Mostrar mensagens com a etiqueta Bloco de Notas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bloco de Notas. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Esta Lisboa que Amo

 

         E logo uma viagem embebida em saudade na linha de Cascais a que chamo linha do Estoril e, no presente, só acontece por ter de ser, em nome de uma amizade outra e antiga. Entro no comboio com a sensação de que maculo o passado. Sei que a sacralidade se evolou: não sinto a ansiedade antiga que me precipitava o coração mal punha o pé na gare do Cais do Sodré e me deixava embasbacada no destino, olhos parvos virados ao mar, pensando que ela o via todos os dias lá de cima e que, porventura, uma vez ou outra, frequentasse o comboio. É assim o amor, quer pisar onde pisam os pés de quem gostamos, ter o gosto de olhar o que vêem os olhos do outro, imaginando o que sentiu ou sente quando abre a janela ou apenas corre a mão de habitual delicadeza no étamine simples que conheci nas janelas e tão adequado ao despojamento próprio. Quanto eu gostei e gosto dessa filha do Douro e de Poiares da Régua que como tantos dedicaram a vida ao vinho do Porto que inda provei por bondade sua. Depois saía do impasse comovido e começava a subir até ao destino. Na escadaria até à porta principal, o meu coração entontecido transbordava. Tocava a campainha, entrava e aguardava na sala de visitas o suave roçagar da roupa, já que os passos eram silentes. Ela entrava e trazia consigo o odor a lavanda. Em sua homenagem (alguns lhe ofereci), mora no meu quarto um Ach Brito que gosto de aspirar. É um bocadinho da minha força diária.

        Desta vez, rodeada por bandos de garotos destinados à praia e turistas que rumavam a Cascais e Belém, toda eu era olhares ao relógio do telemóvel. Não sei porquê, mas deparar com o forte onde permaneceram os presos políticos e admirar os longes do Bugio, emociona-me. Nada na beleza daquele mar me afecta tanto como a imensa solidão do farol e mais as histórias que deve guardar, ou a prisão onde vi a firmeza delicada de Sophia segurando uma flor, enquanto nascia a liberdade dos presos políticos nesse imortal Abril de setenta e quatro. Vou contando as estações e, por fim, saio, subo até à paragem de novo autocarro e entro grata à boa vontade do motorista que já partia.

        À medida que nos afastamos, surgem moradias desarrumadas e rotundas novas e espaçosas. De quando em vez, um aglomerado de casas antigas, ruas estreitas, velhos amarelentos nas portas de café, o ar pesado de barbas por fazer e mulheres guardadas não sei onde, a contrastar com o panorama do primeiro autocarro, turistas leves e felizes embora um pouco desorientados na balbúrdia, a patine de Lisboa antiga percorrida por solta garridice juvenil em roupas claras ou alegremente coloridas, pernas e braços ao léu, chapéus e bonés a salvar alguns turistas pouco habituados ao calor do sul europeu. Uma chusma de automóveis estacionados causa os malabarismos do trânsito e, de onde em onde, na vez das rotundas desafogadas, um edifício com pergaminhos e história, imagino que lar possível de grandes senhores de antanho. No subúrbio, os ossos do autocarro chocalham a amargura sofrida em anos e anos de trabalho e maus tratos. É outro país. Passei Tires e, por mais olhares, não descortinei a prisão. Enfim, chego e cumpro a visita que me propus.

        O tempo corre a maratona quando conversamos com quem vive intramuros e tudo pergunta do mundo conhecido. Saio para o transporte, mas a tecnologia barra-me a saída. Corro abaixo e acima a queixar-me que estou presa e que e que… a porteira, velha e coxa, acompanha-me de comando na mão a resmungar, “mas eles vieram arranjar o portão hoje mesmo”; e vai descendo e carregando no botão do comando. A meio do percurso, o portão começa a deslocar-se e corro desentraitada até à paragem gritando obrigados enquanto atravesso a estrada. E o autocarro já lá, no seu posto. A bondade dos dois motoristas de autocarro é directamente proporcional à velhice e achaques dos mesmos. São dois bons homens guiando viaturas em mau estado. Também este motorista esperou por mim. Se não fora a simpatia de ambos teria perdido o comboio para casa.

        No regresso, continuamos a chocalhar. Quão diversos são estes passageiros. Quase todos negros. Verifico a presença de gente nova, sobretudo raparigas. São lindas, quase todas de cabelo natural e apanhado (o dia está quente) aqueles olhos grandes e negros com a expressão que me parece sempre a do bambi dos desenhos animados: têm qualquer coisa de líquido, digo que relampejam ternura dos trópicos. Estas garotas não são alegres e barulhentas como os garotos da praia, mas terão a mesma idade. Todas vestem calça de ganga azul clara ou branca, cintura alta de vespa (vespíssima, diria Pessoa), esguias de não destoar de qualquer modelo de passerelle. Seguem sérias e sem conversa. Não parecem ir de passeio. Talvez se destinem ao turno das dezasseis à meia noite. Ali, toda a gente parece ganhar o pão com a força dos braços e não em trabalhos “limpos” como diziam os mais antigos que eu. Talvez sirvam à mesa, sejam cozinheiras e ajudantes de cozinha, façam o serviço doméstico em algumas casas, vão buscar os meninos de boas famílias à escola.

        Sentadas defronte, duas loiras postiças falam de unhas de gel, uma delas mostra as mãos acabadas de retocar, talvez para convencer a parceira que tem o verniz em decadência, duas ou três unhas descascadas por inteiro. Saem ambas de braço dado, facto tão bonito quanto em desuso. Vi-as dobrar uma esquina, decerto em busca de destino comum.

        No comboio de regresso, a viagem de pé fazia-nos olhar (e invejar) quem vinha da praia e conseguira sentar-se. Os sentados dormiam a sono solto, pendendo a um lado e a outro, eu temendo pela cabecita suada da criança que tombava dos braços da mãe, ela mesma em crise de sonolência. O poder do ar condicionado, perante a multidão invasora e estoirando de calor, era nulo. E nós de estátua, à mistura com cadeiras de praia, chapéus de sol, colchões enrolados e esteiras, crianças quase submersas mas ainda assim agarradas a sacos de baldes e pá, mochilas de campismo, canas de pesca e sei lá que mais. Enfim, um mar de gente e de artigos de praia e mar que não nos davam espaço para cair e que, com grande esforço e muito empurrão simultâneo ao consciencioso, “com licença, com licença, é para sair, com licença”, se apertava a dar passagem aos felizes contemplados.

        Promessa: não repetir a viagem em tal horário.

domingo, 19 de julho de 2026

Esta Lisboa que Amo

 

        Ir a Lisboa faz-me bem à alma. Desencrava-me, vejo gente, entro em lojas, corro de um lado a outro porque tenho poucas horas para muita função. E apesar disso, gosto.

        Viajando de carro, vou pensando pelo caminho no que esqueço em outras horas. O quotidiano encarreira para o comezinho, espapaça-nos o tempo em mesquinhices tão necessárias como “aborrecentes”, para citar uma das filhas de Lobo Antunes na sua contundente linguagem de infância. Portanto, em viagem ganho espaço mental: penso nos meus amigos, no quanto os gosto e no desejo de visitá-los; e penso nesses que nunca vejo e de quem tenho inexplicáveis saudades, quem sabe me esqueceram e nem merecem o pensamento; nesta pausa, erguem-se as coisas que gostaria de fazer e sei impossíveis, as que ainda posso fazer acontecer, etc. 

        Se vou de comboio - acontece menos vezes mas prefiro, leio um livro ou medito levemente na companhia -,  escolho sempre um dos dois bancos virados um ao outro e com mesa a meio. Não que precise da mesa, apenas fico de frente para duas pessoas e com outra ao lado. As “pessoas de idade” têm a vantagem de não serem notadas e poderem observar, facto hoje muito facilitado pelo uso de tablets e telemóveis. Os meus vizinhos estão mergulhados na sua pequena bolha. É raríssimo encontrar alguém com quem se possa entabular uma conversa, mas é vulgar ouvir as conversas mais ou menos longas dos meus vizinhos de viagem ao telemóvel – será porque aproveitam o tempo e súbita lhes surge a necessidade de ouvir uma certa voz (invejo-os). Quando os lugares não eram marcados, entrava atrelada a uma colega ou alguém conhecido e conversávamos a viagem toda. Hoje, viajar de comboio assemelha-se ao ovo Kinder, traz uma surpresa. Não acho mau. Gosto de surpresas (boas).

