terça-feira, 21 de novembro de 2017

Horas Perdidas

Não conservo amigas de infância. No entanto, julgo que, ao longo da vida, fui fiel às velhas amizades. Corri sem hesitar atrás daquelas que, nos ardores de casamentos e fraldas, descuraram a relação (esqueceram o que eu julgava não ser de esquecer). Na maioria dos casos – três contra um -,  devo a relação a esse desvelo quase materno que nutro para com as poucas amigas que sintonizam comigo. Não me arrependo.
Ora esta estabilidade relacional nunca comprometeu outras amizades. Tanto no caso delas – que têm outras e até mais íntimas amigas que eu – como no meu. “Como no meu!”, é quase idiota esta afirmação. Porque não coincide. Tento. Todos os anos tento. Tento sempre que a oportunidade surge. Tento na minha terra e fora dela. Mas não consigo fazer novas amigas. Será incapacidade minha. Contudo, experimento e volto a experimentar. Ligam-me a convidar para um encontro com cinema a seguir. E eu, apologista de valores antigos, nem que esteja doente, anuo e elido a doença. O encontro é a uma hora que me faz quase juntar o almoço ao pequeno-almoço? Não importa, é um dia. Corro caminho fora. Chego pontual. Ninguém. Dou umas voltas. Envio uns sms.  Chegam depois. Queixa-se uma do lugar em que nos encontramos; a outra, de doenças. Mostram fotos; compram artigos para os netos. E não consigo evitar o pensamento de que mais me valera ter vindo para uma volta a sós: tinha saído de casa quando entendesse, trazia a hora do cinema pensada e lá estaria. E o que fiz foi nada. Nada. Para além dos gastos na viagem.

Acontece que padeço de alguma falta de egoísmo. Mas desta vez é que é, faço sério propósito de emenda. Não há utilidade em que se encontrem três pessoas se cada uma cuida apenas de si. Julgava eu que o cinema era projecto comum. Ó quimera. Continuo incapaz de ver o mundo tal como é. Mas hei-de aprender.

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