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quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Vida na Cidade Ocre

 

        Poucos (ou nenhum?) temas de viagens aqui foram tratados com tanta minúcia, mas a substancial diferença cultural talvez justifique o tempo que dediquei a Marraquesh.

        E a praça Jemaa el-fna? Que é dessa famosa praça?! Pois digo-vos que não vi a praça cheia de gente e nem de vendedores. A Praça tão famosa, a praça dos camelos e do sumo de laranja, das cascáveis e etc, era afinal aquela que atravessáramos antes de imergirmos no mundo do comercio árabe. Oh deuses, então atravessei aquela poeirada toda, a barulheira ensurdecedora, e tudo isso vivia na praça?! Pois claro que sim. Estavam a lajear a praça Jemaa el-fna. E portanto as ditas barraquinhas de venda, as que se vêem nas fotos que a net mostra, existiam apenas nos acessos. Bom, estavam lá os camelos pacientes e tristonhos, as cascaveis a serpentearem ao som da música como se um botão as fizesse elevar soltando sibilino sopro que mais se adivinhava que ouvia, estavam macacos muito rafeirosos e com os quais os viajantes tiravam fotos palermas. Os sumos de laranja existiam nos acessos à praça, mais livres de poeira. A bem falar, o que mais havia naquele imenso largo era poeira e barulho de várias máquinas trabalhando a toda a força e em simultâneo. Mais de um quarto da praça estava já lajeado e suponho que a nova versão seja mais higiénica. É pelo menos mais clara. Curiosidade: as serpentes e seus encantadores musicais abrigavam-se na sombra de guarda sóis - a sombra que se pôde arranjar - que falsamente os protegiam do calor. Está uma pessoa habituada a ver corpos em traje reduzido debaixo de um guarda sol e sai-lhe uma cascavel de língua viperina a dançaricar. É também isto a cultura. Ao invés de todas as imagens que tinha pesquisado antes, os habitantes inapeláveis, os reis da praça, eram pó e ruído. E havia muito espaço livre, a maioria das pessoas, chegadas da zona de compras, afadigava-se a abandonar o lugar. Concluí que vi e não vi a praça Jemaa al-fna. Ocupada pela remodelação – palpito que um esforço para galvanizar ainda mais o mundo turístico –, o recinto era outro de si mesmo. O desejo de turistas faz destas. E também retira alma aos lugares. Pergunto-me se esta praça tão célebre voltou a ser a mesma. E suponho que sim, nada muda no espírito árabe e as lajes serão a esta hora (trabalhavam a todo o vapor) mero pormenor.

        Ao crepúsculo. a praça ganhou vida. Sobretudo mais gente a atravessá-la. Os acessos encolheram mercê do pessoal que ali desembocava e dos atrelados que surgiam sabe Deus de onde, em passeios turísticos que prejudicavam os pedestres. Foi assim que perdemos uma viajante do nosso séquito e que, mau grado a multidão, o guia muçulmano fez o milagre de encontrar.

        Não admirei particularmente o espírito árabe, mas convenho: foi pouco o tempo de sabê-lo, dou-lhe o benefício da dúvida. Trouxe a cor ocre e a arquitectura diversa, a tez escura do povo, a usura ardilosa e a falsa simpatia de vendedores, a cor terrosa da planície a perder de vista, o entusiasmo infantil nos jogos de futebol sem campo ou baliza, um entardecer pacífico na planura, as descansadas compras num supermercado em tudo igual aos europeus, o cheiro das ruas mais antigas, mistura de sujidade e especiarias, aqui e ali, ondas saturadas de cozinhados com sésamo ou outra gordura própria, indício de restaurante próximo. E a debruar tudo, o inaudito vigor dos hibiscos florindo Marrocos fora (vimos bastantes no caminho para Mogador).

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Vida na Cidade Ocre

 

        E que dizer dos camelos? Além do olhar resignado que já citei, afirmo que os prefiro na TV ou mesmo mirá-los do interior de autocarro – poupo o cheiro a animal sujo. Os camelos são como pessoas que acumulam suor sobre suor, sobre suor: tresandam. Contando com o seu odor próprio, são bom repositório de náusea. Digo eu. Portanto, quando a guia falou no palmeiral e viagens de camelo, recusei delicadamente e ofereci-me para ficar no hotel, já pensando no livrinho que trouxera. Pois. Mas nasceu-lhe na hora, mesmo à flor do meu nariz, um ar de incrédulo escândalo acompanhado de eloquente estranheza, “Não quer ir ver o palmeiral?!”, disse martelando as sílabas, a voz a prolongar no espanto interrogativo, o olhar furando a herege a merecer tratos de polé. Os meus ombros displicentes, não me apetece. Ela reivindicando a incredulidade, “Vai perder a oportunidade de ver um palmeiral?!” E eu que até já tive uma palmeira no quintal, que vivi a infância junto de outra toda agulhas agressivas viradas a qualquer corpo desprevenido, respondi meio distraída, são só muitas palmeiras juntas e não me interessam os camelos. Ela a escancarar o escândalo, “Ai eu não acredito que quer desperdiçar esta oportunidade!”. Acentuou o quer, como quem diz, quer mas eu não deixo. Sou uma mulher de convicções fortes e sempre pronta a lutar pelos meus direitos; portanto, anuí à vontade alheia e também fui rever os camelos.

        Ah! O palmeiral! Ah, o logro de uma data de palmeiras velhíssimas, um ligeiro tufo de folhas lá muito em cima e várias mortas de todo. O espectáculo triste de camelos cheios de moscas e rodeados de bosta, o pó rente à terra sedenta e escarolada, os árabes bajuladores, servis, sorridentes; também eles sedentos, dedos compridos, escuros e descarnados emergindo do fundo de mangas largas no afã das notas que faziam desaparecer em ápices de magia. Passeio e fotos foram um extra; quem gozou(?), pagou. Era isto que eu perdia metida no quarto. Isto e as figuras tristes de turistas de meia tigela travestidos em trajes mais ou menos árabes, imortalizados para a posteridade de álbum ou gaveta nas diversas fases: a vestir, a colocar a faixa da cabeça, montados nos camelos, em grupo, em pose de par ou individual, etc. E o “andar de camelo” merece tradução: rumavam em fila indiana, qual cáfila em deserto, para uma voltinha a cinco ou seis palmeiras, montados em animais de arreios sebentos e submissos à arreata dos árabes (funcionários ou donos?). De novo me veio a imagem de crianças pequenas em diversão. Talvez seja verdade que não sei divertir-me e me falta esse improviso de infância. Enquanto isso, eu que sou contemporizadora mas não completamente estúpida, puxei do livro e li. 

        Chegados do arremedo de viagem, desfardados e contentes da experiência, subiam para o autocarro arrastando uma ponta de odor animal. Mas o dia irradiava, esperava-nos o almoço com suas vitualhas e que finalizava como sempre: um chá espesso e dulcíssimo de menta que eu deixaria intacto.

(cont.)

domingo, 2 de novembro de 2025

Vida na Cidade Ocre

 

        É difícil sairmos daqueles jardins, vão-nos enleando, trepam de tal forma que quase não damos pela presença dos vigilantes e até mesmo da outra gente. À medida que nos internamos e vamos desvendando os seus caminhos, fazem-se insidiosos, entram por nós dentro e vemo-nos reduzidos ao encanto empenhado de olhos e mente que degustam da beleza, incógnitos dos que fotografam ou se fazem fotografar. Há neles esse poder maior que nos faz rasos e pequenos perante a clara afirmação de si; seres ao rés da terra de onde brotam. Face à sua grácil majestade, os humanos são gnomos que pululam sem incomodar. Ali admirei os bambus da beira de caminhos vermelhos, penumbra verde e protectora tocando-se lá no alto. No ar parado, inventei a música do vento a balançar as hastes finas em doce murmúrio, a chuva rara que ali se enreda e cai em gotas espessas, doídas de deserto. Passei sob as pérgulas floridas, cachos de cor a desprender, ambientes de fotografia. Vi os nenúfares no lago, cetinosos e alvos, pétalas lembrando pele humana, rota ciciada dos dedos. Pensei no engano dos nenúfares: tão puros e delineados na sua brancura ideal que brota e se alimenta de água suja, verde, limosa, onde proliferam os mais ínfimos seres aquáticos. Parei no singular jardim dos cactos, pasma com a dimensão e a beleza estranha das formas. Erguidos para o azul, carnudos, densos, como nos filme de cowboys. Mas estão ali, mudos, quedos. Sem poeira nem manadas, sem deserto. Só eles. A solidão que há num cacto que se ergue sem deserto! A solidão que há!

(cont.)