    Numa destas visitas, e já na capital, meti-me num autocarro julgando-o a via de maior prontidão. Grande lorpa! O transporte devia estar em início de viagem e deu voltas e mais voltas (apesar do google maps me dar o percurso, o autocarro chegou e atirei-me lá para dentro sem consulta prévia, olhei apenas ao destino). E só não apreciei mais a paisagem por ter hora marcada no dito destino e ver os minutos “correndo correndo sem nunca parar/caminho do rio em busca do mar” (parafraseando versos de um livro de leitura da antiga primária, acerca da água; creio). Mesmo dentro da pressa, deu para ver edifícios que devem ser soberbos, alguns dos quais não faço ideia do que sejam porque não consegui ler as inscrições que ladeavam a porta principal; mas passei por um miradouro cheio de gente e de onde Lisboa aparecia linda, vestida de telhados e folhos de brancura bordada a gosto, mais aqui e mais ali; Entrevi a entrada do Jardim Botânico e ignoro se sabia da sua existência; reparei num polo universitário mesmo ao lado e de que não fazia ideia; o Príncipe Real que nem sabia onde ficava (ainda não devo saber) e estava muito cheio de gente nova e acalorada; alguns edifícios retocados e luzindo a sua época - ignoro se apenas no exterior; outros quase em queda livre, facto que me penalizou em extremo. E os semáforos apostados no vermelho e que, se por um lado me permitiam tempo extra para os olhos, por outro, atrasavam-me ainda mais.

      (cont.)

quinta-feira, 12 de março de 2026

Manhã de Nevoeiro

 

        Lá fora, um nevoeiro cerrado. Silêncio. Já passou o autocarro escolar, os três garotos da paragem, encapuçados e de mochila nas costas, palração a cristalizar na nebulosa, subiram; e o clap automático da porta encerrou-lhes a vivacidade e andou. A rua quedou inerte e, despida de sons, abraça a neblina e amodorra – por onde andam os automóveis dos outros dias, santo Deus. É dos livros, para lá da densidade nebulosa, reluz o sol como em todas as manhãs. Mas quem consegue acreditar a pés juntos que, sem esforço próprio e antes em movimento lento e natural, que é da Terra e parece seu, ele surja ainda hoje, quando a malha do nevoeiro se contrai progressiva, cachecol ajustado ao pescoço das casas onde pedaços de telhado e chaminés são cabeças de habitação assomando por entre minúsculas lágrimas da névoa. Porém, enquanto isto escrevo, já uma claridade se insinua e a malha abre: as casas vão-se despindo do agasalho lacrimoso, assumem paredes, portas e janelas, um ar de jardim na frente de cada uma. Dado a meus olhos, o mar de telhas ergue-se na claridade, chaminés na sua inteireza inactiva e as ligações eléctricas, espectro terceiro mundista, passando-me ao nível do olhar, negra teia atmosférica. É ainda um mundo absorto e átono, repleto de orvalho, húmido, o humano a revelar-se por movimento de janelas preguiçosas, gestos que se adivinham a custo despegados dos lençóis. Uma ou outra persiana abre os olhos por medida, um guindaste de mãos e braços ainda entorpecidos, emergindo da noite em lentidão sonolenta.

        Quantos atravessaram já o algodão da névoa, eram as cinco e as seis da manhã. Quantos guiaram vagarosos, faróis de nevoeiro ligados, a protestar do atraso na ponte, ou no caminho do emprego onde quer que seja. Quantos são despejados nas gares quase de dez em dez minutos, imbuídos em pressas, sacudindo abordagens; caminham como autómatos, encerrados em si, não há conversas ou um olhar que os desvie da rota. São assim os dias de trabalho: fazem-se de rostos cansados e semi adormecidos nos transportes públicos que à noitinha os levarão de volta ainda mais emudecidos, um caminho de rugas exaustas que lhes rouba o riso, o saco do almoço já leve e a trouxe-mouxe, os olhos fechados nesse continuum de vida que dorme e recomeça, dorme e recomeça.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Dos Propósitos


        Quando trabalhava - não é que hoje o não faça -, em cada início de ano eu e os alunos escrevíamos propósitos individuais para o ano que estreava; eu guardava-os para lermos quase no fim do ano e cada um avaliar acerca do cumprimento. Antes, aconselhava-os a proporem apenas um ou dois, possíveis de executar. Penso que tirei a ideia dos Diários de Adrian Mole escritos por Sue Townsend, obras que lhes recomendava mas eles pouco gostavam enquanto a mim ainda hoje divertem, facto que me deixa a duvidar ou de mim ou de Sue, mas não me incomoda e nem sequer tento esclarecer. O engraçado nisto tudo foi que o fiz em vários anos e com turmas diferentes, mas, sendo propósitos feitos na escola, era raro serem escolares. Os alunos visavam sobretudo hábitos que desejavam contrariar ou outros que desejavam adquirir, sem relação com a aprendizagem. No que respeita aos meus propósitos...creio que também eu tentava aperfeiçoar outros campos; julgo até que, se acaso os fizesse hoje, seriam os mesmos. Portanto, não sei bem para que serviram.

        Hoje proponho-me continuar, viver mais um ano aceitando o que me traga e tentar o que Pessoa cantou: “põe quanto és no mínimo que fazes”. Contrario o que dizia aos alunos, é propósito impossível de cumprir. Mas posso ir tentando ano a ano, fazê-lo vitalício:)

domingo, 23 de novembro de 2025

Por Mor do Frio

 

        O Inverno adiantou-se ao calendário e brindou-nos com o seu melhor: chuva, frio e até neve na Serra da Estrela. Desprevenidos e habituados já ao Natal com temperaturas amenas, retesámos. E foi ver o cidadão comum - aquele que cria nichos de calor em sua casa e não os felizardos com todos os escaninhos do lar aquecidos -, esse ser transido que também dá pelo nome de povo, ou seja, a mais significativa massa de portugueses, buscando aquecedores no sótão, nas garagens, na despensa, no fundo dos vãos de escada. Os insensatos aparelhos mal começavam a libertar calor, logo poluíam o ambiente com o cheiro incómodo a pó queimado. O pó tem destas manias, infiltra-se em todo o sítio e aglomera onde dedos humanos não penetram.

        Mas a busca não se cingiu a aquecedores, a roupa de outono pareceu-nos de súbito orbitar-nos em ligeirezas de estio. E foi o cabo dos trabalhos. As traças, como toda a gente sabe, morrem e esgueiram-se às mãos da naftalina. Mas o ponto é que os humanos ensovacam ao mesmo cheiro. As naftalinas tanto protegem as nossas lãs mais lã, como causam dores de cabeça, espirros e demais sintomas alérgicos. Além de não ser de “bom tom” uma pessoa cheirar a naftalina, aquelas eficazes bolinhas brancas são hoje associadas aos velhos, só eles ainda lhes são fiéis. E quem é que quer ser velho num mundo que deseja ser jovem e dinâmico. Mesmo que o contraditório seja verdadeiro: Portugal é um país de velhos (não é fenómeno apenas português, mas cada um sabe de si). Portanto, sobretudo no primeiro dia de frio, e após quase uma semana de chuva intensa, vimo-nos impedidos daquele casaco mais quente, de cachecóis mais macios, de calças que nos fizeram aguar de desejo. E só porque as naftalinas alcoviteiras dão sinal de si a uns metros de distância. Mas as peças de lã – pelo menos elas – livres de caixas e gavetas, saídas de armários a que hoje se chamam clousets não se entende porquê, pois elas, assim soltas num estendal, ou arejando numa varanda, todas braços e pernas dançando na brisa, eram felizes – ao menos elas.

        E os pés?! Ai os pobres dos nossos pés! Frios, quase congelados; e nós, onde diabo pus eu as botas forradas, que razão terá havido para as mudar de armário?! E depois das botas, o martírio das meias. As meias mais quentes que sabíamos ter arrumado todas juntas. Mas onde, era mistério.

        Ah! As camas também entraram ao barulho. Os edredons, hélas!, achámos facilmente. Os edredons estão para as camas como os elefantes para a selva: não passam despercebidos. Mas dos lençóis mais quentes nem sempre há notícia, e contentamo-nos com a simplicidade da flanela quando os polares parecem emigrados. Ora o assunto de resolução do frio não se fica por aqui: o povo mais friorento, velhos e velhas de sangue frio (velhos existem de sangue quente), correram por resguardos eléctricos que lhes mantêm o calor do corpo na frigidez da noite. E verificámos o ar condicionado, mas entupiu, deu-lhe um amoque; contactamos o técnico que agora não pode, tem muito pedido por satisfazer, talvez consiga ainda antes do Natal.

