Observo-a à distância, a mão distraída no bolso do avental. Longe
dela, mas tão próxima no bem querer. Por vezes, como hoje, pega no carro e sai
sem rumo. Passa. Mas não vê. Adivinha-se no rosto fechado o choro ao
volante, óculos a embaciar, um lenço de papel puxado às pressas. Qualquer coisa
a partir-se dentro dela, a entornar a tristeza toda. Invento-lhe um mar roxo,
sem salvação. E o carro a esmo. Preocupo-me. Queria sabê-la positiva, de alma
iluminada. Mas é difícil fazer caminho pelo forro. Entretanto, o automóvel
sumiu. Fecho a cancela, volto sobre os passos, dedos palpando um inconsciente
fio solto na costura do bolso. Agarro um nódulo de cotão preso no canto e
trago-o à luz, dedos em pinça. É um breve montinho cinzento. Penso nela e nas
suas tristezas de tempestade. Deito o montículo no caixote e a hipótese avança
por dentro de mim: esquecermo-nos nos outros é ainda uma forma egoísta de ser,
um ponto de fuga no horizonte individual. Apenas uma hipótese. Tudo que eu quero
é que ela volte mais leve, rosto desanuviado. Não me conhece. Não lhe sei o o nome. É um mundo ao fundo da rua.
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