Quando cortaram a árvore que me acompanhava o sono, quase chorei. Fui tomada por uma orfandade nova, a falta dos seus ramos compridos que me parecia abraçarem a casa se a via da janela. Chamava-lhe o deus benévolo, guardião de bens e pessoas. E, num repente, ficou só o espaço. Sem ela, um espaço gigante. Pensei nas dezenas de pássaros que, num piscar de olhos, tinham ficado sem morada nocturna. Sabia-lhes o canto madrugador, aviso pré solar. Conhecia a hora azul do recolher, a algaraviada que faziam chamando uns pelos outros enquanto eu fechava os olhos às janelas e mansamente aconselhava, durmam, descansem o olhar. Descoroçoei na tardinha, mirando-os às voltas, em desconcerto. Haviam perdido a cama. Ou, quem sabe, se supunham dentro de um engano e rondavam de novo, olhos aflitos. Perguntei-me onde dormiriam essa noite. Achei que devia tê-los avisado, pareceu-me impróprio, um não se faz, abandoná-los a si mesmos.
Na manhã seguinte, engastado em silêncio, o mundo parecia outro. Não houve a música de sempre. Perdi a esperança: os meus(?) pássaros tinham voado para outra árvore. Desejei que fosse tão acolhedora como o deus benévolo e estivessem cantando por outras paragens.
Mas o homem põe e Deus dispõe. Ou, neste caso, os pássaros. Não sei como fazem, mas moram no azevinho gigante. Pois, não é a mesma coisa. Agora, vizinhos do estendal, dão música à roupa, é ali que cantam. Não sei por que arte se não picam em tanta folha quezilenta, mas estão lá. Por certo, a surpresa do azevinho não foi menor que a minha. E apesar da gata, horas sob a árvore, cabeça erguida e olhos fixos de polícia em espera paciente; apesar da felina já ter apanhado e comido alguns, os pássaros não abandonam o lugar. Parece-me meio triste, o azevinho. A passarada comeu-lhe quase todas as bagas e o pintalgado vermelho rareia. Só os ramos baixos, com os meus agradecimentos a D. Gata, surgem pontilhados, exibindo graças antigas e tão de si mesmo. A meia altura da folhagem, os troncos, parcialmente despidos, mostram a velhice indecorosa. A evasão de tanta folha foi decerto trabalho das aves. Agora, poisam calmamente e adormecem em sua cama. Como pertence. Em castelo blindado por agulhas.
Não sei se bendiga os pássaros, se o azevinho que tudo lhes aguenta.
E ninguém se preocupou, à excepção da Bea, com os pássaros que perderam o seu "deus benévolo".
ResponderEliminarO mesmo não se passou com as andorinhas que perderam os seus ninhos no beiral de um Palácio de Justiça que servia de tribunal.
Tinha ouvido falar desse caso e depois de alguma pesquisa, deixo-lhe aqui em traços gerais o teor do acórdão do STJ.
Tudo começou quando o Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens intentou contra o Estado Português uma providência cautelar em que pedia que este fosse condenado a retirar das paredes do Palácio da Justiça tudo o que impedisse a nidificação das andorinhas, alegando que uma colónia de andorinhas nidifica no Palácio da Justiça há já longos anos, tendo em 1999 sido destruídos todos os ninhos e estando o réu a usar meios que visam impedir que as andorinhas aí voltem a nidificar. As andorinhas proporcionam um eficaz serviço às populações humanas ao ingerir grande quantidade de pequenos insectos; Todos os anos a andorinha volta ao mesmo local de reprodução; Os casais de andorinhas efectuam reparações nos ninhos quando necessário. No entanto, se muito danificados, os ninhos são abandonados e outros são construídos ao lado; As andorinhas, ao regressarem, na impossibilidade de construírem os seus ninhos no mesmo local, procurarão locais apropriados em edifícios próximos ou noutras estruturas; A perturbação dos locais de nidificação leva à interrupção das actividades reprodutivas, não sendo certo que os casais dos ninhos destruídos consigam encontrar um novo local onde construir outros ninhos.
