Não
lembrei a data senão agora, no exacto momento em que procurava abrir a minha janela de advento. Talvez a mente se me tenha entorpecido de frio. Ou seria
resposta à manhã toda encolhida, murchinha, uma morrinha de cinza a pingar na janela. Lá fora, o mundo escorria lustro e patinhava humidades. Ou por via de
um pesadelo que perdi mal acordei - a consciência apaga-os na hora - e me fez
alegre por despertar. Ou apenas o feriado já não me vale como antanho. Mas não.
É a data a avivar tristezas de mim. Vergonha. Embaraço. Vontade de fugir para
um buraco escuro. Ainda hoje não sei se o
fundo de tal buraco, não me seria mais aprazível.
Conta
meu pai chasquinando, que um dos irmãos de meu avô - sujeito com quem, possivelmente, partilho
uma costela flutuante - era um solitário que vivia a pastorear pelos montes e
tinha por abrigo buracos e rochas. No meu álbum mais antigo existe uma foto, barba
comprida, vestes estranhas. Em garota,
perdia-me a olhá-lo e era visível a ternura de minha mãe pelo tio que pouco
vira. Para mim foi, desde o início, o celtibero ansiosamente esperado, convicta
de que um dia chegava por uma camisa, um banho, uma doença qualquer. Pois o meu
celtibero de estimação, que nunca encontrei senão em foto, também desdenhava
do dinheiro. Quando um dos irmãos correu montes e vales para lhe entregar a parte
herdada, atirou-a fora logo ali (é seguro que alguém a apanhou) e tornou à sua
solidão de eremita. Por lá (não se sabe onde), viveu e morreu. Não formou família.
Ninguém o chorou ou lhe soube da morte. Minha mãe e avó julgavam-no um santo e
reconheciam que era a bondade em figura de gente, mas sem palavras. Diziam que, em família, não ultrapassou as
dez falas. Aquele tio-avô é a pessoa mais intrigante da minha família. E
surgiu-me aqui nesta janela a propósito do buraco escuro que eu agradecia durante os três anos em que, no dia oito de Dezembro, a professora me fez declamar poemas, um dos quais
ainda me lembro chamar-se “Invocação” (não encontrei no google), e que, mal
subia para a cadeira e já a tremer como varas verdes, minha mãe a ter de segurar-me as pernas, notava os olhos das mulheres postos em mim e varria-se-me tudo por completo, não ficava uma vírgula, a pintinha no i, nada. E daí a necessidade de um bendito buraco para esconder a
vergonha de, ano atrás de ano, ser a mesma triste. Ah, e rematava num
aparato de lágrimas e ranho. Era, garantidamente, muito aborrecido. Talvez por isso me tenha hoje decidido a branquear a cozinha. Com amor e dedicação. Que a vergonha de não ter conseguido
dizer nem um verso à única mulher que me interessava no mundo inteiro, não é
coisa que se esqueça.
E
no entanto, no super a borbulhar de gente, ninguém parecia sequer ter pensado na padroeira. Mas isso são eles que não sofrem a severidade dos meus
traumas. Três anos de negas à poesia maternal não são brincadeira. Que a padroeira fica um bocadinho mais ao lado.
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