; limpam-se as mãos molhadas ao avental. Por outro lado, bolsos de avental ou bata são um limbo, guardam pequenas coisas apanhadas aqui e ali, sementes, dois ou três grãos de milho, botões, elásticos redondos, uma chave, um pedacinho de lápis, aquela florinha minúscula caída na terra. Pequenos nadas ainda sem lugar. Mas a filha do Pelinhos pisava forte e não precisava bolsos, não pretendia deixar semente, prender-se a recordações aldeãs, sujar-se nas coisas pequenas da existência miudinha. Não pensei que se sentia estranha. Pensei que desejava ser estranha.  

sábado, 22 de maio de 2021

Amargo-Doce

 

A vida -  quem sabe se  nós mesmos - compraz-se em alterar planos, rebentá-los como balões, tornando o que muito se esperou em triste e fedorenta amálgama de lixo. Assim nos acontece. Esperámos-te em dias vagarosos e iguais, mês após mês. Esperámos-te sempre. Por mais de um ano. Talvez em egoísmo feroz. Sem ti, somos corpo incompleto, ausência de braço ou perna. Perpétuos recém mutilados,  sofremos de formigueiro inexistente, que apetece dissolver em coceira de dedos. Mas, desiludido caminho onde nada nos espera, há apenas vazio mitigado por fotos e vídeos que não preenchem, não chegam a botox da saudade.  

Num ápice te anuncias. E logo te preparo a casa e me dou a trabalhos redobrados. Arejo e alindo-te o quarto, deixo-te a cama pronta a usar, um bouquet florido em jeito de boas vindas. E sei que o pai te respira na ausência e é para matá-la que vive, que sempre lhe exististe sobre todas as coisas e mais que ninguém. A ti que ele tanto quis fazer desaparecer e que só nasceste por vincada e muito sofrida determinação materna. Azar dele estares tão irremediavelmente longe. Depois de gorada a suprema esperança de um neto médico,  és nascente única da alegria. A sua cabeça dura mantém incólume a distinção entre machos e fêmeas. É quase a contragosto que lhe existe uma fêmea que beneficia de excepção ligeira, por inaudita semelhança ao tronco materno. E igual para os netos, o único que verdadeiramente lhe existe – é o continuador da estirpe –, pouco o conhece e, mal cresceu, logo deixou  de o visitar. Dos restantes não reza a história, descendência de filhas apaga-se, desvanece. Curiosamente, uma luz verde brilhava no ramo que menos prefere, mas, a medicina e o bom carácter desculpavam a ascendência, pacificavam-no. Desejo esfumado, ficaste apenas tu.

Mas a  vida não esquece. E vai sempre castigando. Com afinco. Perseverante. Talvez nem tudo se pague por cá. Contudo, penso com alguma frequência na razoabilidade de palavras que ouvi a Tolentino Mendonça, “o inferno vive-se aqui e não em outra vida”. Tu, que és o menino de seu pai; tu, por quem ele vive, encarnaste os seus defeitos com tanta perfeição que chegado ao meio século, sentamo-nos à mesa e pareces ele sem necessidade de fechar os olhos, fingir de. És a infeliz versão dois que até agora ninguém quis ver por mais avisos que emitisses. É sempre mais fácil não ver, estás tão pouco tempo, o que custa fechar os olhos a uns dias, ou mesmo um mês. E sinto que ele se revê. Não nos podemos ver a nós mesmos, mas vermo-nos projectados num filho pode virar horror. Embora nunca ele o comente deste modo. Não sei se crê nas desculpas que inventa. No meu caso, confesso, exaures-me de forças. Aniquilas-me. Levantas por tuas mãos muros de desânimo. Não foi para isto que te amparei. Terá sido amparo insuficiente, mas, nessa época, havia tanto a fazer . Bem sei, é desculpa para a falta de presença contínua, talvez tenha enfronhado nos estudos para esquecer problemas e lhes fugir e com isso vos tenha prejudicado, as crianças precisam de estabilidade emocional, coisa que só encontrámos uns nos outros e aos bocadinhos.  Sabe, porém, que só hoje o penso, na altura pareceu-me ideal não ter um minuto de descanso, viver a correr e de um lado para outro, no desafio de esticar e testar a corda da doença que tão perto me espreitava. Hoje já o sabes, a juventude é mesmo assim, quer ir sempre mais além.

