terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Dia DOIS

 

        Pronto, desconfio que o Menino Jesus esteja um tanto enxofrado com o post de ontem. Não é que eu prefira 40 homens de meia, calção e pluma no chapéu, a um salvador do mundo. Nada disso. Mas tive de atender ao costado português que me habita.

        - Repara, meu Menino Jesus, que és muito mais velho. De verdade, és velhíssimo e os conjurados ainda vivem a infância da tua idade. O número dos teus natais comparado com o dos seus primeiros de Dezembro, fica a léguas. Por outro lado, “desculparás-me”, mas quem tem o mundo todo, não sabe de lutas pela nacionalidade, não sente este orgulho um bocadinho parolo em se dizer independente (ok, ok, já sei das muitas dependências que sofre Portugal por mor de portugueses fracos do miolo e umbiguistas até ao tutano; isto, para não te aturdir com adjectivação contundente). Desculpa, mas volto à minha: quem tem o mundo todo não precisa conquistar; a conquista é força de propulsão humana. Podes crer.

        - E olha, hoje fui com as minhas alunas ver a vila Natal em Óbidos. Não acredito que gostes do espectáculo. Se eu fora criança, não lhe achava graça, mas andava por lá uma carrada de turmas. Agora imagina sendo velha. É que, calcula tu, ainda há quem pense que velhos e crianças são a mesma coisa. Como é que, em 2025, ainda se pensa isto?! Faltam, na minha cidade, decisores esclarecidos. E cultos. Mas pronto, fazemos de conta que está tudo bem.

        - Um recado: tu não te atrevas a sair da manjedoura onde tens o burrito e mais a vaca, que o vento encana pelas ruas de Óbidos fora e regela-te, ficas roxinho de frio; olha que as gripes deste ano são de caixão à cova.

        - Óbidos é toda bolas, laços, prendas(com laços) e pinheiro verde(com bolas). Aborreci tanto vermelho e verde e mais os quilos de brilho falso. Bom, salva-se a ginja, única bebida que me lembro de gostar e tão depressa não provas, que aos bebés não se dão essas coisas.

        - Não sei bem porquê, mas esta visita afastou-me do Natal. Tu que dizes?

13 comentários:

  1. Ai, ai Bea e eu que pensava que a senhora era abstémia. Não é que uma ginginha faça mal, eu também gosto, mas do que é que eu não gosto? Só de vodka (na verdade da Rússia só gosto dos escritores, dos compositores e de São Petersburgo, embora nunca tenha lá ido).
    Continua com veia bem humorada, nem a conheço, mas será que a conheço?
    Não interessa, adiante.
    O menino Jesus é velho? Porque ouvimos falar dele há 2000 anos? O menino de sua mãe nunca envelhece. Velhos, velhos eram Matusalém e Abraão e quanto muito a mãe da minha vizinha do 1º direito que morreu há dois dias no lar com 106 anos e a coitada da filha que já tem 80 teve de vir da Alemanha de propósito fazer o funeral da mãe.
    Acho que o lar onde a senhora estava era bom, pelo menos já lá estava há mais de catorze anos, embora não se possa mudar de lar como quem muda de camisa, caso contrário perde-se o lugar e mesmo pagando bem (sempre para cima de 1400 euros, dependendo de quarto individual, duplo ou triplo - até parece que estamos a reservar um hotel para as férias) há muita procura e oferta diminuta.
    Estava desejoso de lhe falar de lares; tenho umas coisinhas para trocarmos umas opiniões mas fica para outro dia.
    A propósito de lar, já leu Em Nome da Terra de Vergílio Ferreira?
    Na sinopse diz assim: "...reformado, João, narrador autodiegético e personagem principal, decide viver os últimos anos de vida num Lar, doando todos os seus bens à sua filha Márcia. Para si, guardou apenas, a memória, um Cristo mutilado, um desenho de Dürer, uma reprodução de um fresco de Pompeia e um disco de Mozart - concerto para oboé".
    Um dos melhores que li dele. Sabe que ele (o João) teve umas tentações lá no lar não obstante o amor eterno à sua mulher Mónica? Imagine-se. Logo num sítio onde os personagens são tão pouco propícios à criação de grandes enredos amorosos, digo eu.
    Boa noite, Bea.

