Não conservo amigas de infância. No entanto, julgo que, ao longo da vida, fui fiel
às velhas amizades. Corri sem hesitar atrás daquelas que, nos ardores de
casamentos e fraldas, descuraram a relação (esqueceram o que
eu julgava não ser de esquecer). Na maioria dos casos – três contra um -, devo a relação a esse desvelo quase materno que nutro para
com as poucas amigas que sintonizam comigo. Não me arrependo.
Ora
esta estabilidade relacional nunca comprometeu outras amizades. Tanto no caso
delas – que têm outras e até mais íntimas amigas que eu – como no meu. “Como no
meu!”, é quase idiota esta afirmação. Porque não coincide. Tento. Todos os anos
tento. Tento sempre que a oportunidade surge. Tento na minha terra e fora dela.
Mas não consigo fazer novas amigas. Será incapacidade minha. Contudo, experimento
e volto a experimentar. Ligam-me a convidar para um encontro com cinema a
seguir. E eu, apologista de valores antigos, nem que esteja doente, anuo e
elido a doença. O encontro é a uma hora que me faz quase juntar o almoço ao
pequeno-almoço? Não importa, é um dia. Corro caminho fora. Chego pontual. Ninguém.
Dou umas voltas. Envio uns sms. Chegam
depois. Queixa-se uma do lugar em que nos encontramos; a outra, de doenças. Mostram
fotos; compram artigos para os netos. E não consigo evitar o pensamento de que
mais me valera ter vindo para uma volta a sós: tinha saído de casa quando
entendesse, trazia a hora do cinema pensada e lá estaria. E o que fiz foi nada.
Nada. Para além dos gastos na viagem.
Acontece
que padeço de alguma falta de egoísmo. Mas desta vez é que é, faço sério propósito
de emenda. Não há utilidade em que se encontrem três pessoas se cada uma cuida
apenas de si. Julgava eu que o cinema era projecto comum. Ó quimera. Continuo incapaz
de ver o mundo tal como é. Mas hei-de aprender.
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