Todos
os anos pelo Natal, projecto oferecer compotas caseiras. Feitas por minhas mãos. Projecto. Mas não
chego a fazê-las. Porque se enleiam as voltas da vida ou eu me enleio e lhe
invento as voltas e depois não consigo sair delas para fazer compotas. Contudo,
a quem me parece de necessidade ofertá-las, recorro à dispensa, rabisco aquele doce
guardado para as delícias de inverno e lá vai terminar noutro pálato. Mas hoje
propus-me contrariar o lema e pela manhã coloquei a cesta de frutos na cozinha
a fim de me auto convencer a
dissolvê-los em açúcar.
Ao
pequeno almoço, a olharem-me inquisitivos, ainda mantinham as suas formas de
origem. Chegados directamente da sala e devidamente acondicionados em Vista
Alegre, que a fruta me é realeza alimentar e merece muito respeito. Deixei-os à
claridade, na santa ignorância dos inocentes, um tudo nada perturbados pelo
clean da cozinha. E, imperturbável, fui à vida. Mas não tardei. Abri-os de meio
a meio e tirei sementes. Depois, sem fazer caso de queixas de, não sei nadar
socorro que me afogo, mergulhei-os em água quente, tapei a panela para não ouvir
esquisitices e deixei coser. Quando os retirei do lume não pareciam os mesmos,
estavam uma seda, amolecidos, cordatos. Perguntei com medo de melindres, posso
espetar um garfo? E eles no oposto de si mesmos, podes tudo.
Oh!
Mas é que o garfo lhes fazia cócegas e escorregavam que nem enguias num riso
que lhes desmanchava a carne. Eu, estejam quietos ou nunca mais acabo. E eles, desculpa
mas não somos capazes, é que nenhum garfo nos tinha espetado ainda e nem
sabíamos o que eram cócegas, mas a faca a passar-nos na pele é uma coisa que
nos derrete. Eu, Mau, mau, preciso de vos tirar a pele. E eles a
concentrarem-se, vamos tentar. E entre uns que caíam e outros que não, lá os
pelei. Deixei-os assim nuzinhos a confraternizar sobre o futuro e preparei a
calda de açúcar num ponto que nem sei qual seja, mas há-de ser um ponto qualquer.
Eles ridentes, todos alvura de carnes, isso
é para nós? Eu, sim. E não acrescentei. Mas quando me pareceu, mergulhei-os. Não
houve sombra de motim. Não sei como aprenderam tão rápido, mas garanto que
nadavam estilosos e derramados. Contentes. E depois foram umas horas a vê-los
dissolver aos poucos. Perdiam formas na medida do vagar de lume que os tingia em
tom canela. Há uma espécie de amor vegetal na mistura de açúcar e polpa, uma
coisa de fusão doce em que nenhum dos elementos anteriores é ele e o resultado
é o esplendor da mistura por efeito de tempo, brando calor e paciência humana.
E
pronto. O doce/compota cumpriu destino e chegou aos frascos, arrefece beatífico
sobre a bancada numa doçura que só visto.
Bom dia. Quem não gosta de doces? Imagino que os seus são deliciosos.
ResponderEliminar.
Tema de hoje
Margens de sedução de branca espuma
.
Deixando um abraço humilde e poético.
Domingo feliz
.
É que são normalíssimas compotas. Mas para mim têm sabor especial desde a feitura:).
ResponderEliminarObrigada pela visita