O Ministério da Justiça contestou declarando que desde há 8 anos que não eram feitas obras de limpeza, conservação e restauro no Palácio da Justiça, o qual vinha apresentando sinais de deterioração e sujidade, nomeadamente nas janelas, com dejectos das andorinhas; em todos os meses da Primavera e Verão, ficaram depositados nos beirais do edifício dejectos de andorinhas e pó dos ninhos, os quais geravam piolhos, de tal forma que não era possível aos funcionários abrirem as janelas, para poderem ventilar o edifício nos dias de grande calor, sendo que também não existe ar condicionado; o pó referido é susceptível de causar e agravar doenças do foro alérgico; A existência de ninhos em edificações provoca muitas vezes sujidade nas paredes e nos passeios situação que, por um lado, atrai numerosos insectos e ácaros indesejáveis para a proximidade das habitações e, por outro lado, pode ser responsável pela degradação dos próprios edifícios.
No ano 2000 o STJ condenou, em acórdão inédito, o Ministério da Justiça a retirar das paredes do Palácio da Justiça todo e qualquer instrumento (nomeadamente redes e espigões de arame) que impeça a nidificação nas paredes desse Palácio da Justiça das andorinhas tendo como fundamento o artigo 9º da Constituição da República Portuguesa que impõe como tarefas fundamentais do Estado a promoção, a efectivação dos direitos ambientais e a defesa da natureza e do ambiente.
O artigo 66º do mesmo Diploma, por sua vez, consagra o direito ao ambiente como um direito constitucional fundamental.
Direito esse que é um direito negativo, ou seja, um direito à abstenção por parte do Estado e de terceiros, de acções ambientalmente nocivas e um direito positivo no sentido de que o Estado deve defender o ambiente e controlar as actividades nocivas para o mesmo.
Boa noite, Bea.
Merci pela notícia ambiental que aqui deixou. Entendo as preocupações de quem habita os lugares, mas é como diz, Joaquim, as andorinhas gostam de voltar ao ninho; mal comparado são como nós, gostam de sua casa:). E como são bonitas, as aves da primavera! Na minha terra, a parte superior do edifício dos correios está repleta de ninhos. Sujam um bocado, é verdade. Mas é tão agradável passar nas ruas limítrofes e vê-las a rasar-nos, o esplêndido recorte das asas aberto em perfeita meia lua. Gosto de pensar que são ainda as mesmas e nos conhecem, cumprimentam:). Não é verdade, apenas estão muito habituadas às pessoas.
EliminarBoa tarde:)
É um crime cortar árvores. Não só pelo pássaros, mas porque fazem falta para tornarem o ambiente mais respirável. Quanto aos pássaros escolheram bem: o azevinho aguenta tudo, até ficar sem bagas. E posso imaginar a gata a olhar para cima a ver se algum cai para que ela o apanhe. Uma narrativa excelente, como é seu hábito. Tenho que vir ler as que ficaram para trás, se tiver tempo.
ResponderEliminarUma boa semana, minha Amiga Béa.
Um beijo.
O azevinho é uma árvore sempre na defensiva:), todo ele pica e causa dor. Mas é a minha circunspecta e torta árvore de Natal. Vamos ver se é suficientemente valoroso e aguenta tanta ave - onde dormem não há sequer folhas.
EliminarCoisas que passam a fazer parte das nossas vidas.
ResponderEliminarE que deixam um vazio quando desaparecem.
Boa semana
Mesmo, Pedro.
ResponderEliminarBoa tarde
Não gosto nada quando vejo a cortarem árvores. Mas algumas, pelo que percebi, tem de ser. Por causa do bicho...
ResponderEliminarAzevinho... Não sei se já vi algum ao vivo. Não me recordo :)
Cláudia - eutambemtenhoumblog
Infelizmente o mundo vê acontecer isso vezes demasiadas 🫤... Bj
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