Há dias assim, de fóssil. Não é desamor, nem desilusão. Apenas um buraco cheio de nada. Tão repleto que nos desvia do movimento do mundo, os outros ficam lá atrás e desimportam, o tempo estagnou. Não é agonia, nada nos dói. E contra a desilusão levámos vacina. Também não lobrigamos que seja desamor, o grau de atenção de que somos beneficiários é estável, não menorizou. É talvez a vontade de morrer por umas horas, deixar de ser por alguns dias, presentificando o poema de José Gomes Ferreira, aquele em que alguém toca à porta e quem abre responde, hoje está morto, volte outro dia. Esta pausa necessária no ser-se humano, não é desistência nem continuidade, e muitos a encontram em linguagens paralelas das quais saem mais fortes (sairão?). Contudo, desse limbo se ressurge por impulso involuntário, basta saber mergulhar. Dizia meu pai com fleuma acerca de um dos meus desaires automóveis: tudo que entra, sai. Digo eu que o mesmo para os mergulhos: depois de aprendidos, o ressurgir à tona é benefício de quem pratica a modalidade, difusa arte da sobrevivência que se apresenta em pleno: grácil e temporal. E eis-nos regressados ao mundo das efemérides, nadando em águas frágeis. Como pertence.
Alguns acham que a tristeza nunca faz falta, eu acho que sim, caso contrário não saberíamos tão bem como é a alegria. Incrível a frase do José Gomes Ferreira, por essas e outras é que tanto gosto dele, vou passar a usar essa frase:)))
ResponderEliminarNão é poeta de que goste imenso, mas a frase é boa. As pausas fazem falta, sobretudo se são para nada e por nada:).
EliminarBoa semana, CC
Excelente post, infelizmente ou felizmente a tristeza inspira.
ResponderEliminarMas hoje não está só Bea, cada vez que me lembro dela sinto uma amargura sem fim.
Volto então aos lares, até porque daqui a poucos dias está na altura de meu pai ir buscar a minha avó, para vir passar o Natal connosco.
Nos meus vinte e poucos anos, quando ao domingo ia visitar a minha avó, ao entrar no lar, perdia logo toda a minha camada de proteção.
Os cheiros constantes a urina e outras imundícies que me são insuportáveis ao olfacto, revolviam-me de tal modo as entranhas que não conseguia deixar de pensar como suportariam os outros e em especial as trabalhadoras, estar ali durante tantas horas seguidas a tratar dos idosos e a mexer na massa.
Depois, os olhares parados, as bocas abertas e a escorrer e o treme-treme dos membros, levavam-me a desviar o olhar e a concentrar-me na minha avó e a ouvir-lhe as histórias daquele seu mundo (sempre sem resmungos da sua parte), desta e daquela que a invejavam por isto ou aquilo e outras minudências, onde já pouco lhe interessava o que se passava cá fora e no que eu lhe poderia contar.
A minha avó também gostava de memórias antigas, a sua vida eram memórias, embora já muitas esquecidas. O que vinha nos jornais não lhe interessava e a televisão cansava-lhe os olhos.
Até que às tantas só queria era vir-me embora, acabar a visita o mais rapidamente possível, até porque o baile na sociedade recreativa já tinha começado.
Saía de lá em passo apressado e satisfeito por saber de antemão que no domingo seguinte seria a vez do meu pai.
Envergonho-me daquele que fui nesses tempos Bea e precisava de um abismo no grande lago da noite para me esconder, quando, ao chegar a casa, meu pai me perguntava: Então, fizeste-lhe bastante companhia?
Um bom domingo, se possível Bea.
Usando um termo materno, digo-lhe que acho uma heresia um jovem de 20 anos ter de lidar com o ambiente de um lar de terceira idade. Os velhos não são o melhor espectáculo para quem é jovem. Bom, se for um velho de cada vez, sim; todos juntos são chuva ácida:). Devia ir visitar a sua avó, pois claro; mas de vez em quando e não por muito tempo. Para ela seria suficiente (nunca observei gente jovem a visitar velhos, salvo se eles festejavam o aniversário e era só um ou outro).