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    1. Não gosto de vinhos, sobretudo tintos. Agradam-me as sangrias, ginja e vinho branco com gás, bem fresco e que pouco saiba a vinho.
      Pois é, a Rússia também não me seduziu até hoje. Mas os escritores e compositores russos são do mundo e não apenas daquele território.
      Bom, o menino Jesus é velho na tradição celebrada. O menino de sua mãe de Pessoa não envelheceu, era jovem quando a morte o apanhou "jaz morto e apodrece...". Cristo também não chegou a ter rugas, não sofreu da próstata, não se levantou a manquejar, com os ossos feitos num oito. E também foi o menino de sua mãe. Como a maior parte de nós. Talvez ao Natal devamos acrescentar a celebração do que fomos, essas crianças desvalidas que alguém cuidou e amou como à própria vida. É bonito pensar assim e ter a certeza, saber que foi verdade. Merece celebração.
      Quanto a lares: estou em crer que daqui a uns tempos não muito longos a minha pensão de reforma não dá para pagar um. Não que goste de os habitar, mas estão-me escritos no futuro se acaso o tenha. Estou a ver uma série que deve ser da dois, só com velhos e que se chama "True love". Ontem deixei-a a meio. Hoje não tenho certeza se terei coragem para o resto.
      Quanto a amores serôdios, acho que podem acontecer, mas são mais excepção que regra. Julgo eu que o corpo se torna tão difícil que pouco nos sobra fora da preocupação de saber andar, sentar, comer, ir ao wc, etc. Mas também há uma necessidade muito humana de atenção e carinho e acredito que possamos chamar-lhe amor se acontece a atracção entre dois internos num lar. E o mesmo com as possíveis tentações.
      Já li tudo de Vergílio Ferreira excepto Conta Corrente que ando a ler muito devagar e com intervalos. Algumas obras foram-me emprestadas e agora penso comprá-las. Mas raro me recordo do que li:). Portanto, talvez seja hora de reler. O personagem João, pelo que selecciona para si, parece pessoa ilustrada. O que levaria eu?! Se calhar só Vergílio, Sophia e Eugénio. Talvez a minha Montblanc e a bolsa dos lápis onde sempre guardei os óculos que comprei aos 25 anos quando me descobri míope e que continuo a usar. Também o portátil se por acaso ainda souber e puder usá-lo.
      Acho que está na altura de reler Em nome da terra:)
      Bom dia, Joaquim

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  2. Apanhei uma grande bebedeira há muitos anos com muita ginja à mistura.
    A partir daí nem o cheiro suporto.

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    1. Também costumo dizer que, se um dia me embebedasse seria com ginja; mas penso sinceramente que não consigo tal feito, é boa, mas muito doce.
      Bom dia, Pedro

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  3. Anuncia a Bea que este Dezembro teremos um post por dia? Grande empreendimento, também já consegui, este dezembro seria impossível. Óbidos é Folio para mim, se bem que tenha faltado aos últimos 3 e já me canse de romarias, mesmo que sejam por livros. Mas ainda é o único sítio que transformou uma igreja numa livraria, creio que Jesus, que pregava ao ar livre, não se importaria.

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  4. E é uma boa livraria, CC. Foi o único lugar onde encontrei um livro que Inês Pedrosa recomendou num saudoso programa de há anos. Cristo aplaude terem feito a livraria em Sua casa, cede-a de boa vontade. Até porque ficaram igrejas de sobra. Como não morri de amores pelo resto, andei a visitar igrejas:).
    Em Dezembro escrevo quase sempre um post diário. É o meu calendário de Natal.
    Bom Dia!

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  5. Acho que a Vila Natal de Óbidos é caríssima para o que se vê... Fui lá o ano passado e é como a do chocolate, não me convenceu.

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

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    1. A minha carteira não sofreu rombos:). Não vi preços senão os da ginja, Cláudia.
      Boa noite para o trio

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  6. Dezembro começa com a comemoração da Restauração da Independência de Portugal. O Natal vem de séculos antes, mas tudo encarreira para um mês de festa e alegria.
    Assim as famílias se possam entender sempre ao longo do ano.
    Continuação de uma boa semana com muita saúde.
    Abraço de amizade.
    Juvenal Nunes

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    1. E oxalá que o "ao longo do ano" não estrague o natal de alguns, não é Juvenal?
      Precisamos todos de uma boa semana. E "com muita saúde", já é um bocadinho difícil. Só peço a saúde bastante para nos aguentarmos à tona:)).
      Um abraço

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  7. Nunca visitei Óbidos no Natal! Canso-me um pouco no meio da confusão natalícia! Cada vez mais desejo um Natal bem tranquilo! Bj Bea

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  8. Como a entendo, Gracinha! Mas Óbidos é um lugar bonitinho. Onde se bebe boa ginja e o almoço foi a preceito:).
    Um beijinho

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  9. Não sou nada de cidades natal...mas uma ginginha sabe sempre bem. Há poucos dias fui à de Belas, que acompanha muito bem um Fôfo...de Belas!

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