Desculpa, urge fazer-te justiça, não és cópia idêntica em tudo. És terno e ele não; abraças como um tio que temos, pondo à vista a tua ligação ao lado materno. E preservas o afecto familiar, tens  o desvelo e carinho pela família que lhe falta, amas de raiz mulher e filhos. Pois sabe que não me chega tal disparidade. Temo por ti. Quando uma vereda beira o precipício, a gente não caminha por ela. Parece-me tão solitário e suicida esse caminho para que encontras justificações irrisórias e mesmo estúpidas.

Vens. Ergues bem alto o botão de rosa da nossa esperança. Porém, ainda nem bem nos deleitámos com o aroma da flor, já nos enterras o espinho. Tem dó.

terça-feira, 18 de maio de 2021

Sombra Chinesa

 

Teresa não fizera amizades especiais na escola e nem nós, as vizinhas mais próximas, lhe dedicávamos grande atenção. Antes da sova, era conhecida por “pãozinho sem sal”, pessoa sem particularidade ou jeito saliente, que, em brincadeiras e jogos, não adiantava nem atrasava.  Mas a brutalidade materna, criticada até por progenitores de faiscante mão leve,  guindou-a aos píncaros do diz que diz. A coberto da lua nova,  a mãe fora por ela ao lar de Casimira e ficara dias a fio fechada em casa. Do que a velha lhe disse, nada constou, Casimira sabia ser tumular.

Na hora da chamada, ainda a professora não proferia o nome, já o coro, minha senhora está doente. Regressada, Teresa foi o centro das atenções. o círculo da morbidez infantil cingia-se aos sinais de maus tratos, pedaço de corpo onde campeasse inchaço ou nódoa negra era muito requisitado. No meio do círculo de cabeças e ombros  que se apertavam uns contra os outros dominava a atracção. Cheia de cuidados, Teresa tirava os óculos e entregava-os à parceira, põe na tua mala. Em círculo imperfeito e de estar inquieto, um passo atrás um passo à frente,  cotovelada à esquerda ou à direita,  guinchávamos, chega-te para lá, deixa-me ver; estás a tapar-me a vista, desvia-te um bocadinho. Fixando-nos com olhos desabituados, o olho preguiçoso e o olho bom, cada um contente do outro, a garota estendia os braços e as pernas apontando rubros e assanhados  arranhões pintados de mercurocromo. Mas não surtia. Precisávamos mirar  as negras, vasculhar na íntegra o mapa da judiaria materna, observar a carne pisada e já a esverdear, os mais imaginosos adivinhando rasto de sapato, olha ali onde ela assentou o bico, estás a ver.  E até, aqui e ali, se encontravam meias luas sangrentas, sinais inequívocos de ovaladas unhas. Que a filha do Pelinhos, quem não sabia ficou a saber, tinha mãos de senhora, não andava à monda e nem sabia mexer com ancinhos e enxadas.  Servira em casas de rico e logo embeiçara pelo pai de Teresa, rapaz galante e verborreico que se aprestava a alombar na moagem com os sacos de farinha, um saco vazio do avesso, dobrado a meio pelo comprimento  e enfiado na cabeça como carapuço que fazia cama às costas. O moço vivia dobrado numa poalha eterna, cabelo, pestanas e sobrolho de neve, mais branco que se demolhado em lixívia pura. A fazer fé nas más línguas, tinham fugido juntos porque “o galego” a engravidara. No excesso de conversedo, o que antes era segredo deixou de sê-lo e até nós as crianças ficámos por dentro da história, mau grado lacunas e situações que não entendíamos e nem arriscávamos perguntar.  Quanto  a Teresa, fez sucesso com o mapa-mundi do corpo. No entrementes de  levanta saia e baixa saia, as garotas aproveitavam para palpar a goma dos entesados saiotes de nylon, medindo a dedo a altura de renda e finalizando com uma interjeição admirada, tchiiiiii, tem um palmo de largo. E já quase esqueciam as negras à esparavela, os inchaços que antes tinham palpado, olha lá aqui este durão, as marcas digitais da malvada. Se algum gaiato metia o bedelho e forçava a cabeça entre os ombros delas, escorraçavam-no armadas em matronas púdicas e protectoras,  sai, sai, não podes ver. As rendas da combinação, apeadas do colectivo interesse feminino, emurcheciam em recato desamparado, não somos nada. Remorso ou prenúncio do que aconteceria na escola, a filha do Pelinhos excedia-se a dourar a moldura do seu desacato. Teresa, como reconhecia minha avó com algum desdém, “andava num brinquinho”.

