terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Dia Dezoito

Era uma vez o dia dezoito de Dezembro. E quando abri a janela só não nevava porque vivo a sul onde só uma vez vi neve. Mas gelava. Era madrugada e gelava. Mais tarde, que também era cedo, o carro marcava um grau e meio de temperatura exterior. E a piscina era ninho aquecido a vinte e oito graus. Ali, onde tudo se apaga e impera o esforço de pernas e braços (em mim, também de respiração). Se não fora esta luta livre – mas elegante -  com a água, diria que imergimos no líquido amniótico  de uma placenta gigante e partilhada. Os meus colegas não falham, pontualíssimos. Levantam-se cedo para nadar. Uns, estão por gosto; outros, por recomendação médica; outros ainda, por ambos. Vemo-nos há anos em trajes menores e não nos conhecemos, se nos encontrarmos na rua não sabemos quem somos. Imagino que, de touca, óculos e mola no nariz, fique maravilhosa. Não lhes sei nome, profissão, ou qual a viatura que os espera na saída (mea culpa, sou a última a entrar e a sair).  Partilhamos a condição de aluno sem proximidade. Entretanto, a temperatura subiu para quatro graus e meio. O largo onde deixo o carro condensa em frio, passa rara gente embarretada, pernas como tesouras, fugindo para lugares de apetite. Atravesso um jardim deserto de flores, sem vivalma, árvores à esparavela e que só não tremem por vergonha. E depois, namasté, saudações a Shiva. E mais uma série de alongamentos e equilíbrios que me são difíceis, mas aqui ninguém desiste. Saio contente da palavra fim. E foi bonito, o Menino Jesus deixou uma prendinha para a professora do yoga. Querido, ele. Entretanto, a temperatura subiu de novo, oito graus centígrados. Rolo para casa. Como alguma coisa e vou ao super numa corrida. Volto no tempo limite para o almoço. Enquanto mastigo, avalio a situação dos envelopes e prendas, fechados  dentro do carro desde cedo. Após a refeição dou-lhes destino. Informam-me que os correios vão entrar em greve quinta e sexta feira de natal. Ora bolas. E eu que tinha ainda umas prendas, ainda uns envelopes. Ainda. Regresso a tempo de um chá com uma visita rápida que trouxe lembrancinhas de Natal. Arrumo as roupas, começo a sopa do jantar, sento-me a escrever as boas festas que ficaram sobre a mesa. Quando levanto os olhos das letras, a escuridão apagou o mundo da rua. Não há o azevinho alto, nem o estendal, nem as estrelícias. É noite. A noite mágica de tudo poder ser. Que veloz, o tempo de prazer. E sobre mim desce um cansaço anoitecido, melancolia da madrugada extemporânea. Fecho todas as janelas. Aninho.

4 comentários:

  1. A bea ainda escreve postais... postais mesmo, de papel, para mandar pelos correios. Que maravilha. Todos os anos penso que deveria voltar a escrever um ou outro postal. Todos os anos passa o Natal sem que o faça. Sou uma verdadeira desilusão.

    Tenho falhado dias deste seu calendário. Com tempo, tentarei voltar atrás no tempo. :)

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  2. hummm...postais, mesmo postais, não serão:). Os postais são mais bonitos que aquilo que eu envio. Digamos que tento personalizar - sem grande êxito - e faço os cartões. Como só treino de ano em ano, e a minha professora de desenho só não me dava negativa porque fazia questão de nunca as dar, a coisa não sai extraordinária.
    Mas dá-me grande prazer fazê-los (no fundo, no fundo, somos é uns grandes egoístas).

    Detesto aqueles mails de boas festas que embora feitos um para cada ano, se enviam por atacado a todos os amigos. Acho impróprio da data. E julgo que qualquer pessoa, sendo única, merece palavras únicas. Não por serem originais, há pouca originalidade em desejar boas festas; por serem escritas só para aquela pessoa. Por isso, prefiro um mail sem bonecos e estrelas, mas com palavras escritas para mim. E descreio que haja muita gente que difira. A Luísa o que pensa? Um dia ainda começa a escrever postais:). Ou mails.

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  3. Não me choca o envio de postais eletrónicos. Também costumo fazer os meus. E não me choca o envio para vários destinatários. Claro que haverá destinatários que, por razões de maior afinidade, familiaridade ou especial amizade, terão mensagens personalizadas. Mas acho de valor quem se dá ao trabalho de escrever à mão, em papel... E se faz os próprios cartões, mais ainda. :)

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