A
Baixa iluminada. E a beleza da cidade a ressaltar no frio de Natal, palpitando
em luzes de festa e gente que passeia agasalhada, abafos, gorros e cachecóis ao
despique. Em apoderação natural, a espanholada evolve, é onda cantante e bem
disposta - possivelmente em gozo de férias -, halo que cruza ruas e transversais,
de bico para a discrição inglesa, alta e loura como compete. E há aquela
senhora fina de gestos, fina de ela só, a aconchegar o casaco de bom corte e
pura lã, saltos apressados subindo a rua para a apresentação do livro da amiga.
Vive em Cascais ou nos Estoris, e vem a Lisboa fazer turismo, aluga quarto, visita
museus e exposições, anda a pé pela cidade que não há pressas quando se é
turista. Experimenta restaurantes bem referenciados, degusta. Há vidas assim. Que
observo do meio do frio. Lembra-me a actrizinha de Cesário, sobressai no
conjunto. Mas tem, como toda a gente, um telemóvel. Que chama de dentro da
malinha de pele. Pára e entrega-se ao aparelho, a bota de couro fino movida por
inconsciente nervosice.
Mas
eu abraço um saco plástico e uma prenda barata, espera-me o aperto no metro,
tenho o jantar por fazer em casa por esquentar. Decididamente, pertenço a outro
lote de preocupações. Contudo, agrada-me assistir a esta diversidade. E que
vivamos no mesmo calendário.
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