domingo, 16 de maio de 2021

Sombra Chinesa

 

Dentro de mim, a sílfide morria soterrada por impensadas camadas de maldade e a desilusão com o mundo dos adultos engrandecia. Das mãos  via apenas a malvadez furiosa de encontro ao corpo de Teresa, e, no agudo aleijão da fúria, também os pés de fada em  sapatinho rasteiro tinham eclipsado. Até os olhos liquefeitos em amigável poalha dourada, me surgiam agora revirados por espessa nuvem de dureza, a  perfídia a consumi-los. Circunvaguei a porta impúdica por onde entrara. E não vi o sortilégio de um xaile, uma alegria limpa por mínima que fosse. Cabisbaixa e só, a filha do Pelinhos caía em si e sentava arrependimentos em monólogo bêbedo, feito de sons balbuciados e farto em silêncios reticentes. Que a curiosidade benévola seguira atrás de tia Casimira num desatino de empecilho condoído, partiu-lhe algum braço ou perna; se calhar esborrachou-lhe qualquer coisa por dentro, coitadinha; que lhe arrancou um montão de cabelos vi eu… e todas queriam espreitar o corpo deslembrado de Teresa, deixe ver comadre, deixe ver.   Mas, chegada ao umbral de casa, a velhota sentenciou, vocês desculpem, tenho de cuidar da pequena, vão tratar da vida que esta alminha precisa tratamento e sossego, já lhe basta o que basta. E as velhas refizeram as travessas do carrapito, ajustaram o nó do lenço que lhes fugia da cabeça  e assentiram a olhar para as mãos, a desfazer um vinco no avental ou a mirar sabe Deus que horizonte, pois claro, pois claro, ela foi ama sabe o que há-de fazer, e a menina precisa de descanso. Ou: ainda é uma mulher tesa a ti Casimira, fez-lhe frente e a outra amochou. E desandaram deixando avisos, ti Casimira, se precise de alguma coisa que haja em casa já sabe, é só dizer.  

E tão pouco podiam. De restos de lençóis rotos rasgavam-se ligaduras que prendiam com enferrujados alfinetes de ama vindos de muita guerra e que, em geral, moravam em conjuntos de dois ou três no peito das avós. As maleitas  tratavam-se  com pomadas caseiras, mistura de ervas e gorduras; e havia as mezinhas com reza aplicada, para o mau olhado ou quebranto, a lua dos bebés, o pé retorcido, a dor de cabeça, os males de cada parte do corpo, que de tudo sofria o povo. Algumas vezes os males desapareciam sem se saber porquê, mas logo a cura certificava o bom resultado da receita; de outras, rezas e mezinhas acicatavam a doença que aferrava ao doente, o fatalismo popular a conformar-se, tinha de ser, o destino quis assim, Deus o trouxe Deus o levou. Visita de médico a um domicílio era caso insólito e tinha tanto de sentimento como de mau presságio: se por um lado revelava extremado amor familiar, por outro era sintoma infalível de morte rondando, “calculem que até chamou o médico”. O causídico entrava acompanhado por um familiar e à saída deparava com a pequena multidão que entretanto acorrera. Farmácias e médicos eram luxo, uma extravagância de pobre. Gastavam a vida com o estômago a meio gás, almoços e jantares sem rasto de sobras. Refeição terminada, ficava  o importuno grito nos olhos da criançada, o fundo desconsolo dos insaciados mirando o fundo rapado de tacho ou panela. Portanto, a quem poderia tia Casimira pedir o que fosse.