        Meus amigos, parece que não, mas tudo isto foi muita coisa para fazer num repente de friúra. Nós os velhos cansamo-nos com tudo o que implica mudanças drásticas. Isto já não é para a nossa idade. Ó Deus, tem piedade! Vem lá mais devagar com o frio sff.

        E que o inverno não nos vença. Que convencidos já estamos.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

A Liberdade Passou por Ali

 

        A fechar o tema e o concerto – foi mesmo um concerto -, Gisela cantou “A casa da Mariquinhas” com a letra renovada e de acordo com os tempos. A letra tem graça e por tal a prefiro à primitiva de que nunca consegui gostar.

           Mas o público. E também a vontade da artista. Porque nos encore cantou e dançou impecavelmente nos seus saltos agulha o malhão, o vira e sei lá que mais. Sempre incentivando e querendo companhia. Pôs toda a gente fora das cadeiras, a cantar e dançar, eu incluída. A bem da verdade, o meu forte é mesmo dançar sem mexer os pés. Mais ou menos o que fiz. Foi um final de alegria colectiva, uma aragem de primavera bem portuguesa, talvez um leve e agradável  aroma de Abril - falo por mim - insinuando-se  por este outono dourado a que os grandes navios ancorados emprestam fugaz magnitude.

        Saímos contentes uns dos outros. Ela, cansada e feliz porque o público a ouviu e lhe quer bem – os artistas precisam desse carinho e atenção. Nós, porque apreciámos o trabalho da cantora, soube ser empática e profissional; fez-se próxima sempre que explicou a razão/razões de preferir esta ou aquela música que ia cantar – ao longo de todo o concerto, Gisela expôs a circunstância que inspirou a inclusão das melodias escolhidas. Deu a mão às mulheres deste país, lembrando aquelas que na sua família foram ou ainda são as dos versos de Capicua. Diz-se que hoje já as mulheres são outras, que conquistaram direitos iguais aos masculinos. Duvido. Continua a parecer-me que as mulheres carregam o mundo nas costas e não apenas na barriga. Convenho: não são todas. Mas são tantas e o peso é tamanho…

        Obrigada Gisela. Bem hajas por nos fazeres companhia e lembrares o que não nos esquece.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

A Liberdade Passou por Ali

 

        A fadista começou o espectáculo com músicas do seu álbum recente, as cantigas de intervenção cantadas no pós abril de 74. José Afonso, Sérgio Godinho; Fausto; José Mário Branco. E até cantou a senha da revolução “E depois do adeus”. Foi o apogeu (meu e acredito que de mais gente). Cantarolei com ela, facto que decerto confrangeu as minhas manas, preferiam-na pura, sem o meu eco a soar-lhes no ouvido; a meu favor tenho que foi acto espontâneo, veio-me o espírito revolucionário ao de cima, impossível calá-lo. E mais, Gisela deu um viva específico a José Afonso e pediu uma salva de palmas, facto que me comoveu e soltou vários assobios e aceitação em dobro. Outro momento alto aconteceu quando cantou “Que força é essa amiga”, canção que todos lembramos ser de Sérgio Godinho e a que a amiga Capicua adequou uma letra que diz muito a todas as mulheres que se prezam de sê-lo. Aqui deixo um bocadinho da letra só para tomarem o gosto:

Vi—te a trabalhar o dia inteiro
A limpar a cidade dos homens
Por amor, ou por pouco dinheiro
Ficam velhas as tuas mãos jovens
O teu peito, o teu colo é consolo
A despeito do teu próprio choro
Que força é essa?
Que força é essa, que trazes nos braços?
Que só te serve para obedecer
Que só te manda obedecer
Que força é essa, amiga?
Que força é essa, amiga?
Que te faz levar o mundo todo na barriga

(…)

        E, com toda a propriedade, pediu para a amiga Capicua uma salva de palmas. Prontamente expressiva. Mas houve de imediato quem se levantasse e fosse embora – sei porque estávamos no corredor a meio e tinham de passar na nossa frente. E já acontecera com alguns gatos pingados quando cantou Zeca Afonso.

        Em seguida, os fados. Mas aquilo que me arrasou foram as canções de intervenção e a introdução corajosa de Gisela antes de cada uma. Sem referências específicas, todos sabíamos o que ler nas entrelinhas e qual o significado de a fadista dizer que são canções de novo necessárias. Achei lindo e gratificante ouvir de alguém que não viveu o 25 de Abril de 74, a importância de continuarmos a ser democratas. Gisela João tornou-se a minha Gisela Sem Medo. Pela coragem, mas também pelo gosto. Pelo profissionalismo do espectáculo, desde o cenário em branco completo, ao original guarda roupa na mesma cor; pela boa disposição; por não abdicar de valores que transporta e não se coibir de chamar a atenção do público para a sua universalidade. Por instigar à partilha na medida em que o particular não pode ser dominante, a democracia assim o exige. E, como frisou, há valores de que nos esquecemos e que temos de cuidar; a democracia pede-o encarecidamente – digo eu.

(cont.)



domingo, 28 de setembro de 2025

A Liberdade Passou por Ali

 

        O Fado não me move por aí além, desconheço uma casa de fados e nem aprecio espectáculo apenas fadista. Reconheço ser positiva a renovação no fado, mas não morro de amores por Ana Moura e outras fadistas recentes e mais jovens que o vestiram de nova roupagem e o fizeram renascer; mas longe de mim negar-lhes o valor que aportaram à canção nacional. Gostos são gostos. Exceptuo Amália, cuja voz move e comove e António Zambujo, um alentejano que modula influências musicais a jeito seu e me cativa até no fado. Do resto, pouco guardo neste género de canção dita nossa e que pontua por amores malfadados, ciúmes mais que explicáveis, duplicidades amorosas e triangulares onde existe quase sempre uma mulher que tudo transige em função do amado disperso por ângulos que tornam mais aguda a vida da pobre amorosa. Ignoro se realmente o fado nasceu com a cigana Severa. Mas é certo que a sua história vem de tabernas, copos e bebedeiras, guitarradas e mulheres de amor vendido, hoje dito fácil, que na realidade nem se chamará amor. Contudo, aqui estou para a apologia a uma fadista. As voltas que a vida dá!

        A despeito do meu sentimento para com a canção nacional, os familiares mais próximos apreciam fado. E, se programam ouvi-lo, acompanho - Sabe Deus quantas mais vezes poderemos juntar-nos amenos e ainda suficientes e capazes. Por tal razão nos deslocámos ao Caixa Alfama. Depois do Cante Alentejano que acompanhei de viva voz, depois das fotos com os meninos do Cante que as manas não dispensam e eu repudio; depois de Viviane, uma intérprete e tanto, sobretudo cantando em francês as músicas de Piaff (quanto lamento ter-se cingido à unidade); Viviane que afirma cantar diverso – chama-lhe “fado mediterrânico” - canta e interpreta este tipo de canção de forma bastante original.

        A terminar, no palco principal, Gisela João. Nada esperava e tanto me trouxe. A mim e a muitos como eu. Que o agrado medido em palmas não deixou dúvidas. E é claro que o nosso presidente Marcelo lá estava na primeira fila, facto que, em minha opinião, não indicia mais do que ele gostar de fado. Afirmam minhas manas que devia nascer de novo a ver se surgia menos ingénua; mas sempre retruco que são demasiado pessimistas e vêem os outros com olhos maléficos. Elas olham em frente e continuam, “tá bem, tá bem...o pai é que tinha razão, és uma anjinha”. É muito difícil sairmos do rótulo, portanto, desisto; mas bem no fundo de mim subsiste a minha pseudo certeza. Além do mais, o que ganharão elas ao imaginar maldade e segundas intenções em tudo e mais alguma coisa?! Não me parece haver lucro em tamanha desconfiança baseada na pretensão de saber o humano mundo.

        Conhecia Gisela João da net. Ouvi-a algumas vezes. Tem voz possante. Visualmente, é quarentona muito de se aproveitar: em cenário e adereços brancos, apresentou-se de imaculada camisa larga (parecia masculina) sobre o que semelhava cuequinha branca daquelas antigas, até ao umbigo, e um topezito de cal, em tudo semelhante aos que usamos quando os decotes são em demasia pronunciados. As pernas indiciavam mulher do norte, o que o doutor google confirmou. A completar a indumentária, sapatos bem altos e de salto fino. Achei bem.

(cont.)

