domingo, 7 de dezembro de 2025

Dia SETE

 

        Quando cortaram a árvore que me acompanhava o sono, quase chorei. Fui tomada por uma orfandade nova, a falta dos seus ramos compridos que me parecia abraçarem a casa se a via da janela. Chamava-lhe o deus benévolo, guardião de bens e pessoas. E, num repente, ficou só o espaço. Sem ela, um espaço gigante. Pensei nas dezenas de pássaros que, num piscar de olhos, tinham ficado sem morada nocturna. Sabia-lhes o canto madrugador, aviso pré solar. Conhecia a hora azul do recolher, a algaraviada que faziam chamando uns pelos outros enquanto eu fechava os olhos às janelas e mansamente aconselhava, durmam, descansem o olhar. Descoroçoei na tardinha, mirando-os às voltas, em desconcerto. Haviam perdido a cama. Ou, quem sabe, se supunham dentro de um engano e rondavam de novo, olhos aflitos. Perguntei-me onde dormiriam essa noite. Achei que devia tê-los avisado, pareceu-me impróprio, um não se faz, abandoná-los a si mesmos.

        Na manhã seguinte, engastado em silêncio, o mundo parecia outro. Não houve a música de sempre. Perdi a esperança: os meus(?) pássaros tinham voado para outra árvore. Desejei que fosse tão acolhedora como o deus benévolo e estivessem cantando por outras paragens.

        Mas o homem põe e Deus dispõe. Ou, neste caso, os pássaros. Não sei como fazem, mas moram no azevinho gigante. Pois, não é a mesma coisa. Agora, vizinhos do estendal, dão música à roupa, é ali que cantam. Não sei por que arte se não picam em tanta folha quezilenta, mas estão lá. Por certo, a surpresa do azevinho não foi menor que a minha. E apesar da gata, horas sob a árvore, cabeça erguida e olhos fixos de polícia em espera paciente; apesar da felina já ter apanhado e comido alguns, os pássaros não abandonam o lugar. Parece-me meio triste, o azevinho. A passarada comeu-lhe quase todas as bagas e o pintalgado vermelho rareia. Só os ramos baixos, com os meus agradecimentos a D. Gata, surgem pontilhados, exibindo graças antigas e tão de si mesmo. A meia altura da folhagem, os troncos, parcialmente despidos, mostram a velhice indecorosa. A evasão de tanta folha foi decerto trabalho das aves. Agora, poisam calmamente e adormecem em sua cama. Como pertence. Em castelo blindado por agulhas.

    Não sei se bendiga os pássaros, se o azevinho que tudo lhes aguenta.

8 comentários:

  1. E ninguém se preocupou, à excepção da Bea, com os pássaros que perderam o seu "deus benévolo".
    O mesmo não se passou com as andorinhas que perderam os seus ninhos no beiral de um Palácio de Justiça que servia de tribunal.
    Tinha ouvido falar desse caso e depois de alguma pesquisa, deixo-lhe aqui em traços gerais o teor do acórdão do STJ.

    Tudo começou quando o Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens intentou contra o Estado Português uma providência cautelar em que pedia que este fosse condenado a retirar das paredes do Palácio da Justiça tudo o que impedisse a nidificação das andorinhas, alegando que uma colónia de andorinhas nidifica no Palácio da Justiça há já longos anos, tendo em 1999 sido destruídos todos os ninhos e estando o réu a usar meios que visam impedir que as andorinhas aí voltem a nidificar. As andorinhas proporcionam um eficaz serviço às populações humanas ao ingerir grande quantidade de pequenos insectos; Todos os anos a andorinha volta ao mesmo local de reprodução; Os casais de andorinhas efectuam reparações nos ninhos quando necessário. No entanto, se muito danificados, os ninhos são abandonados e outros são construídos ao lado; As andorinhas, ao regressarem, na impossibilidade de construírem os seus ninhos no mesmo local, procurarão locais apropriados em edifícios próximos ou noutras estruturas; A perturbação dos locais de nidificação leva à interrupção das actividades reprodutivas, não sendo certo que os casais dos ninhos destruídos consigam encontrar um novo local onde construir outros ninhos.