E enquanto a vida prosseguia, à boca da rua, a Zefinha aliviava garantindo de mão no coração, que grande susto. Isto não é uma mãe, é uma desalmada, ia matando a inocente. E repetia a história a quem passava.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Sombra Chinesa

 

 Reconheci a voz da Zefa do Prado que vivia porta com porta com  a sílfide do meu assombro. Num ápice, fiz-me à rua.  Suprema agastura  - aflição que reúne agastamento e amargura -, a mãe de Teresa arrastava a filha pelo chão, sem dó do choro soluçado ou dos pedidos, mãezinha, não bata mais, ai, ai, ai. Horrorizada, vi as pancadas caírem sem escolha de lugar,  pés e mãos cegos de raiva, palmadas e pontapés a ferverem, eu desfaço-te, sua ladra, desfaço-te. Condoída, a Zefa intrometia-se a tentar defender a garota, tu cegas a bater, mulher; deixa a gaiata, já chega.  Frágil e velha, nada podia contra a torrente odienta que a enxotava como a aranhiço incómodo, quase a deitando por terra.  Estupefacta assistente  de um filme de terror, ouvi tia Dorinda a guinchar por minha avó que chegava açodada do tanque, mãos pingando. Mas  foi tia Casimira que atravessou a rua, correndo no passinho miúdo dos velhos, uma réstia de cebolas à ilharga e a vara de encaminhar os perus na outra mão. Ríspida e de vara em riste, as costas sempre dobradas quase direitas face a tanto desamor, postou-se  indignada entre a mulher e a filha , larga a criança, sua desnaturada, nem aos animais se bate assim. Tu é que mereces a sova, mas é da guarda e com cassetete.  Baixou-se e, com esforço, levantou o corpito desfalecido e sujo de terra e, com ele nos mesmos braços que tinham acolhido filhos, netos e mais as crianças de quem fora ama em casa de senhores doutores, avisou, podes escrever, desgraçada, voltas a bater-lhe assim e faço queixa. Vais presa. Virou costas e ainda acrescentou, voz a tremer, ou eu não me chame Casimira. Assistida por mais comadres que lhe conheciam a falência de forças, levou a garota para sua casa.  Entretanto, minha avó vaticinava para Dorinda, esta tem pelo na venta; não tarda que arme outra. E Dorinda, mãos postas em seu altar, acalmava o coração, ai que nem estou em mim, comadre; vi jeitos de ela matar a menina à vista de toda a gente. Foi uma aflição que nem queira saber. E logo para a Zefa, afinal, que roubou, que roubou, qual é o caso? - e concluiu - ou foi na loja do Mexilhão ou na escola, que ela não tem ordem de entrar em casa de ninguém, nem na minha ela pôs o pé. E a outra a encolher os ombros, agora! Tirou-lhe dez tostões da carteira para comprar uma tablete. Pobrezinha, moída de pancada e nem a chegou a comprar. Aquela cobra revirou a casa à cata do dinheiro. E sempre aos gritos e a puxá-la por uma orelha. Olhem que até lhe fez sangue e arrancou o brinco. Não é mãe nem é nada, aquele estafermo. E cuspindo enojada, bicho peçonhento, vá de retro.

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Sombra Chinesa

 

Depois daquele domingo, as mulheres mascararam a inveja com temores morais e puseram a filha do Pelinhos a distância, davam-lhe o bom dia e boa tarde sem mais  conversa. Ora eu julgava-a quase uma heroína e ansiava vê-la de perto. Mas pouco saía. Não ia à escola e não aparecia à porta quando Teresa saía ou regressava. Para lavar roupa, recusava o tanque comum da casa da Liu e pouco aparecia na rua.  Se perguntava a minha avó, como é que ela é,  respondia, é uma mulher, tem dois braços e duas pernas. E eu descoroçoava.

