sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Carrossel


Outras vezes, queria saber dos medronhos. Dos dias de milagre soalheiro em que a professora com desplante, hoje vamos ao campo. No bairro da Venezuela tudo era campo. Mas a mestra tinha noção própria do espaço. Passear no campo consistia em atravessar a estrada junto à escola e internarmos no pinhal da frente. Que a ele interessavam apenas os medronhos. Eu descrevia o arbusto, a folha do medronheiro, as bagas verdes, as bagas maduras. E, por mais que repisasse que a professora nos proibia os frutos e só provara um às escondidas, ainda verde e bem amargo, divertia-o a ideia de que podíamos ficar bêbados comendo os medronhos madurinhos e a fermentar. Deleitava-se a imitar o andar ébrio e, jocoso, voz entaramelada,   fazia uma vénia, minha senhora, fui aos medronhos. Mas o que me acabrunhava era o pedido quase diário, olhos de prazer antecipado, conta lá a ribeira e os banhos. Não entendia a febre de liberdade a espicaçá-lo, a vidrá-lo no que me pertencera e deixava de ser apenas meu. E ele ignorava a tristeza de quem conta tesouros perdidos, a dificuldade em falar sobre a minha Antárctida afundada. A mágoa que um sofria era glória no outro e, mesmo sem o entendimento cabal de simbiose tão primária, já a minha tristeza se deixava trespassar pela ânsia dele e se insinuava uma espécie de dor prazeirosa em satisfazer-lhe o sonho. Que também ele vivia o prazer dúbio, mescla de júbilo e revolta. E assim nos fomos ligando, atados por palavras, unha com carne.
No Alentejo desencantado da nossa infância, qual massa de bolo em forno quente, as minhas histórias cresciam dentro de Esparguete.  Não demorou a propalar as novidades e a puxar-me para contá-las, conta lá aquela da tia Emília e dos casamentos, a da professora ao telefone, a da corrida de ouriços cacheiros. Emudecido pelo meu passado exposto em claridade, embatucava. Parecia-me invasão, marca de pés desconhecidos em terra exclusiva. Mas ele não desistia. Puxava-me ao barulho e, mão no meu ombro, acicatava a coragem, conta tu que tens mais jeito. E eu revivia as glórias de ser feliz sem saber que era, os ouvintes calados, a serem eu sendo eles, gozando o prazer funcional da imaginação. E a alcunha foi colando naturalmente, eu era o contador.


19 comentários:

  1. Ai os medronhos!
    Comi-os uma única vez, na Serra do Açor, mas não fiquei bêbada ;) comi poucos, estavam numa área protegida...
    E a flor dos medronheiros é tão bonita.

    Gostei da imagem da Antárctida afundada, também tenho uma (de vez em quando mergulho até lá...).

    E o nosso contador não tem nome?

    Dias bons, bea.

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    1. Nunca provei. No lugar onde vivi não havia medronheiros. Mas sempre ouvi que os medronhos muito maduros toldavam o juízo:).
      Pois é penso que não terá nome. Para já.
      BFS, Maria

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  2. Estórias de vida, quem as não tem?

    Um feriado feliz.
    (Dia de todos os Santos)

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    1. Toda a gente, Valério. Há quem as conte e quem não. E também quem as invente.

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  3. Neste dia, as minhas palavras vão para o blog Ematejoca Azul e para a sua excelente ideia.
    Sorry...!

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    1. Hummm....já por lá passei. E acho que vocês os dois estão abusando. Ai, ai, ai.

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  4. Medronhos... experimente um doce com eles e vai ver a delícia!
    ...
    Gosto muito da sua prosa enriquecida com bom português e expressões que fazem a diferença!!!
    Bom fim_de_semana 🌹

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    1. Obrigada Gracinha. Não encontro medronhos nem congelados, como é que posso fazer doce.
      Bom fim de semana para si também

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  5. Belo texto! As recordações fazem-nos bem. Sobretudo quando são boas. Adoro quando me deixam com um sorriso nos lábios! Amei!

    -
    Quisesse eu, expor meu corpo envergonhado
    Beijo. Bom fim de tarde!

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  6. Hummm... toldam o juízo? 🤔 Então está tudo explicado: foram os medronhos!!! 🤗


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  7. A Maria tem a certeza que não andou a comer medronhos fermentados, não é? :))
    Boa noite. Já me fez sorrir.

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  8. O contador! Que apropriado!
    São detalhes de uma vivência por si relatados com a vivacidade de quem assiste ao vivo e a cores. Gostei muito, Bea.

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    1. Então e não assisto ao vivo e a cores? Estou a inventá-los e não gostaria que ficassem a cinzento.
      Boa semana, Nina

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  9. E estamos no tempo de apanhar os medronhos...
    :)

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  10. Por aqui não os há:). Em casa só tenho aguardente de medronho. É de peso.

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    1. Por aqui também nunca os vi, o que não quer dizer que não os haja.
      Curiosamente, nunca provei a aguardente do dito cujo :)
      Boa semana, bea.
      🌲

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