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Vida na Cidade Ocre

 

        Manhãzinha, rumámos aos Jardins Majorelle. Saídos de um pequeno almoço europeu e tão variado como nos melhores hotéis lisboetas, frescos e leves, chapéus e óculos de sol, manguinhas de verão intenso bordejando algodões e acetinados resplandecentes. Nada de hiperbólicos decotes ou cavados impudicos, que a velhice se quer mistificada de apenas madureza, mesmo se o gato deixa o rabo de fora. Bom, também é verdade que os árabes são muito ciosos do pudor feminino e convém não arriscar.

        À porta dos jardins, aí sim, uma multidão de turistas e outra de igual tamanho de insistentes vendedores de tudo (100% masculinos). Aguardámos vez na torrina de sol que anunciava um dia igual ao anterior, chapéus e óculos chamados à liça, alguns sortudos guardando-se na sombra que encurtava por muros e edifícios. Bem na nossa frente, para lá do portão, o chamado insistente e clorofílico da frescura adivinhada nos jardins, um “ai quem me dera ali” a subir-nos das entranhas. Expectativa em cascata.

        Após a entrada, definidos horário e ponto de encontro, libertos de guias e outros aperreios, passeámos por esses jardins divinos (cerca de um hectare), antes propriedade de Yves Saint Laurent e Pierre Bergé que habitaram a casa (visitei apenas o rés do chão, hoje museu) e conservaram e ampliaram os jardins. O nome Majorelle vem-lhes do criador, o pintor francês Jacques Majorelle.

        Em boa hora o costureiro e seu compagnon de route doaram os jardins à cidade de Marrakesh. No roseiral da casa foram espalhadas as cinzas de YSL, mas há um memorial a cada um dos dois, ilustrando o que julgo seria o amor entre ambos, e deles por tal lugar (ignoro onde repousam as cinzas de Bergé). É ideia romântica ficar para sempre no pedaço de terra que mais se amou, à beira de quem se quis e partilhou a experiência. Romântica, mas não acessível ao comum dos mortais. No que, diga-se, não há grande mal; mortos, nada valemos, o corpo, que em tudo nos acompanhou, perdeu o ser. A ausência da vida despojou-o, é lixo descartável.

        Cada um sente os jardins a seu modo. São intensamente coloridos, variados (razão de serem ditos no plural) e frescos. Não se percebe bem como, mas são frescos. Tudo neles é um hino à vida no que tem de mais sagrado. Pode ser apontamento meramente subjectivo, mas senti-me em romagem de respeito pelo espírito de Majorelle e Yves/Bergé que por ali transpira, respira e nos comove; há belezas assim, quebram-nos as defesas. É prazer que não se descreve sentir que os pés nos levam de um lugar a outro e a beleza se mantém em deliciosa harmonia entre criação humana e espécies vegetais. Passeio contigo, como por tanto lugar que a vida me tem permitido espreitar guardando impressão. Eminente solitária, nunca vou só. Estamos nos caminhos envernizados e vermelhos, vamos de mão dada pelas ruas enfeitadas de azul a que chamo “mediterrânico” e é afinal o “azul majorelle”(mistura de azul ultramar e cobalto), cor criada pelo pintor e que anima a casa onde trabalhou no rés-do-chão, habitando o piso superior. A casa aparece-nos como uma visão e afirma-se pela leveza: é pequena e quase etérea na modernidade que a veste, uma mistura feliz de dois estilos, mourisco e art déco. Por ali abundam os amarelos solares e, na doçura das buganvílias que bordam alpendres e pérgulas, no tom ocre de algumas peças, no todo das mil e uma espécies vegetais que proliferam nos jardins bem tratados por duas dezenas de jardineiros, admiramos um éden em miniatura; e larga verba da fundação criada para o efeito. De habitação particular, esmerada em delicadeza romântica, do sonho de Majorelle salvo da ruína e concretizado por Yves e parceiro, à criação da Fundação e mostra pública dos jardins, a evolução é radical. Intensamente positiva. O propósito da doação feita à cidade pela dupla Yves-Bergé merece aplauso. Era até pecado que tão funda harmonia se desse a ver apenas a alguns pares de olhos. E não é de descartar o benefício monetário procedente das visitas a este paraíso. Ganha a cidade; ganhamos nós.

(cont.)

sábado, 25 de outubro de 2025

Vida na Cidade Ocre

 

        A visita a Essaouira, também chamada Mogador por navegadores portugueses que ali construíram uma fortaleza, permitiu-nos mais uma lambuzadela de vida árabe. Da viagem nos ficou a imagem de quase deserto entre as cidades, há a visão da planura a perder de vista e a cor barrenta a uniformizar a paisagem. Nada de morros ou cumes, zonas imensas de nem uma árvore, um casinhoto, alguém. Por vezes, bem na distante linha do horizonte, adivinhávamos um casario.

        Fizemos uma paragem na beira de estrada onde um rebanho de cabras devorava uma árvore, os animais empoleirados pelos ramos em diligente repasto, facto que deleitou turista. E os camelos. Ingenuamente julguei estarem ali por acaso. Observei-lhes a bossa, os arreios sebentos, um certo ar de burro de carga, comum aos nossos já poucos burros. Passou-me uma onda de compaixão por vê-los assim “em quieta melancolia na poeira do caminho”. Mas logo houve turistas de apetite aceso para uma voltinha. E os árabes servis, contentes do dinheiro por vir, os camelos ajoelhados, a carga subindo e eles a levantarem-se e elevá-la às alturas, obedientes à rédea por curtos minutos. Os turistas exultavam encavalitados na pobreza resignada daqueles monstros de olhar tristonho. E eu abstracta, para quê esta exibição de europeu palerma, quanto vale dizer “andei de camelo”?! Lembrei-me dos circos que visitavam a minha terra e onde alguns meninos, mediante paga, montavam um ou outro animal. Somos sempre os mesmos. Ao longo da vida, os mesmos.

        Essaouira é cidade piscatória e a sua baía um semicírculo bem aberto de praia ventosa; a água não destoa do ocre e em nada se assemelha ao azul mediterrânico. Mas as ondas. Incansáveis no mesmíssimo marulhar. O mar nos seus longes, afastado dos barcos que ali repousam da faina, parece negro, faz-se mistério.

        Do forte que foi português nada resta, o que vimos é fruto de reconstrução. Nem sequer soubemos se manteve ou não a traça. Que, à parte o estado de conservação ser superior ao dos nossos fortes, é parecido e tão ventoso como linda é a paisagem marítima que se avista. Em dia claro, os vigorosos bamboleios do mar de breu, ali se transformam em fúria de vaga mal disposta e levam a imaginação ao caminho das embarcações portuguesas, um alvoroço na tripulação ansiosa de chão firme. Aqui e ali há uns resíduos de português em nomes de pensão ou outro comércio. Mas a cidade respira apenas o árabe. O comércio de rua torna difícil a caminhada até ao restaurante. Por todo o lugar se expõem matérias diversas. Pintores e artesãos têm na rua a sua oficina e a variedade manda: da roupa tradicional a peças em couro, dos doces mais simples a peças de fruta e alimentos para nós desconhecidos. Sem contar com as especiarias e perfumes que enchem o ar, cheiros pegajosos e adocicados em estranha promiscuidade. Essaouira não corre atrás do turista, mas todos oferecem o que têm ou sabem fazer. E todos inclui velhos e crianças expondo artigos simples dos que nem consideramos poderem ser vendáveis e me fizeram olhá-los melhor: notei-lhes o ar indiferente e recolhido, estavam e não estavam ali, cumpriam.

        O povo árabe cultiva a aparência. Qualquer dos restaurantes que visitámos tinha portas velhas e gastas, entrada pequena e amorfa em rua estreita, e não indiciava o espaço alargado e sumptuoso das zonas de comer quase só frequentadas por turistas. Onde e o que comem os artistas de rua, os pescadores, os comerciantes, os tantos que vi nas motas a cair de podre e que, miraculosas, os transportam? Perguntei ao guia e ele respondeu que não comem nos restaurantes por onde andámos e que a sua vida não é como a nossa, eles não têm poder de compra.

        Na volta, por entre os descampados que se enterravam em silêncio próximo à noite, as torres de mesquita destacavam-se nos povoados e garotos sujos, e suponho que suados, envoltos em nuvens de poeira, jogavam futebol em campos de improviso. Passámos por vários grupos de garotos, o entusiasmo correndo atrás da bola. É fora de dúvida: o futebol existe-lhes.