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Dias sem História

 

        Os dias somam-se uns aos outros, encadeiam em engrenagem feita de horas e pouco tempo resta à memória para focar uma imagem, lembrar uma conversa, reiterar a naturalidade de um gesto que surpreendemos. Quanta hora escoa sem darmos conta, os dias correndo inexoráveis para o fosso dos esquecidos, sem pensamento que os detenha e rememore. O que fizemos nesses dias talvez perdidos ad eternum?! É incógnita que, ao invés da matemática, jamais se desvela; podemos fazer contas e mais contas que não lhe achamos o valor certo, apenas presentificamos o que a memória guardou em algum lugar dos seus habitáculos. Vem esta arenga a propósito do dia de ontem, nada extraordinário. Mas admito que sim, houve uns flashes. Se não, falta-me a capacidade para retirá-lo do anonimato. Vamos lá, faz um esforço preguiçosa.

        Ora bem, as insónias são praga pior que os pulgões e todos os organismos vivos que me habitam as flores e não são elas. É indubitável, a insónia apegou-se-me, criou hábito; mora nas minhas noites, e de certeza me tem em alta conta, ainda que eu não entenda a preferência, detesto-a à força toda. Portanto, ontem comecei o dia à procura da lata do café enquanto a gata salganhava pelas minhas pernas a querer o mata bicho. A minha gata não é dada a ternuras senão nos miados. De tanto gato que já tive nunca um foi tão arisco nem tão docemente me miou. Haja Deus! A bichana tinha de ter alguma coisa boa.

        Depois de um café com leite, cujo me está proibido em grau supremo, fiquei apta para caminhar. Um café (com leite) abre-me a alma, compatibiliza-me com inimagináveis actividades, melhora-me o mundo e a circunstância. 

        Caminhando, não encontrei humanos, esses seres tão plausíveis. Bom, havia as ovelhas, os pássaros a esvoaçar na claridade que despontava, as flores que teimam em sobreviver na beira de estrada e me lembram certas pessoas que admiro, vivem por teimosia e gosto, mau grado o lugar que lhes calhou em sorte. Gastei a manhã em afazeres que detesto, mas nestes dias beiram o agradável.

        Viajei sem sobressaltos e quase cumpri os limites de velocidade. Os meus fortuitos acontecem mais no Metro. Desocupada, posso observar sem perigo - a maioria dos viajantes fixa o telemóvel. Reparei na ternura africana de uma mãe com filho(um a dois anos) no colo e o cabelo do garoto rapado até meio da cabeça, o resto desenhado em quadradinhos pequenos cada um com um tufo a meio, parecido a um botãozito fofo e em que apetecia pôr o dedo. Amoroso conjunto. Umas estações depois, sentei-me frente a um casal jovem; apanhei uma frase dela, “quer dizer que te atrasas sempre por causa do dentista – pausa da garota –, e achas tu que espero sempre por ti; no mínimo, atrasas meia hora, e eu fico à tua espera na mesma, é isso?”. Eram também africanos ou só descendentes. Pensei que iam brigar apesar da entoação dela ser mais de quem descobre alguma coisa e está surpresa. Atrevi-me a mirá-la: olhos líquidos de gazela, bem redondos. E não enganavam, a garota gostava dele. Segredaram baixinho e saíram amigos e namorados. Falta saber se ela vai esperar sempre e se o dentista existe mesmo. Há que preservar o mistério. Também entrou uma jovem com um bebé metido naquelas coisas de que já nem sei nome, mas permitem transportar os bebés na frente das mães, pernitas penduradas e eles satisfeitos. Se eu fosse mãe de hoje queria usar aquela tira de tecido que deixa as crianças em contacto de intimidade com a mãe. Mesmo lindo. E como ninguém lhe deu lugar, levantei-me. Que maravilha a forma natural como aquela teenager entrou, pôs a mochila no chão(do Metro), deitou a mão à espessura do rabo de cavalo e soltou os anéis do cabelo que caíram em chuva livre por ombros e costas, caracóis desatrelados luzindo o súbito contentamento. Como são bonitas as raparigas quando não fazem pose e nem se sabem observadas.

        Pois é, ainda fui ouvir aquele que chamo “o nosso professor” e é poeta. Ausento-me das apresentações dos seus livros, mas, podendo, vou às aulas que dá. E pude rever o editor da Guerra e Paz com seu chapéu, simpatia e simplicidade. Terei imenso prazer se a Guerra e Paz singrar a sério, sem problemas económicos e por largos anos. Manuel da Fonseca tem bom gosto nas obras que edita, ama a língua portuguesa e os livros, e escreve lindamente; nestes tempos em que editoras e livrarias vão fechando, é um corajoso. O “nosso professor”, que só é “nosso” por termos feito (eu e uma colega querida) um primeiro curso com ele; é rapaz escorreito, rodeado de fãs. Tem palavra fácil e precisa, sempre vigorosa. Física e mentalmente muito assertivo, argumenta com rigor e denota muito queimanço de pestanas. Tem seu quê de satírico que lhe aumenta a aura, mas as suas aulas são a sério: ensina com o entusiasmo de um verdadeiro professor. Mesmo com os velhos isenta-se de complacências, está ali e é pago para dar uma aula: é o que faz. Defende os ditados, os TPC, a leitura em aula e outras coisas. É sempre um gosto ouvi-lo. Será por ser velha e defender o mesmo?!

        Lendo o que escrevi, concluo que afinal ontem foi um bom dia.


PS: Há tempos que reparo ser pouco afirmativa no discurso: escrevo demais o termo não. Hoje tentei evitar, mas, sem contar estas linhas, escrevi oito nãos explícitos. Levar o tempo a negar é feio. Por acaso, Rentes de Carvalho pensou semelhante um dia destes.

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Tempus Fugit

 

        Se colocamos em perspectiva os males de ontem, parece-nos quase sempre que os de hoje, que doem e fazem mossa no presente, são mais fortes, piores, crescem-lhes garras e cadeias de tormento. Ora, ainda que diverso disto, um dos grandes males de sempre é a luta insana e contra relógio que comanda a vida dos homens. Acontece demasiadas vezes a toda a gente. 

        Andava eu a apreciar as novas entradas no CAM, a experimentar entrar e sair; a sair para observar em pormenor o tecto da célebre pála, dando um soslaio para as várias cadeiras de plástico branco espalhadas na clareira em frente e onde algumas pessoas descansavam concentradas em si e parecendo satisfeitas com isso; e ia eu entrando de novo e descendo as escadas de mármore tão bonito agora tapadas com um metal que deve estar na moda, já que a entrada da Casa da Música também assim é, eu ressoando escada abaixo e aqueles bancos de pedra corrida a virem-me à memória - ainda estão no mesmo lugar -, eu sentada perto de adultos com crianças que comiam bolachas ou só vinham perguntar alguma coisa e retornavam à relva e à brincadeira; onde pares de namorados paravam para atacar os sapatos, ou apenas decidir se iam à biblioteca ou se estendiam na relva. Pensava nisso e nas cadeiras plásticas. A sério: apetece-vos ir para a Gulbenkian sentar numa cadeira plástica que podem mover no sol ou na sombra do terreiro?! Talvez apeteça ter uma peça móvel para sentar em modo unipessoal, já que várias estavam ocupadas. Retomando o assunto, é claro que no final da escadaria não estava o wc de sempre, mas outra coisa qualquer. E subi, pom, pom, pom. Fui comprar a entrada no museu e salta-me o jovem, a senhora quer mesmo entrar? É que daqui a um quarto de hora o museu fecha. E eu para dentro, mas quem me manda a mim andar a passaricar sem ver as horas?! Do lado de fora, sorri-lhe à simpatia e prometi voltar noutro dia. Ainda não era o dia de convívio com Paula Rego. Ora bolas!

        Semanas passadas, lá me pespeguei. Lembrada de que não encontrara o wc, resolvi investigar-lhe o paradeiro. Não sei se consigo encontrá-lo de novo, tanto corredor branco baralhou-me, senti-me, ao vivo, num filme de ficção científica - julgo que tudo em mármore, mas preciso confirmar, atordoei um bocado. Com ajuda, atingi o objectivo. Satisfeita a primeira condição, marchei contente ao museu. Ia disposta a sentar-me em contemplação, Paula Rego é alguém que admiro e gosto-lhe dos temas. Mas qual contemplação?! Os quadros estavam lá na sua inteira realidade, na feiúra bela em que Paula os concebeu. Algumas figuras parecem querer sair da pintura, apostrofar-nos; aquelas mulheres-homens cheias de músculo, o sofrimento de tantas, a ingenuidade daquela, a amargura nos vincos de rostos endurecidos. E o simbolismo de tudo: Portugal a derramar-se sem espartilho. Enfim, eu queria mesmo era ver em pormenor e com tempo – fui cedo e tudo. Mas não havia onde sentar-me e a minha acção contemplativa não transige: só funciona na posição de sentada. É forçoso. Portanto, vi-os sim senhor, mas não contemplei. Gostei da sensibilidade que soube juntar Paula Rego com Adriana Varejão, gerações diferentes e parecidas. Admirei os rasgões de Adriana lembrando carne lacerada e outros golpes. Até achei bonita a disposição das pinturas em pequenas salas de faz de conta. Mas quem é que, num museu reconstruído, se lembra de expor pinturas e lhe retira o sentar?! Será também uma nova técnica?! É que o único banco que vi, curiosamente, estava nas costas das paredes onde as obras estão instaladas, espaço que, a bem falar, já não é exposição. O que pensaria disto Rui Mário Gonçalves, crítico de arte e professor universitário, que, como primeiro trabalho, pedia aos alunos que olhassem um quadro do MAC durante meia hora para depois escreverem as suas impressões.

