Desvendo
já, pronto, a minha janela hoje abre em pontos de tricot. Empurro a vidraça e
lá estão as agulhas espetadas nos novelos. Montes delas. Montes deles. Novelos
claros e escuros; garridos e pacatos; mesclados e uniformes; peludos e
rasinhos; fio grosso e fininho. Estão todos aí. Todos os que teci nos longos
invernos. Blusas e casacos; lenços e
echarpes; gorros e cachecóis; luvas de um dedo ou de cinco; botinhas que cabem
na palma da mão; floridos enfeites em pregador e fitas de cabelo.
Aos
vinte e um anos, adulta no BI, iniciei-me no tricot. Como nas guerras que
estudámos no liceu, tinha causas próximas e causas remotas. Próximas: era muito
mais económico se fosse eu a tecer e havia uma exímia colega capaz de me
ensinar a arte; remotas: a minha mãe dedicara
muito serão a tecer vestidos e blusas para os filhos, facto que me fascinava. Ora,
como em algumas coisas sou temerária, comecei por uma blusa comprida, em fio
azul escuro; à altura do peito, tinha um desenho de lãs entrelaçadas de que
resultava uma fila de camelos avermelhados a passear em fundo branco, tira ampla
que me circundava o corpo. Um máximo que, sem exageros, caía bem. As manas
encantaram naquela qualidade (os mais novos admiram tudo que os mais velhos
fazem). Foi nesse dia que nasceu a minha mini empresa de prendas de Natal. Portanto,
os pentes, batons, espelhos, faltavam dentro de malas e sacos, mas novelos e
agulhas diziam presente mal lhes metia a mão. Um pormenor interessante foi que
vesti anos e anos essa blusa primeira – até porque a expansão da actividade se
dirigiu mais ao exterior –, ela velhinha
e uma das manas a apontar, “os camelos têm as patas viradas ao contrário”. Eu, “têm
agora”. E ela “ai isso é que têm, despe lá a blusa para veres melhor”. Despi. E
tinham. Tanto nos encantáramos durante anos que não demos pela falha. De patas
viradas à cauda, levaram a vida às recuas. Sem queixas. Padeciam todos de igual
deformação, quem sabe não julgavam ser da sua natureza.
À
parte os gestos de boa vontade e economia, agulhas, lã e eu lutávamos com
flagrante falta de tempo e dor nas costas. Por motivos de doença mais ou menos
recente, o tricot extenuava-me. Havia uma dor interna e bem localizada que se
ia instalando em persistência, me amarelecia a tez, alagava em suor e me tolhia
e agoniava na razão directa das minhas pressas de maratona. Por vezes, ia tanto
esforço em cada volta da agulha que, a meus olhos, o valor da obra dobrava e
quadruplicava. No mais íntimo de mim, o resultado devinha sem preço. Julgo que
não mais serei capaz de artefactos tão bonitos como os desse tempo de juventude
em que a natureza se comprazia a mostrar-me as fragilidades do corpo. Não teci
apenas lã, sonhos, desejos. Era um novelo de tudo. Qualquer coisa como amor e
dádiva entrelaçados agulha a agulha e que resultavam num casaco fofo, blusa de
cores alegres, pullôver. E, imaginem, quando lia o Eugénio e o seu deslumbrado
percorrer de um corpo lábio a lábio, pensava nas agulhas de tricot e na agonia
dos fios a mudarem de uma a outra, ponto a ponto. Um lábio a lábio.
Creio que foi há relativamente poucas semanas que quis visitar o seu blogue é não o encontrei. Hoje, sim. Quando andava no liceu experimentei a fazer malha, renda, ponto cruz, mas não tinha habilidade... hoje nem habilidade nem paciência.
ResponderEliminarBoa noite
☺
Olá:), Bem vinda a este meu lugar de letra mais ou menos redonda.
ResponderEliminarPois...não sei, fui ver e comecei a escrever em Agosto:). Pode ser que o blogue seja como a corrente da anedota, a tal que "tem dias e umas vezes é imitação e outras ouro puro". Estou a imaginar que umas vezes existe e outras não:). Era engraçado. Mas talvez improvável.
Bom, não pertenço, infelizmente, ao número das habilidosas. Aliás, em família, quando se quer incentivar alguém com pouco jeito para as artes manuais, dá-se o meu exemplo de trabalho e persistência. Gosto de pontos de agulha e de tricot. Não aprecio croché nem o chamado bricolage. Se me dedicasse, creio que também gostaria de pintar. Mas tinha que aprender primeiro os segredos das tintas.
E ok. Volte sempre que lhe apeteça.
Olá Bea, adoro tudo quanto seja trabalhos manuais. Também faço crochet, com uma duas agulhas e miminhos para oferecer seja ou não Natal. A minha avó materna fazia de tudo um pouco e acho que fiquei com a herança. Sei que não lhe chego aos calcanhares, mas cá vou com os meus bolinhos miniaturas, vestidos, calças e calções tudo para os netinhos. A minha avó até me fazia bonecos de bolo. Trabalhos assim elaborados como a amiga faz, não faço, mas vou fazendo um pouquinho de tudo. Adorei a sua crónica. Boa semana e beijinhos
ResponderEliminarOlá:). Eu não adoro nada que seja apenas trabalho manual. Como leu, foi a necessidade que me levou ao tricot. Hoje é uma forma de descansar a cabeça e cansar outras zonas do corpo. E resulta em prendas fofas:).
ResponderEliminarFico contente que tenha gostado da crónica. Volte sempre.