(cont.)


quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Vida na Cidade Ocre

 

        No interior do palácio Bahia, uma enormidade de gente tão ou mais encalorada que nós tornou difícil saborear pormenores da arquitectura árabe, a beleza dos tectos, as colunas graciosas e o mais. O edifício foi remodelado, mas ressalta-lhe certo ar de abandono e deterioração desgostosa. Senti-lhe o desconsolo das portas abertas, a perda do mistério que perpassa no recato encantatório da intimidade que se quer velada de raios solares, o lamento de tantos pés sobre chão outrora vedado ao povoléu, o desagrado de tanto olhar irrestrito, estranho, pousando a doer no que antes era mundo particular. A patine do tempo, as rugas de casa velha, o cheiro mofento e cansado que se desprende do todo e condensa nas paredes, estão lá, espreitam por entre a beleza da construção, igual a miséria que se esgueira por frestas da opulência. Ouvi-lhe esse protesto rouco de séculos, a desdita calada de saber que este é o modo errado de ver o mundo árabe: a mágoa do contínuo de si sem véus, o sem limite turístico a destruir a pureza essencial que in illo tempore ali fez casa. É palácio que, imerso na diferença, no que não é si mesmo, vai perdendo a identidade. E contudo vive, sente. Doem-lhe os torniquetes, o lucro, as invasivas e diárias multidões que o vão amputando.

        Não vimos os jardins que julgo terem vários hectares. Foi visita a má hora e julgo que o palácio só não fechou portas por delicadeza, afinal - terá pensado de umas janelas a outras -, vieram de tão longe, estão suados, não têm hábito destas torrinas, há que deixá-los entrar, deixá-los moer-me os ossos descarnados, permitir que transgridam e tragam às minhas rugas sem blush o pó das ruas, que agridam a penumbra e reserva que me pertenceu e encham as salas de cheiros profanos e bafos de sol abrasadores.

        Mau grado o castigo do sol, a visita permitiu-nos, caminhando na parte velha da cidade, observar intra muros o quotidiano árabe. Ruas estreitas desembocavam noutras ruas e, mais ao fundo, vislumbrávamos ainda outras. Todas semelhantes. Labirínticas. Os gatos, animais que os árabes pensam selvagens e livres, são propriedade comum e existem em qualquer lugar; vivem nas ruas, bem alimentados, de todo o género e idade, não temem as pessoas - dei colo a alguns gatos bebé, tão pequeninos e ternos e bonitos quanto se pode imaginar. Edifícios que pareciam pobres lado a lado, tronco a tronco; nunca de mão dada. O guia pormenorizou que se nos internássemos neles verificaríamos que o interior tem aspecto diverso; os árabes, que descobri cheios de estratagemas, conservam-lhes o aspecto exterior de pobreza inacabada para fuga a impostos e ladroagem. No seu elemento, expondo-se ao sol como se na sombra, chamando clientes em mau inglês, mãos fatigadas armadas de abanico para afastar o mosquedo da mercadoria, assim vimos o povo árabe. E tão poucas mulheres nos foram visíveis nessas ruas onde decerto também existem. Mas os cheiros. Vários. Nem sempre a especiarias. O estômago a protestar na revolta da tagine. E ali sim, apercebemos o caótico movimento do trânsito em ruas e sobretudo nas praças mais antigas. Recordei Paris em hora de ponta: a Praça L’Étoile repleta de trânsito automóvel que entrava e saía por todos os lados, nós a configurarmos absurda desorganização. Que urgia atravessar. Num soslaio, apercebi duas japonesas mirando o trânsito como quem enfrenta um problema matemático de difícil resolução. Apostámos nelas e, mal avançaram, imitámos. Salvaram-nos. Despedimo-nos sorridentes e gratos. 

        Regressemos a Marrakesh. Saindo da medina, seguimos em autocarro confortável e chegámos à parte nova da cidade. Percorremos a avenida ampla e “civilizada” do hotel. Aqui e ali, manchas coloridas de buganvílias escorriam de muros altos ou erguiam-se em aprumos de orgulho bem alimentado. Do lado oposto, as habituais marcas próprias de cidades europeias, supermercados das mesmas cadeias, oferecendo quase os mesmos artigos (fui verificar). Podíamos imaginar-nos em qualquer lugar importante da Europa, tal a semelhança. A diferença patenteava-se na arquitectura do hotel e no polícia armado a guardá-lo na entrada. Que das fortalezas muradas, onde as buganvílias reinam, nada é visível. Como canta Chico Buarque, afirmo, "tanto mar", separa as duas Marrakesh. Tanto mar de preconceito, desejo vão, vaidade, poder a separar os homens. Muros em cima de muros.

(cont.)

domingo, 19 de outubro de 2025

Vida na Cidade Ocre

 

        A cidade de Marrakesh - assim grafada por todo o lugar com a notação árabe por baixo -, data do século XI, é anterior à fundação de Portugal e, de acordo com os audio-guias, fundaram-na os berberes. Terá sido capital de povos nómadas do deserto e no século XVI, época de grande prosperidade de dois sultões, reputados arquitectos ali construíram e restauraram palácios, mesquitas e jardins de grande beleza, facto que nos recorda ser a cultura árabe muito desenvolvida desde a antiguidade, basta pensarmos no saber e beleza que ensinaram e espalharam pela península ibérica.

        Ninguém, além dos fiéis, pode entrar nas mesquitas da cidade. Limitámo-nos pois a enfrentar a soalheira apenas para mirar o exterior da mesquita Qoutoubia, cujo minarete me lembrou a Giralda de Sevilha que visitáramos num passeio pedestre agradável e madrugador, impossível daí a duas horas. Sevilha diurna é cidade que palpita salero, mas escalda. Óptima para noctívagos e ainda melhor para madrugadores. Qoutoubia, a “mesquita dos livros”, assim chamada por ser local efectivo da venda de livros (à sua volta montavam as bancas de livros para venda), é a maior de Marrakesh e salienta-se no mundo árabe. Data do século XII. Isto se Sami, o nosso guia muçulmano, não nos enganou. Sami peremptório: só em Casablanca existe uma mesquita que pode ser visitada por turistas. E eu um, ora bolas!, que o guia ignorou olimpicamente.

        Os jardins da Menara, no fim de uma avenida pedonal bastante larga e nova, foram algo decepcionantes. Constam de um tanque enormérrimo com uma construção bem ao fundo e que não entendi se dentro ou fora da água. E a água do tanque/lago serve o regadio do que supus ser um olival a que não se vislumbra fim. Curiosa a ideia de os sultões escolherem este jardim para namorar – não investiguei junto de Sami, se com qualquer mulher do seu harém, se apenas com as especiais. Sami relevou um dado sultão pelo número exorbitante de mulheres - entre mulheres e concubinas - mas não me ficou senão que serem muitas era sinal de poder e que as meninas eram bastas vezes oferecidas pelos pais ao sultão devido a benesses concedidas. Está certo, minha mãe retribuía favores com galinhas vivas e de patas atadas, os árabes antigos davam a filha preferida a fim de ficarem aparentados com o poder (digo eu e não Sami que viveu no Porto durante doze anos e afirma convicto que aí bebeu o que tinha a beber na vida inteira). Como dizia o agora abstémio e pacífico Sami, sempre pronto à desculpa de sultões açambarcadores do género feminino, ali mandava o costume. Não gostei.

        Internámo-nos na medina, ou seja, a velha e murada Marrakesh. Daríamos um belo quadro. Deslocávamo-nos como bois pachorrentos estorricados de calor, as mulheres a derramar, quase todas empunhando leque numa luta desigual com o clima (não esta serva de Deus que tem uma meia dúzia sempre em casa). No que nos pareceu tempo árduo, entrámos no Palácio Bahia que data do século XIX. E amei, na entrada do palácio, mesmo antes dos torniquetes, o vapor de água no rosto a reanimar-nos. Refresco para turista. Por mim, ficava por ali até ensopar. Talvez pelo excesso de calor não apus o devido valor ao que vi e gostei de ver. Amei o pátio interior com laranjeiras pela suavidade e leveza da sua arquitectura, o verde a crescer-nos no olhar sem afugentar o braseiro; sentei-me a observar o pátio grande e despido que nem ouvi para que serve; percorri os aposentos que hoje são ocupados pela família real durante o inverno e que por tal razão nesse hiato não são visitáveis.

(Cont.)


quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Vida na Cidade Ocre

 

        Os preparativos de viagem são já viagem. Sente-se no fazer das malas que o corpo materializa e a alma não segue. Porque a alma foi na frente e está lá, no limiar do desconhecido, tão pronta para ele como, em cada manhã, o quadro negro da infância esteve pronto para o giz. Nela, ainda tudo é possível. Mas o corpo é outra coisa, mãos diligentes arrumam pertences, dobram, vincam, arredam docemente e nasce um breve espaço, logo preenchido por meias, uma écharpe leve, um sabe-se lá. A alma - a minha, que recusa pesquisar e antever - está em branco, sem possibilidades actualizadas sobre os ignotos lugares a que a diligência caduca do sensível é supostamente alheia. E será por esse natural aliciar do espírito, pelo que contém de expectante, que ele caminha na frente, liberto de concordâncias. Mau grado o reconhecimento sem evasivas do pragmatismo científico, nada nos existe tanto como enquanto vive de ser hipótese.

