terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Dia NOVE

 

        Hoje despedi-me dos meus alunos seniores. Só voltaremos a encontrar-nos na segunda metade de Janeiro. A chuva, que começara pelas nove e trinta, às quinze fazia um pleno e as ruas eram lagos. Saí de casa pensando que teria apenas uns dois ou três resistentes. Engano. Faltaram uns cinco, talvez. Estou-lhes imensamente grata pela companhia. E sinto-me em dívida - na situação inversa eu faltaria à aula. Portanto, continuámos a comentar o livro de Claire Keegan, Acolher. Bem sei que é pequeno e, ainda assim, só metade das pessoas o leram. Mas conseguimos reunir-nos a comentar capítulo a capítulo, uma aluna a comandar as operações em cada um. Acho bonito que alinhem com as minhas propostas. Não lhes levei chocolates, como me lembrou um aluno; e nem repetimos o Menino Jesus de Pessoa. Apenas tentei que encontrem a imensa ternura que se desprende da história, a pedagogia simples de duas pessoas sofridas que não perderam o essencial: a capacidade de amar. E uma garota-esponja que absorve essa atenção e cuidado durante os meses do verão.

        Creio bem que nos apetecia a todos ter uns Kinsella (o sobrenome do casal) na nossa vida. Acolher é um bom termo para exercitarmos neste natal. Pois não acham?!

10 comentários:

  1. Só há muito pouco tempo soube que dava aulas na faculdade sénior e até acho que não foi por aqui - continua a surpreender-me! (Se morasse perto, inscrevia-me).
    Não há maior bem para um professor do que o reconhecimento dos alunos, e isso diz muito ou quase tudo das suas qualidades: empatia, conhecimento e comunicação. Acho que já tinha dito que considero a profissão muito nobre, contudo nunca a teria abraçado por não saber como lidar com a tradicional e cada vez maior indisciplina das turmas: austeridade e disciplina ou benevolência e tolerância - qualidades que possuo em abundância. Todas elas.

    Adoptar também é acolher, mas com maior responsabilidade, conferindo direitos e deveres iguais aos de um filho natural, para além da proteção, conforto e amparo típicas de quem acolhe. Não conhecia o livro, mas vi no Goodreads que é altamente recomendado (o que não querendo dizer tudo, quer dizer muito).
    E por tudo isto, fez-me lembrar novamente de Laborinho Lúcio, recentemente falecido, pessoa que não conheci pessoalmente, mas que me entrou por diversos motivos.
    Começando por aquilo que distingue os homens, dizem que foi um bom coração.
    Sempre ligado às questões da justiça, quem com ele lidou diz que era um humanista, um homem bom e inspirador.
    Na faculdade vinham alunos de outras turmas para ouvirem a aula dele; maior reconhecimento não pode haver.
    Começou a escrever já depois dos 70 anos, coisa rara e apresentou-se como um jovem escritor com grande futuro atrás (já li um livro dele e tenho outro na estante).
    Teve seis filhos: dois biológicos do primeiro casamento, duas filhas adotadas - irmãs cabo-verdianas que tinham 1 e 3 anos na altura da adopção - e dois enteados da atual esposa, que sempre considerou como seus.
    Mantinha uma relação próxima e afetuosa com todos eles, chamando carinhosamente as filhas adoptadas de "caramelo" e "chocolate".

    Considero a adopção um acto supremo de altruísmo, de que não sei se era capaz. Quem a efetiva tem de ter grande generosidade, capacidade material e preocupação com o bem-estar da criança acima de tudo. Acho que é uma grande prova de amor incondicional. E por não saber se era capaz, tiro aqui o meu chapéu a todos os pais adoptivos.
    Boa noite, Bea.

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    1. Joaquim, o lugar onde lemos e debatemos escritores, pintores, livros, e ideias às vezes filosóficas; onde uma vez por outra levo um filme, chama-se Academia Senior. Acho muita pretensão chamar faculdade a lugares que o não são. Cada macaco no seu galho.

