sábado, 9 de novembro de 2019

É tudo Vida


Estive num almoço surpresa. Foi uma refeição de aniversário e a surpresa era apenas para a aniversariante, os dez convivas em linha  com a proposta. Tudo terminado, afirmo que cumprimos o propósito: houve genuína e alegre surpresa na amiga que fazia anos, ficou bastante agradada; além disso, a sua magreza fez-me suspeitar que precisava deste abraço múltiplo, assim um calor redondo e sem fugas que lhe deu a ilusão de companhia. Um lado bonito no dia cinzento.
Tudo o mais pertence à espécie de coisas que me acontecem. Primeiro investiguei o restaurante e ficava à beirinha da Praia Grande, numa região que para o meu parco saber automóvel é no estrangeiro. Portanto, nem pensar em levar o carro. A mana, mais expedita por várias razões, assumiu a função. E lá fomos, GPS em punho. Chovia quanto bastava e nós a subir a serra, uma estreita fita de estrada, curva e contracurva, e a fila de carros sem vontade, rrrrr...rrrrr..... Ainda mal habituados ao abrandar da chuva, engole-nos uma nuvem de algodão em rama. Isolados do mundo. Quem é que sabe se D. Sebastião não começa por Sintra, quem é que garante que o cavalo branco não vem a trotar atrás de nós. A estrada ainda estreita. Piso molhado. Motores num desconforto de deixem-nos em paz, por que razão nos obrigam. A senhora do GPS - de certeza no conforto do sofá e em casa aquecida -  perorando avisos, a trezentos metros vire à esquerda, na rotunda vire à segunda saída. E mais coisas de igual teor. É que não se sentia nela um pingo de cuidado pelos viajantes em dia tão mau. Avisava como quem joga o jogo da glória. E nós peões. Mas pronto, cumpriu. Nada incomodada com a chuva que nos esperava à saída da névoa, levou-nos à Praia Grande. O parque automóvel cheio. Voltámos atrás e estacionámos. Abreviando: mesmo com sombrinha e impermeável, molhámo-nos. Perdi o vaporoso da sainha plissada  no peso de chuva e, em cada passo desejei que as botinhas de tecido se aguentassem ao balanço.
Depois desta odisseia soubemos no restaurante que estávamos quarenta minutos adiantadas. Aguardámos. E, à medida que os convivas iam chegando, ia-me estendendo para as ondas incansáveis. As amigas conheciam-se entre si, falavam umas com as outras, mostravam fotos de filhos e netos, recordavam viagens e professores, minha irmã abarbatada à lateral por historietas sem fim à vista. E eu sozinha com as ondas, mas que raio estou aqui a fazer. E depois, a calcar o desconsolo, os pratos eram para anorécticos, coisa que, com excepção da aniversariante, ninguém parecia. Valeu-nos que uma das amigas fez um bolo – bastante bom, diga-se – e portanto não sobrou nada. Cereja no topo: a refeição saiu mesmo bastante cara. Nada que não esperássemos.
Ah, e para voltarmos? Pois não sei, mas receámos ir parar ao Porto. Saímos ao anoitecer e cumprimos tudo, mas tudo, o que a senhora ordenou. E é verdade que chegámos a casa. Mas ainda não consegui entender por que razão não nos enviou para a ponte – uma das duas pontes chegava-nos. Nada. Não as vimos. Não passámos por nenhuma delas. Em noite escura e chuvosa, que maravilhosa sensação é estar perdido na auto estrada. Um mimo.
Pensava eu que a surpresa ia toda para a aniversariante.



25 comentários:

  1. À saída da reunião semanal de editores do grupo Leya, Maria do Rosário Pedreira estava visivelmente feliz. O director-geral passou por ela, e com uma palmadinha nas costas, felicitou-a:
    - Você é uma caça-talentos Maria do Rosário.
    - Olhe, sinceramente nunca pensei que através de simples comentários no meu blog, fosse descobrir uma pessoa com tanto engenho, tanta agudeza de espírito, e que escreve de forma verdadeiramente maravilhosa.
    - É verdade.
    - E depois tem mais, sabe... toca quem lê. Há ali uma centelha profunda de celebração da vida, tudo com uma delicadeza como segredos murmurados num tom mais baixo do que música.
    Alguns momentos depois entrou no seu gabinete e pelo intercomunicador disse à sua secretária:
    - Conseguimos! É para avançar. A proposta foi aceite por todos. Agora trata de a contactar com urgência para assinarmos o contrato.