        Nas viagens que usam o avião, o segundo momento acontece quando sentimos faltar-nos chão depois da nave emergir do ensaio em passinhos de bebé e armar em leão enfurecido. Repentina e insuspeita, ronca e galga na pista qual corredor alucinado para quem a insuficiência dos pés é notória porque breve se desprende do solo. Oh momento bendito! A par do irremediável de, em segundos, estarmos demasiado altos, convencemo-nos: somos parte da aventura.

        Tenho um amigo que começa a babar mal delineia a viagem. Extasia com os lugares a visitar e programa o que ver e quando em cada um deles. A profissão de guia assentava-lhe que nem luva. Eu descansava-lhe nos planos. Conheço-lhe de perto a qualidade. Por motivos meramente circunstanciais e que não beliscam a nossa amizade, já não viajamos juntos. Portanto, viajei com uma agência. E digo: não é o mesmo. Redigo: é muito pior. Mas a vida é o que é. E mais vale deste modo que de modo nenhum como já sucedeu. Pura palermice encartada. Minha, pois claro.

        Éramos quatro, número que nos pareceu suficiente para “manter o clima”, ainda que o resto da malta, hipoteticamente, fosse do mais sorumbático. Que nem eram. Mas viajar com amigos tem outro charme. E descansa-nos mais.

        Vivemos ora em Portugal uns restos de verão. Mas, face à canícula do verão alentejano, o calor de Marrakesh é sufocante e o sol martiriza. O primeiro almoço, em restaurante marroquino, quase só para frequência turística e com ementa entre o marroquino e o europeu, encantou. Diga-se que mais pela decoração árabe do que pelas iguarias. Achei o máximo estar sentada num divã a almoçar rodeada de almofadas. Todos os dias as tagines estavam disponíveis. Tão disponíveis que causaram a vários excursionistas dissabores intestinos que, por acaso e alguma cautela, não me atingiram.

        A primeira ronda pedestre aconteceu durante a tarde. À parte o massacre do calor, lembro as longas fitas de alcatrão, planas e rectas, nas avenidas modernas que atravessámos. Mas a esta imagem sobrepõe-se a confusão de tudo ao molho e fé em Alá, que é atravessar uma praça com trânsito. Entendemos de imediato que as motas – qualquer veículo motorizado com duas rodas – fazem a lei. Para elas não há semáforos, a cor vermelha não as altera: mantêm o ritmo, perseguindo o seu fim sem hesitações. Os automóveis são mais respeitadores e param no vermelho, mas colam-se uns aos outros e mudam inesperados de direcção. Vi alguns amassados, mas não tantos como seria de esperar. Resumindo: para um europeu, guiar em Marrakesh obriga a tirar nova licença de condução. A primeira impressão foi escaldante, cansativa e cativou pela diferença. A vida na cidade ocre, à parte as novas avenidas repletas de hotéis e condomínios fechados, lembrou-me em alguns aspectos, a vida portuguesa provinciana de há mais de cinquenta anos. No fim do dia os meus olhos insaciados reviam as buganvílias brancas e festivas, nem uma folha seca, acenos de frescura subindo e descendo muros. Impensável suavidade a debruar o inferno.

(cont.)

terça-feira, 2 de julho de 2024

Salamanca

  Antes de viajar, e contrariando o meu gosto por surpresas, decido o que desejo ver/visitar. De acordo com a companhia nem sempre dada a museus e que tais, escolho e anoto os imprescindíveis.  O restante, que antevejo não poder ser abrangido, deixo na mesma anotado, quem sabe há uma reviravolta que o proporcione. Ora, frente à Catedral de Salamanca fica o Museu de Arte Nova, um dos meus imprescindíveis. Percorri-o sozinha, facto de que tirei benefício. É uma frescura para os olhos aquele museu; e um derreter de alma.  Situa-se num palacete muito claro devido ao revestimento do tecto ser, em grande parte, constituído por  um vitral lindo que me lembrou a Lello; e à parte da casa que suponho em tempos ter sido a frente (e ainda será, mas não entramos nem saímos por lá) e é, no primeiro piso e no rés do chão, completamente vidrada e suportada por estrutura em ferro, tão delicadamente concebida que mais parece renda beijando o vidro. Acrescente-se que o tom cinza claro nas portas e umbrais agrada ao olhar de quem entra, desfatiga.  As peças são pequenas maravilhas expostas em vitrine ou são mobília compondo a sala. Subindo ao primeiro piso, maravilha-nos a vista total do tecto, um longo vitral a coar a luz em tons diversos com predomínio de azul. Olhando ao redor, verificamos estar em sala ampla com varanda corrida a toda a volta, mercê da estrutura de ferro que  a abraça e ampara, permitindo a expansão do vitral. Damos por nós num corredor que percorre a sala e é delimitado pela citada varanda.  Abaixo do belíssimo vitral do tecto, o friso também em vitral que o guarnece e como que emparelha e olha a varanda abaixo que percorre a sala e é também cor e luz de vitral. Deslumbre. Dando costas à varanda abismamos no conjunto cinza das portas fechadas: umbrais guarnecidos de motivos florais e na bandeira da porta o semicírculo de vitral com motivo rosa. Um achado de conto de fadas. Ao longo do corredor rectangular, encontram-se outras portas iguais ou parecidas. Junto ao tecto, as paredes interiores rematavam num friso de flores pequenas suponho que em gesso e que, salientes, pareciam descolar do lugar onde alguém assim as fez nascer. Imagino que aquela varanda interior existiu para contempladores de bailes ou outras actividades que aconteciam em baixo, no grande e arejado salão ora vazio. Abençoado seja quem inventou todos os requebros da Arte Nova. Fotografei o que consegui e me chamou: figuras de mulher, em maioria. Não por sectarismo, eram as que mais abundavam. Gostei da mulher mariposa, lembrou-me os meus braços de vinte anos. E das duas bailarinas, mãos dadas, em bicos de pés e tão airosas no rodopio leve das saias.  Fascínio. A umas captei pela beleza, outras pelo movimento que  emanam, outras apenas por gosto e rendição. Gostei de tudo. Só as jarras e jarrinhas de arte nova brilham na ausência da flor, são a própria floração. 

Raras vezes me deixo tentar pela loja de artigos de museu (exceptuo a Gulbenkian). Mas, o Museu de Arte Nova é-me irresistível. E apesar de serem ofertas, saí contentinha. A minha dádiva foi estar lá inteirinha e observá-lo amorosamente.

sábado, 22 de junho de 2024

Salamanca

         Pela tarde entrámos em Salamanca, cidade que me conquistou ao primeiro olhar, sendo que o primeiro olhar estava já distante, dois garotos nas minhas saias, brincalhões e briguentos como compete a quaisquer irmãos. Nesse dia de Outubro, Salamanca esfriava, o vento correndo as ruas em pressas de fim de mundo e eu, como de hábito, a contrariar o clima e quase a tiritar no meu casaquinho casca de ovo. Então, conheci apenas algumas ruas e a Plaza Mayor. Não tenho saudade a esse tempo de os garotos crescerem; ficou em mim feito Idade Média. Mas tenho saudade dos seus olhos risonhos e confiantes e de estarem longe de problemas insolúveis. Julgo que os pais sentem essa melancolia, não desejam que o tempo volte atrás, mas sabem que, o esse amor incondicional dos filhos está a prazo. Aconteceu connosco, aconteceu com eles. É absolutamente normal, mas se o relembro, sai-me do pensamento uma trança: o orgulho que tenho neles, a pena de tanta vez perderem os bons sinais de quem foram e a inescapável nostalgia.

Portanto, olho aberto e sem desculpas, em Salamanca surgiu-me outra cidade. Explorei finalmente as duas catedrais de que apenas tinha visto cúpulas, fotografei alguns pormenores e gostei mesmo daquele poço mouro a meio de um claustro na Catedral Velha. Quis em tempos ter um assim (parecido) no quintal, mas não está autorizado fazerem-se furos numa urbanização e desisti do meu pocinho com grinalda de ferro forjado; haveria um balde suspenso por uma corda que cirandavam abaixo-acima, abaixo-acima, por via da roldana, gema preciosa no centro da grinalda. Salamanca lembrou-me este sonho há muito posto de lado. Julgo ter sido ainda na Catedral Velha que vi um Cristo Redentor semi erguido, sangue em pernas e braços, e um  decidido vigor no olhar enquanto pega no manto/mortalha, como alguém a quem falta fazer uma data de coisas e já vai com atraso. A escultura, imediatamente atrás do altar, é mais convincente que o Cristo morto na Cruz de que fala Pessoa e as igrejas gostam de mostrar para nossa consolação (somos sempre mais felizes que Ele). Como é que em três dias este homem-Deus expiou os pecados de toda a humanidade: presente, passada e futura?! Olhem, não tem explicação.

