quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Dia TRÊS

 

        Há filmes que tenho enorme prazer em repetir. Pelo realizador, pelo tema, pelos actores. De tantos que já vi, um dos que revejo com olhos primeiros é Cinema Paraíso. E é sempre o mesmo encanto. Move-me. E revejo-nos – aos portugueses como os conheci – naquela gente. Ganhou vários prémios, mas julgo que ao garoto ninguém deu um; talvez seja de lei não premiar gente de palmo e meio. Mas o miúdo merecia, é actor de excepção e excepcionalmente bem escolhido. E depois há a qualidade musical de Ennio Morricone a debruar as cenas, a injectar-lhes intensidade por sentimentos e emoções. Sobre esta fita poderia escrever umas páginas e ficaria incompleta a minha admiração pela obra de arte que Tornatore criou e permite leituras plurais.

        Este é um calendário de Natal. Mas Cinema Paraíso é um filme de natal - apela ao que temos de melhor, chama pela inocência do que fomos, pela amizade que impulsiona sonhos e salva vidas, pela vida que se vê desfilar paralela às fitas. Sem pregação ou moralismo expressos, serve a muita lição.

        Fernando Pessoa tinha um Menino Jesus fugido céu e que carregava no colo, “num ritual todo materno”. Eu tenho um filme, uma amável e amorável fantasia que, bem vistas as coisas, anda comigo por todo o lugar e foi a primeira prenda de Natal que me ofereci neste ano (obrigada, rtp play).

        Sou eterna e humildemente grata a todos os que participaram ou contribuíram para a qualidade intemporal de Cinema Paraíso.

        Benditos sejam.

6 comentários:

  1. Concordo totalmente consigo, o filme Cinema Paraíso é isso tudo que escreve e mais não acrescento para não estragar.

    Se não se importa, vou andar um bocadinho atrasado, vou voltar ao post de ontem, porque a matéria era muita e boa e não a esgotei num dia, nem se calhar em dois.

    Também me esqueço muito do que li, outras vezes não, dizem que a nossa memória é selectiva.
    Mas tenho memória suficiente para lembrar, num seu post em um qualquer ano lá atrás, nos ter dito que em todos os Natais a Bea recorda e pensa em momento de profunda interioridade, na sua mãe, enquanto os demais conversam alegremente e saboreiam as iguarias sobre a mesa.
    Não me esqueci, porque não se esquece o que nos comove.
    Vem isto a propósito de ontem ter dito:
    "Talvez ao Natal devamos acrescentar a celebração do que fomos, essas crianças desvalidas que alguém cuidou e amou como à própria vida. É bonito pensar assim e ter a certeza, saber que foi verdade. Merece celebração".
    Muito bem visto, concordo plenamente, contudo, faço a pergunta que uma vez lhe formulei: quem hoje se lembra de mim pequeno?

    Ainda de ontem um bom tópico: o que levaria eu para um lar? Depois dos estafados "os livros da minha vida" ou "que livros levaria para uma ilha deserta", aquele tópico está mais consentâneo.
    Ora aí está, o filme Cinema Paraíso era uma excelente escolha, assim a directora permitisse. Talvez em cassete ou DVD - ainda se usa isto? O que eu para ali tenho a ocupar espaço e a ganhar pó, é como os livros, mas sou incapaz de deitar fora. Fazer o quê? As bibliotecas estão cheias, às vezes deixo alguns nos ninhos da troca espalhados pela freguesia "Traga Um Livro Leve Outro". Conhece?
    Falou na sua Montblanc, deduzo que para a correspondência. Ainda há quem escreva cartas?
    Boa noite, Bea.

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    1. Minha mãe e meu avô, com quem muito ela se parecia de carácter e fisionomia, são as figuras mais fundas da minha vida. Foram, seguramente, as que mais me amaram, protegeram e deram atenção. Dezembro é esse mês de profundidade e silêncios por entre o ruído. Reconheço que minha mãe ressalta em maiúsculas e a bold. Que existimos juntas e vive através de mim o tanto que lhe faltou em vida. Sou duas. O Natal aproxima-nos mais e em cada um damos as mãos, meu pai já a seu lado. E sim, Joaquim, o amor que recebi é uma das poucas certezas da minha vida: nasci condenada a morte breve e só o seu amor me salvou; tudo que sou de bom tem a sua marca; a profissão que sonhei como se fora quimera, só por meio dela se concretizou, foi sonho mútuo, o último: na benção das pastas vestia luto carregado, metafórica e literalmente. Sinto grande mágoa por meus filhos não a terem conhecido e sei-me privilegiada pelo incomparável amor materno de que usufruí e que imito sem igualar.
      Quanto à sua questão: não julgo importante que alguém se lembre da minha infância. Ainda que me comova encontrar alguns mais velhos - não restam senão uns dois ou três - que mo recordem. De uma forma ou de outra, eu sou aquela, no mais fundo de mim ("mãe, eu sei que traí"), continuo sendo a mesma. A vida leva-nos a construir um eu público e couraçado, mas, se o permitirmos, as crianças que fomos e continuam lá no fundo, amenizam esse eu objectivo. Dezembro é o mês de aliviarmos a pressão a que as obrigamos tanta vez. Deixar que os sentimentos mais nobres aflorem é sempre abrir portas à infância. Não sei se concorda.

      Trago livros da biblioteca, são oferta. Têm demais e em duplicado, já não aceitam doações e os que faço meus vêm dessas pessoas que não sabiam o que fazer dos livros. Os meus filhos não vão querer os meus livros. Um porque tem mais ou menos os mesmos. O outro porque tem outros interesses. Talvez a nora queira um ou outro , é leitora voraz. Mas esse já não é problema meu. Desconheço o "Traga um livro leve outro".

      Tal como a bolsa dos óculos e que devia ser dos lápis, a minha Montblanc tem muita memória dentro. Uso-a em todos os natais. Quanto a correspondência...não sei se pode chamar-se correspondência ao que raro tem resposta. Responder com um telefonema a uma carta é correspondência?! corresponder é admitir uma troca de mensagens - julgo eu que do mesmo teor. Mas hoje não há tempo. Só eu e uma amiga dos tempos de estudante nos prendemos ainda ao manuscrito que segue por correio. E nem sei que justificação teremos. Mas perseveramos. Ela é, além de meu irmão, a única presença na minha mesa de cartões de Natal. E a história de cada um dos cartões que já ali estiveram e faltam, dava também um post. E poderia fazer outro com os cartões que ali desejaria e não estão nem estiveram. Coisas que não são para aqui chamadas:).
      Bom dia, Joaquim

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  2. Nunca vi... Mas por acaso ontem foi dia de maratona de filmes de Natal e nunca tinha visto o Die hard e vi. Foi interessante. No total, foram 4 filmes vistos. Nada mau :P

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

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