        Será que a concepção da exposição, ao preferir as divisões de casa falsa, retira a distância necessária à contemplação? Pode ser preconceito, conservadorismo elevado à última potência, mas ausência de todos os assentos?! Todos, todos?!

domingo, 24 de agosto de 2025

Tempus Fugit

 

        Durante anos visitei com regularidade o Centro de Arte Moderna da Gulbenkian. Penso que o descobri por mim, nem sei como; imagino que através de referências sobre as pinturas de Amadeo, por exemplo. Levei lá carradas de alunos. Gostava-lhe da situação e tinha preferência pelo serviço de restaurante. Envelheci com aquela gente: no princípio dominava em nós o tom natural de cabelo, sobrancelha, bigode (havia um senhor muito simpático e de bigode) e terminámos grisalhos ou atintados. Coisas. Não que os visse muito, mas havia naquela sala alguma coisa de familiar que me atraía. Seria a simpatia na recepção, a qualidade do atendimento que não se eximia de sugerir se nos descortinava indecisão, o conforto de mesas e cadeiras, a cultura de falar baixo, a diversidade de pratos quentes e frios, os sumos naturais e a variedade de sobremesas, a eficiência delicada na retirada de tabuleiros. E, lógico, a qualidade de tudo. Ali estive com amigos(as) e tanta vez só, para lanche ou almoço. Próximo do meu local de consultas e de um cinema, havendo tempo, passava para olhar o verde no meio da cidade, sentir o trânsito lá fora, sentar-me num banco a contemplar a vida em câmara lenta, o cheiro a relva molhada oferecendo certezas simples. Todos os sentidos à superfície. Só depois rumava ao destino, alma leve.

        Amei com vigor o museu, vulgo CAM. Quando a entrada era gratuita para professores entrava sempre e geralmente ficava-me pela primeira sala. Sentava-me a olhar os quadros de Amadeo e o fabuloso retrato de Pessoa axadrezado em vermelhos, branco e negro, divina pintura de Almada Negreiros. Fazia-me bem ao espírito contemplá-los. Punha um pé na Gulbenkian e o meu eu diário suspendia.

        Entretanto, aconteceram as obras no CAM e o covid, amplas restrições aos passeios pela Gulbenkian. Não que os deixasse de todo. Mas o ponto que mais me interessava manteve-se demasiados anos encerrado ao público. Vi exposições no museu do edifício principal, assisti a concertos e conferências, sentei-me no mesmo banco a observar o vagar com que a vida por ali se derrama. E os muros altos continuavam a cercar o CAM. Até que foi notícia de telejornal: o CAM reabrira. Não fui a correr. Sou a cada dia mais conservadora e saudosista, parou-me o receio de não gostar da célebre pála e nem do resto. E depois fui adiando, adiando, quase até ao esquecimento. Adiei tanto que deixei mesmo de passar nos jardins de que tanto gosto, tenho devoção contemplativa por Gonçalo Ribeiro Teles um dos criadores daquela maravilha. E nem é preciso citar que o senhor Gulbenkian tem lugar cativo no meu coração.

        Bom. Há cerca de dois a três meses enchi-me de coragem e fui ao Centro de Arte Moderna. E sucedeu o que pensara: não achei que a célebre pála merecesse o dinheiro que ali se gastou. Mas pronto, está lá, tem um ar moderno, deve ser obra de arquitecto iluminado. Espreitei o restaurante. Oh! Perdeu todo o ar familiar. Ganhou individualismo minimalista e perdeu em qualidade. Talvez tenham um chef ou algo parecido, mas espreitei as iguarias e não só não apareceram, como faltava sedução aos arranjos(taças de inox?) em que se encontravam alguns alimentos. Bom, junto à janela panorâmica ainda há resquícios de antigamente (para os saudosistas), mas tudo ocupado. Da empresa e da simpatia eficiente dos funcionários de antes não há sinais. O mundo está sempre a mudar. Aceito. Só receio que esta actualidade severa e cool não deixe memórias. Mas a minha amiga dilecta está encantada com a mudança e mais sua beleza; portanto, será inadaptação da minha pessoa, cuja perdeu um lugar de almoços e lanches. Paciência.

        O mais que me aconteceu conversamos noutro dia.

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

A Alma Que Não Sei Se Tenho

 

        Há uma espécie de trégua de tudo nas horas de calor intenso: circulam poucos automóveis, o ar torra e estremece em ondas; no quintal, os vivos estão de orelha derrubada. Durante as tardes de calma, após o almoço e coisas de cozinha, e o mais que as mulheres antigas sempre trazem à ilharga, sento-me pesadamente desejando que o cansaço não parta a cadeira que tanto me agrada e comprei para um filhote. Sentada, liberto pés e mente – sendo dois extremos, experimento uma ponta de liberdade. Sinto os dedos suspirosos a expandir enquanto a mente evolve na procura de um agrado pensável, sem anotação de tempo ou outro destino que o habitar-me pacificamente.

        Troco os pés sobre os sapatos abandonados e sem graça. Observo a suculenta que estremece brevemente na vibração do ar condicionado. A violeta, mais afeita a ser flor, não bole uma folhinha sequer. A minha violeta tão velha e que vou mudando de vaso em cada ameaça de morte. As flores são assim, avisam. Dizem, ou tratas-me ou morro. Em silêncio, enconcham folhas, esbranquiçam, ganham piolho, o tronco desenraizando numa súplica, salva-me. Replantei-a, mudei-lhe a casa e o lugar, reparo-a todas as tardes (ou quase). Parece outra, jovem de pele, folhas em pose, tal bailarina em pontas, reverdecidas e cobertas de ligeira penugem cetinosa por onde passeio dedos de vagar e cuidado, admirando (oh!) o vigor dos músculos vegetais que a projectam. As três. Mudas e quedas. 

        Abro o portátil e elas sabem que vou permanecer. Antes disso, são dubitativas. Por qualquer razão, a suculenta tem o meu ar despenteado, uma data de filhos felizes da vida, virados uns para um lado, outros para outro, pontas a revirar. Ah, se eu tivera cabelo verde! Ou roxo, como a Menina do Mar, bonita como só ela, tão pequenina que cabia num baldinho de praia. A Menina do Mar foi o conto que o professor de psicologia nos deu a conhecer lendo extractos numa aula (sei, já contei isto). Também o li muita vez e a muita gente. Quem sabe, alguém que o ouviu o tenha guardado; alguém que também o leu ou contou aos filhos e mesmo a outras crianças; alguém cujo espírito acordou para a beleza das palavras de Sophya e o maravilhoso das suas histórias. Alguém que, sonho eu, se tornou melhor e mais belo(a) sem se dar conta e nesse espírito abriu portas a outros.

        Penso coisas assim quando me anexo às duas companheiras. Mas hoje não consigo desligar do exausto suplício de bombeiros esbraseados, dos fogos, do flagelo das árvores, seres vivos sem pés que se movam ou possam tentar a fuga; dos animais que as chamas mataram e dos que perderam o habitat; da vida de tanta gente sem lugar de pertença, apartada de casa por receios feito línguas incandescentes que de tudo se alimentam, haveres tragados pelo fogo. Os mais velhos, sem herança nem coragem para o recomeço, descoroçoados de todo, lembrados hoje nos media e logo esquecidos no seu infortúnio de amargura. 

