À
sexta, entro numa de boa disposição fictícia provocada pelo café matinal. Fico
tão sugestivamente bem disposta e dinâmica que talvez dê azo ao dito
setubalense perante comportamento anómalo, “estás bêbado ou endrrógado?” (os
erres é por môr da pronúncia de charrôco). Eu, claro, estou “endrrógada”. E o
ponto é dar conta do recado nas imensas sextas feiras das semanas que, a
cinquenta e tal por ano, e já lá vão tantos anos, sou bem capaz de ter vivido
para cima de três mil e quinhentas semanas, assim por alto e sem fazer as
contas. Bom, se não vivi também não se perde nada, são só números e a numeração
é desinteressante. E portanto, três mil e quinhentas sextas feiras, dois terços
delas gastos a arrumar o que nos outros dias desarrumo. Não se pode dizer que
seja tarefa palpitante. Antes uma soberana chatice que a poder de um café bem
generoso me ajeita as lentes da vida. Convenhamos, é melhor do que beber. Bêbeda
não faria nada, o cotão à vara larga, pó idem, móveis cheios de tralha fora de
sítio, roupeiros na mesma leva. E por aí. Portanto, diria que acertei na droga.
Fico espevitadinha e saliente, é bom que não saia de casa que mesmo velha era
capaz de ficar perigosa. Não sair de casa é como quem diz. Depois de uma manhã
a correr fora e dentro, do almoço feito e engolido numa fona, corro à natação e
derreio por quarenta minutos ou um pouco menos que a tendência é para o atraso.
E só no banho descanso. Sozinha no balneário, o que é uma sorte. Nessa hora, não
há alunos na piscina e os empregados somem. Suponho que todos almocem. E
garanto, podia cantar, andar por ali nua e a pingar, pôr-me ao espelho a fazer
mitetes. Mas compraz-me sentir a água a correr e ocupo-me a ser feliz. Não
sei se ainda por influência do café, invade-me uma felicidade beatífica. Cá
fora, encontro velhotas conhecidas, gente como eu e mais velha correndo por
algum bem estar, um joelho, uma perna, um braço, a depressão, trinta por uma
linha. Jamais agradecerei o bastante a
quem inventou piscinas públicas de água quente. Abençoado seja. Ámem.
Volto
a casa e há outros afazeres. Hoje, queria apaparicar uma visita. Portanto,
chovia a valer mas ainda assim fui aos bolos e deitei-me a fazer um arroz doce,
coisa que, avaliei eu, ocupava menos tempo. E depois foi aquela coisa de um
cheiro bom pela cozinha e mexer, mexer, mexer, enquanto fazia uns desvios – curtos
- a verificar a ordem da casa. Ainda estava a apagar o fogão, entram-me as
visitas pela cozinha. Ora esta. E depois tiveram de assistir ao deitar do arroz
nas travessas e à cerimónia do quadriculado de canela que não dispenso, embora
de perfeito não tenha nada. Uma das assistentes-visitas era criança
interessadíssima no nascimento das quadrículas. No final, dei-lhe o tacho que
me calha sempre a mim rapar (fui simpática, vá). Só depois fomos para a mesa.
Parti a escangalhada (nome tão estapafúrdio), servi o chá (não quiseram pão),
levei a taça de arroz doce e as tacinhas pequenas. E as minhas visitas
a-do-ra-ram. Pode ter sido só para fazer jeito, mas olha, se foi, pior para
elas que levaram uma travessinha para a sobremesa lá de casa. Mas a garota
repetiu duas vezes. E dei a receita que não copiei, é simples demais e andei
que tempos a testar, mais leite, menos açúcar, mais tempo a ferver, e etc e tal.
Despedidas de Natal, beijos e abraços sinceros e amigos. Que falta me faziam.
Mal
elas saíram, lancei-me ao jantar que uma das minhas visitas residentes já
enviara um sms e breve chegaria. Não é por nada, mas esmerei-me. E quanto gosto
de observar a satisfação com que esta visita
agradece o repasto que não é extraordinário mas sei que prefere.
Depois...bem depois ficamos à conversa enquanto acrescento mais umas voltas no
tricot. Falamos de filmes, de séries, do que a Tv mostra e pouco me interessa. E
talvez o efeito do café tenha evaporado. E descanso de tanto ser sexta feira.
Será assim tão velhinha? Adoro a cidade de Setúbal. É o meu distrito de nascimento
ResponderEliminar.
Tema de hoje: *** TEMPESTADE - ÁRVORES NUAS ***
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Deixando votos de um Sábado feliz
BOM NATAL
Quem? A cidade de Setúbal? Sim, a cidade está velha, precisa umas pinceladas. Mas já estão a tratar de embelezá-la de novo.
ResponderEliminarEu...não disse que sou velhinha:). Mais uma velhota que uma velhinha.
BFS e obrigada pela visita