Hoje,
o tempo para estar à janela é escasso.
Porque me cansei demais a fazer pouca coisa. Porque, logo pela manhã, me
aborreci com um velho que me gritou (os gritos teimam em perseguir-me) como se eu
culpada de ser velho e doente. Porque não compra os comprimidos; porque ele é
que sabe o que há-de tomar e os médicos são todos uns...e uns...e uns...que eu
não digo aqui, são nomes bem desagradáveis e que antigamente ele não diria, mas
os resquícios de respeito já se lhe varreram. Que se morrer um ano mais cedo
não faz mal; que já não vai a mais
médico nenhum excepto o do centro de saúde. Culpa minha, claro, que o levei até
à medicina. E depois que nos separámos, corri às mercearias de natal e dos
outros dias. E havia o almoço por fazer.
Depois, uma compra que esquecera. E retomar laços e papéis, cortes e vincos,
fita cola e brilhos. Finalmente, tudo embrulhado. Espectáculo de cores e formas
(ainda não estão completas), as minhas prendas são uma beleza. Coisa de ternura
dividida por papeis e cingida com laço. Entretanto, o aviso de uma visita para amanhã.
Rematar um tricot e embrulhar. Tecer noutro mais atrasado e ir dando um olho no
jantar. E dar um basta em tudo. E agora que descontraí, encosto a janela devagarinho e seja o que Deus quiser.
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