Mas o acaso fez-me a vontade. Certa tarde de mandados, vinha eu molemente pela rua de terra dando pontapés nas pedrinhas, cruzámo-nos. A falar verdade, mal a lobriguei a sair de casa, retardei o passo, curiosidade a desengalgar e eu a puxar-lhe a arreata. Impressionou-me o xaile que lhe envolvia a figura. Todas as mulheres mais velhas usavam um xaile negro e pesado que rematava em cadilhos compridos. Minha avó, que muito se ufanava do seu, costumava contar que me embrulhara nele logo ao nascer. Mas a mãe de Teresa era jovem e o xaile que a envolvia tinha outra natureza. Não era negro nem pesado, desenvolvia-se numa espécie de renda em matizes de verde profundo e a franja pousava delicadezas sobre o amplo da saia. Talvez o prodígio nem fosse apenas do xaile e antes ele avivasse por mor do vôo das mãos que o puxavam ao peito, da forma como a renda se ajeitava no redondo dos ombros, de certo orgulho no queixo levantado. Parei a olhar a aparição que se aproximava em sapato rasteiro. Ao cruzar comigo, baixou os olhos e perguntou por minha avó, mandou cumprimentos. Fiquei eufórica, a mulher conhecia-me. Apetecia-me dançar, mas devo ter apenas respondido que minha avó estava em casa. E, enquanto ela  se afastava, na minha mente, a todo o pano, piscava um  letreiro colorido, uma estupefacção, “A Teresa não é nada parecida com a mãe”. Portanto, a minha admiração desenovelou.

Andava eu neste enleio de simpatia cheia de rebiques pela mãe da Teresa, e confusa por observar que a garota alheava das qualidades da progenitora, ajuizando que Deus não sabe às vezes o que faz e dá boas mães a quem não as aprecia, quando a realidade me trespassou o encantamento. Tinha passado uma semana, talvez duas, sobre a tempestade de domingo e, salvo o diz que diz e a atenção à casa da Teresa, a vida na aldeia não mudara.

 Era uma tarde morna de pássaros e sombras compridas. O sol ainda quente cosia os velhos à sombra do monte, a incessante paciência das mãos a remendar, descascar feijão, migar couves para as galinhas, entrançar réstias de cebolas e alhos. E um olho na gaiatagem. Mulheres e homens da jorna ainda não tinham despegado e davam as últimas pelos campos. havia uma quietude animal e deslaçada no ar, como se a vida suspensa, aguardando os que ganhavam o pão.  Foi nessa altura que se  ouviram os gritos, acudam, acudam que ela ainda a mata.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Sombra Chinesa

 

Em desbunda energizada, lançou-se a gritar o que eu achava serem nomes feios e rancorosos– e foram muitos nomes – que deslizavam na minha estranheza auditiva e faziam oscilar as pontas do lenço de Dorinda, a cabeça em desaprovação silenciosa e dois  dentes de coelho, amarelos de escândalo, mordendo o lábio inferior. Contudo, fixei o estribilho, és uma tronga, sua tronga, quem me manda meter-me com trongas destas, isto é tudo um tronguêdo. A dar descanso à garganta, enfiou a camisa nas calças  e passou a mão no cabelo. A pausa inspirou-o e veio a reviravolta. Aproximou-se da porta fechada, deixa-me entrar, prometo que não te toco, fazemos as pazes e fica tudo bem, amorzinho; vá, deixa-me lá entrar, olha a menina; pelo amor que lhe tens, abre a porta.

Da casa não vinha um som. Teresa parara o choro e da mãe não havia sinal. Pelas portas, os homens, alguns ainda de pincel e gilete, metade da cara raspada, e outros flanando, desanuviaram. Por seu lado, as mulheres engrenaram no hábito, deitando embora um olhinho ao filme que agora corria manso e quase desinteressante. E houve as inevitáveis apreciações, ela é valente, chegou pra ele; uma desgraça aquela mulher, não há homem que lhe assente; tão desmiolada benza-a Deus; coitadinha da criança, para ela é que é pior, pois se nem é filha dele, que amor lhe pode ter o cartapácio; olhem bem para aquela figura, só lhe falta andar de joelhos a cumprir promessa em volta dela, ai Deus me acuda, que ele há homens que não os têm no sítio. E mais.

