terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Dia TRINTA

 

        O tempo de sermos no mundo vai-se. Esgota. E a mesma fugacidade envolveu o Natal: chegou e passou, comboio rápido que não abranda ao vislumbre das estações, antes as deixa para trás com a pressa de quem vai apagar um fogo que lavra mais à frente. Não se conteve no aniversário de nascimento divino, um Menino que, diz a religião cristã, veio salvar o mundo que parece não ter salvação. Pois, digo eu, que venha. Só um deus pode pôr mão neste fricassé indigesto. Mas deixemos o futuro que eu estou para contar o passado.

        Por razões extra programa não foi um natal semelhante a outros. Mas juntou-os a todos. Os primos reuniram sem falhas. Vê-los crescidos, cada um em seu caminho, palrando animados e amigos, descansa o espírito. Há neles resquícios das crianças que foram: gestos inadvertidos e um fundo imutável no olhar afirmativo que lhes delata forças e fraquezas. Hoje, a juventude desaparecida, são homens feitos, pernas compridas sob a mesa, barba rija e voz forte, enchem e despejam copos com o à vontade que a adultícia lhes deu. E a minha princesinha abstémia continua princesa, sorriso fácil e bonito, flor silvestre adaptada à condição de ser única. Depois, o clã dos mais velhos. Foi noite em que tudo saiu bem: bolos, doces, cozinhados. Tão bem que, contrariamente a outros natais, a refeição que começou cedo terminou depois das vinte e três. A ninguém o tempo foi pesado. Não houve telemóveis nem TV e a barulheira desvairava. Minha mãe, pessoa tão calada, o que pensará da verborreia que nos invade todos os natais e festas?! Ela que não viu os filhos crescer (ou terá visto?), que dirá dos netos adultos e mais dos caminhos que trilham? Será decerto mais compreensiva que meu pai, carvalho rígido e incapaz de entender o percurso de alguns netos. Este ano, por cansaço meu ou alheamento geral, não vieram sentar-se connosco nem ficaram a mirar a lareira enquanto jantávamos. Mas, junto ao Jesus que tem o tamanho da ovelha, meu irmão e família sorriam-nos da foto de outros natais. Quem sabe meus pais os visitaram, os pais sabem onde são mais necessários.

        Guardo de cada natal o meu ramo de alento e que por vezes são conversas, lembranças que se fazem presentes. Este ano, talvez por estar longe, o filho mais novo, que agora aprecia Cristina Branco, comentou a olhar-me: cresci a ouvir os cds que tens dela e não lhes dava importância, mas agora, se a oiço, lembro-te na cozinha a trabalhar e ouvi-la e penso quanto mudamos o gosto com a idade. E disse isto a olhar-me com olhos ternos, ternos. Noutro dia, sorrindo, comentou: andei ali a folhear alguns livros teus e vi um em que fizeste uma dedicatória para ti mesma. O livro é do Houellebecq e tu escreveste, “em tempo de experimentações. Só para experimentar”; e dataste e assinaste. Não recordava o escrito, mas lembro-me de o ter comprado numa Feira do Livro na Alfaguara, mercê de uma vendedora muito jovem e persuasiva. Desconhecia que este filho folheasse livros meus. Agradou-me. Outro ramo foi trazido por minha irmã que chegou cedo para ajudar e ajudou mesmo. E me deu um presente que ela sabe do meu gosto, tanto como sabe que o não compraria.

        E agora? Agora vi-os partir um a um. Alguns para outro país, estes para outra cidade. É de hábito. Como as andorinhas, saem juntos ainda que as rotas sejam outras. A casa perdeu brilho, retomou o quase silêncio e as noites repetem-se nas intermitências do sono, pausas cheias de pomadas e unguentos que isto de ter mesa posta durante cinco dias tem preço.

        Cá estou de novo. Para fechar o calendário. E vos rever, se tal se pode dizer na escrita.


11 comentários:

  1. Gostei de a ler, como sempre Bea . E é assim mesmo, depois da ceia, do barulho das conversas e das risadas, sentimos a casa vazia; todos se vão, uns para longe e outros para perto e a rotina entra para tomar o lugar que é dela.
    Apesar de sabermos que o ano 2026 não terá mudanças substanciais, venho deixar um beijinho muito especial e com ele os votos de que a vida a abençoe com saúde e paz à sua volta já que a do mundo, com toda a certeza não chegará. Deixei de acreditar nela. Fica também aqui a minha sincera amizade. 0brigada pelos belos textos que connosco partilha
    Emília 🌻 🌻

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  2. Obrigada, Emília. Se a vontade da escrita não me faltar será bom sinal. Vamos ver. Não temos prenúncios de um bom ano a nível mundial. E eu tampouco a nível pessoal. Mas, como dizia um amigo, é tudo vida. E há que vivê-la enquanto existe. Da forma mais humana que conseguirmos.
    Que passe por cá e outros lugares como este muita vez. Enquanto pudermos escrever e ler, temos hipótese de evasão, descansamos.
    Bem haja pela amizade. Que o ano de 2026 corra a contento.