E o nosso Santo António de Lisboa lá estava como sendo de Pádua e, do mal o menos, alguém escreveu que nascido em Lisboa. Uma mão de pianista avança aberta, olhos de inocência; parece um menino, o nosso santo. A custódia na outra mão é que. Ou será que o santo corria Pádua de custódia em punho?! Terei de me informar melhor. 

Chamou-me a atenção uma Nossa Senhora morena e muito jovem em fundo de brilhos. Pois digo-vos que aquela morena de cabelo ligeiramente ondulado a dar no ombro (ela mesma ou quem lhe serviu de modelo, ou sequer o imaginário do escultor e pintor) tem olhos de quem sofre e está algo saturada da vida que leva. É  sofrimento resignado denunciando uma indisfarçável ponta de contrariedade. Como se tal situação lhe estivesse fora dos planos. Gostei dela de rajada. Encontra-se rodeada de anjos, a maioria dos quais só cabeça e asas (pobrezitos). Os pormenores das asas também se me alojaram nas meninges. Todas coloridas, mesmo as dos quatro anjinhos papudos que encimam a imagem e são uns barrigudinhos amorosos e com sexo. Estive a olhá-los à lupa e não há uma menina sequer. Deixo ao leitor a consideração do fenómeno. Em baixo e a fechar o quadro, dois anjos que nada de asinhas, anjos adultos, digo eu. Ambos donos de competentes apetrechos de voo, exibindo remiges e o que mais haja. E há neles um natural e imoderado gesto, como de quem vai cruzar a perna, as rótulas escaroladas e um nadinha de coxa ao léu, mesmo por detrás do altar. Acresce que o anjo à direita da morena usa uma espécie de chapéu à Robin dos Bosques, figura das minhas simpatias desde os livros de banda desenhada de meu tio. Conclusão: este altar moveu-me. E não sei onde pertence, julgo que à catedral velha por recordar a enormidade de talha dourada em que pousavam os referidos voadores, mas posso, por esse mesmo motivo, estar enganada.

E depois anotei o retábulo e a abundância de cenas religiosas que contém. E mais que dele, sacrílega artística que sou, animou-me a pintura abaulada do tecto sobre.  Suponho seja o fim do mundo com os ressuscitados todos contentes e brancos (seremos assim, todos iguais uns aos outros?) e Cristo em grande plano (é de certeza Ele, tem a chaga do lado e a marca dos pregos), etéreo e dançando. Arriscaria dizer que é uma das posições do ballet, mas isto se entendesse uma unha de tal forma de expressão. Antes O imagino todo humano e contente, pulando ao ritmo do "consegui, consegui". E o pessoal ex defunto a bater palmas. Que ressuscitar três dias depois de morto é uma coisa; e ressuscitar séculos depois, é outra.

domingo, 16 de junho de 2024

Mérida

  As férias já foram, estão despachadas. Ignoro se fui eu a despachá-las, se elas a mim. Dias de praia não contam como férias. Na minha apreciação diferenciada e amorável de cada um, são equivalentes a férias, mas falta-lhes o dolce fare niente que as enforma.  A praia exige-me o antes e o depois; que a casa não aprecia ausências de tal natureza e tem voz própria, comanda, quer tudo igual a sempre. Mas este ano está servida e é rainha de mim: pouco me desloco e ainda nem sequer espreitei a minha praia. 

As basílicas e igrejas que percorri passo a passo são magníficas e profusas em pormenores, achei-as de uma beleza afortunada e não consegui memorizar e distinguir-lhes os interiores. Hoje lembro-as cada dia mais vagamente e sei que me ficarão na memória como símbolos da fortuna de reis e grandes senhores; sinais de uma época dourada de descobrimentos, mas também de escravos e tiranos, gente que morreu debaixo de pedras com as quais nada tinha a ver, por um deus desconhecido que nunca serviram senão a toque de chicote.

Contudo, no início fizemos um pleno: Mérida e as suas ruínas foram inéditos em visita guiada. Éramos poucos e com guia competente. Gostei de Mérida onde não  investiguei lugares sagrados, a arena apenas dedicada aos jogos romanos, e logo o facto de não ter servido para derramar sangue humano me fez mirá-la e vê-la linda e leve. DE acordo com o que ouvi, Mérida destinava-se ao repouso dos guerreiros ou seja, servia para descanso dos veteranos de guerra (suponho que não todos, não o equivalente aos soldados rasos; não obtive resposta a tal pormenor) Depois as ruas estavam cheias de jovens guapas e mui romanas no trajar. Tão lindas! Pedi a um quarteto e tirei uma foto, olhos tão doces trouxe comigo. Mas a melhor foto foi mesmo sem pedir licença, a uma jovem ligeira e atrasada que quase corria praça fora enfunando tecidos maviosos que se colavam nas pernas e abriam na brisa: desmangada, brincos, tiara, pulseira no braço junto à axila, uma trança dourada a prender-lhe no ombro o véu escarlate, faixa dourada em cinturinha adolescente. E, sinal dos tempos modernos, os ténis brancos. Lembrou-me o que li há muito ano,  na então Crónica Feminina acerca da foto de casamento (o primeiro) de Mike Jagger - vestido a rigor e calçando ténis brancos manchados de tinta, único traço de rebeldia que se permitiu. 

Talvez um dia regresse a Mérida. Não é tão longe assim. E gostei das colunas de templos antigos, de um teatro representado por alunos do secundário, professores atentos dando as últimas dicas à vista do vulgo e mesmo antes da subida ao palco para apresentarem a morte de Marco António e Cleópatra. Tudo aconteceu nesse lugar mágico que foi templo de Diana; as colunas que eram romanas mas pareciam gregas e me trouxeram à mente o nosso Templo de Diana. Aquele, em melhor estado de conservação. Foi na frente dessa absorvente obra de arte que os garotos brilharam e morreram brevemente: elas pondo a mão no cesto, habitáculo da víbora, caíram com graça e de imediato. Marco António, como se sabe o primeiro a morrer, entrou a manquejar e, desfalecendo, acabou por morrer nos braços da amada e suas aias. E aplaudimos da sombra, que havia já uma aragem quente a intrometer-se e que esbraseava quando deixámos Mérida. Talvez seja da presença do rio, mas o calor não estrangula o verde e, quer das duas pontes, a nova e a romana, quer dos jardinzinhos que existem aqui e ali (há mesmo um jardim romano(?), adstrito à arena), a cidade verdeja e inspira, não nos seca a alma.

segunda-feira, 5 de junho de 2023

Toledo

 

No centro histórico, as noites toledanas têm mais encanto, parecem um começo de mundo.  Aos edifícios agarram-se sombras misteriosas, indiscutíveis gigantes em postura de soldado. Protectoras, acobertam transeuntes, envolvem-nos em penumbra de séculos e gravam na mente um ramo de impossíveis.  Liberta do jugo diurno, a alma borboleteia. Assim é a noite de Toledo, aberta ao sonho. Ou, segundo os mais pragmáticos, fenómeno que varreu o quotidiano e se dispôs à diferença medida em passos, por ruelas estreitas e cones de luz que velam o repouso das pedras. Os noctívagos, pés e olhos despertos, flanam sem pressas pela cidade, envoltos num certo ar de ir a todo o lado sem desejo de lugar específico.

