Todos
os natais acontece, guardamos prendas e chocolates que depois desaparecem,
facto que nos tortura a mente e empurra para as detestáveis compras de última
hora. Por exemplo, no mês passado encontrei
duas caixas de mon chéri, destinadas
a acompanhar as prendas das manas que se pelam por eles, um contentamento aliviado
nas mãos a palpar a caixa sob o papel, ah, estão aqui os bombons. Descreio que
fossem do ano passado; estavam sequinhos, os pobres. As ginjas eram uma
intragável carapucita de açúcar, licor viste-o, e o chocolate esbranquiçava.
Por via de não repetir esta jigajoga, pensei – e se pensei melhor o fiz - deixar tudo à vista. No sótão, a resguardo de
indiscrições, para manter a surpresa. Resultado: tenho o quarto
invadido, e, no quarto ao lado – dito vazio -, uma mesa a impar de sobrelotação
e um sofá pejado de saquinhos e saquetas. Coisa de moer o juízo só de olhar.
Mas pronto, nada na manga, que é como quem diz, no fundo das gavetas. Por outro
lado, reconheço que, apesar de me deslocar aos pulinhos para abrir a janela, estou
a afeiçoar-me ao movimento de altos e baixos; é fora de dúvida, o quarto ficou
outro. Acordo e há dois cabos de guarda chuva – bem bonitinhos – a espreitar-me
muito direitos, desde a sua altura delicada. Parecem polícias que não dão muita
bola à profissão. E eu num solilóquio horizontal, o que pensarão de mim. Levanto-me.
Sacos magrinhos e resmalhantes aninham a discrição de peças de roupa que os
meus pés tocam descalços a lamentar em estrangeiro (manias de pés, está visto),
sorry, sorry, sorry. Mas eles, à parte
um ou outro ai plastificado, não melindram. Suspeito até que me entendem. Não é
para menos. Dormem a meu lado, entram-me um bocadinho nas intimidades. No
primeiro dia, eu a vestir-me de costas, com licença. E eles, a gente aqui
dentro vê tudo desfocado, os guarda chuvas é que... E logo os guarda chuvas
cercearam, então que é isso? Respeitinho. Não sabem que um guarda chuva fechado
não tem olhos?! Santa ignorância.
Portanto,
a janelinha de hoje é ainda e só um amontoado projecto de prendas. Com alguma
beleza, vá.
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