sábado, 13 de dezembro de 2025

Dia TREZE

 

        Estou aqui a pensar que, nos nossos vinte anos, me fizeste um colar de búzios pequenos que usei até perder. Nem sei quando levei a mão ao pescoço e não estava lá. Suponho que o fecho barato comprado na loja da praia que vendia de tudo, se terá desenroscado e caiu em parte incerta. Tenho mesmo uma foto em que apareces ao fundo, sentado na areia, paciente como só tu, a furar os búzios um a um. Estás tu e o teu tom de moreno sugestivo, mais os dentes brancos e tão regulares que os supunha óptimos para publicidade a dentífricos e os olhos cor de mel que uma das tuas filhas herdou. Gastaste horas e horas para furar aqueles búzios pequenos sem os danificar. E hoje queria tanto ter ainda o colar que me fizeste. Rodá-lo no pescoço pensando nos teus dedos a afeiçoá-lo. Mas há muito não o tenho. E hoje perdi-te. A ti. Perdi-te como?! Não sou capaz de te imaginar morto, entendes? Não consigo ainda. Vem-me à memória a tua carripana com a prancha no tejadilho e nós no barco dos automóveis para Tróia, contentes a mais não poder. Recordo o escaldão que apanhei quando me levaste enquanto velejavas. Trazias quase sempre uma namorada. Mas as tuas namoradas não colidiam comigo e nem eu com elas. Um dia enviaste-me uma receita para tirar a nódoa que pusera nas minhas botas preferidas. Quando recebi aquela folha quadriculada de caderno, que conservo não sei onde, já as botas tinham mais nódoas e deixara de me importar com elas. Mas a tua preocupação aqueceu-me, tu importares-te com essa coisa mínima, foi bonito demais.

        E fomos todos ao teu casamento. Estavas lindo e doente por via de uma despedida de solteiro exagerada. E logo vieram as crianças que lembro de chupeta. Guardo o colar de missangas cor de rosa que uma delas me fez. Não me escrevias, mas as tuas filhas fizeram-no; quer uma, quer outra. E enviam-me cartões de boas festas que põem os meus riscos coloridos a um canto.

        Na minha festa de aniversário estavas já muito doente. A tua filha mais nova festejava o aniversário nesse dia. Tu mudaste o almoço dela para o jantar e vieste almoçar. Aqui ao lado tenho o ramo de flores secas que me entregaste: “são lá do quintal”. E eu chorei por ver-vos aos dois tão alegres. Chorei por sentir em mim o teu esforço. Chorei por saber que não voltaríamos a reunir-nos. E pedi uma única foto: “os do campismo!”. E ali estamos todos. Imortais de fotografia.

        Agora não posso mais ligar-te. Limitar-te/me ao passado, isso é que é difícil.


8 comentários:

  1. Como a compreendo. Há amigos especiais que são insubstituíveis. Mas tenha esperança e coragem para estar com os antigos e ainda criar novos (nunca serão iguais porque lhes falta a tessitura do tempo, mas ainda assim é sempre bom). Bom Domingo Bea!

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    1. Meus amigos são aqueles que me conhecem há muito ano, os que por mim já se bateram e insistiram até me tirarem do buraco; e eu por eles também. São aqueles com quem converso sobre os nadas diários, que me recebem em sua casa e é como se seja a minha, não há diferença. São cuidadosos comigo como eu com eles, alegramo-nos e entristecemos juntos e mesmo não estando de acordo, respeitamos; e gostamos uns dos outros. Esses são os meus amigos. Todos insubstituíveis. Os outros são amigos da "percefície", como diz uma amiga da fundura.
      Claro que chega sempre outra gente, mas tenho grande receio de chamar-lhes amigos, fazem-me um quê de companhia; mal comparado são um pouco como as braseiras numa casa fria, aquecem pés enquanto as costa arrefecem. Sou avessa a sintonias precárias. E no entanto gosto de braseiras.

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  2. Nada digo, não sei. Há momentos que nunca se ultrapassam, eu acho. Abraço. Bettips

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    1. Não são de ultrapassar, Bettips. São de ficar connosco até à morte. É vinculação para a vida.

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  3. Eu gosto delas:). Nunca via aquele ser desfigurado, mas o tal rapaz do windsurf. Não via aquele homem que nem espreitava a praia, via uma carrinha sempre com a prancha no tejadilho e ele, "miga, sobe lá".

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  4. Texto forte. Mas gostei.

    Achei graça à parte do "doente" por causa da despedida de solteiro.

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

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