Contudo, íamos pela catedral ainda virgem a nossos olhos. Abordámos o monumento pela lateral, mas era tal a imponência que julguei ser a entrada principal e me quedei por ali a ver o subentendido. Deparou-se-me  a afobação de levantar aquela magnitude, gente miserável e andrajosa vergada ao horripilante poder das pedras e do chicote, mestres disto e daquilo com seu séquito subjugado, que sempre o poder dobra os mais fracos e, nos séculos XIII a XV, anos que mediaram a construção, fazia deles o que entendia. Mas quando embevecia nas ogivas das portas com arcadas profusamente guarnecidas; quando, em simultâneo, via as alimárias forcejando em patas trémulas, dobradas ao peso, e a persistência das moscas  que as atentavam; enquanto imaginava os dejectos e o lixo a esmo, as nuvens de pó que se desprendiam de tanto e tão diverso trabalho; enquanto os olhos atraíam às regueiras de suor que escorriam na sujidade dos corpos e reparavam nos cansaços nada mágicos dos escravos que, tanta vez,  culminavam em morte logo esquecida - um escravo a mais ou a menos não fazia mossa nem importava a ninguém, excepto à família se a tivesse, que os escravos não pensam nem sentem como nós, pouco discorrem e estão mais próximos dos animais que dos humanos. E como assim me distraio nas grandes obras que admiro duplamente - são arte e esforço dos meus iguais -, só mais tarde atentei nos contínuos passos de outra gente a rodear a catedral. E quando os segui, foi o deslumbre: o templo surgiu-me inteiro, em jogo de luz e sombra que lhe adensava o esplendor. Sentei-me a contemplá-lo e por ali fiquei gratamente, ajuizando em solilóquio que minha mãe está por detrás de quase tudo o que de bom me acontece: se tivesse ido parar à costura ou ao campo como queria meu pai, se ela não o conhecesse tão bem como conhecia, e se, a doença a miná-la, não se forçasse a ser activa na procura de um empurrão na minha aventura de aprender, se, de que me serviria esta alma de viajante extasiada que nem chegaria a saber que tinha. Os caminhos humanos são muito enigmáticos.

segunda-feira, 22 de maio de 2023

Toledo

 

Cervantes é presença que surpreende na cidade. Aparece representado em lojas e, num mundo de espadas e armas brancas, não destoa; ruas e praças lembram-lhe o nome; e perfila no espaço a sua elegância cinzelada na pedra. Ora supõe-se que Cervantes nasceu em Alcalá de Henares e sabemos que morreu em Madrid onde, em lugar mais ou menos certificado pela ciência, lhe guardam as sobras do corpo. Portanto, não foi o berço nem a morte o que levou os toledanos a esculpir-lhe a figura e a nomeá-lo por lugares vários, mas o facto de Toledo ser a capital da província de Castela la-Mancha, berço de D. Quixote (Quixote de La-Mancha), o cavaleiro da triste figura e principal personagem da sua obra mais conhecida. Daí a homenagem da cidade a essa incontornável figura das letras de Espanha e do mundo.

Bom, mas importa contar a incursão feita no Alcazar e que pouco rendeu, por ser hoje museu militar e se achar, na  quase totalidade, encerrado para obras.  A romagem inflectiu pois para o Museu de Santa Cruz onde, por entre lufadas de bafio e coisas velhas, o visitante é surpreendido pela claridade irradiante da arte de El Greco. O adiantado da hora – sessenta minutos até ao fecho – permitiu apenas a visita à exposição de pintura. Fiquei e ficaria por ali, que até o odor a fungos e bolores emurcheceu à vista de tal beleza. Sei que as gostei a todas. Porém, manda a honestidade que o diga: recordo apenas as de El Greco. Deve ser preconceito, pois claro, mas apagou-se-me tudo o resto. Ora esta.

O que dizer de um pintor que admiro e de quem sabia apenas a origem grega e ter vivido em Espanha na segunda metade do século XVI e princípios de XVII. É seguro: a beleza não é de dizer, mas de contemplar. Mas, ao longo dos séculos, sempre os homens insistem e a tenteiam, lhe apõem as insuficientes palavras. De meu, ou nem sequer meu, possuo apenas as impressões que os quadros me repetem, um após outro. “Presa por vontade”, deles sou refém. Na pintura de El Greco extasiam-me as figuras longilíneas, olhar estranho e alheado como se não nos vejam e antes contemplem miragens muito suas; e outras que, ao invés, nos fixam e parecem perfurar-nos a alma em intensa compreensão. Observando as pupilas dos santos verificamos esse alheamento que aporta originalidade a cada figura e é mistério que seduz. E há a luz que emana das figuras, a claridade que, nas vestes, se desprende das pregas. O olhar abisma na vibração colorida e solta dos tecidos nobres - sedas pesadas, cetinosas, que melhor se imaginam em nobres e altaneiras damas, que no incerto e magro corpo dos santos. Quem sabe, El Greco os vestiu em concordância com o merecimento que neles imaginou. Noutras pinturas, a força atractiva emana do casto refulgir da pele, alva tez que abre em brilhos de santidade nos Cristos crucificados que amo de paixão. Tão humanos e sofredores como não há. Nos olhos e no corpo desse Deus, a fragilidade dolorida dos homens e a sua magnífica impotência cativam o observador mais renitente. E, ou se compreende a transcendência de um mundo outro, ou se admite que, no mundo material, alguém criou com mão divina. Abençoado seja.

sexta-feira, 19 de maio de 2023

Toledo

 

É fácil perdermo-nos numa cidade de traça medieval, tudo são ruas e pracinhas desaguando umas nas outras. Mas hoje, para evitá-lo (não sei que mania é esta de nos quererem sempre ao nível, nem desgosto de me perder), há mapas, GPS, informações no posto de turismo. Tudo está disposto para uso individual e abordar os residentes por isto ou por aquilo “no hace falta”.

Pena que não franqueei todas as portas de La Preciosa, como lhe chamam os espanholitos. Há tantos séculos estão abertas para o mundo, isso basta para que as respeitemos. Respiram o tempo das pedras e a arte de outros tempos. Maravilhas da história dos homens. Se lhe percorresse as muralhas, teria  ensejo de contemplar a cidade banhada pelo Tejo, esse rio onde também temos parte e que amorosamente a enlaça por três lados. E o conjunto é paisagem de extraordinária beleza. Imagino que, vindo do lado onde rio não há e o pó abunda, o viajante depara com a cidade-oásis, as copas das árvores verdejando aqui e ali. Lá no alto, o Alcazar é cabeça erguida e orgulhosa da urbe que se apresenta em pose de rainha, o casario um manto que a envolve. Mas é na dança que ensaia com o rio que Toledo toda se entrega a ser bela. Toledo, terra do aço mais puro e flexível, que me fez recuar em cada montra de loja. Ele  eram espadas a contento, adagas, punhais e até canivetes de ponta e mola, navalhas de malandro, o dinheiro ou a vida, agudas facas com dimensões de pesadelo. E as montras eram limpas e brancas, mas bem via o sangue que as manchava, ouvia o entrechocar das espadas, arrepiava-me o metal contra metal, lâmina escorregando na lâmina em duelos que não valiam um caracol e acabavam no horrível. E portanto resolvi passar à frente. Sem mais olhar. Indo pois de nariz no ar, dei com os panos rectangulares que, nas ruas, lhes fingiam um tecto a todo o comprimento e mais ou menos a meio. Julguei ser boa ideia, o calor apertava e ainda o verão não era. “Estes espanhóis pensam em tudo”, avaliei. E não é que pensam mesmo, mesmo, em tudo?! Pois os panos são, digamos, um respeito pelos que saem em andor, nas procissões da semana santa (três) que se realizam à noite (uma delas é à meia noite, hora das bruxas). Seguindo os tectos falsos, reconstituímos o caminho de Cristo Morto. E eu que sempre as detestei. Aborreci as atribuladas procissões de velas onde  as chamas me chamuscaram véus e  alcançaram as indevidas pestanas quando, por anúncio de prematuro fim, tentava soprá-las e, num repente, me tornei uma daquelas figuras medievais das pinturas, só que em abundância de sobrancelhas; acresce que quase fui incendiária quando, num acaso de distracção,  cheguei a chama ao casaco do aprumado católico a que só observei as traseiras e que, sumido nos ardores da fé, não deu por outros calores; E ainda faço notar que queimei as mãos com a cera que ignorava a protecção de papel e chorava sobre elas sem pudor, e eu em ais sumidinhos para não incomodar rezas e cânticos; e, despegando a cera com as unhas da outra mão, descuidava de novo a vela que ou criava lastro, ou reincidia a consumir-me a carne, ou ameaçava extinguir-se e isso é que não podia ser. E portanto, dada a minha inépcia nesta coisa de luzes manuais, muito me admiro, mas a verdade é que gostaria de ver essa procissão da meia noite, a de Cristo de la Vega. Ou mesmo aquela que se intitula nobremente de Caballeros penitentes de Cristo Redentor . E Viva Espanha! E mais os reis católicos que se perpetuam até hoje na santa madre igreja.

terça-feira, 16 de maio de 2023

Toledo

 

E, enquanto tal quadro se me punha, já o veículo do realmente se ajeitava a atravessar porta semelhante às que conheci em Évora-cidade, sem outro esforço que a queima da gasolina – abençoados tempos. E eu no engodo de uma chusma de carros de bois parados na praça, ou gemebundos pelas ruas que enfileiravam em subidas. E mesmo noutras mais recatadas, vendendo precisos nas traseiras de grandes casas que ali não faltam, serviçais jovens e vivaças armando em mandonas com os vendedores, que isto a gente pobre é assim, mal sobe um avental branco, logo aproveita para pisar no gasganete do seu igual. E outras mais modestas, um tudo nada de receio nos modos, agradadas de serem notadas pelo leiteiro, o açougueiro, o que seja, fugindo-lhe à medida do passo, voz desmaiando o consentimento, ai que vosmecê não tem tento; e numa palmada sem convicção, arrede daí a mão, que não é dono de nada não senhor.

