segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Dia Quatro

Todos os natais acontece, guardamos prendas e chocolates que depois desaparecem, facto que nos tortura a mente e empurra para as detestáveis compras de última hora.  Por exemplo, no mês passado encontrei duas caixas de mon chéri, destinadas a acompanhar as prendas das manas que se pelam por eles, um contentamento aliviado nas mãos a palpar a caixa sob o papel, ah, estão aqui os bombons. Descreio que fossem do ano passado; estavam sequinhos, os pobres. As ginjas eram uma intragável carapucita de açúcar, licor viste-o, e o chocolate esbranquiçava. Por via de não repetir esta jigajoga, pensei – e se pensei melhor o fiz -  deixar tudo à vista. No sótão,  a resguardo de  indiscrições, para manter a surpresa. Resultado: tenho o quarto invadido, e, no quarto ao lado – dito vazio -, uma mesa a impar de sobrelotação e um sofá pejado de saquinhos e saquetas. Coisa de moer o juízo só de olhar. Mas pronto, nada na manga, que é como quem diz, no fundo das gavetas. Por outro lado, reconheço que, apesar de me deslocar aos pulinhos para abrir a janela, estou a afeiçoar-me ao movimento de altos e baixos; é fora de dúvida, o quarto ficou outro. Acordo e há dois cabos de guarda chuva – bem bonitinhos – a espreitar-me muito direitos, desde a sua altura delicada. Parecem polícias que não dão muita bola à profissão. E eu num solilóquio horizontal, o que pensarão de mim. Levanto-me. Sacos magrinhos e resmalhantes aninham a discrição de peças de roupa que os meus pés tocam descalços a lamentar em estrangeiro (manias de pés, está visto), sorry, sorry, sorry. Mas eles, à parte um ou outro ai plastificado, não melindram. Suspeito até que me entendem. Não é para menos. Dormem a meu lado, entram-me um bocadinho nas intimidades. No primeiro dia, eu a vestir-me de costas, com licença. E eles, a gente aqui dentro vê tudo desfocado, os guarda chuvas é que... E logo os guarda chuvas cercearam, então que é isso? Respeitinho. Não sabem que um guarda chuva fechado não tem olhos?! Santa ignorância.

Portanto, a janelinha de hoje é ainda e só um amontoado projecto de prendas. Com alguma beleza, vá.

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