sábado, 9 de dezembro de 2017

Dia Nove

Todos os anos pelo Natal, projecto oferecer compotas caseiras.  Feitas por minhas mãos. Projecto. Mas não chego a fazê-las. Porque se enleiam as voltas da vida ou eu me enleio e lhe invento as voltas e depois não consigo sair delas para fazer compotas. Contudo, a quem me parece de necessidade ofertá-las, recorro à dispensa, rabisco aquele doce guardado para as delícias de inverno e lá vai terminar noutro pálato. Mas hoje propus-me contrariar o lema e pela manhã coloquei a cesta de frutos na cozinha a fim de me auto convencer  a dissolvê-los em açúcar.
Ao pequeno almoço, a olharem-me inquisitivos, ainda mantinham as suas formas de origem. Chegados directamente da sala e devidamente acondicionados em Vista Alegre, que a fruta me é realeza alimentar e merece muito respeito. Deixei-os à claridade, na santa ignorância dos inocentes, um tudo nada perturbados pelo clean da cozinha. E, imperturbável, fui à vida. Mas não tardei. Abri-os de meio a meio e tirei sementes. Depois, sem fazer caso de queixas de, não sei nadar socorro que me afogo, mergulhei-os em água quente, tapei a panela para não ouvir esquisitices e deixei coser. Quando os retirei do lume não pareciam os mesmos, estavam uma seda, amolecidos, cordatos. Perguntei com medo de melindres, posso espetar um garfo? E eles no oposto de si mesmos, podes tudo.
Oh! Mas é que o garfo lhes fazia cócegas e escorregavam que nem enguias num riso que lhes desmanchava a carne. Eu, estejam quietos ou nunca mais acabo. E eles, desculpa mas não somos capazes, é que nenhum garfo nos tinha espetado ainda e nem sabíamos o que eram cócegas, mas a faca a passar-nos na pele é uma coisa que nos derrete. Eu, Mau, mau, preciso de vos tirar a pele. E eles a concentrarem-se, vamos tentar. E entre uns que caíam e outros que não, lá os pelei. Deixei-os assim nuzinhos a confraternizar sobre o futuro e preparei a calda de açúcar num ponto que nem sei qual seja, mas há-de ser um ponto qualquer. Eles ridentes, todos  alvura de carnes, isso é para nós? Eu, sim. E não acrescentei. Mas quando me pareceu, mergulhei-os. Não houve sombra de motim. Não sei como aprenderam tão rápido, mas garanto que nadavam estilosos e derramados. Contentes. E depois foram umas horas a vê-los dissolver aos poucos. Perdiam formas na medida do vagar de lume que os tingia em tom canela. Há uma espécie de amor vegetal na mistura de açúcar e polpa, uma coisa de fusão doce em que nenhum dos elementos anteriores é ele e o resultado é o esplendor da mistura por efeito de tempo, brando calor e paciência humana.

E pronto. O doce/compota cumpriu destino e chegou aos frascos, arrefece beatífico sobre a bancada numa doçura que só visto. 

2 comentários:

  1. Bom dia. Quem não gosta de doces? Imagino que os seus são deliciosos.
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    Tema de hoje
    Margens de sedução de branca espuma
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    Deixando um abraço humilde e poético.
    Domingo feliz
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  2. É que são normalíssimas compotas. Mas para mim têm sabor especial desde a feitura:).
    Obrigada pela visita

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