Eu embezerrava de inédito. A céu aberto, conhecia as brigas dos homens na taberna e de que fugia a sete pés e a virar o rosto para o outro lado; as quezílias dos garotos na escola e que não suportava porque as caras me assustavam de tanta fúria, eram lutas que terminavam com sangue, dentes partidos, mancheias de cabelos arrancados e uma data de reguadas da professora. E as poucas brigas de mulheres remexiam-me o estômago. Chegava a casa a tremer da cabeça aos pés e minha avó dava-me chá de ervas, bebe, mas quem é que te manda olhar para elas, sua parva; deixa-as brigar, que se esgatanhem se não têm mais o que fazer.

No escuro da rua, já tinha entrevisto mulheres espavoridas que o mau vinho dos homens ameaçava de morte, ai que ele diz que me mata com a machada; e mais isto e mais aquilo. Mas nunca observara que os maridos as perseguissem. Uma vez por outra, ouvira os gritos e o choro nocturnos da Guilhermina do  Raposo que era sovada inda bem não. Mas o desastre corria sempre dentro de portas. Desta vez, não. Ainda era manhã. Acontecera à vista de todos. A mãe de Teresa, apesar da diferença de forças, dera luta e, ao invés das demais mulheres, parecia saber defender-se. Não lhe sabia nome e nem a reconhecia se a visse, mas começava a pô-la um degrau acima.   O caixeiro viajante parecia-me um vira casacas. Primeiro assistira-lhe a injúrias e ameaças que mal entendia; depois, a rogos, palavras ajoelhadas, rastejantes, que me davam grande tristeza e adubavam certo bem querer. Por fim, voltara às ameaças que lhe roubavam as minhas simpatias, desfaço-te sua cabra, faço-te o focinho em carne picada - E zás, o étamine do postigo feito em fanicos -, é p'ra veres, é p'ra saberes o que te faço se te ponho a mão, desgraçada, cabra de um corno, maldita a hora que te pus a vista em cima.

O abismo em que caíra Tia Dorinda retinha-a especada a meio da rua, meneando a cabeça.  Quando apercebeu que éramos as únicas no coalho de sol e me notou o traje - descalça e de combinação -  como que acordou e, ai valha-me Deus, se a tua avó te vê assim, vamos lá vestir-te uma roupinha.  Não me mexi e puxei-lhe o braço apontando a casa.  Observara o acesso, alguma coisa voou atirada postigo fora, e logo soou o choque do metal a embater no automóvel antes da queda.  Então o homem apanhou do chão a qualquer coisa e abriu o carro. Pô-lo em marcha e desapareceu na curva, mais o seu repertório de pragas e pedidos. Tia Dorinda suspirou aliviada e cutucou-me, vamos.

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Sombra Chinesa

 

Vizinha Dorinda veio até mim com as pontas do lenço  desavindas e o próprio quase a escorregar-lhe da cabeça, a tua avó foi entregar a roupa a casa do senhor Evaristo, filha. E sem transição, já virada à casa da Liu, aquilo é que vai ali uma tiborna. A criança está para lá a chorar há que tempos e eles querem lá saber. Estremeci, aconteceu alguma coisa à Liu e à mãe, tia Dorinda. A velha descansou-me com um afago distraído, não filha, a criança é a Teresa.

 E ainda a mão calejada me corria o cabelo, quando todos demos por que a porta de Teresa começou numa tremedeira gemebunda, qual doente minado por sezões. A mão de tia Dorinda parou como quem esquece o que fazer e, quase em simultâneo, dique incapaz de  suster a força das águas,  a porta escancarou e uma mulher e um homem saíram num abraço de roldão e a impar. Cada um forcejava por vencer o outro. Valia tudo. Ambos tentavam manietar o adversário e quando uma mão liberta do jugo, agarrava cabelos e esmurrava como podia e onde supunha fazer mais dano. Boquiaberta, a vizinhança esquecia-se de acudir. Sem desfitar a rua da Liu, Tia Dorinda punha-me o braço em volta  e ia  dizendo, ai filha, tu não devias ver isto, estas coisas não são para a tua idade. Presas ao chão não ficaríamos mais quietas.