    O Ministério da Justiça contestou declarando que desde há 8 anos que não eram feitas obras de limpeza, conservação e restauro no Palácio da Justiça, o qual vinha apresentando sinais de deterioração e sujidade, nomeadamente nas janelas, com dejectos das andorinhas; em todos os meses da Primavera e Verão, ficaram depositados nos beirais do edifício dejectos de andorinhas e pó dos ninhos, os quais geravam piolhos, de tal forma que não era possível aos funcionários abrirem as janelas, para poderem ventilar o edifício nos dias de grande calor, sendo que também não existe ar condicionado; o pó referido é susceptível de causar e agravar doenças do foro alérgico; A existência de ninhos em edificações provoca muitas vezes sujidade nas paredes e nos passeios situação que, por um lado, atrai numerosos insectos e ácaros indesejáveis para a proximidade das habitações e, por outro lado, pode ser responsável pela degradação dos próprios edifícios.

    No ano 2000 o STJ condenou, em acórdão inédito, o Ministério da Justiça a retirar das paredes do Palácio da Justiça todo e qualquer instrumento (nomeadamente redes e espigões de arame) que impeça a nidificação nas paredes desse Palácio da Justiça das andorinhas tendo como fundamento o artigo 9º da Constituição da República Portuguesa que impõe como tarefas fundamentais do Estado a promoção, a efectivação dos direitos ambientais e a defesa da natureza e do ambiente.
    O artigo 66º do mesmo Diploma, por sua vez, consagra o direito ao ambiente como um direito constitucional fundamental.
    Direito esse que é um direito negativo, ou seja, um direito à abstenção por parte do Estado e de terceiros, de acções ambientalmente nocivas e um direito positivo no sentido de que o Estado deve defender o ambiente e controlar as actividades nocivas para o mesmo.
    Boa noite, Bea.

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    1. Merci pela notícia ambiental que aqui deixou. Entendo as preocupações de quem habita os lugares, mas é como diz, Joaquim, as andorinhas gostam de voltar ao ninho; mal comparado são como nós, gostam de sua casa:). E como são bonitas, as aves da primavera! Na minha terra, a parte superior do edifício dos correios está repleta de ninhos. Sujam um bocado, é verdade. Mas é tão agradável passar nas ruas limítrofes e vê-las a rasar-nos, o esplêndido recorte das asas aberto em perfeita meia lua. Gosto de pensar que são ainda as mesmas e nos conhecem, cumprimentam:). Não é verdade, apenas estão muito habituadas às pessoas.
      Boa tarde:)

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  2. É um crime cortar árvores. Não só pelo pássaros, mas porque fazem falta para tornarem o ambiente mais respirável. Quanto aos pássaros escolheram bem: o azevinho aguenta tudo, até ficar sem bagas. E posso imaginar a gata a olhar para cima a ver se algum cai para que ela o apanhe. Uma narrativa excelente, como é seu hábito. Tenho que vir ler as que ficaram para trás, se tiver tempo.
    Uma boa semana, minha Amiga Béa.
    Um beijo.

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    1. O azevinho é uma árvore sempre na defensiva:), todo ele pica e causa dor. Mas é a minha circunspecta e torta árvore de Natal. Vamos ver se é suficientemente valoroso e aguenta tanta ave - onde dormem não há sequer folhas.

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  3. Coisas que passam a fazer parte das nossas vidas.
    E que deixam um vazio quando desaparecem.
    Boa semana

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  4. Não gosto nada quando vejo a cortarem árvores. Mas algumas, pelo que percebi, tem de ser. Por causa do bicho...

    Azevinho... Não sei se já vi algum ao vivo. Não me recordo :)

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

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  5. Infelizmente o mundo vê acontecer isso vezes demasiadas 🫤... Bj

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