Finda a quarta classe, minha avó decidiu que devia continuar os estudos na cidade e, após
demorados concílios com a amiga, ficou assente que me enviava para casa de
madrinha Felícia. Não me agradou a solução. À beira de abandonar a vida de
sempre, achava que sem a Liu nada me podia correr bem e nem tinha a mesma graça,
faltava-me a companheira de brincadeiras, a confidente, a amiga que me esperava
paciente e não saía para a escola sem mim. Mas, acima de tudo, pesava-me ficar
longe de minha avó. Suportava mal que
não estivesse à minha beira, tomando conta. Espontâneo, vinha-me à memória
o impressivo “colegial” de Régio, a saudade materna a assombrá-lo. Lera e
relera o poema, verso a verso, num livro da biblioteca escolar e memorizara
mesmo um pedacinho, “ se não fora eu
ter-te assim/ sempre à beirinha de mim/ já teria morrido/ ou já teria fugido/
Ou já teria bebido/ algum tinteiro de tinta”. Via-me já romanticamente a
escrever cartas compridas a minha avó, mas, agruras do destino, ela não lia nem
escrevia. Portanto não teria qualquer resposta. Pelo que, de pronto me senti
muito mais infeliz que o poeta, além de me faltar o apoio materno que o assistia, minha avó era
iletrada. Quem sabe se não morreria mesmo de saudade. Por seu lado, Liu
negou-se peremptória à correspondência aduzindo com alguma lógica que nos
veríamos todos os fins de semana, não gostava de escrever e em sua casa não
havia dinheiro para minudências. Compreendi
que estaria por minha conta em lugar estranho e, num aperto, só madrinha Felícia me podia valer. Portanto passei
à análise da amiga de minha avó, pondo de um lado semelhanças entre as duas e
do outro – bem mais importante –, as diferenças. Mas resultou estudo tão
frustrante que o abandonei pela metade. Cumpre-me dizer que, imbuída de amor já
saudoso, para além da idade e alguns gostos culinários, pouco encontrei de semelhante
entre as duas. Minha avó surgia-me incomparável. No concernente às diferenças, as
qualidades de uma correspondiam aos defeitos da outra. Não antevia nada de prazenteiro
no meu percurso académico de curto prazo.
Entretanto, a velhota lavava vigorosamente as roupas dos seus senhores e gastava os dias no
tanque. Na escassez de tempo livre que conseguia, dava-se a pormenores de enxoval que
me maçavam, fazia-me experimentar combinações sem donaire que ganhavam forma na
velha máquina de pedal. Mas, depois de observar os saiotes de Teresa, todas as
combinações artesanais - às florinhas ou bolinhas -, me pareciam irrisórias e
resmungava sem rebuço por ter de me despir para prova de artigo tão patusco. Ela olhava-me por cima dos óculos da costura e nada dizia, olhos pedindo mudez. Na minha inconsciência, ignorei a súplica silenciosa. Não me faltou a
crueldade da infância. E o meu enxoval ia crescendo dentro da maleta que teria
de carregar até casa de madrinha Felícia.
Foi
na véspera da partida, quando minha avó contava as peças e lhes acertava vincos
arrumando-as, que me dei conta do pouco que possuía. A mala era pequena, havia
duas combinações a estrear, mas sobrava muito espaço. Foi então que a filha do
Pelinhos nos espreitou ao postigo e perguntou se podia entrar. Minha avó abriu
a porta intrigada e ela disse muito depressa pondo um embrulho sobre a mala
aberta, isto é para a sua neta, já não serve à Teresa e talvez lhe dê jeito lá
para onde vai. E saiu como tinha entrado. Açodada. Silenciosa. Corri para o
embrulho. Continha duas combinações de nylon com folhinhos e rendas e dois saiotes rendados e de armar. Em embalagens individuais, duas cuequinhas iguais às
combinações. Minha avó quedou pensativa desdobrando
os macios do nylon e murmurou vagarosa, isto é novo, as combinações não têm
repelão de uso ou lavagem. Acrescentava um silêncio comprido e voltava meditabunda,
isto é novo. Depois, como a desculpar-se não sei de quê, talvez os saiotes
fossem da garota, mas o resto… Mas eu desvanecia mudamente, interesses basilares a fazerem-me o norte: eram artigos
que jamais sonhara ter. Bonitos e meus. Incrível. E icei de novo a filha do
Pelinhos aos píncaros. Não obstante, até à hora da partida, minha dilemática avó
intrigava face à mala, quem sabe, surripiou as peças ao caixeiro viajante.
É que nem posso ir agradecer ao homem, ainda assim ele não saiba do fraco negócio
e dê cabo da vida à rapariga.