EliminarQuanto ao cheiro, como sabe, o olfacto habitua-se rapidamente. Não deixa de cheirar, o impacto inicial é sempre duro, mas impressiona menos do que pensa; aliás, se ia ao lar e lá ficava mais de 15 minutos, sabe que para o fim já o odor lhe era suportável. É uma pena que seja assim. Mas veja só: os velhos são friorentos qb e precisam estar bem aquecidos uma vez que a maior parte deles não consegue mover-se e é tudo sangue velho. É claro que usam fralda e só vão ao WC se o dejecto é sólido. Ou não haveria funcionários que chegassem para o gasto. Ora, o calor potencia os cheiros que, no caso, não são bons. Os próprios velhos não cheiram bem, são organismos em processo de deterioração, vão apodrecendo. É o que penso de mim mesma:). Julgar que esse odor seja agradável como o de um bebé, é ficção.
Não podemos mudar os velhos; podemos mudar a forma como são tratados e o sistema dos lares. Mas sai mais caro. Portanto, não acredito que existam assim tantas mudanças. Só isso põe/porá cobro à repulsa que se sente quando entramos num lar dos mais comuns. Acredito que haja outros: mais caros, mais higienizados, com actividades para quem queira inscrever-se nelas, quarto próprio e a que se pode aceder quando se queira. Nos lares, os velhos não podem ir para o quarto senão para dormir e no horário estipulado, que é sempre bastante cedo, já que começam a acordar os utentes pelas cinco da matina para os poderem despachar a todos até à hora do pequeno almoço. E há decerto outras coisas sobre as quais não pensei ainda e nem vi. Vou ter tempo para pensá-las quando me internem num.
Uma das minhas avós esteve alguns anos num lar, fora da zona onde resido. Só a visitei uma vez e não sinto remorsos nem vergonha; não éramos próximas e as filhas, suponho eu, faziam o seu papel. Todos temos as nossas pequenas crueldades, Joaquim. Essa avó foi causa de muito sofrimento em minha mãe; tratei-a, enquanto esteve em casa de meu pai, o melhor que consegui, e como ela fora incapaz de me tratar. Quando entrou no lar, esqueci-a.
É verdade, os velhos gostam de falar do seu tempo que é já o único que lhes perdura e onde estiveram em pleno. Se os visito, gosto de ouvi-los. Já perdi as minhas companheiras mais velhas, portanto, deixei de escutar as suas histórias, o orgulho que tinham nos filhos e netos, sei lá.
Foi possível haver um bom domingo, pois claro.
Que a semana lhe corra a desejo, Joaquim.
Estes dias cheios de movimentos espúrios, de gente a correr entre luzes e embrulhos, a mim, só me fossiliza mais. Fico a pensar nas pegadas dos meus antecessores, como se fossem dinossauros de outras épocas. Nada é assim nem assado, parece que só eu me conservei, sem perdoar a mim mesma o que faltei ou onde fui faltosa. E restam, entre alguns pequenos amores de hoje, longos anos de memórias. Como a água que corre, todas as águas para se juntarem, no mar ou nos lagos. Apenas cansaço que tantas vezes foi apenas mental e agora se junta ao físico. Cada vez mais fico agastada com o consumismo (mesmo o das palavras). Fique o melhor possível e olhe o campo e a terra. Escreva e sinta. Abç Bettips
ResponderEliminar:))) Onde vivo não encontro assim tanta gente a comprar. Suponho até que serei das pessoas que mais compram nesta data. E faço-o com prazer imenso, pensando em quem recebe. A vida não está para grandes gastos, Bettips. Este ano estou - ainda - em branco, nem sequer comprei os livros que seguem por correio. Mas vou comprar. Hei-de. Talvez encomende e já está, que não posso carregá-los.
ResponderEliminarNão sei Bettips, mas suponho que me perdoo e aos outros também. Esquecer é outra coisa.
Mas pertence-nos ser dinossauros! Se não o formos, quem será? Os mais novos?!
O cansaço toma-nos; o corpo vai-nos dizendo a idade, não é, Bettips?
Olho o meu quintal que de tanta erva me sabe a campo. E está à mão de semear.
Não me alongo mais ou ainda me acusa de consumista da palavra:)
Bom domingo, Bettips
Falei em "dinossauros" pelas marcas que deixam, os ausentes, apenas. Abç Bettios
ResponderEliminarNesta altura não faço compras por não ter paciência para as mesmas! Envelhecer deu-me o privilégio de não ter essa preocupação! Sou do tipo, sei o que quero e só o tempo de pegar e pagar ☺️! Sinto que o meu ritmo cardíaco tem dado sinais, envelhecer não é assim tão fácil! Bj
ResponderEliminarO cliché "tudo passa" adapta-se aos dias maus, aos dias neutros e aos dias bons e especiais
ResponderEliminarQue venham os que vierem, pois significa que estamos vivos e sentimos emoções!
Bem verdade, Dulce.
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