À medida que envelhecemos gostamos mais de contar, lembrar gente que passou por nós e não ficou, gente que encontrámos em viagem, que vimos e deixámos de ver com a ligeireza dos anos que não pesam; gente que nos contou a sua história. Ficou-nos a narração, algumas expressões textuais, mas não os narradores. Hoje, Menino Jesus, ouvi várias dessas histórias. Que, à medida que a gente se aproxima do fim, falha também a contenção, choram-nos os olhos e escorre-nos a humidade do nariz, mas a memória ainda as chama e vai-as encadeando com certo prazer se temos ouvido que se proponha. O meu almoço de natal foi este tête-à-tête com a minha professora de inglês. Separam-nos treze anos. À época, pareciam-me uma vida e hoje sinto que temos quase a mesma idade. Admiro-lhe a cultura e o gosto por ler e ensinar – somos colegas de disciplina na Academia. Segundo as bocas do mundo, é senhora de fortuna pessoal. Discreta. Sozinha como poucos. Filha única de pais da mesma condição, viúva e sem filhos, a família cinge-se a uns primos vagos que, segundo parece a gostam, mas podem correr todos atrás do mesmo. Confraterniza com eles, são o que tem. O Natal é uma data triste para ela. Almoça com algum dos primos (já em segundo grau que os mais chegados também se foram). A casa é linda, cuidada, marca-lhe o bom gosto. Ali reina o silêncio. O silêncio de um dia, e outro, e outro. Resta-lhe falar com o cãozito que adoptou. E diz-mo à despedida, quase num murmúrio, quando ponho a minha mão na sua, desejo bom natal e prometo que em 2026 vamos fazer um almoço por mês. Olha-me com o olhos verdes de sempre e remata, “sim, sim, já tínhamos pensado isso no ano passado; e olhe que já não tenho muito tempo; as amigas que ainda vivem estão todas a ficar xexés”.
Não o disse, mas acusei a culpa, Menino Jesus. A gente também cá está para amenizar a solidão dos outros e esquecera completamente os almoços prometidos e a dividir despesas. Notei que a minha professora estava à vontade, talvez por ter companhia; enquanto falava da vida que viveu, parecia fora de tempo. O tempo que a gente (eu) não dá a quem o precisa.
Embora angustiada (sente-se) fico feliz por a ver de volta, embora as pausas sejam necessárias para a nossa sobrevivência.
ResponderEliminarO mais sensato era eu não dizer nada, Bea. É um sofrimento seu, privado, magoado, doloroso. Exige apenas respeito, compreensão e recato.
Mas prometi-me acompanhá-la nesta romagem de letras em Dezembro e assim, tento cumprir.
Sobre o tema de hoje, também serve o meu comentário no Dia Doze, mas deve-lhe ter escapado.
Para não me estar a repetir, mudo de assunto.
Não sou um apaixonado por poesia, mas à medida que vou envelhecendo, sabe-se lá porquê, vou-lhe abrindo portas. Digo sabe-se lá porquê, porque nem eu próprio ainda encontrei a razão.
Se compro uma seleção de poemas de Emily Dickinson, gosto de quatro ou cinco e os outros trinta e seis passam-me ao lado e passam-me ao lado por dificuldade de compreensão, de interpretação e, aquilo que não se percebe, nunca se lhe pode dar o devido valor. Aconteceu com a matemática antes de meus pais me arranjarem um explicador. Mas por vezes a culpa não é do leitor e até parece que todos somos neófitos:
"Continuamos a ser aprendizes na leitura dos poemas de Dickinson, primordialmente pela sua autêntica dificuldade. (...) Apenas se irá tornar um desafio cada vez maior à medida que passem os séculos. Como Whitman, ela há de deter-se algures, à nossa espera".
— Harold Bloom
Entretanto, deixo-lhe dois bombons sob a forma de um pensamento e de um verso de Emily Dickinson, daqueles que eu ainda consegui tragar.
1) "Ninguém vê Deus e sobrevive".
