Por ti. Só por ti nos juntámos de novo, um magote de maduros a cair da árvore. Foi ali e era Dezembro, estávamos todos a mastigar a tua ausência tentando o sol doente numa esquina; e o que fora o teu corpo e depois de ti é nada, acondicionado no frio de uma caixa de madeira, fazendo a última viagem. Um corpo desabitado que o fogo consumiu. Contigo desapareceu a nossa imortalidade.
Levaram o teu ser mortal para a mesma igreja em que te vi casar, bonito e pálido de morrer; antes, assisti-te aos vómitos, limpei-te a testa suada, endireitei-te o nó da gravata que viraras para trás, verifiquei se nem um pingo te maculava o fato. No final da cerimónia de casamento, o rito prometido: Transportaste a tua mulher na mota do nosso melhor amigo que por tal viajara nela, as roupas do casório dentro da mochila. Emprestou-ta sorridente, era promessa antiga que ambos cumpriram. Foi assim que chegaram ao banquete, a noiva feliz e despenteada, o longo véu apertado entre os dois; tu, a parar a mota como quem acabou de ganhar a lotaria, chave na mão. E nós a rir com todos os dentes e a bater palmas. Lembras-te?
Não acredito que te tenhas ausentado. De todo. Conheço-te, andas por perto de quem te gosta e tu gostas. Mas ser humano é este não bastar do pensamento, esta exclamativa necessidade de ver, ouvir, sentir o outro. Quem sabe, talvez eu venha a sentir-te a meu lado.
Estas datas festivas, talvez porque ficam ligadas a picos de adrenalina, vêem partir muitas pessoas mais frágeis.
ResponderEliminarBoa semana
Não havia mais corpo onde o cancro pusesse o dente.
EliminarA vida a acontecer Bea!
ResponderEliminarBoa semana 😘
É mesmo, Gracinha
EliminarA vida e a morte nas mesmas memórias e para além da memória, apesar do lapso apunhalando o tempo.
ResponderEliminarAproveito para desejar para si e para toda a sua família um Natal cheio de amor e um ano de 2026 com muita saúde e conforto.
Um beijo.
Obrigada, Graça. O meu espírito natalício foi ao tapete com esta morte. Mas hei-de recompor-me, a vida tem muita força.
EliminarOlá Bea!
ResponderEliminarMisturas textos tristes e saudosos com a alegria do Natal, neste mês de dezembro em que diáriamente recordas e escreves. Mas qualquer deles revela muito da tua generosidade e compreensão do humano.
Uma boa semana para ti com novos escritos!
É apenas uma morte em mim, mistura trágica que a vida nos fez.
ResponderEliminarComo referi noutro texto, as perdas custam sempre... mas associadas a datas festivas, acho que custam mais ainda depois.
ResponderEliminarCláudia - eutambemtenhoumblog
É mesmo verdade, Cláudia.
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