sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Dia Vinte e Um

Em véspera de viagem durmo intranquila, velo horas atrás de horas, observo-as espojadas no mostrador, postas em vagar de passo certo que arremeda pressas na mudança de dígitos e logo volta ao ramerrame habitual.  Portanto, o alarme do relógio não chega a cumprir função, a voz numa virgindade amuada,
Não gostas de mim; tanto tempo a escolher sons, hesitas entre rainy day e writing adventure no temor do sono pesado que não te visita, e depois é isto, quando já bochecho a clarear a voz, cortas-me as asas.  
e por mais que eu,
 Não, não, bem sabes que muito te prezo, acompanhas-me sono e vigília e não existe ser que tão bem me conheça. Se te emudeço é por mor do incómodo a outra gente.
desliga de mim e continua viagem, posto em imperturbável indiferença. Desço ao pequeno almoço, ideias voadoras em regresso manso e sorridente, atrasámos?, eu a cingir um elástico nos cabelos ensonados, vá lá que vêm bem dispostas, já briguei com o relógio. E depois ficamos a chá e torradas e elas suspendem sobre as letras em curiosidade protectora, enquanto o mundo se lamenta a estender uma mão para fora da noite, hora de acordar. Não usa relógio, o mundo. Evolve. Intrépido. Inflexível. E nós com ele.
Há que despachar. Tomar a estrada. Seguir. Paragem rápida para uma lembrança doce. E o mundo que corre na janela, viajantes com atraso a roncar estrada fora, que Deus os guie.
Chego de novo. Sigo escada acima que os elevadores emburraram os dois e lá estão de braços cruzados e olhar carrancudo, bem assentes no rés do chão. Palermas. Atravesso uma manhã de trabalho que vai caminhando para a meia tarde. E um almoço apressado. Mas prometi. Portanto, nada de descanso.

Encontro-me com uma delicadeza de pessoa. Foi sorte minha ter-me cruzado a vida. Vai buscar-me, ensina-me caminhos para guiar até sua casa e  que não aprendo nem por nada. Serve-me chá e bolos. Faz questão da sala para nós duas. Chávenas lindas, tão elegantes quanto ela. E o seu pôr-me à vontade tem coisas pequeninas e raras. Trouxe uns pratinhos de sobremesa para os bolos, mas, com a minha falta de elegância, tirei um bolo e acabou. E ela, silenciosa, quase sem se dar por isso, copiou-me e pôs de lado os dois pratos. Depois, mostrou-me livros e trabalhos que faz em horas livres e deu-me a escolher dois. É uma artista esta senhora, molda, pinta, escreve. E tem cinco netos sempre por perto, um deles bebé e amoroso. Todos dentro da casa que é a sua e não tem quintal. Por vezes, estão muita hora. Reconheço, temos vidas muito diversas. Admiro-lhe o carácter, a serenidade com que envelhece, o modo carinhoso como convive com o mundo sem deixar de expor os pontos de vista pessoais. Depois, levou-me de novo. E fiz viagem com uns bocadinhos dela. Vou tê-la por perto. Mesmo à beirinha de mim:). Companhia.

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