As pequenas coisas. As coisas mínimas que por vezes esquecemos e, em certa hora, tanto faltam. Este post, já aviso, nem é bem de natal. Será um bocadinho se o esticarmos com cuidado para não romper.
Após o breve preâmbulo, vamos nós para o Metro. Nós que sou eu. Sentada em hora de ponta – grande sorte -, dediquei a minha atenção às sobras de um scone simples.
Entretanto, comecei a ouvir fungar. Disfarçando, deitei um soslaio à colega do lado. Era uma miúda entre os dezassete e os vinte, tão encasacada quanto eu, o cabelo castanho apanhado com gancho, naquele modo descontraído que só a elas assenta, longas tiras fora do aperto resvalando rosto abaixo. Cabisbaixa, a garota fungava uma e outra vez. Ou sorvia o pingo. Tudo sem resultado. Sempre disfarçando, vi-a levar os dedos ao nariz vermelho. Comecei a ficar aflita por lhe imaginar a aflição. Abri a mochila e tacteei os lenços de papel enquanto pensava na sua reacção - podia achar-me intrometida, envergonhar-se e até mandar-me meter na minha vida. Estava tão ocupada em não deixar cair o pingo e manter a cabeça baixa que não me viu retirar os lenços e abrir a embalagem. Estendi-lha aberta: não quer tirar um? Virou-me uma gratidão castanha e aveludada enquanto retirava o lenço, Obrigada. E eu, acontece aos melhores; a mim também já sucedeu. Ela, é o pingo. E assoou-se a sério. Depois, nada. Só seguimos viagem lado a lado e concentrei-me a olhar para a janela do Metro que, como é do conhecimento geral, beneficia de paisagem ardorosa. A garota saiu uma paragem antes da minha, mas deixou-me a boiar num sorriso tão bonito que até acho que se fez Natal.
Um sorriso, tem-se e dá-se. Significa tanto para quem recebe e custa tão pouco a quem o dá.
ResponderEliminarDiz-se que o Direito tem uma linguagem muito própria. Na verdade, existem termos jurídicos que não são facilmente entendidos pelo comum do cidadão.
Contudo, parece-me que no campo da filosofia, os termos "difíceis" não lhe ficam atrás.
Hoje estive com um livro na mão, que de alguma maneira me interessou, com o sugestivo título "Esta noite em Samarcanda" como alusão à lenda do encontro em Samarcanda entre a Morte e um vizir nesta importante cidade de trocas comerciais na Rota da Seda.
Ao tentar explorar o tema do referido livro, deparei-me com esta pérola:
"A obra releva-se como digressão bíblica, numa hermenêutica racional e numa visão exegética, de fim explicativo das antinomias entre a razão e o conteúdo dogmático da doutrina. O percurso histórico da Igreja Católica, seus cismas, seu passado condenável, o seu posicionamento em relação à conjuntura social presente, na procura do que o Autor designa a Igreja do Futuro."
Como as aulas de filosofia que eu tanto gostava já ficaram há muito para trás e o tempo deliu os significados de alguns conceitos, tive de fazer uma rápida consulta ao Priberam... e trouxe o livro.
O encontro inevitável em Samarcanda, portanto, o encontro com a morte, está relacionado com a predestinação. O que fazer se o nosso fim estiver absolutamente programado, pois não temos como fugir, não podemos senão comparecer. Costumo dizer que a seguir à vida, o melhor que a natureza nos deu foi não sabermos o dia em que vamos morrer.
Boa noite, Bea.
"Esta noite em Samarcanda" era um texto que estudava com os alunos. Alguns manuais incluíam-no exactamente para elucidar a dicotomia determinismo/liberdade humana. Li-o pela primeira vez num livro que terei em algum lugar sobre lendas e histórias do mundo e resolvi incluí-lo nas aulas.
EliminarA linguagem filosófica, sobretudo em alguns autores, é tão hermética que quase não se entende. Apesar de lhe defender o rigor, abomino-lhe a dificuldade. Talvez a filosofia seja a minha Samarcanda, não lhe cheguei por gosto ou determinação pessoal, mas por eliminação de hipóteses: filosofia era o curso possível. E, pensava eu, não teria de falar, faria exames e tentaria dispensar de orais. Fugindo, fui de encontro ao que temia:). Mas sobrevivi. E não fiquei mais forte.
Obrigada pela sua perseverança, Joaquim.
Goze o Sábado
Penso que fugimos mais da dor que da morte, na medida em que a sabemos inevitável. Mas também é verdade que a eliminação da dor é sinal de adiamento da morte. E concordo consigo, a ignorância acerca das exactas circunstâncias, do como e quando morremos, dá-nos elasticidade vital, é uma incógnita necessária. Só em espelho vemos a morte.
... e foi um momento que não se esquece, enquanto houver memória! 😘
ResponderEliminarSim, foi engraçado, Gracinha.
ResponderEliminarBom Dia! E um sábado a gosto para si
" Este texto nem é de Natal.. ", acho que é, Amiga Bea.Natal é isto, um lenço que se oferece para limpar " o pingo ", umas palavrinhas reconfortantes e depois " um sorriso tão bonito "que enche o coração.
ResponderEliminarPequenos gestos fazem qualquer dia parecer Natal e, mesmo, estando nós numa época em que se valoriza mais a fraternidade, eles ainda são tão poucos...
Obrigada, Bea e continuarei a vir cá apreciar os seus belos textos. Apesar do mau tempo, tenha dias abençoados, recebendo e dando pequenos " mimos " . Beijinhos
Emília 🌻 🌻
I love how you turned such a small, everyday moment into something that feels almost magical. It’s the kind of gesture we all forget to notice, but it really can make someone’s whole day or even feel like a little Christmas miracle.
ResponderEliminarRealmente, pode ser uma coisa insignificante, mas com certeza ela ficou mais que agradecida. Não custa nada ajudar nesses momentos.
ResponderEliminarCláudia - eutambemtenhoumblog
Nadinha.
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