E tão diverso o que nos parou na grande praça. Eram jovens, centenas deles. Atravessavam a praça. Barulhentos. Viçosas alfaces recém colhidas. Lindos, na sua premeditada moleza de pernas. Professores atentos, bandeirinha no ar. E eles folgando, rindo, conversando, voluntariamente alheios à suposta pressa dos mestres. Nos intervalos deste banho de juventude, a dividi-lo em conta gotas, autocarros garridos e apressados desfaziam a buzina. Mas os jovens. Os jovens que talvez me copiassem e vissem apenas carros de bois. Pois que esperassem. As bandeirinhas enervando em tremedeira ríspida. E eles nem aí, tá bem tá. Apetecia chamar alguém, gritar, vejam a liberdade, notem esta praça de pés deslizando vagares. Imersos no seu mundo colorido, desceram a rua qual onda preguiçosa que se espraia, regatos de gente que a tudo chegam – mansamente invasivos, infiltravam nos interstícios entre os automóveis, nos passeios, no redondo de terra castanha que rodeava as árvores, na frente das lojas.  Impediam a circulação, a rua repleta. Passaram pela biblioteca da cidade e nem um olhar. Eram  anjos embebidos na descoberta do poder alado, a esticá-lo quanto podiam e dando costas  à fila paciente de autocarros que os aguardava lá em baixo. E eu naquele jardim de rosas, olhando a marcha lenta e as funduras, a estrada com carrinhos de brincar e por onde não passámos, o ocre da terra, a aridez de deserto que, deste lado se impõe e rodeia a cidade. Eu que pertenço à pobreza de terra cinzenta, desligada, só poeira - que nem bem entendo como pode ela segurar uma árvore, mas segura -, que sei eu deste mundo ocre, onde a cor da terra se confunde com a das casas. O que me espera além das rosas de jardim tão igual aos que conheço. Vem-me um desejo de cheirar a biblioteca e vou por ela, mas fechou. Que cedo Espanha se prepara para a noite. Ou fui eu que me perdi na surpresa deserta que o lado do Tejo não previa. É dia ainda. Talvez uma igreja…

 

domingo, 14 de maio de 2023

Toledo

 

Vinda de uma infância e adolescência por demais sedentárias, ignoro onde possa ter agarrado este amor a viagens. Contudo, não se pense que me identifico com o eterno e inquieto viajante. Animal doméstico, amo a quietude e o silêncio,  abomino algazarras que não as familiares, e a constância da novidade não me seduz.  O que de verdade me atrai na viagem é a sua intermitência, o objectivo ponderado e a curiosidade de poder ir a lugar nunca visto. Ir mesmo.  Flanar na paisagem, captar odores, olhar as pessoas, conhecer-lhes os prazeres da mesa, ser discreta coscuvilheira de hábitos e costumes. E ainda, enfiar-me com peso e medida em museus, igrejas e quejandos.

Houve tempo em que a companhia me importava demais. Deslocava-me em viagem apenas e se o conjunto humano me agradasse (o tipo viajante solitário não me seduz). Seleccionava a proximidade humana. Tal exigência, reconheço, paralisou-me em demasia. Mas a vida e a necessidade vão-nos mudando. Entendo hoje que viajar importa bastante mais que a companhia - ver o que anseio, o que ignoro se irei gostar, o que nem sequer fez parte das minhas expectativas mas também acontece. E quando a vida, enfim, me convenceu desta evidência de La Palisse, lamentei o tempo perdido. Afinal, com o belo - e até em relação a grande parte do agradável -, estamos sempre a sós, somos apenas nós e ele num tu a tu inexplicável, tempo breve que é de fruição e vale amontoados de relógio. Quantos momentos de inefável perdi por atender à sintonia do humano compartilhar que me faltava e, então, me aparecia primordial. A solução foi simples: dei primazia ao alimento da alma. Isso permitia-me respirar um pouco do ar rarefeito da beleza; e logo, desanuviar o espírito na contemplação do belo. Finalmente - já não era sem tempo -, e apesar dos indesejados, concluí que a relação entre o sujeito e o belo ultrapassa amplamente qualquer contratempo decorrente da circunstância.

Foi assim que entrei em Toledo – na disposição de fruir tudo que a cidade pudesse dar-me. A mim.  Gostei-lhe do ar vetusto; do ocre das construções que, do longe, pareciam de mãos dadas, como se ruas inexistentes; da posição elevada que obrigava o motor ao esforço e eu lobrigando vagarosos carros de bois subindo caminhos de pó, a nervoseira do chicote a despontar qual vela obscurecida por nuvem que subia das patas que se arrastavam retesadas. Já os tinha encontrado lá em baixo, pachorra inteira e barulhenta pisando a madeira rangente da ponte sobre o rio que a dessedenta e que a modernidade despiu de ruído. Encontrei-os depois em busca de certa porta da cidade, contornando muralhas que a guardam, a alegria da boiada a fazê-la um tudo nada mais lesta, no ensejo de alijar a carga. Entretanto, o almocreve, depois de dias a comandar o carro, sonha com água, alimento e sombra que lhe reverdeçam as forças. De tanto se ter apeado por dentro da poeira, sob o braseiro do sol, vincam-lhe o cansaço rugas de pó e suor que correm no rosto como caminhos que se entrecruzam. Descia a endireitar a carga ou a equilibrá-la entre os varais, mudando isto e mais aquilo, olhos de fiel de balança; ou a aliviar a canga quando os bois cismavam de parar e o aguilhão do chicote não os movia um centímetro.  

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Palácios dos Nasridas

 

Os palácios da dinastia nasrida são a jóia da coroa: Mexuar, Comares e dos Leões. Mexuar servia aos sultões para receberem os súbditos. Nele existe a ampla sala de audiências e, ao fundo do pátio – cada palácio tem um pátio -, a sala de espera. Lembro melhor o Palácio e pátio de Comares, onde se encontra a sala do trono de que já falei e que tem o tecto em madeira escura toda bordada a luz e tão recortada como qualquer bordado inglês que se preze; as janelas, veladas por uma rede de madeira trabalhada e perfurada, dão à sala certo aspecto de confessionário gigante, tal a penumbra. O que ali percepcionamos bastaria para nos render à arte árabe: a evidente inteligência da concepção; a beleza paciente e delicada que reveste paredes e colunas com azulejo miniatural e colorido; as inscrições em árabe e os frisos, um mais belo que o outro. E tanto pormenor que já não recordo, mas faz do conjunto uma obra primorosa. 

Mas o que decerto mais surpreende a maioria dos visitantes é o miradouro de Daraxa, situado – julgo – no Palácio dos Leões. É coisa de outro mundo. Avassalado, o visitante imerge, sente-se a sós com ele. Esquece que está rodeado de gente e que vive no século XXI. O donaire artístico daquelas janelas – sobretudo a que tem uma coluna a meio -  é de ver e não de descrever. E depois há toda a envolvência, a luxuriante vegetação e a simetria a que obedece, nos pátios  baixos que rodeiam o famoso miradouro. Apesar de nunca estarmos sozinhos, entra em nós um prazer grato e uma paz que se julgariam impossíveis. Vista dali, Granada aparece como a vida de cada um: irrelevante.

O pátio dos Leões é exemplo dessa harmonia entre materiais e construção. Não se esquece a elegância das colunas nem a sua disposição relativa; e tampouco a claridade que o chão de mármore proporciona ao olhar. A meus olhos, os ditos animais surgiram para justificar o nome, e eu trocava todos eles pela harmonia de qualquer coluna.

Talvez califas e sultões fossem seres de muita preocupação e guerra. Mas souberam rodear-se de beleza. O apreço ao belo e o reconhecimento da sua importância na vida humana são os melhores indicadores da sua cultura.

Não sei como lhes agradecer o facto de terem invadido a península ibérica. Por outro lado, pergunto-me como é que um povo tão evoluído se atrasou tanto e é capaz de infligir tamanho sofrimento às mulheres.

 

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Alhambra e Generalife

 

Era ainda manhã fresca quando desembocámos nos jardins do Generalife. Ou seriam de Alhambra, que de tudo neste mundo se me baralha a geografia.  Vivo desgarrada de conjuntos, em alheios lugares que ao mundo pertencem, mas torno meus e únicos, cortando - sem intenção - amarras de continuidade. Irrompem-me a sós, desligados, imersos no meu mal geográfico. E, ainda assim, são eles e não eu.

