Poucos (ou nenhum?) temas de viagens aqui foram tratados com tanta minúcia, mas a substancial diferença cultural talvez justifique o tempo que dediquei a Marraquesh.
E a praça Jemaa el-fna? Que é dessa famosa praça?! Pois digo-vos que não vi a praça cheia de gente e nem de vendedores. A Praça tão famosa, a praça dos camelos e do sumo de laranja, das cascáveis e etc, era afinal aquela que atravessáramos antes de imergirmos no mundo do comercio árabe. Oh deuses, então atravessei aquela poeirada toda, a barulheira ensurdecedora, e tudo isso vivia na praça?! Pois claro que sim. Estavam a lajear a praça Jemaa el-fna. E portanto as ditas barraquinhas de venda, as que se vêem nas fotos que a net mostra, existiam apenas nos acessos. Bom, estavam lá os camelos pacientes e tristonhos, as cascaveis a serpentearem ao som da música como se um botão as fizesse elevar soltando sibilino sopro que mais se adivinhava que ouvia, estavam macacos muito rafeirosos e com os quais os viajantes tiravam fotos palermas. Os sumos de laranja existiam nos acessos à praça, mais livres de poeira. A bem falar, o que mais havia naquele imenso largo era poeira e barulho de várias máquinas trabalhando a toda a força e em simultâneo. Mais de um quarto da praça estava já lajeado e suponho que a nova versão seja mais higiénica. É pelo menos mais clara. Curiosidade: as serpentes e seus encantadores musicais abrigavam-se na sombra de guarda sóis - a sombra que se pôde arranjar - que falsamente os protegiam do calor. Está uma pessoa habituada a ver corpos em traje reduzido debaixo de um guarda sol e sai-lhe uma cascavel de língua viperina a dançaricar. É também isto a cultura. Ao invés de todas as imagens que tinha pesquisado antes, os habitantes inapeláveis, os reis da praça, eram pó e ruído. E havia muito espaço livre, a maioria das pessoas, chegadas da zona de compras, afadigava-se a abandonar o lugar. Concluí que vi e não vi a praça Jemaa al-fna. Ocupada pela remodelação – palpito que um esforço para galvanizar ainda mais o mundo turístico –, o recinto era outro de si mesmo. O desejo de turistas faz destas. E também retira alma aos lugares. Pergunto-me se esta praça tão célebre voltou a ser a mesma. E suponho que sim, nada muda no espírito árabe e as lajes serão a esta hora (trabalhavam a todo o vapor) mero pormenor.
Ao crepúsculo. a praça ganhou vida. Sobretudo mais gente a atravessá-la. Os acessos encolheram mercê do pessoal que ali desembocava e dos atrelados que surgiam sabe Deus de onde, em passeios turísticos que prejudicavam os pedestres. Foi assim que perdemos uma viajante do nosso séquito e que, mau grado a multidão, o guia muçulmano fez o milagre de encontrar.
Não admirei particularmente o espírito árabe, mas convenho: foi pouco o tempo de sabê-lo, dou-lhe o benefício da dúvida. Trouxe a cor ocre e a arquitectura diversa, a tez escura do povo, a usura ardilosa e a falsa simpatia de vendedores, a cor terrosa da planície a perder de vista, o entusiasmo infantil nos jogos de futebol sem campo ou baliza, um entardecer pacífico na planura, as descansadas compras num supermercado em tudo igual aos europeus, o cheiro das ruas mais antigas, mistura de sujidade e especiarias, aqui e ali, ondas saturadas de cozinhados com sésamo ou outra gordura própria, indício de restaurante próximo. E a debruar tudo, o inaudito vigor dos hibiscos florindo Marrocos fora (vimos bastantes no caminho para Mogador).