Em
crianças vivemos sem pensar no tempo. Se me diziam que estava quase a fazer
anos, deixavam-me confusa. Como é que os adultos sabiam de tal coisa, o que os
levaria a afirmá-la naquele ar de certeza?! E perguntava.
Respondiam-me qualquer coisa como “tu nasceste neste dia”. O que ainda me era
mais incompreensível. Julgava o tempo uma sequência de dias perdidos em cadeia.
Como é que os crescidos podiam recuperá-los depois da queda, isso é que não
entendia. Continuo a pensar que os dias caem inexoráveis e sem hipótese de
repescagem. Caem mortos, hora atrás de hora, minuto após minuto. Mas, na
correnteza dos dias há também as noites.
Oh,
o bendito silêncio da noite que cobre todas as coisas, as emudece e enovela. O
silêncio de lembrar quem e o que gostamos. A paz dos livros e das letras. O
sermos nós tão longe do nosso centro. A doce sensação de saber que, depois, o
sono nos há-de tomar e por algumas horas nada mais seremos que um corpo animal que respira. Despida
a farda de sermos homens, pouco nos fica. A verdade é que, se acordados nos
esforçamos por ser quem somos, adormecidos, ainda que o não queiramos, é isso
que esquecemos. Um animal que respira e descansa sem peias. Horas cheinhas de minutos. E
nelas somos sem idade, sexo ou condição. É repouso e evasão. Pura necessidade.
Prefiro pensar em dias que passam vivos, mesmo quando "morrem", renascem, perpétuos. E enquanto formos renascendo com eles, está tudo bem. :)
ResponderEliminarSão pontos de vista. E de vida. Gosto da noite e da distensão que a acompanha.
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