        Vi na TV gente que, como eu, quer descansar na sua cadeira, mesmo que não seja sua; quer adormecer na cama que tem o colchão moldado pelo corpo; quer o canto de onde vê a rua, a janela que abre todas as manhãs adivinhando a paisagem que ora perdeu, o cão, o gato, a vaca ou o que seja que lhe era companhia e mesmo sustento; quer a vida que lhe pertencia e ganhou com esforço, que o pobre, se sobe e é honesto, deixa a pele e muito suor nos degraus. Vi em directo, no impudor que tudo mostra, a aflição gritada de moradores esfumaçados que regam e voltam a regar os quintais na esperança de estancar a irracionalidade descontrolada do dragão hiante. E a minha alma é cinza e negritude. Vejo correr os populares de mangueira na mão, os bombeiros incapazes e sem meios que bastem para acudir a tamanho inferno. E, no meio de tudo isto, ouço que algum fogo(s?) começou por volta da meia noite. Foi talvez a trovoada seca. Dizem-me que os fogos maiores começam de noite. Não asseguro que seja verdade. Sou um bocado lerda, palerma mesmo. Mas intriga-me que um fogo comece na serra e quando alguma frescura lhe chega. Sei que existem outros motivos e muito lapso humano.

        O que é que paga a dor que vemos nos rostos exaustos e desesperançados desta gente?! Quem repõe a ordem natural do planeta e as suas condições de habitabilidade, quando todos os anos são destruídos milhares de hectares de floresta?! Não há planeta que resista. Bom, o planeta é capaz de continuar. Sem nós.

sábado, 19 de julho de 2025

Bolas de Sabão

 

        Nos dias e momentos em que nada apetece, tenho por hábito picar aqui e ali, blogs a que pouco me prendo e leio por desfastio enquanto penso no a seguir. Creio ter sido assim que cheguei a “A Gata Christie”. Bom, fui muito pelo nome: é bem humorado e lembra-me autora que admiro e de quem, em meu tempo de literatura policial, li tudo que havia a ler.

        O que “A Gata” escreve sobre terapia! Cara mas importante. Um salva vidas de iate, digo eu.

        A terapia parece-me período de actividade paga de atenção ao outro; coisa muito mental. Não aparenta ser de dificuldade assinalável que justifique os preços irrisórios a que se guinda. Portanto: somos um largo conjunto de desajustados a nível mundial e os/as terapeutas, e mais a sua eterna proposta de auto conhecimento, mantêm resultados restritos. Elitistas, digo. Gostaria sinceramente de saber se os beneficiados se tornaram melhores pessoas. São melhores para os outros? Têm maior e melhor capacidade de doação? Fazem melhor o mundo desde que a terapia lhes entrou na vida? Apesar da máxima socrática (o filósofo), “conhece-te a ti mesmo”, o sentido parece-me diverso. O certo é que as surpresas vindas de outrem – boas e menos boas – me determinam bastante (pode ser falta de análise?). Vou-os e vou-me neles aprendendo, actividade sempre inconclusa. 

        No abraço da velhice, aprendo o desprendimento; afrouxo laços – o mundo dos velhos vai-se estreitando e vamo-nos despindo e despedindo à medida do entendimento da nossa perda de importância. Os anos e a circunstância restringem-nos ao essencial e a isso somos gratos, perdida a elasticidade que nos disparava para diversos campos. Afastados do mundo da necessidade, por certo ficam alguns amigos, mas já sem premência; fica a família, mas sem ilusões; ficam amores e seu caudal (minguado ou não). Ainda que o presente nos exista, tudo vale mais no que fomos.

Descartados os terapeutas de ofício, o que resta ao extenso mundo que os não frequenta?! O mesmo que a todos os analisados e aos próprios analistas: viverem da forma mais propícia que conseguirem. Ou, no caso da Gata, ir passando a ferro e dando abraços, e amizades e isso, que um dia também há-de mudar. É bem mais nova que eu, essa menina. Ainda lhe faltam umas coisas, tal qual me faltaram a mim:).

Enquanto haja, é tudo vida.


terça-feira, 8 de julho de 2025

Sal da Terra

 

        Era mestiça e jovem, longamente encaracolada; vestia sem preconceitos alguma coisa que lhe escorria corpo abaixo, cavas bem largas, alardeando ausência de soutien. Num movimento de onda suave mas determinada esgueirou-se para a carruagem de Metro quando já soava o sinal de partida. O corpo oscilou-lhe com o arranque e mal teve tempo de lançar mão ao varão central. O comboio embalava para a estação seguinte na chiadeira de quem prefere a imobilidade, mas é obrigado ao movimento. Foi quando retomava equilíbrio que reparou: a mulher de meia idade e braço ao peito tentava, sem êxito, agarrar o varão falho de espaço livre ao seu alcance. Ouviu-lhe a voz baixa e arrastada de conformismo, queixa que não chega a sê-lo, “eu só queria segurar-me, tenho de ter cuidado com este braço que foi operado pela segunda vez”. Fixou-a: tinha o ar gasto de quem carrega muita vida nas costas, olhos de tanto se me dá, a pele amarelava e as rugas corriam a desejo; a aparência não lhe entrava nas preocupações. A garota relanceou os olhos pelo mar de cabeças na carruagem à cunha e tentou proteger o braço lesado da outra com o próprio corpo. Quando o metro parou, e no sair e entrar matinal ninguém cedeu lugar à mulher ou sequer se preocupou com ela. Elevou a voz, “alguém que dê o lugar a esta senhora que fez uma cirurgia”. E apenas um adolescente africano, talvez quinze ou dezasseis anos, se endireitou de lancheira na mão. Nos quatro bancos repletos ninguém mais lançou sequer um soslaio à mulher. E ela, observando a outra a sentar-se num murmúrio grato, abriu um sorriso breve e endereçado, caracóis saltitando sobre a testa. E da brancura dos dentes saiu-lhe um “obrigada” musical.


segunda-feira, 3 de março de 2025

Uma ET na Blogosfera

 

        Invade-me em certas horas o aconchego de saber que posso vir aqui e escrever o que me apetece; sobre o que me der na bolha. Quantas vezes o faço com desvios e infidelidades assinaláveis em relação ao meu intento originário. Há horas assim, a vontade manda uma coisa e o apetite outra. Devo esclarecer que, neste âmbito, sou consistente com os apetites e enxoto a vontade. 

        Neste lugar impalpável e dentro da vida quotidiana, mantenho a ilusão de conversar com alguém - seja quem for, desde que não ultrapasse os parâmetros da boa educação. Interessa-me a permuta de pensamentos na troca de opiniões. Claro que é insatisfatório. Porém, a não existência desta possibilidade falseada de estar com alguém, escurecia-me (mais) a vida. Portanto, acarinho e mantenho a sensação irrazoável de pertença ao mundo digital, como se ele me facilite – torne mais leve - o outro (é bem capaz de acontecer). Não venho aqui para aprender, para fingir ser quem não sou, para me construir noutra personalidade, ou sequer dar vida a sonhos antigos (dos meus sonhos que foram, alguns são já irrealizáveis e outros a vida decidiu não os realizar e eu dei uma mãozinha). Sou fiel ao inicial propósito: trocar opiniões, conversar, estabelecer pontes de uma solidão a outra – todos precisamos delas e por tal as procuramos; mas cada um encontra o que encontra e é com isso que tem de se haver. Há quem as descubra fora deste mundo de faz de conta. E quem não. Ou quem as encontre, mas não lhe bastem. 

        Ora eu também me divirto nesta actividade. Digamos que espaireço e me evado. Agrada-me encontrar opiniões que partilho ou nem por isso, e outras de que discordo frontalmente. Por vezes contesto; algumas ficam tão fora da minha órbita opinativa que não me merecem comentário; e também me eximo de pôr palavra em assunto de que nada entenda ou desinteresse. 

        Tal como mantenho “contactos cativos”, há os que frequento sem cativação, interessa-me neles a erudição, não a pessoa – se os abandono, nada deles guardo. Enquanto os que pela escrita me cativaram deixam intacta memória, os restantes são paisagem na janela do comboio em que viajo. Não esqueço – por exemplo - certa “Nina” que por mim passou ou “Presépio com vista para o canal” (não sei bem se era este o nome do blogue). Desejo com veemência que sejam felizes lá por onde andam, mas continuarei a lamentar que tenham desaparecido. Se eu fosse francesa diria de ambas, “Tu m’as touché”. Mas o mundo digital faz-se também deste desprendimento (não me habituo), aprendemos a aceitar que os outros têm diferentes motivos para aqui chegar e por diferentes razões nos abandonam; acredito que a decisão de partir sem regresso os beneficie. Este mundo é bastante mais efémero que o outro; nele, nunca saberemos a mais ou menos segura verdade dos outros, a ficção pode acompanhá-los sempre, sem que demos conta. Que, se não os conhecermos e pudermos tocar, podem ser sonho que eles mesmos constroem na nossa mente. Mas, se até nesta condição contribuem para prosseguir viagem, que estejam ou partam e façam como entenderem. Não é afinal esse o espírito?!