2) Morrer por ti era pouco.
Qualquer grego o fizera.
Viver é mais difícil —
É esta a minha oferta —
Boa noite, Bea.
Também tenho o livro de poemas de Emily Dickinson e há os que não entendo. Mas eu nunca entendo tudo em poesia. E tão pouco isso me preocupa. Cada um entende o que entende. Não é como a matemática de que nunca entendi nada e onde um explicador tem cabimento, mas não me coube.
Eliminar1: "Ninguém vê Deus e sobrevive". Outra versão: mesmo que O não veja, ninguém sobrevive.
2: Não percebi. Como retirou as aspas, fiquei na dúvida acerca do que é exclusivo da poeta.
Quase ninguém morre por ninguém. Romeu e Julieta são uma história bem inventada que continua a dar lucro aos italianos embora o autor seja inglês. E há outras. Tudo invenções com muito estilo. Mas até nelas cada um morre por si, por julgar que não aguenta a vida sem o outro. Morrer pelo outro é trocar a sua vida pela dele. Também existe. E é mais verdadeiro.
Não sei se viver é mais difícil que morrer porque nunca morri. Mas parece-me processo mais longo. Se bem que, toda a nossa vida, sob certa perspectiva, seja um processo de morte.
Bom dia, Joaquim. Votos de BFS
Fez-me recordar a Aninhas.
ResponderEliminarTenho tantas memórias e tantas prendas que me ofereceu.
Feliz Natal
Neste caso, a melhor prenda é a atenção e o tempo que lhe disponibilizamos.
ResponderEliminarBom Dia Pedro. E BFS
O homem carateriza-se pela sua sociabilidade e é natural que as pessoas alimentem contactos que as mantenham vivas e com um mínimo de atividade social.
ResponderEliminarAbraço de paz e amizade.
Juvenal Nunes
Muito natural mesmo. Nada do outro mundo. Digo até mais: é uma necessidade humana.
ResponderEliminarBoa época natalícia, Juvenal
Não percebi bem se era a sua professora de Inglês ou uma colega da Academia ou se era Professora de Inglês na Academia e a Bea frequentava as suas aulas...sei, contudo, que não é o que aqui importa. O que é verdadeiramente necessário é sermos companhia uns dos outros mas também não o podemos forçar, caso contrário não flui com verdade. A cadência Bea desses almoços, por certo o seu coração a encontrará.
ResponderEliminarFoi minha professora de inglês do actual 7º ao 9º ano. Hoje somos colegas de disciplina na Academia Senior.
EliminarO meu coração esquece-se. Tenho de apelar a outros sectores:). A partir de uma certa idade as pessoas querem alguém que as oiça. E ela almoça sempre fora. Ter um dia por mês a companhia de outra pessoa faz-lhe bem.
Hoje fui a um mercado de Natal ver a arte de um aluno (homem feito) portador de deficiência! Há 20 anos atrás, o João só usava o seu computador, mas nunca esqueci o seu sorriso, os seus abraços e a vontade de sobreviver! Encontrei a mãe que me agradeceu "as bases da primária" 🙏... e eu retribui com "a alma do João escolheu os pais perfeitos para o integrarem neste mundo"! O João esbanja arte, simpatia, tenacidade e uma vontade louca de viver! Este reencontro fez-me pensar que o meu Natal tem outro sabor! Um santo Natal Bea 🫂
ResponderEliminarTão bonito isso que disse e escreveu, Gracinha! Os pais de alguém com deficiência precisam ouvir essas verdades boas, ajudam-nos a suportar a vida com mais vigor. Os nossos alunos são para sempre um pouco de nós. Pelo menos em alguns, deixámos semente.
EliminarCom a chegada destas épocas, penso em quem já partiu mas que não vou mesmo ver mais.
ResponderEliminarQuem passou e não ficou, por alguma razão foi.
Feliz Natal
Cláudia - eutambemtenhoumblog
Obrigada, Cláudia:)
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