Entretanto, o Ventura das motas que era rapaz expedito e habituado às loucuras da V5, saltava o valado destemido, pau na mão, disposto a pôr cobro ao despautério.  Num repente de força, cabelo sem lei, saia torta e camisa rasgada, a mulher empurrou o homem e conseguiu desprender-se entrando em casa e correndo os ferrolhos. O Ventura ficou sobre o muro,  um pé cá outro lá, observando o que restava da cena. E as mulheres num murmúrio de  descoberta satisfeita, foi-lhe às partes, ela sabe trabalhar, aquilo foi joelhada certeira. Os homens, esses, encolheram as involuntárias ditas partes. Mercê do golpe inesperado, o padrinho de Teresa   recuou atarantado e sem beleza, camisa aberta e suada em sovacos e costas, um princípio de careca a brilhar. Tinha o cabelo em pé de guerra, alguns fios colados na testa e, num toque fatal, a bocha esparramava sobre as calças.   O  automóvel, onde encostara a arquejar e a compor-se, salvou-o do vexame de cair de costas. A esta altura, o da V5  alçou a perna e voltou atrás bandeando a cabeça, o pau a lastimar-se da serventia, nem cheguei a começar.

Um escândalo era o melhor rastilho para um domingo diferente. Durante a briga, a curiosidade da vizinhança achegara-se silenciosa e a nossa rua era campo semeado de gente gulosa por pancadaria, sangue e impropérios. Havia o “coitadinha” mentiroso das mulheres que secretamente invejavam a têmpera da filha do Pelinhos, decidindo que o melhor era pô-la com distância, não era feia e todas intuíam o perigo, passeava-lhe no sangue qualquer coisa que atrai os machos e causa inveja nas fêmeas. Ai se ela quisesse… Em hipnose e emudecidos pela conjugalidade, os homens valiam-se de espontâneos olhos falantes.  Quando a mãe de Teresa entrou em casa, passou-lhes no rosto uma espécie de contrariedade e, logo de seguida, perdido o foco, começaram a mover-se e a sussurrar procurando-se uns aos outros.  

Depois do que nos pareceu muito tempo, mas terão sido breves minutos, o caixeiro viajante, ciente de ser observado por vários pares de olhos e um tanto envergonhado – um homem fica sempre por cima em luta com mulher -,  derramou-se em ira de senhorio vilipendiado.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Sombra Chinesa

 

Domingos eram a cepa torta na aldeia. Os homens dormiam até mais tarde e passavam a primeira  metade do dia a alindar-se. Faziam a barba  da semana, tomavam banho e conversavam entre si ou ouviam rádio. Limpos e penteados como não andavam nos outros dias. Em verões quentes como o desse ano, deixavam-se ficar em camisola interior, uma rede branca de alças que lembrava jeitos de intimidade e os assemelhava a marialvas italianos.  Sentados à porta da cozinha, quase esqueciam cenas de gritos e maus tratos. Que as mulheres já lidavam quando eles despegavam dos lençóis. Tinham acendido o lume e havia água quente para barba e banho. E muitos estendais exibiam a empreitada de roupa que lhes  passara pelas mãos. Aos domingos, os homens eram ternos com as mulheres, davam-lhes palmadas no rabo, tiravam água do poço para as bilhas e carregavam-nas até casa. Sei hoje que tanta amabilidade não se devia apenas à  queda do surro e da barba. Porém, nesse tempo de curto entendimento, associava a boa disposição à barrela geral.

A nossa casa era pequeno gineceu sem mistério. Contudo, eu ensimesmava frente à cómoda do quarto, observando meu avô. Gostava-lhe da franja espessa, bigodinho curto e olhos fundos de azeviche. De pé, ligeiramente apoiado na bengala fina que minha avó suspendia por laço de seda e  casava com o seu único vestido, pendurando ambos no prego do quarto atrás da porta. Meu avô sério e honesto, a fitar-nos, olho no olho.  Um Charlot português por nossa conta. Meu avô que tinha morada cativa no secreto coração da mulher.  