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  3. É verdade que sinto o caçula mais terno comigo. Pode ser por estar longe. E não sentimos apenas empatia, é mesmo amor. Mas o episódio dos livros aconteceu este natal:). É que nem sei em que estante está o Houellebecq.
    Na minha família os mais novos são mais de 50%. e sempre passamos da dúzia. Vejo-os a conversar mas não sei de que falam, tão pouco paro sentada. Mas também me parece que a conversa generaliza.
    Se nos advertirem com bons modos e certa ironia terna, o "já contaste isso" não pesa mais do que diz. E é decerto o que acontece consigo, não acredito que seja um chato (mas pode ser).
    Por acaso sinto-me mesmo velha, ou seja, com a minha idade. E não me lembro de não querer ter mais de 35, nunca senti a angústia de juventude acabada. Que a idade conta, sim. Mas, para mim, começou a pesar depois dos 62. E digo pesar no sentido em que se me tornaram difíceis e até impossíveis tarefas que antes eram fáceis. É a isto que chamo o peso dos anos.
    Bom ano 2026, Joaquim.

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  4. Eu gosto muito das pessoas de todas as idades e das diferenças entre elas, acho que ultrapassar fossos geracionais é importante mas, tal como a Bea, não quero mudar a idade ou andar para trás, nem tão pouco fazer-me jovem, quero vestir a minha pele tal qual ela é. Claro que há dias em que a idade pesa no corpo e no rosto, mas há que lidar com isso. Quanto ao dito escritor, que pena ter sido aí que o seu filho se deteve, não gosto dele nem como escritor, nem como pessoa, mas não é isso que é importante, reconheço, é um filho dar atenção à sua mãe, reconhecê-la.Bom ano Bea, que a sua saúde lhe permita, entre outras coisas, uma Primavera com banhos de mar. E muita força para apoiar o seu irmão. Um abraço amigo.

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    1. Não desgostei do escritor. Acho até que gostei desse primeiro livro porque comprei um segundo. Ignoro o seu ser pessoa, mas tal factor não belisca o facto de gostar da escrita de alguém:). Um escritor não vive comigo senão pela palavra e é por ela que me interessa. Como aliás acontece aqui, na blogosfera.
      Estou a apoiá-lo - meu mano - quanto posso; noto-o mais optimista, o que nos ajuda a todos. E não deixou de trabalhar, bom sinal a vários níveis.
      Sabe, esta coisa de não poder fazer os movimentos de braços próprios da natação retirou-me grande parte do prazer marítimo. A praia como que desbotou.
      Obrigada pela atenção, CC. Um abraço

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  5. Ensinar a voar para deixar sair do ninho.
    Não é essa a nossa principal função??
    Feliz Ano Novo

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    1. É sim, Pedro. E é também um prazer vê-los voar por si, aparentemente, sem medo.

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  6. Re-lendo, não por hábito mas por gosto. Abraço, assim explicado para um novo ano, e não "abç." Bettips

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  7. Por aqui...o Natal foi bem tranquilo junto dos meus três amores e a pequena família! É um encontro de almas que se vêem quase diariamente!!! Já a passagem do ano foi diferente! Quebrei a regra de muitos anos, sozinha de pijama e no aconchego dos lençóis! Estive com amigos, em casa alheia...recordando um passado distante! Contei as doze badaladas com a neta na esperança de que um dia ela se recorde de que, por ela, quebrei a tal regra de ouro nesta noite que para muitos é tão especial! Um ano com muitos e bons encontros! Bj

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  8. Que texto tão bom.

    Já houve anos em que se reunia assim a família. Os avós começam a partir e as pessoas afastam-se. E mostram-se também, mas isso são outros 500.
    Neste momento somos 9, por causa dos filhos. Podíamos ser mais, mas já é bom.

    Mas custa-me imaginar uma casa assim a ficar vazia, apesar de ir passando por isso, por um ou outro motivo.

    Bom ano!
    Cláudia - eutambemtenhoumblog

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