terça-feira, 21 de novembro de 2017

Crescer não tem Idade

Na juventude, continuei escrevinhando em cartas e cadernos. E ainda as lágrimas me apoquentavam. Contudo, já não me borravam a escrita. Debulhava como uma madalena nos filmes, e, por norma, tinha ataques de choro junto das pessoas menos indicadas. Por outras palavras, envergonhava-me mostrar a certa e determinada gente tais preparos lacrimosos e cheios de ranho que considerava infantis em idade claramente adulta. E fui fazendo propósitos de me aguentar sem lágrimas, que a essa altura já eu tinha chorado rios inteiros de desgosto. Não sei se por via deles, se por ser mesmo assim o crescimento, a minha fonte salgada foi minguando e vive reduzida a uma névoa que se instala no olhar quando a voz me trai.  Mas não é que começo a sentir saudades das lágrimas, daquele choro desentraitado que me tomava a soluçar e me deixava depois numa dor de cabeça ligeira?!  Falta-me, ó sacrossanta insatisfação, o alívio descomprometido do após, o cansaço físico e sonolento, a paz silenciosa e falha de adrenalina, o hiato suspenso de momentânea calma, sem futuro nem passado.
Foi em jovem adulta que a poesia me bateu de rompante. A poesia escrita por outros, bem entendido. Desatei a copiar poemas e a fazer rimas em quadra. Sem graça ou préstimo. Mas era tal a novidade que embevecia a olhá-las. Ciente de que o meu lado poético era só de leitura, nem por isso deixei de engraçar com as minhas pobres quadras. E quando descobri o verso branco...foi um ver se te avias de poemas. Guardei alguns num caderno, herança da melhor amiga, em caso de morte. Era pois um testamento. Mas não sei onde pára.

No entanto, foi Eugénio de Andrade o poeta responsável pela transformação. Até aos 24, 25 anos a poesia manteve-se exterior apesar dos versos copiados e lidos. A partir do Eugénio – que devo a uma conversa casual entre duas estudantes -, entendi-me dentro dela. Eu sou aquilo que ele diz. Há um lado de mim que lateja nas suas metáforas desassombradas. E gosto de muitos poetas. Mas em nenhum outro sou tão completa e assustadoramente vulnerável. E cedo compreendi que é a alma humana que ele sente, é a dor humana que lhe dói e o contraditório amor que o sustenta. E que nós gostamos nele do que é tão nosso e íntimo que ele sabê-lo é um mistério. Além do dito, a poesia de  Eugénio de Andrade, conhecido como poeta solar e da paixão, tem um ingrediente que me fascina. Diluída em todos os seus livros há uma espécie de impossibilidade, um eterno presságio de tempestade suspenso sobre o poema mais irradiante. E amo o seu ir com as aves  sem esquecer que nem ele nem nenhum de nós é ave. Este é o drama que o (e nos) cruza e marca o existir. E no entanto, todos sabemos que viver poeticamente é muito doloroso. Mais nos vale ler poesia.

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