      O livro em causa vem incorrectamente referido como processo de adopção que não é (e é mesmo mais bonito por isso). Basta lê-lo para verificar o erro. Termina completamente em aberto. Mas nunca nele há sequer referência ao termo adopção.
      Cheguei-lhe por intuição, ninguém mo recomendou. Ainda que, no Horas Extraordinárias, agora fechado por motivo de doença de Maria do Rosário Pedreira, tenha lido uma boa crítica à autora sobre um outro conto de nome "Pequenas coisas como estas" que comprei e ofereci, e de que não tive qualquer feedback. Já tenho alunas entusiasmadas a pedi-lo aos netos como prenda de Natal:). Sei que existe na FNAC um outro, de tradução mais recente e que também eu já pedi de prenda. É autora que não vou perder de vista:). Como todos os bons autores ela não diz, sugere; e a sugestão apela sempre a um possível onde a fundura de sentimentos se alia à simplicidade.
      Boa noite, Joaquim

      Um dos sonhos que me vai morrer sonho é não ter adoptado uma criança. A adopção é um processo em que, pelo menos os dois membros do casal têm de concordar(pode haver ainda a opinião de outros filhos, se existem). Sou incapaz de entender essa ideia de " eu não consigo gostar dele(a) como de um filho meu; vou fazer sempre distinção". É afirmação que não me entra. Mas, conhecendo as pessoas e o facto de sermos muito diferentes uns dos outros, sei que isto é verdade.
      Não entendo que a adopção seja esse supremo altruísmo que refere. Em mim seria coisa absolutamente normal, nem sequer digna de nota. Não me sinto especial, sou igual a toda a gente. Se eu pudesse dar a uma criança a vida digna que naturalmente não teria, das duas, quem se sentia melhor era eu.
      Gosto muito de Laborinho Lúcio e como nunca privei com o senhor, tanto me dá que seja vivo como morto, o nosso relacionamento fez-se por ouvi-lo e vê-lo em vários momentos de entrevista e gostar da forma como pensa. Depois do que o Joaquim escreveu, gosto-o um bocadinho mais :). Caramelo e chocolate!

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  2. O grande Abílio Queirós castigava-nos dizendo que ia embora da sala.
    Não expulsava os alunos, ameaçava sair ele.

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    1. Jamais correrei esse risco, eles podem levar a sério e não se importarem de ficar sozinhos. E depois desgosto-me sem necessidade. Algo me diz que, se não experimentar é melhor para todos.

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  3. Claro que sim Bea!... e continue a ser a professora presente e generosa! 👏👏👏😘

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    1. Bom, quando estou, estou inteira - como dizia Pessoa. Generosidade é outra coisa, não estou certa de que me pertença tal adjectivação. A Gracinha é que é generosa, acredita nas qualidades de uma pessoa que nunca viu. E olhe que nem S. Tomé o fez em relação a um Deus com quem privara tu cá tu lá.
      Um abraço

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  4. Talvez um bom livro para lermos também no nosso clube de leitura. Vou sugerir à Isabel. O último livro que lemos foi "E Choviam Pássaros" da Jocelyne Saucier. Cada uma de nós lê sozinha e depois discutimos em conjunto. Ainda não o discutimos porque tem havido um surto de gripe entre nós. Vamos fazer isso em Janeiro.
    o meu endereço : prosadosventos. bogspot.com


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  5. Obrigada prosa:)
    É um conto de uma irlandesa cuja escrita admiro. Serve aos meus alunos que se situam entre a antiga 4ª classe e a licenciatura. Não é fácil escolher obras que interessem a todos. Tem apenas sessenta e poucas páginas; não sei se o teu clube se perde em leitura tão curtas. Digamos que mais de metade dos alunos não tem a leitura por hábito:).

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  6. Estou a ver que temos aqui uma grande professora :)
    Assim, sim. Cativar é preciso.

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

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  7. Nunca fui nem serei uma grande professora. Mas gosto um imenso de ensinar. Faz-me bem a tudo.

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