segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Dia OITO

 

        Na quadra que atravessamos, eu, como quase toda a gente, recebo frases bonitas, estruturadas e edificantes, daquelas que basta um clic e já está. Tais palavras, ao invés de contribuírem para o meu bem estar, arrasam-me. Reconheço-me alheia às propostas de tais pensamentos. À sua vista, a minha imperfeição cresce que nem planta de desenho animado ou o célebre feijoeiro mágico que furou as nuvens e chegou ao céu. Tudo o que passou por mim e em mim, e a forma como digeri os ingredientes, fez-me. Mas raro recordo quem me magoou, não agradeço essas mágoas, não aprecio as feridas e nem os arranhões; prefiro pensar noutra coisa. O mesmo amor, ora tão badalado, inflige nódoas negras  e, queiramos ou não, a mágoa mina o sentimento; convém não abusar. Talvez eu deva agradecer as vezes que bati de cabeça, as farpas que arranquei e também lancei, o mal que a vida sempre traz; ou nós criamos e transportamos com acrescento, de uns a outros. Mas é que não me apetece. O meu egoísmo gratifica quem não me destratou.

        Portanto, e porque hoje me deu para a gratidão, aí vai:

        Mais do que em qualquer outro momento, o Natal traz-me todos os que se bateram por mim. Os que me enxugaram as lágrimas no tempo em que chorar era coisa de companhia; os que apoiaram a minha angústia entre os seus dedos e fazendo cadeirinha comigo a carregaram ajudando a resolvê-la; os que me sorriram em dias tristes; os que partilharam as lamentações da morte; os que me empurraram e deram confiança para ir onde queria ou devia; os que, com a constância da ternura, aqueceram a minha vida; os que, com o seu exemplo e sem sermões, me ensinaram e ensinam a viver. Os que ainda hoje me lembram e há tanto ano conheço; os que não conheço mas escrevem aqui ou noutros lugares que leio, fazem livros, filmes, contam histórias que amenizam as horas mortas da insónia. Os que são artistas e me elevam  a outra dimensão através da música, da pintura e outros caminhos da arte.

        Para eles, a minha gratidão.    


10 comentários:

  1. Relembrar quem nos quer e nos fez bem.
    E esquecer os outros.

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    1. Não é bem esquecer de todo, é não lhes dar importância e nem o nosso tempo.

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  2. Eu sei que isto vai apertar. Eu sei que lá mais para a frente, não vou ter tempo nem cabeça para lhe dizer o que pretendo agora, que ainda estamos no início. Porque no adiantado do mês, para além do baptizado e do aniversário, é certinho que vou ser requisitado para as compras por atacado, mais as de última hora, mais as deslocações e visitas, recolhas e entregas and so on, and so on.
    Por isso tenho aproveitado enquanto posso e tenho tempo para me alongar, pese embora o consumismo algo exagerado da palavra. Se tiver de fazer horas extraordinárias para me ler, avise que eu contenho-me.
    Penitencio-me também por fugir amiúde ao tema do dia e trazer outros que transporto na bagagem. A Bea sabe que eu gosto de "puxar" por si, levá-la a desenvolver assuntos que me são caros ou sobre os quais me interrogo em dúvida persistente. Como os temas são finitos e eu não tenho backup do que falamos, é natural que alguns já sejam repetidos, portanto chame-me à atenção como se faz aos alunos que estão sempre a fazer a mesma pergunta (burros). Olhe, sobre os lares, o assunto está quase, quase encerrado da minha parte, só falta uma coisinha, mas fica para outro dia.
    E agora vou terminar agradecendo o prodígio que é conseguir inspiração para nos trazer diariamente material novo para leitura e reflexão e nos ajudar a termos um Natal mais luminoso.
    Bem-haja.

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  3. Oh! :) Que querido, Joaquim.
    É ponto assente - amplamente visível - que gosto de conversar. Os amigos estão longe e não são dados a este tipo de escrita, têm com quem discutir mais na proximidade e distribuem-se por outras paragens; é a vida. Os temas caseiros são poucos e o padrão é repetitivo. Portanto, não se coíba, pode o Joaquim puxar dos assuntos que deseje, esteja à vontade. Dentro das minhas possibilidades, responderei; e na resposta aproveito para pensar sobre. Sempre exercito as meninges. Gosto quando se desvia do post: para responder, também eu corto por outro caminho.
    As nossas questões sobre a vida são sempre as mesmas, as respostas é que podem divergir. Portanto, ainda que as repita, não é garantido que a resposta seja cópia de outra lá atrás(mas pode ser). E nem eu sou a melhor pessoa para lembrar repetições:). Se repetirmos, como somos velhos, temos desculpa, a memória atraiçoa-nos demasiado. E está tudo bem. O bom disto é que deixamos de nos importar com.
    Não careço inspiração, Joaquim, sou torrente de palavras escritas - talvez porque as não digo. Também já deve ter entendido que escrevo sobre qualquer ninharia, até uma vírgula daria um post. No meu quotidiano parado mas sempre cheio de afazeres, a escrita é novidade e tempo de pausa (irrita-me imenso não ter tempo para escrever e gasto horas de trabalho prático aos encontrões às coisas e a resmungar com palavrões e tudo). Terei de morigerar ímpetos que só prejudicam, mas desopilam.
    E é só.

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  4. É pena é que parece que as pessoas só se lembram mesmo é no Natal... Para isso, às vezes, mais vale estar quieto :)

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

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    1. Mas há quem nunca se lembre de agradecer, Cláudia. Mesmo que seja apenas num dia, vale.

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  5. Gratidão é a palavra perfeita para abraçar toda a gente que esteve connosco de várias formas, com quem nos irmanámos mesmo que por momentos. Para ti também a minha gratidão!

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  6. Gratidão define a pessoa que realmente ama o seu viver!!! 💜🫂

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  7. Não sei o que define, mas sinto-me grata a tanta gente...

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