        Este mundo vai-se fazendo com os que chegam e permanecem. Ainda que em modo "faz de conta", temos de reconhecer que até a ilusão precisa ser consistente:)

        Bom Carnaval, gente!!! Que a quaresma já nos espreita por entre os pingos da chuva.

     Um abraço

domingo, 6 de outubro de 2024

Manhã no Museu

  Um dia destes fui a passeio ao maat que inda não conhecia. Ok, já sei que tem oito anos feitos na semana que passou e houve festa, o programa estava afixado. Oito anos para mim é coisa recente, de há poucochinho. E porque a exposição presente estava à beira de ser passado, as educadoras de infância queriam por força vê-la. Pareceu-me motivo convincente. O edifício é bastante agradável e a exposição constava essencialmente de instalações artísticas e fotografia (lembrei-me da Gracinha). E pronto. Lá fui integrada no grupinho. Integrada, no verdadeiro sentido do termo, acho que não cheguei a estar. Porque sou velha e antiga, não me agrada tirar por duas vezes os ténis e as meias para entrar numa sala; e ainda me agrada menos pôr-me a rebolar chão fora ao som de música e a olhar os balões que enchem o tecto.  Este tipo de coisa, com toda a gente - alguma - a olhar, não me descontrai. Mas gostei de vê-las inter activas e despreocupadas logo na primeira sala que tinha o chão barrado a casca de pinheiro igual à que espalho nos canteiros das flores e exigia gente descalcinha. Tinha tambores, címbalos e uma data de instrumentos que não identifiquei, mas toda a gente queria tocar: eram ruidosos e de batuque. A instalação assaz bonita e toda rendada em estampados vivos e cordas feitas  de tecido (ao estilo Joana Vasconcelos). O autor é um brasileiro de nome Ernesto Neto. 

As colegas saíram animadíssimas e com pés castanhos. Voltaram a calçar meias, apertaram ténis e lá seguiram para a sala dos balões onde, como atrás frisei, voltaram a descalçar-se. E eu o que fiz enquanto elas se divertiam e des-stressavam de sala em sala? Bom, andei a ler as histórias que por ali estavam escritas na parede; umas sobre os artistas e outras sobre as obras. Junto à sala dos balões encontrava-se uma sequência de fotos que só entendi após a leitura. A história tem potencial. O caso começa em Luanda quando um grupo de cientistas resolve, com dinheiros públicos e privados, construir uma nave e ir ao sol garantindo isenção de queimaduras por viajarem de noite. Portanto, tinham apenas oito horas para explorar o sol e, quem sabe, trazer um pedacinho do mesmo para os laboratórios de pesquisa. Além do mais, a equipa angolana não descartou a hipótese do ambiente geral ser muito quente e inventou uns fatos especiais e resistentes a altas temperaturas, rodeados por tanques de cerveja gelada - excelente ideia. E conseguiram chegar ao destino e despachar-se no tempo previsto (não existem fotos da estadia no sol). Havia ainda uma foto da chegada dos astronautas e que era bastante similar a trabalhos nas obras. Sorri.

Também assisti um filme enorme de que não entendi bem a utilidade, mas deve tê-la e a fotografia era boa. O mais relevante pareceu-me ser uma mulher negra que começava por esgatanhar a terra e logo (deu muito trabalho) se enterrava a si mesma naquela terra laranja intenso que imaginamos ser solo angolano. Gostei-lhe da respiração a notar-se na terra, como se as duas fossem uma só. Mas fui a única pessoa que assistiu ao filme completo e os seguranças já me olhavam de lado. Desandei.

Entretanto, fui investigar uma instalação composta por rectângulos de vidro transparente e multicor em forma de sala aberta, com uma espécie de poço colorido a meio. Deu boas fotos porque as cores e as pessoas fora e dentro da construção formavam um conjunto singular de aspecto irreal. 

Depois de experimentarem tudo e se fotografarem  dentro das instalações (algumas nem abordei por terem fila enorme) rumámos à fotografia. Ali, vinguei-me: esperaram elas por mim. Levei que tempos a ver e ler as fotos estilo diário de Daniel Blaufuks. Eram fotos com legenda. Falavam da traição do tempo segundo Blaufuks. Não gostei que o senhor tivesse escrito portugal, apesar de entender a minúscula (a frase era, "portugal é um país racista"). Eu faria vários comentários ao comentário com que ele legendou cada uma das fotos. Mas demorava mais de um ano. Portanto, desisti.

       A finalizar, o Museu da Electricidade onde apreciámos a exposição de fotografia de William Klein. Desvaneci. Ou seja, voltaram a esperar-me. A fotografia de Klein é quase indescritível e o que o fotógrafo conta sobre a naturalidade das suas fotos vale a pena ser ouvido. Klein era um ser dotado e não apenas na fotografia.

      Bom, saí a recear a visita ao  CAM onde espero ir antes que passem oito anos por causa da morte que cada vez me existe mais. Oxalá não lhe tenham retirado os quadros da minha estimação para colocarem instalações inter-activas. Mania de experimentar. Entendo-a na infância, está certíssima no espírito das educadoras de infância. Sou medieval e contemplativa, já disse. Ou só preguiçosa.


quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Fora de Contexto

 

Acredito piamente que a Isabel consiga mais, mas talvez menos que a Carmen: não é jovem e, excepto se tiver conhecimentos nos media, apesar de ser sábia e uma conversadora extraordinária e muito fluente, nada tímida, cheinha de histórias que não enfadam e antes põem bem dispostos os ouvintes - entretém qualquer público - precisaria outro género de divulgação. Contudo, admito que ela o possua e eu não saiba, há muitos anos que não contactamos. Além disso, e apesar do sotaque e de amizades selectas, possui fluência verbal e imaginação de escritora. É professora de português e Inglês, idolatrada por alunos e ex-alunos de todas as idades (compram de certeza o livro ainda que possam não o ler). Ontem reconheceu que contava muitas histórias nas aulas, funcionavam como isco da matéria. Ainda acrescentou que, na Academia Sénior dá inglês ao som dos Beatles e cantam todos antes ou durante a aula propriamente dita. E sei que os vários tipos de aluno a preferem, fui sua colega no ensino nocturno e diurno.

O livro foi apresentado por um amigo também escritor e advogado e que desconheço. Disse o que é normal dizer-se. A representante da Academia, que provavelmente tratou de toda a apresentação e trabalho de bastidores, teceu elogios às aulas, à pessoa, ao livro que lhe foi dado ler antes da divulgação pública. Isabel foi familiar sem excessos. Tinha o neto mais velho (já com bigode farto e certo ar de rapaz-homem) a vender os livros; e o marido pontuava na primeira fila. Emendou sempre o eu que lhe saía espontâneo para um nós bastante enfático, e cingiu-se à matéria do livro contando que versa sobre a sua criação serrana e a importância das pedras, amor que procura transmitir aos netos quando por lá passeia com eles; acrescentou que ali estão plasmados os seus princípios até à juventude.

Digo que a Isabel foi realmente a personagem principal do evento e tomou conta da conversa-monólogo. Mas como ela é sempre ela, e sempre professora, achei engraçado que, durante a sessão de autógrafos, foi ralhando com os alunos seniores que andam a faltar às suas aulas. Sei muitas das suas histórias de vida e assisti em directo a algumas. Espero o novo livro. Por ser o que deseja e no que trabalha neste momento. Oxalá a vida lhe permita a construção.

Realizou mais um sonho – ouvi-a vezes sem conta dizer que, quando se reformasse, havia de escrever um livro com os episódios mais relevantes e quanto eles lhe mudaram a vida e o pensamento. Digo: Conseguiu! Do que a autora explanou – e explanou por onde quis -  deixo apenas uma ideia: tudo tem de ser feito com paixão. Ou fica insonso - digo eu.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Fora de Contexto

 

Ontem desmarquei-me do Natal e fui de alma e corpo para a apresentação do livro de ex-colega de trabalho. Não sou, nem nunca fui sua amiga. É uma colega que veio “da Linha”, com um sotaque todo “tia de  Cascais“ – ontem soube que é da Serra da Estrela onde ainda tem casa. Casou com um outro colega com quem trabalhei a vida toda, até nos reformarmos antecipadamente – ele  antes de mim. Têm uma queijaria famosa na terra e fora dela. Vendem queijo fresco por todo o país. Neste momento, pelo menos dois dos filhos entraram a todo o vapor no negócio que parece correr bem.