    Nesse mesmo dia, nos escritórios da Porto Editora, Manuel Alberto Valente, seu diretor editorial, trocava o seguinte diálogo com um seu colaborador:
    - Acabei de ler os 241 posts do blog dela que me falaste. Há aqui material de primeiríssima qualidade.
    - São crónicas cheias de inteligência e beleza, sem dúvida. Até parece música.
    - Sim, mas cheias também de algo mais refinado, algo de dourado, como que vindo das entranhas da terra.
    - Eu sabia que ia gostar, chefe. Ela escreve tudo com uma suavidade que parecem sussurros de sedas em soalho encerado.
    - Agora trata de a contactar para assinarmos o contrato o mais rapidamente possível. Temos de nos antecipar à concorrência.
    - Ela é uma desconhecida. Só há uma forma de a contactamos que é através da sua janela de comentário. Quer entrar com o seu nickname, com o geral ou como anónimo?
    - Com o nosso ainda é prematuro, não nos podemos expor assim perante a concorrência. Neste meio tudo se sabe. Entra com o teu Joaquim, a concorrência não te conhece.

    À noite, no contexto do lar, ao jantar:
    - Passas-me a sopa Rosarinho?
    A mulher estendeu-lhe a terrina ainda fumegante.
    - Toma, hoje é da que tu gostas, de alho francês. Como correu o teu dia Manel?
    - Bem. Como sabes, na editora, sempre estivemos na vanguarda da educação, desde o tempo dos nossos famosos dicionários. Mas agora estamos empenhados na inovação e temos um catálogo muito diversificado e especialmente alargado à área da literatura. Enfim, queremos continuar a ser a número um do ranking das editoras portuguesas. Oh!, a sopa está óptima. E o teu trabalho como vai?
    - Vai muito bem, felizmente continuamos com o nosso registo de grande qualidade. Os nossos livros estão frequentemente nas listas dos mais vendidos e estão sempre a aparecer valores novos nos sitios mais inesperados... e improváveis.
    - Tens razão. Antigamente o escritor vinha ter connosco para o publicarmos; hoje em dia somos nós que o temos de descobrir.
    O jantar continou a decorrer em perfeita harmonia.

    Algures no Alentejo, pela manhã, uma mulher de roupão desce silenciosamente as escadas até à cozinha. Serve-se de uma chávena de café e vai até à sala. Sorve o café em pequenos goles, pousa a chávena. Esta é uma das suas experiências mais singulares, acordar para o que sente que vai ser um bom dia, preparar-se para trabalhar, mas ainda não entregue realmente ao trabalho. Passa a mão pelo portátil, mas num último momento decide não o ligar. Em vez disso, abre a porta de casa e sai para o jardim. O jardim revela-lhe os seus canteiros de lírios e peónias, os seus caminhos ensaibrados debruados de rosas cor de salmão, enquanto pensa que aqui, no Alentejo, as plantas precisam sempre de um pouco mais de água.
    Antes de pegar no regador, pousa os olhos na longínqua e serena planície enquanto inspira um pouco de ar fresco matinal. Naquele plácido momento, nada a fará suspeitar que nos próximos dias irá ser o centro de uma autêntica e inigualável "guerra dos tronos" no panorama literário português.
    PS: ficção, absolutamente (quase) tudo. Mas poderá acontecer...

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    1. Joaquim, desculpe «meter-me» entre si e a Bea mas tinha que aqui deixar um aplauso por tão boa «real» (quase) ficção.
      Venha o tal livro (ela merece), que eu compro!
      Beijo, bom domingo.

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    2. Joaquim, o senhor é um sonhador. Está muito bem como ficcionista. E, como todos os ficcionistas, extrapola a realidade. Muito obrigada pela história de Maria do Rosário Pedreira a servir sopa ao marido, ela que afirma convicta que não cozinha nem tem particular interesse por manjares. Pronto, mas está bem, tem de comer na mesma e nem tudo que se come é confeccionado por nós. E onde será esse Alentejo de lírios, peónias e caminhos ensaibrados. O Alentejo que conheço é pó seco que esfarela, invasivo ao menor sopro de vento. Nesta terra, fazer nascer e perdurar flores é heroísmo delas e do jardineiro. Que tudo morre e tolhe na greda que subjaz ao pó. A terra é de pobreza seca e abre gretas, fundas bocas de silêncio doído que são Florbela a procurar a sua gota de água.
      Mas, e apesar de lhe contrapor a realidade (dispenso-me de falar da imaginária pessoa que criou), acredite que gosto de o ler.
      Um Bom Domingo no realmente

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    3. Sabe Teresa, hoje em dia com os potentes motores de busca na internet, pode ser que por capricho alguma editora chegue aqui. E se isso acontecer, fico feliz pelo contributo. E se isso acontecer, muitos mais ficarão felizes, terão a oportunidade de conhecer uma escriba que faz da crítica social e da condição do homem o seu campo de acção, mas ao mesmo tempo com a suavidade e delicadeza da sua exposição.
      Terão oportunidade de ler as entranhas dos que não têm voz, dos desafortunados da vida, tudo contado num modo e num tempo com a marca única da sua música, como mavioso violino tocado por mãos virtuosas.
      Um bom domingo.

