Não
fui menina de livros de histórias. As minhas histórias chamavam-se contos e os
contos eram contados, havia sempre duas ou três crianças a ouvi-los e
apareciam-nos carregados de paciência, cheiros e voz. Havia neles paragens
súbitas do contador. Suspendiam-nos o coração e dávamos a mão uns aos
outros de olhos arregalados pelo arrastar de palavras nevoentas e terríveis,
lembrando cadeias em lajes de pedra que um qualquer monstro ou fantasma movia, aproximando-se cada vez mais. E nós ansiosos, sem
destrinçarmos se da heroína se de nós mesmos. Mas também havia vestidos cor de
luar e mantos de céu estrelado a vestir princesas de boquinha de morango e pele
alva, beleza tão acérrima que clareava os dias mais cinzentos. Os contos do
Touro azul, do Príncipe lagarto, da Gata borralheira, encantavam-me por
inteiro. Talvez na minha meninice Sophia ainda não tivesse inventado A menina
do Mar, O rapaz de bronze, ou mesmo A fada Oriana. Talvez os filhos ainda não
tivessem adoecido. Ou fosse ainda aquela rapariga toda poesia em corpo e alma.
Um
dia, tinha eu quase dezoito, o professor de psicologia leu-nos um excerto
do livro A Menina do Mar. Começou do início, “Era uma casa branca nas dunas...”.
Maravilhei. Pena que não lesse mais. Esperei dois anos e, no mês do primeiro
ordenado, comprei A Menina do Mar e terminei a leitura. Que fui lendo a todos
os meus alunos. Por episódios. Um ano atrás de outro. É facto comprovado, as
histórias unem mesmo as pessoas.
Ler
Sophia é como o amor, repete-se vezes sem conta e é sempre um começo e uma
alegria segura. A maravilha das palavras certas, exactas, e a magia que
desprendem. Por minutos, todos sonhávamos com o fundo do mar cheio de anémonas
e algas. Enternecíamos com a menina pequenina que tinha cabelos roxos e era a
bailarina do rei dos mares e por isso passeava na terra dentro de um pequeno
balde que o rapaz transportava. Quantas crianças Sophia fez sonhar, a quantas
desenvolveu a imaginação. E há-de continuar.
E
como eu tinha uns vinte e mais anos, mas era tão palerma como sou hoje, nem me
lembrei de pensar que, quem sabe, a poeta tinha escrito outras histórias. Portanto,
os meus alunos paravam na Menina do Mar. Não foi há muitos anos que comprei A
Fada Oriana e O rapaz de Bronze ou Um Conto de Natal.
Não
sei dizer como nem quando descobri que Sophia era poeta. Não me lembro onde li
um poema seu pela primeira vez. Mas há-de ter sido depois dos vinte. O que me
impede de a situar poeticamente é a noção de que sempre estivemos unidas, eu só
não o sabia; ela pensou os meus pensamentos e disse-os com as suas palavras
luminosas. Leio-a e estou lá. Sou eu ali. Mais que em qualquer foto. E não o
digo sentindo-me igual. Nada. Sou tão outra do que ela foi. E gosto de ser essa coisa outra que sou. Mas
se calho a ler um poema seu, lá está a minha alma tão bem ataviada de palavras.
Quando li a arte poética não a entendi apenas a ela. Entendi-me.
Depois...bem,
depois passei a copiar-lhe um verso ou outro no quadro. Os meus alunos adolesceram,
tinham dezasseis, dezassete anos. Entusiasmou alguns. Foram lê-la. E, quem
sabe, também se acharam nos seus versos.
E
é isto que Sophia vai continuar a fazer, encantar.