O livro é, segundo a autora disse ontem - ainda não li uma linha -, a sua autobiografia. Já tem garantida a edição de um segundo volume onde continua a saga e que conta propriamente o que viveu e aprendeu e ensinou na minha terra, lugar para onde se deslocou já casada e com quatro filhos, quando, para satisfazer um sonho da dupla, deixaram o conforto da dita “casa da linha”, compraram uma quinta no Alentejo e se viram de repente a braços com ela, sem entenderem um boi de agricultura e numa casa velha e decrépita, falha de esgotos e electricidade. Tinham telefone (que ela pronuncia tefóne), mas sem portas interiores. Isto é absoluta verdade, foram meus alunos três dos seus seis filhos e as suas descrições eram hilariantes. Claro que, do que dois deles me confidenciaram, nada transpira aqui ou noutro lugar. Não por ser segredo absoluto, que não é; mas confidências são confidências. E ponto. Qualquer deles foi, em seu tempo, dos meus alunos dilectos. O Francisco conseguiu mesmo que me deixasse fotografar com a turma para uma revista escolar de que já nem lembro o nome. Era o garoto menos estudioso e mais culto da turma; também o mais genial e bem disposto que conheci na vida; atrasava com regularidade à primeira hora e tinha sempre uma desculpa convincente a que só algumas vezes anuí.

E gostei da apresentação  - detesto apresentações de livros e é movida por qualquer sentimento alheio à obra que compareço em algumas. Mas faço questão de comparecer em todas as que se fazem aqui na terra e de que tenho conhecimento, para divulgar talento e obra de um conterrâneo. Por saber que aquele é o seu momento de glória. Salvo Carmen Garcia, nenhum vai além da primeira ou segunda edição e, na maioria, a tiragem de exemplares nem a primeira edição esgota. Mas há em qualquer livro o exercício aturado da palavra e muito tempo dispendido em torno desses símbolos gráficos. Portanto, estou lá no momento de cada um dizer, “já está, consegui”. E aplaudo.

(cont.)

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Desconforto

 

Aviso à navegação: hoje acordei cedinho, provavelmente por estar a subir uma escada difícil, em caracol e a que faltavam degraus. Os que existiam eram móveis – esticavam e encolhiam a seu bel prazer. Como em todos os pesadelos, tinha de subi-los, embora sem sombra de agrado; olhar os movimentos da escada já me impressionava. Portanto, desatei a abrir portas atrás de portas no rés do chão (acho que era estudante e ia fazer um exame ou assim, qualquer coisa com hora marcada) mas, para meu espanto, atrás de cada porta decorria um ensaio de teatro e todos me olhavam como se estivesse a interromper momentos mágicos; eu fechava a porta, sentia-me importuna e desiludia antevendo a subida da escada (que coisa!) e receava cada porta por abrir. A cena repetiu-se invariável, até que uma aluna me informou que a minha classe estava no primeiro andar. Foi simpática e levou-me até à escada que, perversa, aumentara a velocidade no movimento inesperado dos degraus e na distância que tinham os buracos negros entre eles. Compreendemos ambas que quanto mais eu demorasse maior seria a distância a saltar. Então aproveitei a maré e, sem aviso, saltei para o primeiro degrau que logo, logo, encolheria; mas já eu tinha pela frente uma distância considerável até ao próximo degrau. Calculei a exigência do salto e lancei-me no momento exacto em que o meu degrau desaparecia. Consegui. Do patamar, ela aplaudiu e fez-me sinal de retorno à aula de teatro. Olhei para cima e tive perfeita noção da dificuldade daquele mecanismo inexorável, que trabalhava contra mim num ciclo de velocidade progressiva que seria incapaz de aguentar. Portanto, acordei. E foi o melhor que fiz.

Dado estar numa de lamentações pueris, quem quiser passe à frente, que este post é mesmo desimportante. Vale-me ser estado passageiro.

Acontece que nos momentos em que deveria sentar-me num banquito e esperar que passe, por vezes, me apetece escrita desditosa. Então desembrulho o meu rol de queixas e quero lá saber do optimismo. Vou decerto recuperar o espírito natalício, nem que seja a fingir. Tenho - puro acaso -, uma prenda comprada, este ano não fiz sequer a lista. A amiga (creio que tanta desdita nos aproximou) vai-se consumindo dia a dia em doença irrevogável. Mas continua a ligar-me, sinto-lhe o esforço de comunicação e a solidão que a vai revestindo à medida que o poder de comunicar falha. Muitas vezes liga por engano, treme-lhe o dedo nas teclas, vê mal e não acerta. Se a visito, uma das minhas funções é clicar na tecla de atender e pôr-lhe o telemóvel ao ouvido. Desconfio que o tutor esteja demasiado afectado pela situação, parece-me que deprime à medida que ela piora; esta semana faltou-lhe, tem problemas com o automóvel, disse (não acredito). Um tutor que é amigo de infância porque não há familiar que se chegue, teve de ser um amigo a aceitar a tutoria. É casado, tem filhos já autónomos e de bom viver. Mas vive longe e, perante o progresso da doença, parece claudicar (por vezes encontro-o lá). Ela depende muito dele, dedica-se a quem mais a acompanha e tem nele a possibilidade de rememorar tempos em que se reconhece, ainda era ela. Parece-me natural. Linguagem a que não pertenci e não sei. Conheci-a à beira da doença, ainda íntegra e com outros interesses, ligada a outras pessoas com quem fazia grupo. Pouco sei da infância, juventude e até da maturidade. Falo-lhe de música - que não ouve por lhe dar dor de cabeça -, de livros, leio-lhe uma página ou duas em que faz questão (diz que prefere ouvir-me ler ou contar) e paro logo que lhe noto desconforto. Quero dar-lhe um áudio-livro de presente, mas não sei se poderá ouvi-lo. E é isto.

Desculpem a queixinha. Talvez este desabafo me destranque e amanhã inicie o Calendário de Natal. Quem sabe…

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Acasos

 

Pergunto-me por vezes a razão de estar atenta às pessoas que seguem viagem comigo nos transportes públicos.  Suponho que a pouca frequência de habitá-los me espicaça e de cada vez encontro um mundo novo. O hábito tem outros olhos. Terá sido por isso que guardei aquele cabelo azul em obediência saliente, espraiado pelas costas e reluzindo vida marítima. Era uma menina do mar sorridente, dir-se-ia mesmo feliz e em conversa, talvez com o grande deus do mar, que cingia ambos. Um mundo de apetite e sorrisos travessos (sim, sim, vi bem a sua natureza) a cintilar sobre o dia cinzento, guarda chuvas chorando mágoas que não lhes pertencem, pinga aqui, pinga ali, nó de mãos ciosas, inconscientes de dedos chuvosos. E os dois cintilando sem dar conta. Talvez como as estrelas que todos olhamos e não nos vêem, mas são mais belas por esse intocado que resplandece. Do outro lado, uma mãe devota carregava no colo a criança e procurava lugar. Hoje é difícil ver este quadro, uma criança guardada dentro dos braços. Quando a jovem se sentou, reparei que a garotinha usava chupeta e, braço levantado, os dedos ninavam a sua cantiga no lóbulo da orelha materna. Lembrou-me o verso de Miguel Torga sobre um carneirito e a mãe ovelha. Não sei se, como no poema, a vida parou a ver, mas a bebé foi fechando os olhos e adormeceu. A mãe ajeitou-a melhor na cama dos braços, como se daí a minutos ela não chegasse ao destino, e antes fossem assim unidas até ao fim do mundo. Na lufa-lufa das manhãs não vi sair a menina do mar. Mas, quebrado o encanto, o deus já não era deus; era um rapaz encostado numa esquina do Metro a olhar para nada e que, na estação seguinte, ouvia música metido consigo. 

Numa das estações, não sei qual, entrou um pedinte – há muitos nesta época do ano. Não costumo ceder a quem pede. Não sei que doença tinha ou se sofrera queda grave. As pernas eram uma chaga em carne viva e apoiava-se numa muleta. Mais parecia que lhe tinham escavado a perna em vários lugares. Faltava-lhe carne, via-se sangue e os pequenos vasos que percorrem os músculos. Podia ser um bêbado, alguém atropelado, sei lá. À vista daquelas chagas arrepiou-se-me a pele. Qualquer que seja o motivo, não consegui ficar indiferente. Mesmo sabendo que em nada contribuo para o seu bem-estar. Quem sabe era um dos muitos sem abrigo que vivem por Lisboa como por outras cidades do mundo. De certeza se exibia para suscitar piedade e receber esmolas. Mas não interessa o motivo e nem o fim. Alguém ferido daquela maneira não devia precisar exibir a moléstia para sobreviver.

O resto da viagem não recordo quem entrou e quem saiu, aquele desgraçado tomou-me conta do pensamento. A questão não me abandona. Como se resolvem problemas destes. Quando.