Desmedimos na surpresa natural que nos recebe e naquela que nos diz adeus. Em delicioso remanso, tudo por ali floresce. São aprazíveis jardins de  canteiros coloridos e cheirosos, árvores aqui e ali, arbustos de viço invejável, um pacífico sussurro de águas a acompanhar-nos o andar por ruas cheirosas e com debrum de verdura.  No meu parco entender, logo ali me quedava. Ficaria rente aos cheiros a cedro e murta, dedos a saborear o frescor da água corrente, desenhos de luz e sombra a tremeluzir-me na roupa. Surgiam-me recatadas mouras (penso-as vagarosas e susceptíveis de deleite), num vaguear dolente, ora debruçadas sobre as flores, ora no remanso de fresca sombra. Contudo, penso que talvez fossem minorcas magrinhas ou anafadas e cabeludas, o que não cai nada bem no quadro, mas é capaz de ser real; é comum de gente tão morena ter abundância de pêlo. Quem sabe se não eram bigodudas ou assim. Mas calma aí, os gostos da época também contam; e podiam ser esses. O buço de maior acento era bem capaz de ser o mais requestado.  Ora esta, estou a esbandalhar o quadro. Avante.

Não juro, mas parece-me ter entrado pelo Generalife. Sei que esparveci perante aqueles tectos de madeira finamente talhada. Uma coisa do outro mundo, espécie de paraíso que, traduzido, era a fina delicadeza de madeira trabalhada, aparentando véus rendados e parcialmente sobrepostos. Nada o indica, mas são milhares de pequenos pedacinhos encaixados uns nos outros de forma milagrosa e em leveza inconcebível. Ignoro como foi possível executar tal maravilha. Mas existe, está lá, pronta a ser admirada por olhos pagãos. Os nossos.

Depois deste cenário de paraíso, reparei na sala dos embaixadores (não tenho certezas acerca do nome). Por ser linda, penumbrosa, e ter na frente um pátio rectangular, enorme e luminoso. Nele, salienta-se um tanque com repuxos, a todo o comprimento debruado de murta. Tanta murta, pensa alguém. Ora aí está, a murta servia para desanimar maus odores. Porque - estas minhoquices sou capaz de recordar -, depois do tal tanque, lá ao fundo e mesmo defronte da sala do trono onde o califa recebia os ditos embaixadores, ficava a sala onde os cavaleiros aportavam vindos de todo o sítio. E não havia duches nessa sala. Nem abluções (não haveria?! Então e a hospitalidade...estarei a inventar?). Os sábios califas tinham a arquitectura por eles.  Sentavam-se de frente para o pátio e ficavam da penumbra a escrutinar os visitantes que chegavam cansados da viagem de vários dias e é claro que cheiravam mal. Portanto, parece-me que a disposição e fausto do pátio que tinham de atravessar, acrescidos à canseira do caminho, faziam mais vulneráveis os emissários que, atemorizados e encandeados por fausto e luminosidade, penetravam na sala do trono incapazes de distinguir o califa (viam-lhe a silhueta). Que os estudava. Observava-os à indiscreta e pesada luz do sol, desde os confins do pátio  e assistia à perturbada entrada na sala do trono. Não haja dúvida, os califas sabiam o que fazer e como. Até nos aspectos da política útil sublinhavam a sua superioridade.   Alguns sorriam da turvação dos cavaleiros e a outros divertia-os a imagem de cavaleiros poderosos e muito senhores do seu nariz que entravam receosos, ofuscados e meio cegos, quem sabe se aos tropeços.

 

domingo, 2 de outubro de 2022

Pormenores

 

De Córdoba guardo  imagem colorida. A cidade surge-me avivada por usos e costumes, pinceladas de vida que a enformam. Recordo hábitos que a defendem de agruras climáticas; o burburinho contente da vida nocturna, mas sem o alarido de outras regiões espanholas; as lojas judaicas em discreta exibição da sua arte comercial; os bancos de pedra virados à ponte romana, porto seguro de quem anseia descansar, ou por ali se perde em devaneio contemplador; as flores de varanda em sorrisos de salve-o Deus; o rasto vibrante dos árabes a ressumar desde os seixos do chão. Córdoba permite repetir o desejo instante que me acudiu em Ravena: podia viver aqui. E isto traz-me versos de canção, talvez de Sérgio Godinho, “aqui (ali?) vivemos muitos anos”.

 Olhando para trás, pesa-me o desconhecimento da vida citadina de Granada. Nesta cidade, a memória descola do presente e guarda pontos turísticos: o barrio Albaicín, Alhambra e o Generalife, Mosteiro da Cartuja, a Catedral. Ali, a grandeza do passado oblitera o presente. Ruas, granadinos, bulício de gente com seus usos e hábitos hodiernos, tudo se extingue, resume, contrai. Granada vive circundada pela luminária da história. Nos miradouros, turistas encandeados contemplam a cidade branca. Por entre as casas, salpicos de cipreste são persistência militar no combate à aridez. E que descanso, olhar essas manchas de verde profundo mescladas na alvura refulgente das casas. Demoram-se os olhos nelas, repousam, como se a frescura lhes venha da cor e sejam apenas sombra.

E que dizer da ideia de trazer os rios até ao chão que se pisa? Em Córdoba e Granada a calçada é uma renda feita de seixos, pequenos seixos rolados que ardem sob os pés do turista desprevenido. Arrumados em formas várias, quadrados, círculos, rectângulos, são pequena maravilha. E é bonito verificar a utilidade de todas as coisas. Saber que os milhares de pedrinhas do chão vieram da água e guardam na forma o seu efeito suave; não refresca, mas comporta beleza imparável. Às pedras tão pisadas, já, por anos e anos, as afagou a água. Pequenas e subsumidas em linhas de cimento, terão elas saudade?!

domingo, 25 de setembro de 2022

A Mesquita

 

Logo que se transpõe o acesso ao interior da mesquita, o visitante desorienta.  Inumeráveis e sumptuosas colunas encimadas por arcos replicam-se em espaço a que não se vê fim. E isto bastaria  para a fazer grandiosa. Mas há a harmonia de conjunto, a cor festiva dos arcos que emparelham as colunas, todos vestindo riscas mouras em vermelho e branco; e há a ordem grácil e profusa da floresta de colunas de mármore. Para onde quer que a vista se expanda, os elementos repetem-se e repetem-se sem cansar, cada homem sentindo-se o centro desse mundo. Talvez, nos tempos de califado, a fé movesse quem por lá se adentrava. Hoje, ou pelo número de turistas, ou por sempre assim ter sido, e à semelhança do que sucede nas igrejas italianas, o quadro que se oferece suplanta o sentimento religioso. A arte, pela sua natureza sensorial, invade quem imerge neste mundo de festa. Na mesquita não ajoelhamos perante um deus, mas perante o espírito e as mãos dos homens que conceberam e deram corpo a tanta maravilha. Nela, saudamos um povo que na sua sabedoria incluía o belo, lhe dava enfâse, o entendia como elemento constituinte do humano. Não é crível que espíritos criadores de tamanha beleza, amantes e desenhadores  de pátios verdes, gente que amava os pomares, criassem apenas movidos por necessidades de louvor religioso ou que o clima fazia prementes. Soa a cultura, educação, a gente que aprendeu a pensar. É bom não esquecer que foram os árabes os primeiros a traduzir e comentar os filósofos gregos da antiguidade. Nascido em Córdoba, Averróis (séc. XII) traduziu e comentou Aristóteles e a cidade de hoje, reconhecida, erigiu-lhe uma estátua. Na Córdoba do seu tempo, o filósofo nem sempre foi tão estimado e terminou os seus dias no exílio. Mas, que os “infiéis” tenham ficado desta forma na história, é uma maravilha. A quantidade de tempo que necessitam o pensamento e a arte para triunfarem!

Quando o espírito recupera da confusão e se situa, quando destrinça a beleza alucinatória que o rodeia e entende que a repetição  não é jogo de espelhos mas real, então pode observar os rendados na pedra, distinguir os elementos cristãos, esmiuçar a basílica onde se celebra missa e que, por mais rica e pesada, não ilude nem assombra a leveza árabe. Ao invés, é esforço de afirmação que mais a sobressalta.   Mas já os olhos reparam, ao fundo, na riqueza brilhante do mirab (lugar que indica Meca),  orientando preces; na arte de dobrar o ferro e fazer dele um aliado que alimenta a beleza do lugar; nas entradas de luz que a fazem tão leve e airosa quanto no exterior parecia pesada.

À vista da mesquita, o Bairro da Juderia e a Calleja de las Flores são um quase nada, simples alfinete colorido. Lá atrás, a ponte romana sobre o Gudalquibir, pedra maciça e robusta nos seus dezasseis arcos, ri do tempo.  

Ai quanto eu gostaria de ver presentes na mesquita os dois cultos. Parece-me justo e natural que também os muçulmanos possam orar em tão esplêndido lugar.