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    4. Bea, não é imaginária não, é de carne e osso.
      A única imaginária aqui, é a minha realidade floral do Alentejo :)
      Bom domingo.

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    5. Não sei que lhe diga. É que tenho certeza que a pessoa de que fala me é estranha. E portanto, mal tenha um tempinho, posso continuar a escrevinhar sem me preocupar a ser isso tudo que diz e não me serve.
      Já lhe disse que parece um pai a gabar o seu rebento? Hummm...acho que sim.

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    1. Mais que emoção, desorientação. E certo sentido de carta fora do baralho. Mas tudo, excepto a deriva na auto estrada, estava previsto. Há dias de assim.
      Será um domingo descansado. Obrigada, Gracinha

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  3. Olá, Bea!
    Bem, que odisseia! Espero que nem o "vaporoso da sainha plissada" nem as "botinhas de tecido" se tenham estragado...
    Amei ler! Um registo diferente, um desabafo em forma de texto, muito bem humorado. "Um mimo"! Realmente, Bea, "tudo é vida"!
    Beijo, domingo tranquilo!

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    1. Ficou tudo como antes, Teresa. O plissado secou e as botinhas estão no seu conforto de hábito, igualinhas.
      Sendo três à mesa já o domingo tem ar de festa:)

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    2. Bea, navegava eu nas entranhas do meu Rol quando te vi por lá no ano, já distante, de 2016. E já a tua escrita (comentários) era poderosa! E eu gostei de te saber (já) lá!
      Bjs.

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    3. :))- Gosto bastante desse blogue que fala de livros e outras coisas. E quando gosto, vou acompanhando sem muita onda. É sempre um prazer ir ao roldeleituras, Teresa.

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  4. Bea, já me apaixonei na praia grande:) Ou tive a real noção de que estava apaixonada, sem correspondência do dito cujo, engraçado é que hoje o vejo muitas vezes e penso como pude...
    Mas esses restaurantes são de evitar, normalmente caros e maus, ainda assim dão-nos essa maravilhosa janela para as ondas e desse modo fazem-nos esquecer quase tudo o resto. Quanto ao GPS, sou seguidora:)
    E as amigas valem sempre a travessia da tempestade.
    Bom Domingo
    ~CC~

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  5. É verdade que as suas paixões antigas são um incompreensível de hoje? Há um sentido de cada coisa que só existe enquanto ela é. O depois é história e a história só se entende à luz de si mesma.
    Como deve calcular não escolhi nada além da comparência no almoço. O mar invernoso não me motiva, é demasiado incansável e cinzento. Gosto de ondas preguiçosas e meninas, água azul, transparente. E o inóspito amarelo de areia a enrolar maquinal é outra coisa.
    Bom Domingo também para si, CC. As amigas valem milhentas travessias:)

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    1. Desculpem intromissão.
      É por esta e por outras que eu costumo dizer que não sei se gosto mais das crónicas da Bea se das suas respostas aos comentários!

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  6. Uma bonita estória!! Amei!

    Beijos e um bom Domingo!

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  7. Também já andei metido nessas aventuras.
    Sobretudo em visitas a Portugal depois de tantos anos a viver em Macau.
    Boa semana

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    1. Não sou aventureira, mas parece-me bem que as aventuras me procuram:).

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  8. O seu jeito de narrar encanta-me. Parecia que estava a ver um filme com tudo o que vos aconteceu. Que desconforto! Espero que, ao menos, a aniversariante tenha ficado contente…
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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    1. Creio que sim; apesar disso pareceu-me tristinha e emagrecida.

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  9. Apesar dos pesares, foi um domingo diferente, adoçado pelo abraço amigo.
    Valeu os inconvenientes.
    Boa semana, Bea.

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  10. Obrigada, Nina. Claro que valeu:)
    Boa semana também para si.

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  11. Gostei desta viagem para festejar com alguém que o apreciou. Gostei do conto dela. E gosto muito da Praia Grande, é especial, aquelas arribas e os dinossauros sem GPS a despenharem-se por ali abaixo... Eu sou um vaivém de coisassoltas. Algumas destas fotos têm mais de 20 anos! Passear e descrever mesmo é noutro lugar onde já vou nas quase 800 entradas virtuais. Este bettips é generalista, conforme me dá na veneta. Agradeço a companhia.

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  12. Ora, bettips, virtualmente, só fico onde gosto, não agradeça. É por gosto mesmo e a sua qualidade é a única responsável. Na nossa idade as coisas já só têm a memória do coração, cuja, como sabe, não tem idade:). O que são vinte anos? Além de serem aquilo que já não vamos conseguir viver, não são nada olhando para trás.Futuro e passado não pesam o mesmo temporalmente.
    Tem mesmo outro blogue? Tenho de ir investigar isso.
    E um bom sábado apesar do frio:)

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