Era
uma vez o dia dezoito de Dezembro. E quando abri a janela só não nevava porque
vivo a sul onde só uma vez vi neve. Mas gelava. Era madrugada e gelava. Mais
tarde, que também era cedo, o carro marcava um grau e meio de temperatura
exterior. E a piscina era ninho aquecido a vinte e oito graus. Ali, onde tudo
se apaga e impera o esforço de pernas e braços (em mim, também de respiração).
Se não fora esta luta livre – mas elegante - com a água, diria que imergimos no líquido
amniótico de uma placenta gigante e
partilhada. Os meus colegas não falham, pontualíssimos. Levantam-se cedo para
nadar. Uns, estão por gosto; outros, por recomendação médica; outros ainda, por
ambos. Vemo-nos há anos em trajes menores e não nos conhecemos, se nos encontrarmos
na rua não sabemos quem somos. Imagino que, de touca, óculos e mola no nariz, fique maravilhosa. Não lhes sei nome, profissão, ou qual a viatura que os
espera na saída (mea culpa, sou a última a entrar e a sair). Partilhamos a condição de aluno sem
proximidade. Entretanto, a temperatura subiu para quatro graus e meio. O largo
onde deixo o carro condensa em frio, passa rara gente embarretada, pernas como
tesouras, fugindo para lugares de apetite. Atravesso um jardim deserto de
flores, sem vivalma, árvores à esparavela e que só não tremem por vergonha. E
depois, namasté, saudações a Shiva. E mais uma série de alongamentos e
equilíbrios que me são difíceis, mas aqui ninguém desiste. Saio contente da
palavra fim. E foi bonito, o Menino Jesus deixou uma prendinha para a
professora do yoga. Querido, ele. Entretanto, a temperatura subiu de novo, oito
graus centígrados. Rolo para casa. Como alguma coisa e vou ao super numa
corrida. Volto no tempo limite para o almoço. Enquanto mastigo, avalio a
situação dos envelopes e prendas, fechados dentro do carro desde cedo. Após a
refeição dou-lhes destino. Informam-me que os correios vão entrar em greve
quinta e sexta feira de natal. Ora bolas. E eu que tinha ainda umas prendas,
ainda uns envelopes. Ainda. Regresso a tempo de um chá com uma visita rápida
que trouxe lembrancinhas de Natal. Arrumo as roupas, começo a sopa do jantar,
sento-me a escrever as boas festas que ficaram sobre a mesa. Quando levanto os olhos
das letras, a escuridão apagou o mundo da rua. Não há o azevinho alto, nem o
estendal, nem as estrelícias. É noite. A noite mágica de tudo poder ser. Que
veloz, o tempo de prazer. E sobre mim desce um cansaço anoitecido, melancolia
da madrugada extemporânea. Fecho todas as janelas. Aninho.
A bea ainda escreve postais... postais mesmo, de papel, para mandar pelos correios. Que maravilha. Todos os anos penso que deveria voltar a escrever um ou outro postal. Todos os anos passa o Natal sem que o faça. Sou uma verdadeira desilusão.
ResponderEliminarTenho falhado dias deste seu calendário. Com tempo, tentarei voltar atrás no tempo. :)
hummm...postais, mesmo postais, não serão:). Os postais são mais bonitos que aquilo que eu envio. Digamos que tento personalizar - sem grande êxito - e faço os cartões. Como só treino de ano em ano, e a minha professora de desenho só não me dava negativa porque fazia questão de nunca as dar, a coisa não sai extraordinária.
ResponderEliminarMas dá-me grande prazer fazê-los (no fundo, no fundo, somos é uns grandes egoístas).
Detesto aqueles mails de boas festas que embora feitos um para cada ano, se enviam por atacado a todos os amigos. Acho impróprio da data. E julgo que qualquer pessoa, sendo única, merece palavras únicas. Não por serem originais, há pouca originalidade em desejar boas festas; por serem escritas só para aquela pessoa. Por isso, prefiro um mail sem bonecos e estrelas, mas com palavras escritas para mim. E descreio que haja muita gente que difira. A Luísa o que pensa? Um dia ainda começa a escrever postais:). Ou mails.
Não me choca o envio de postais eletrónicos. Também costumo fazer os meus. E não me choca o envio para vários destinatários. Claro que haverá destinatários que, por razões de maior afinidade, familiaridade ou especial amizade, terão mensagens personalizadas. Mas acho de valor quem se dá ao trabalho de escrever à mão, em papel... E se faz os próprios cartões, mais ainda. :)
ResponderEliminar:).
ResponderEliminar