sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Dia Quinze

À sexta, entro numa de boa disposição fictícia provocada pelo café matinal. Fico tão sugestivamente bem disposta e dinâmica que talvez dê azo ao dito setubalense perante comportamento anómalo, “estás bêbado ou endrrógado?” (os erres é por môr da pronúncia de charrôco). Eu, claro, estou “endrrógada”. E o ponto é dar conta do recado nas imensas sextas feiras das semanas que, a cinquenta e tal por ano, e já lá vão tantos anos, sou bem capaz de ter vivido para cima de três mil e quinhentas semanas, assim por alto e sem fazer as contas. Bom, se não vivi também não se perde nada, são só números e a numeração é desinteressante. E portanto, três mil e quinhentas sextas feiras, dois terços delas gastos a arrumar o que nos outros dias desarrumo. Não se pode dizer que seja tarefa palpitante. Antes uma soberana chatice que a poder de um café bem generoso me ajeita as lentes da vida. Convenhamos, é melhor do que beber. Bêbeda não faria nada, o cotão à vara larga, pó idem, móveis cheios de tralha fora de sítio, roupeiros na mesma leva. E por aí. Portanto, diria que acertei na droga. Fico espevitadinha e saliente, é bom que não saia de casa que mesmo velha era capaz de ficar perigosa. Não sair de casa é como quem diz. Depois de uma manhã a correr fora e dentro, do almoço feito e engolido numa fona, corro à natação e derreio por quarenta minutos ou um pouco menos que a tendência é para o atraso. E só no banho descanso. Sozinha no balneário, o que é uma sorte. Nessa hora, não há alunos na piscina e os empregados somem. Suponho que todos almocem. E garanto, podia cantar, andar por ali nua e a pingar, pôr-me ao espelho a fazer mitetes. Mas compraz-me sentir a água a correr e ocupo-me a ser feliz. Não sei se ainda por influência do café, invade-me uma felicidade beatífica. Cá fora, encontro velhotas conhecidas, gente como eu e mais velha correndo por algum bem estar, um joelho, uma perna, um braço, a depressão, trinta por uma linha.  Jamais agradecerei o bastante a quem inventou piscinas públicas de água quente. Abençoado seja. Ámem.
Volto a casa e há outros afazeres. Hoje, queria apaparicar uma visita. Portanto, chovia a valer mas ainda assim fui aos bolos e deitei-me a fazer um arroz doce, coisa que, avaliei eu, ocupava menos tempo. E depois foi aquela coisa de um cheiro bom pela cozinha e mexer, mexer, mexer, enquanto fazia uns desvios – curtos - a verificar a ordem da casa. Ainda estava a apagar o fogão, entram-me as visitas pela cozinha. Ora esta. E depois tiveram de assistir ao deitar do arroz nas travessas e à cerimónia do quadriculado de canela que não dispenso, embora de perfeito não tenha nada. Uma das assistentes-visitas era criança interessadíssima no nascimento das quadrículas. No final, dei-lhe o tacho que me calha sempre a mim rapar (fui simpática, vá). Só depois fomos para a mesa. Parti a escangalhada (nome tão estapafúrdio), servi o chá (não quiseram pão), levei a taça de arroz doce e as tacinhas pequenas. E as minhas visitas a-do-ra-ram. Pode ter sido só para fazer jeito, mas olha, se foi, pior para elas que levaram uma travessinha para a sobremesa lá de casa. Mas a garota repetiu duas vezes. E dei a receita que não copiei, é simples demais e andei que tempos a testar, mais leite, menos açúcar, mais tempo a ferver, e etc e tal.  Despedidas de Natal, beijos e abraços sinceros e amigos. Que falta me faziam.

Mal elas saíram, lancei-me ao jantar que uma das minhas visitas residentes já enviara um sms e breve chegaria. Não é por nada, mas esmerei-me. E quanto gosto de observar a satisfação com que esta visita  agradece o repasto que não é extraordinário mas sei que prefere. Depois...bem depois ficamos à conversa enquanto acrescento mais umas voltas no tricot. Falamos de filmes, de séries, do que a Tv mostra e pouco me interessa. E talvez o efeito do café tenha evaporado. E descanso de tanto ser sexta feira. 

2 comentários:

  1. Será assim tão velhinha? Adoro a cidade de Setúbal. É o meu distrito de nascimento
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    Tema de hoje: *** TEMPESTADE - ÁRVORES NUAS ***
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    Deixando votos de um Sábado feliz
    BOM NATAL

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  2. Quem? A cidade de Setúbal? Sim, a cidade está velha, precisa umas pinceladas. Mas já estão a tratar de embelezá-la de novo.

    Eu...não disse que sou velhinha:). Mais uma velhota que uma velhinha.
    BFS e obrigada pela visita

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