Olha Menino Jesus, se o dia vinte e cinco de Dezembro coincidisse com o teu nascimento, estaria a fazer anos que já andavas de cabeça para baixo há uma data de tempo – tinhas dado a volta - , estavas prontinho para nascer. Imagino que a Maria já custava andar e, se eu fosse ela, estaria fartíssima de apostrofar o recenseamento que me retirara da Galileia em altura tão imprópria. A Judeia, como é público, sacudiu o casal quanto pôde e acabaram naquele barraco de Belém, suponho que nos arrabaldes ou mesmo no meio do campo. Sem condições mínimas: nem luz, água, só com o cheiro a bosta animal, que não é nada bom, não senhor. Não consigo imaginar um estábulo arejado, mas pode que naquela altura fossem diferentes. Mas pronto, como os animais não falam, os hóspedes puderam entrar. Não existe um judeu que eu conheça; portanto, não posso avaliá-los com segurança, mas parece-me que Deus Pai se deu ao trabalho de escolher o que não presta para o seu filho muito amado. No teu caso, a imagem é negativa, parecem impiedosos, nem uma grávida a termo os compadece.
Bom, depois do parto – e quem sabe se durante – o brilho da estrela dava até para acharem uma agulha onde quer que estivesse perdida e os três do presépio só não usaram óculos de sol por não existirem ainda.
Até que te ponhas de joelhinho à mostra – ainda faltam uns dias -; dá tempo de contar-te que isto de ser velho tem coisas estranhas. Só to digo por entender que, com a vida que levaste nos teus magníficos trinta e três anos, não houve tempo para aperceberes nos outros certos fenómenos. No mês de Dezembro faço listas de compras, de presentes, de artigos para a ceia de natal...sei lá. Puxo do portátil e enquanto isso vou ouvindo música. Mas olha, é uma desgraça, dou com gente morta a toda a hora. Morta ou quase morta. Aparece-me a Bardot com oitenta e tal anos; Margarida Pinto Correia que partiu ainda na casa dos sessenta; filmes e filmes de gente toda defunta, dos argumentistas e realizadores aos actores e actrizes; O Fausto a cantar “Por este rio acima” e já sem navegar para lado nenhum; Michael Jackson e Freddie Mercury fazendo dupla formidável e hoje mais que mortos. Uma lástima. Espero que Enya não tenha morrido, embora saiba que o vocalista dos Scorpions já não canta nada.
Com tudo isto, também te digo que morreste há tempo demais, dois mil e vinte cinco anos a lembrar-te, imagina. E não gravaste um cd, não deste entrevistas, não há museu que exiba a tua sala de estar, o teu escritório, nem sequer a mesa onde escrevias. E tu escrevias? Lias? Tenho memória de entenderes os livros sagrados, portanto saberias ler. Mas só recordo que certo dia estavas a escrever no chão com um pauzito(podiam ser apenas riscos ou bonecada). Tudo que de ti sei não foste tu a escrevê-lo. Como Sócrates, falavas com as pessoas. Digo-te mesmo: estou em crer que só podes ser um Deus.
Muito bem, gostei da introdução, depois da articulação com o seu quotidiano, para no final voltar a Jesus. Com certeza andou na escola. Quando falamos de Jesus, falamos do seu nascimento, depois há ali mais ao menos um interregno enquanto criança e jovem, não sabemos se brincava, sabemos que ajudava José na carpintaria e pouco mais. Teria brinquedos? Teria amigos de brincadeiras ou seria solitário?
ResponderEliminarQuando era miúdo havia um jogo, possivelmente da Majora, porque quase todos eram da Majora, que consistia num autêntico laboratório de química. Possivelmente o jogo chamava-se Chemist ou Química, cheio de frascos, pipetas, tubos de ensaio e substâncias para fazer experiências.
