Na
juventude, continuei escrevinhando em cartas e cadernos. E ainda as lágrimas me
apoquentavam. Contudo, já não me borravam a escrita. Debulhava como uma
madalena nos filmes, e, por norma, tinha ataques de choro junto das pessoas menos
indicadas. Por outras palavras, envergonhava-me mostrar a certa e determinada
gente tais preparos lacrimosos e cheios de ranho que considerava infantis em
idade claramente adulta. E fui fazendo propósitos de me aguentar sem lágrimas,
que a essa altura já eu tinha chorado rios inteiros de desgosto. Não sei se por
via deles, se por ser mesmo assim o crescimento, a minha fonte salgada foi
minguando e vive reduzida a uma névoa que se instala no olhar quando a voz me
trai. Mas não é que começo a sentir
saudades das lágrimas, daquele choro desentraitado que me tomava a soluçar e me
deixava depois numa dor de cabeça ligeira?! Falta-me, ó sacrossanta insatisfação, o alívio
descomprometido do após, o cansaço físico e sonolento, a paz silenciosa e falha
de adrenalina, o hiato suspenso de momentânea calma, sem futuro nem passado.
Foi
em jovem adulta que a poesia me bateu de rompante. A poesia escrita por outros,
bem entendido. Desatei a copiar poemas e a fazer rimas em quadra. Sem graça ou
préstimo. Mas era tal a novidade que embevecia a olhá-las. Ciente de que o meu
lado poético era só de leitura, nem por isso deixei de engraçar com as minhas
pobres quadras. E quando descobri o verso branco...foi um ver se te avias de poemas.
Guardei alguns num caderno, herança da melhor amiga, em caso de morte. Era pois
um testamento. Mas não sei onde pára.
No
entanto, foi Eugénio de Andrade o poeta responsável pela transformação. Até aos
24, 25 anos a poesia manteve-se exterior apesar dos versos copiados e lidos. A
partir do Eugénio – que devo a uma conversa casual entre duas estudantes -,
entendi-me dentro dela. Eu sou aquilo que ele diz. Há um lado de mim que lateja
nas suas metáforas desassombradas. E gosto de muitos poetas. Mas em nenhum outro
sou tão completa e assustadoramente vulnerável. E cedo compreendi que é a alma
humana que ele sente, é a dor humana que lhe dói e o contraditório amor que o
sustenta. E que nós gostamos nele do que é tão nosso e íntimo que ele sabê-lo é
um mistério. Além do dito, a poesia de Eugénio de Andrade, conhecido como poeta solar
e da paixão, tem um ingrediente que me fascina. Diluída em todos os seus livros
há uma espécie de impossibilidade, um eterno presságio de tempestade suspenso
sobre o poema mais irradiante. E amo o seu ir com as aves sem esquecer que nem ele nem nenhum de nós é
ave. Este é o drama que o (e nos) cruza e marca o existir. E no entanto, todos
sabemos que viver poeticamente é muito doloroso. Mais nos vale ler poesia.
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