quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Dia Catorze

Hoje, o tempo para estar à  janela é escasso. Porque me cansei demais a fazer pouca coisa. Porque, logo pela manhã, me aborreci com um velho que me gritou (os gritos teimam em perseguir-me) como se eu culpada de ser velho e doente. Porque não compra os comprimidos; porque ele é que sabe o que há-de tomar e os médicos são todos uns...e uns...e uns...que eu não digo aqui, são nomes bem desagradáveis e que antigamente ele não diria, mas os resquícios de respeito já se lhe varreram. Que se morrer um ano mais cedo não faz mal;  que já não vai a mais médico nenhum excepto o do centro de saúde. Culpa minha, claro, que o levei até à medicina. E depois que nos separámos, corri às mercearias de natal e dos outros dias. E havia o almoço por fazer.  Depois, uma compra que esquecera. E retomar laços e papéis, cortes e vincos, fita cola e brilhos. Finalmente, tudo embrulhado. Espectáculo de cores e formas (ainda não estão completas), as minhas prendas são uma beleza. Coisa de ternura dividida por papeis e cingida com laço. Entretanto, o aviso de uma visita para amanhã. Rematar um tricot e embrulhar. Tecer noutro mais atrasado e ir dando um olho no jantar. E dar um basta em tudo. E agora que descontraí, encosto a janela  devagarinho e seja o que Deus quiser.

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