Pedi à minha mãe e nada, pedi ao meu pai e nada. Com a minha tia não podia contar pois só me oferecia livros e concertos na Gulbenkian. Então lembrei-me de, com as minhas economias, ir comprando na drogaria do bairro, as substâncias e produtos a avulso que o droguista metia em frascos e frasquinhos e que eu armazenava escondidos no fundo do roupeiro. Desde o permanganato de potássio ao enxofre passando pelo ácido clorídrico, os frascos ocupavam a base do roupeiro junto a alguns sapatos. Durante o dia, enquanto os meus pais estavam no trabalho (naquele tempo não havia teletrabalho), à falta da lamparina, eu acendia o bico do fogão a gás e ia fazendo experiências de reações que vinham no manual do jogo copiado de um amigo. Não sei como nunca provoquei uma explosão, pois gostava de substituir os reagentes, mas estraguei umas calças novas com um pingo ou dois de ácido e com direito a queimar a coxa.
Mas pronto, tirando esses dissabores, as coisas iam andando.
Até ao dia que a minha mãe foi dar uma volta ao roupeiro e medrosa como era, com medo das substâncias inflamáveis e que a casa ardesse, achou que aquilo era um perigo para a segurança de todos nós, embora eu lhe dissesse que sabia o que estava a fazer e as experiências me iriam a ajudar a ter uma nota melhor na disciplina de físico-química.
Três dias depois, quando abri o roupeiro para brincar, nem vestígios de uma pipeta havia, as minhas economias tinham ido pelo cano do esgoto abaixo...
Boa noite, Bea.
:))) Bom dia, Joaquim!
ResponderEliminarO senhor há-de ter sido uma criança voluntariosa, inteligente e com gostos científicos e pouco vulgares. Nas drogarias que conheci não vendiam reagentes a crianças. Gastou as suas poupanças, estragou um par de calças, mas, como diriam as minhas tias avós, "fez o gosto ao dedo", levou a sua avante. Que mais podia querer?! Hoje tem boas memórias desse tempo. Não julgo que tenha sido tempo e dinheiro mal empregues. Experimentou. É tudo vida, Joaquim.
As infâncias são todas diferentes. As nossas, não se assemelham.
Não soube o que eram jogos já feitos. Pertenci à rua da garotada pobre: sentados no valado em frente a minha casa, jogávamos ao jogo dos carros que passavam na estrada nacional; eu brincava às professoras, o poste da electricidade a fazer de quadro e a tal caveira atravessada por dois ossos, e por baixo o aviso: perigo danger a limitar-nos o espaço; fazíamos corridas de cavalos montados em canas; jogávamos à macaca e à corda. Íamos até ao caminho de ferro correr na linha do comboio, só podendo pisar as traves, perdia quem pusesse um pé nas pedras; ouvíamos os comboios com o ouvido colado às trves e corríamos pela berma da linha até à estação e ali ficávamos a dizer adeus aos sortudos que seguiam viagem em carruagens com janelas e cortinas coisa que não tinhamos em casa. Não tive o prazer de conhecer a Majora, desconhecia tudo da física ou da química, incluindo o nome; ainda que quisesse não tinha um tostão para comprar o que fosse. Eu e os restantes garotos, éramos todos muito iguais. Só soube da Gulbenkian no primeiro ano da faculdade e já com um curso em cima. Das minhas três tias apenas uma me dava presentes e foi há poucos anos que descobri que "o meu boneco", cujo eu adorava por ser diferente (todas as garotas tinham bonecas) e estar lindamente vestido, até com um bonezinho à soldado, era afinal a réplica de um garoto da Mocidade Portuguesa. Quando mo deu, ouvi minha madrinha dizer encantada que era muito mais barato que as bonecas (modos de proliferação da propaganda).
No roupeiro de meus pais, que me interessasse, só havia um par de sapatos de salto alto que eu calçava mal minha mãe saía à mercearia para o avio semanal. Tanto eu gostaria de ter pó de arroz ou um batom, mas os artigos femininos nunca existiram em nossa casa.
Tivemos uma infância feliz, Joaquim. Cada um a seu modo. Isso fez-nos muito diferentes, mas ambos somos pessoas.
Que o fim de semana lhe sorria
Que texto tão bom :)
ResponderEliminarTambém faço assim, listas. Ajuda a orientar as ideias.
Cláudia - eutambemtenhoumblog
eu tenho mesmo de fazê-las, Cláudia, a memória está cansada e a perder elasticidade.
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