Como quase todas as crianças da aldeia, aos domingos ficava na cama até mais tarde. Preferia-os aos dias da  semana pela perspectiva de almoço melhorado que nem sempre acontecia. Portanto, estava ainda deitada jogando às adivinhas  com os raios de sol que infiltravam pelo carcomido  da janela fechada e desenhavam oscilações paredes fora. Intrigava para uma sombra, insistindo em dar-lhe forma competente e a duvidar-lhe a proveniência, seria fenda de muro envelhecido ou efeito da luz. De súbito, vozes zangadas. Estranhei. Apurei o ouvido. Silêncio. Entretanto, soou-me o rumor de portas e trincos cautelosos. O alerta da vizinhança. Sozinha em casa, não arrisquei espiolhar e encolhi-me sob os lençóis. De repente, um estrondo. O mundo vinha abaixo. Em simultâneo, recomeçou a gritaria. Palavras atiradas com tanta raiva que não entendi uma única. Em fundo, alguém chorava. Neste ponto, a curiosidade levou tudo de vencida e levantei-me a  espreitar a rua. O sol encandeou-me e, apercebida apenas da falta de chinelos,  as pedrinhas do chão a surpreenderem-me os pés, franzi o rosto à intensa luminosidade sem nada distinguir.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Recado

 

Partiste com muito aviso, parangonas gigantescas de néon  em anúncio incrédulo. Não um quadro que se consulta alinhado como o das partidas e chegadas de aviões, olhos de gente ávida e expectante; antes uma urgência de ambulância correndo para a morte.  Fatalidade nossa que fui incapaz de transformar. Desculpa, falta-me o jeito de plantar flores em buracos negros. Jamais te queixaste da sorte nenhuma que te assistiu. Nunca como eu apostrofaste a divindade. Mas partiste. Seguramente, a contragosto, um escuro sem tamanho a apertar-te o coração: os meus filhos. Não receavas a partida, a vida roubara-te sorrisos e cantigas, não souberas de tempos bons e nem sequer uma lufada de ar fresco te percorrera. Desconheceste o breve repouso do guerreiro entre o perfume das rosas.  Mas lutaste bravamente. Por nós. Uma leoa. A morte, por mais que o meu desejo porfie no contrário, foi-te lenitivo. Depois do que assisti, até o nada se faz desejável. E sim, eu praticaria por minhas mãos a eutanásia que decerto não quererias. Porque a religião. Porque a vida. Porque Deus a dá e Deus a tira. Creio com firmeza que nenhum Deus que é Amor pode querer tal tormento continuado. E, havendo esse outro mundo em que porfiaste até ao fim – acho mesmo que não pertencias a este senão por distracção divina -, estarás sentada à excelsa direita.

Portanto, ontem foi um domingo qualquer. Afinal, nunca conheceste este Dia da Mãe. O teu dia era a 8 de Dezembro. Recebias um cartão com um estentório e muito apagado e refeito desenho, do qual o pai se ria longamente e umas palavras que copiávamos do quadro negro sem lhes sabermos significado. Mais tarde, emendei esta situação. Já sem ti. Cada aluno escrevia uma carta à mãe (também ao pai) e assinava com o nome pequeno que ela/ele lhe chamava. Pequenas maravilhas que, espero, os pais tenham guardado. Ia nelas um bocadinho do meu amor por ti. É certo, hoje dou-te flores e não esqueço a data. Vale nada. Pobreza de dádiva.

Do pouco que fiz contigo e para ti, ficou curta alegria:  a primeira prosa e até, como bem sabes, o primeiro poema. Incipientes. E tua pertença. Arriscar um poema. Eu. Que admiro sem arte a poesia. Porém, o contentamento não é tê-los escrito, mas ter-tos enviado. Em curto discernimento e profundo amor, tive a ideia de tos oferecer num dia qualquer (onde terá parado essa carta que guardavas dentro do saco preto, te sobreviveu e não encontrei). Escreveste-me a contar a tua alegria neles (missiva que também perdi). Li-te de olhos húmidos sabendo das tuas pálpebras a inchar e da alegria comovida no teu coração grande e delicado. Continuo a ver-nos a incomensurável distância, pertença de dois mundos exógenos. Mas o profundo Amor. O indestrutível Amor.